Totalitarismo por Hannah Arendt – 3.1

Nesta nova jornada dos Novos Pensadores vamos examinar um escrito de Hannah Arendt (1951) sobre o totalitarismo. É a terceira parte do livro Hannah Arendt, Origens do totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. A seguir vai o capítulo 3, primeira parte.

ADVERTÊNCIA

Por que estamos estudando o totalitarismo

Há traços de totalitarismo em qualquer movimento autoritário. Mesmo quando movimentos totalitários não conseguem se organizar. Mesmo quando governos totalitários não conseguem se instalar. Estudar os totalitarismos nazista e stalinista é fundamental para identificar a presença desses traços nas alternativas antidemocráticas atuais.

Entramos aqui na exploração do reconhecimento de padrões. Há muitos isomorfismos, por exemplo, entre nazismo e stalinismo e trumpismo e bolsonarismo.

Mencionemos, a título de exemplos, alguns deles:

Matar a rede ou exterminar o capital social. Destruir todas as conexões sociais.

Abolir a esfera pública, atomizando-a e substituindo-a por miríades de esferas privadas opacas não interagentes horizontalmente entre si.

Reprimir não apenas as opiniões divergentes, mas fazer sumir o próprio conceito de opinião.

Erradicar a ação gratuita. Como dizia Himmler, ninguém deverá “fazer alguma coisa apenas por amor a essa coisa”.

Banir a política do mundo. Sim, Arendt (1951) tinha razão. “Um objetivo político que constitua a finalidade do movimento totalitário simplesmente não existe”.

Buscar que as pessoas não apenas ajam sob comando, mas pensem sob comando. Como dizia Hitler, o pensamento só existe “em virtude da formulação ou execução de uma ordem”.

Quebrar os seres humanos para substituir a humanidade por uma espécie de colmeia borg (que não tem quase nada a ver com um verdadeira colmeia de abelhas).

Só um movimento totalitário que consiga se materializar como governo totalitário – como o de Hitler ou o de Stalin – poderá obter, ainda que temporariamente, tais resultados. Mas isso não significa que movimentos e governos autoritários mais brandos não contenham alguns (ou muitos) desses traços.

Reconhecer esses padrões e perceber isomorfismos quando eles se manifestam em circunstâncias distintas é fundamental para a aprendizagem democrática. Afinal, a democracia – na medida em que é um processo de desconstituição de autocracia – só se aprende pelo avesso.

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TOTALITARISMO

Os homens normais não sabem que tudo é possível.

David Rousset

ÍNDICE

Prefácio

1. Uma sociedade sem classes

1.1 As massas

1.2 A aliança temporária entre a ralé e a elite

2. O movimento totalitário

2.1 A propaganda totalitária

2.2 A organização totalitária

3. O totalitarismo no poder

3.1 O chamado Estado totalitário

3.2 A polícia secreta

3.3 Domínio total

4. Ideologia e terror: uma nova forma de governo

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3. O TOTALITARISMO NO PODER

Quando um movimento, internacional em sua organização, universal em seu alcance ideológico e global em sua aspiração política, toma o poder num único país, coloca-se obviamente em situação contraditória. O movimento socialista escapou a essa crise, em primeiro lugar, porque a questão nacional — ou seja, o problema estratégico suscitado pela revolução — havia sido curiosamente negligenciado por Marx e Engels e, em segundo lugar, porque só teve de encarar o problema de governar depois que a Primeira Grande Guerra retirou da Segunda Internacional a autoridade sobre os membros nacionais, que em toda parte haviam aceito como fato inalterável a prioridade dos sentimentos nacionais em relação à solidariedade internacional. Em outras palavras, quando chegou o momento da tomada do poder em seus respectivos países, os movimentos socialistas já eram partidos nacionais.

Essa transformação nunca chegou a ocorrer nos movimentos totalitários nazista e bolchevista. No momento da tomada do poder, os perigos para o movimento eram a “mumificação” que poderia ocorrer se a posse da máquina estatal o levasse ao congelamento sob forma de governo absoluto (1), e a limitação de sua liberdade de movimento imposta pelas fronteiras do território em que havia galgado o poder. Para um movimento totalitário, ambos os perigos são igualmente mortais: a evolução na direção do absolutismo poria fim ao ímpeto interno do movimento, enquanto a evolução na direção do nacionalismo frustraria a expansão externa sem a qual o movimento não pode sobreviver. A forma de governo que os dois movimentos tomaram – ou melhor, que resultou quase que automaticamente da sua dupla pretensão de domínio total e governo mundial — é melhor definida pelo slogan de Trótski de “revolução permanente”, embora a teoria de Trótski fosse apenas a previsão socialista de uma série de revoluções, desde a revolução antifeudal da burguesia até a antiburguesa do proletariado, que se alastrariam de um país para outro (2). De “permanente”, a teoria tinha apenas o nome, com todas as suas implicações semianárquicas; mas até Lênin impressionou-se mais com o nome do que com o seu conteúdo teórico. Seja como for, as revoluções, sob forma de expurgos gerais, viraram instituições permanentes na União Soviética sob o regime de Stálin após 1934 (3). Neste caso como em outros, Stálin concentrou os seus ataques contra o semiesquecido slogan de Trótski exatamente porque havia decidido usar a sua técnica (4). Na Alemanha nazista, percebia-se claramente uma tendência semelhante na direção da revolução permanente, embora os nazistas não tivessem tido o tempo de realizá-la na mesma medida. De modo típico, a sua “revolução permanente” começou também com a liquidação da facção partidária que havia ousado proclamar abertamente “o próximo estágio da revolução” (5): “o Führer e a sua velha guarda sabiam que a verdadeira luta apenas havia começado” (6). No nazismo, em lugar do conceito bolchevista de revolução permanente, encontramos a noção de uma “seleção [racial] que não pode parar”, e que exige a constante radicalização dos critérios pelos quais é feita a seleção, isto é, o extermínio dos ineptos (7). O fato é que tanto Hitler como Stálin estenderam promessas de estabilidade para esconder a intenção de criar um estado de instabilidade permanente.

Não poderia ter havido melhor solução para a intrínseca ambivalência resultante da coexistência entre governo e movimento, entre a pretensão totalitária e o poder limitado num território limitado, entre a participação ostensiva na comunidade de nações, na qual cada uma respeita a soberania da outra, e a pretensão de domínio mundial, do que essa fórmula esvaziada do seu primitivo conteúdo. Porque o líder totalitário enfrenta duas tarefas que a princípio parecem absurdamente contraditórias: tem de estabelecer o mundo fictício do movimento como realidade operante da vida de cada dia, e tem, por outro lado, de evitar que esse novo mundo adquira nova estabilidade; pois a estabilização de suas leis e instituições certamente liquidaria o próprio movimento e, com ele, a esperança da futura conquista do mundo. O líder totalitário tem de evitar, a qualquer preço, que a normalização atinja um ponto em que poderia surgir um novo modo de vida — um modo de vida que, após certo tempo, poderia deixar de parecer tão falso e conquistar um lugar entre os modos de vida muito diferentes e profundamente contrastantes das outras nações da terra. No momento em que as instituições revolucionárias se tornassem modo nacional de vida — no momento em que a alegação de Hitler de que o nazismo não é produto de exportação, ou a de Stálin de que o socialismo só pode estabelecer-se num único país, fosse algo mais que uma tentativa de iludir o mundo não totalitário — o totalitarismo perderia a sua qualidade “total” e ficaria sujeito às leis das nações, segundo as quais cada uma possui um território, um povo e uma tradição histórica específicos que determinam a sua relação com as outras nações — uma pluralidade que refuta ipso facto qualquer alegação de que uma determinada forma de governo possa ser absolutamente válida.

Do ponto de vista prático, a posse de todos os instrumentos de força e de violência por parte do totalitarismo no poder cria uma situação difícil e paradoxal para o movimento totalitário. O possuir poder significa o confronto direto com a realidade, e o totalitarismo no poder procura constantemente evitar esse confronto, mantendo o seu desprezo pelos fatos e impondo a rígida observância das normas do mundo fictício que criou. Já não basta que a propaganda e a organização afirmem que o impossível é possível, que o incrível é verdadeiro e que uma coerente loucura governa o mundo; o principal esteio psicológico da ficção totalitária — o ativo ressentimento contra o status quo, que as massas recusaram aceitar como o único mundo possível — já não existe, e cada fragmento de informação concreta que se infiltra através da cortina de ferro, construída para deter a sempre perigosa torrente da realidade vinda do lado não totalitário, é uma ameaça maior para o domínio totalitário do que era a contrapropaganda para o movimento totalitário.

A luta pelo domínio total de toda a população da terra, a eliminação de toda realidade rival não totalitária, eis a tônica dos regimes totalitários; se não lutarem pelo domínio global como objetivo último, correm o sério risco de perder todo o poder que porventura tenham conquistado. Nem mesmo um homem sozinho pode ser dominado de forma absoluta e segura a não ser em condições de totalitarismo global. Portanto, a subida ao poder significa, antes de mais nada, o estabelecimento de uma sede oficial e oficialmente reconhecida para o movimento (ou sucursais, no caso de países satélites), e a aquisição de uma espécie de laboratório onde o teste possa ser feito com realismo (ou contra a realidade) — o teste de organizar um povo para objetivos finais que desprezam a individualidade e a nacionalidade. O totalitarismo no poder usa a administração do Estado para o seu objetivo a longo prazo de conquista mundial e para dirigir as subsidiárias do movimento; instala a polícia secreta na posição de executante e guardiã da experiência doméstica de transformar constantemente a ficção em realidade; e, finalmente, erige campos de concentração como laboratórios especiais para o teste do domínio total.

3.1. O CHAMADO ESTADO TOTALITÁRIO

A história ensina que a subida ao poder e à posição de responsabilidade afeta profundamente a natureza dos partidos revolucionários. A experiência e o bom senso tinham o direito de esperar que o totalitarismo no poder perdesse aos poucos o ímpeto revolucionário e o caráter utópico, que o afã diário de governar e a posse do verdadeiro poder moderassem as pretensões do movimento e destruíssem gradualmente o mundo fictício criado por suas organizações. Afinal, parece ser da natureza das coisas que as exigências e as metas extremas sejam refreadas pela objetividade; e a realidade como um todo dificilmente é determinada pela tendência à ficção de uma massa de indivíduos atomizados.

Entre os erros cometidos pelo mundo não totalitário em suas negociações diplomáticas com os governos totalitários (dos quais os principais foram a confiança no pacto de Munique com Hitler e nos acordos de Ialta com Stálin), muitos resultaram da aplicação da experiência e do bom senso a situações em que se haviam tornado obsoletos. Ao contrário de todas as expectativas, as importantes concessões que lhes foram feitas e o considerável prestígio internacional que alcançaram não levaram os países totalitários a reintegrarem-se na comunidade das nações, nem os induziram a desistir da falsa queixa de que o mundo inteiro havia se unido em bloco contra eles. Ao contrário: as vitórias diplomáticas faziam com que recorressem ainda mais rigidamente aos instrumentos de violência, e resultavam sempre em maior hostilidade contra as potências que haviam se mostrado dispostas a transigir.

Essas decepções de estadistas e diplomatas são comparáveis às anteriores desilusões de benévolos observadores e simpatizantes em relação aos novos governos totalitários. O que eles haviam esperado era o estabelecimento de novas instituições e a criação de um novo código de leis que, por mais revolucionário que fosse o seu conteúdo, levasse a uma estabilização de condições tendente a refrear o ímpeto dos movimentos totalitários, pelo menos nos países onde já haviam tomado o poder. Em lugar disso, o terror, tanto na Rússia soviética como na Alemanha nazista, aumentou na razão inversa da existência de oposição política interna, demonstrando que a oposição política, ao invés de fornecer o pretexto do terror, foi o último impedimento para que este alcançasse a fúria total (8).

Mais perturbador ainda era o modo pelo qual os regimes totalitários tratavam a questão constitucional. Nos primeiros anos de poder, os nazistas desencadearam uma avalanche de leis e decretos, mas nunca se deram ao trabalho de abolir oficialmente a Constituição de Weimar; chegaram até a deixar mais ou menos intactos os serviços públicos — fato que levou muitos observadores locais e estrangeiros a esperar que o partido mostrasse comedimento e que o novo regime caminhasse rapidamente para a normalização. Mas, após a promulgação das Leis de Nurembergue, verificou-se que os nazistas não tinham o menor respeito sequer pelas suas próprias leis. Em vez disso, continuou “a constante caminhada na direção de setores sempre novos”, de modo que, afinal, “o objetivo e a alçada da polícia secreta do Estado”, bem como de todas as outras instituições estatais ou partidárias criadas pelos nazistas, não podiam “de forma alguma definir-se pelas leis e normas que as regiam” (9). Na prática, esse estado de permanente ilegalidade era expresso pelo fato de que “muitas das normas em vigor já não [eram] do domínio público” (10). Teoricamente, correspondia ao postulado de Hitler, segundo o qual “Estado total não deve reconhecer qualquer diferença entre a lei e a ética” (11). porque, quando se presume que a lei em vigor é idêntica à ética comum que emana da consciência de todos, então não há mais necessidade de decretos públicos. A União Soviética, onde os serviços públicos pré-revolucionários haviam sido exterminados durante a revolução, e onde o regime pouco havia se incomodado com questões constitucionais durante o período de mudança revolucionária, chegou a dar-se ao trabalho de promulgar em 1936 uma constituição inteiramente nova e muito minuciosa (“um véu de frases e preceitos liberais encobrindo a guilhotina escondida no fundo” (12)), fato que foi aclamado na Rússia e no exterior como o fim do período revolucionário. No entanto, a publicação da Constituição coincidiu com o início do gigantesco superexpurgo que, em menos de dois anos, liquidou a administração existente e apagou todos os vestígios de vida normal e da recuperação econômica conseguida durante os quatro anos que se seguiram à liquidação dos kulaks e à coletivização forçada da população rural (13). Daí por diante, a Constituição stalinista de 1936 teve exatamente o mesmo papel que a Constituição de Weimar sob o regime nazista: completamente ignorada, nunca foi abolida; a única diferença é que Stálin pôde dar-se ao luxo de mais um absurdo — com a exceção de Vishinski, todos os autores da Constituição (que nunca foi repudiada) foram executados como traidores.

O que mais chama a atenção de quem observa o Estado totalitário não é, por certo, a sua estrutura monolítica. Pelo contrário, todos os estudantes sérios do assunto concordam pelo menos quanto à coexistência (ou conflito) de uma dupla autoridade, o partido e o Estado. Além disso, muitos já acentuaram que o governo totalitário é peculiarmente “amorfo” (14). Thomas Masaryk percebeu logo que “o chamado sistema bolchevista não passava de completa ausência de sistema” (15); e é perfeitamente verdadeiro que “até mesmo um perito enlouqueceria se tentasse destrinchar as relações entre o partido e o Estado” no Terceiro Reich (16). A relação entre as duas fontes da autoridade, entre o Estado e o Partido, é a relação entre uma autoridade aparente e outra real, de modo que muitos descrevem a máquina governamental do regime totalitário como fachada importante, a esconder e disfarçar o verdadeiro poder do partido (17).

Todos os níveis da máquina administrativa do Terceiro Reich eram submetidos a uma curiosa duplicação de órgãos. Com fantástica meticulosidade, os nazistas duplicaram no partido, através de algum órgão, todas as funções administrativas do Estado (18): até a divisão da Alemanha em Estados e províncias, introduzida pela constituição de Weimar, foi duplicada quando os nazistas dividiram o país em Gaue, de fronteiras diferentes das administrativas, de sorte que cada localidade pertencia, mesmo geograficamente, a duas unidades administrativas completamente diferentes (19). Essa duplicação foi mantida mesmo quando, a partir de 1933, os ministérios foram ocupados por importantes elementos nazistas; quando Frick, por exemplo, foi nomeado ministro do Interior, e Guerthner, ministro da Justiça. Uma vez engajados em carreiras oficiais fora do partido, esses antigos e fiéis nazistas perdiam o poder, tornando-se tão pouco influentes como qualquer outro servidor civil. Ambos estavam sob a autoridade real de Himmler, o prestigioso chefe de polícia, que normalmente seria subordinado ao ministro do Interior (20). Mais conhecido do resto do mundo foi o destino da antiga Secretaria de Relações Exteriores alemã na Wilhelmstrasse. Os nazistas deixaram o seu pessoal quase intacto e naturalmente nunca a aboliram; mas ao mesmo tempo mantinham ainda, da fase anterior ao poder, a Secretaria de Relações Exteriores do Partido, chefiada por Rosenberg (21); e, como essa agência se especializara em manter contatos com as organizações fascistas da Europa oriental e dos Bálcãs, criaram um novo órgão para competir com a secretaria da Wilhelmstrasse, a chamada Secretaria Ribbentrop, que tratava dos negócios exteriores no Ocidente e sobreviveu à nomeação do seu responsável para a embaixada na Inglaterra. Finalmente, além dessas instituições partidárias, a Secretaria de Relações Exteriores recebeu nova duplicação sob forma de um órgão da SS, responsável “por negociações com todos os grupos racialmente germânicos da Dinamarca, Noruega, Bélgica e Holanda” (22). Esses exemplos provam que, para os nazistas, a duplicação de órgãos era questão de princípio, e não apenas expediente destinado a criar empregos para os membros do partido.

A mesma divisão entre governo verdadeiro e governo ostensivo resultou de causas muito diferentes na Rússia soviética (23). O governo ostensivo surgiu inicialmente do Congresso Soviético Pan-Russo, que, durante a guerra civil, perdeu a influência e o poder para o partido bolchevista. Esse processo começou quando o Exército Vermelho se tornou autônomo e a polícia política secreta se restabeleceu como órgão do partido, e não do Congresso Soviético (24); e terminou em 1923, durante o primeiro ano do Secretariado Geral de Stálin (25). Daí por diante, os sovietes passaram a ser o governo fantasma em cujo meio, através de células formadas por membros do partido bolchevista, funcionavam os representantes do verdadeiro poder, nomeados pelo Comitê Central de Moscou e subordinados a ele. O ponto crucial deste último desfecho não foi a conquista dos sovietes pelo partido, mas o fato de que, “embora pudessem tê-lo feito sem dificuldades, os bolchevistas não aboliram os sovietes, mas usaram-nos como símbolo externo e decorativo da sua autoridade” (26).

Portanto, a coexistência do governo ostensivo com o real resultou em parte da própria revolução e precedeu a ditadura totalitária de Stálin. Contudo, enquanto os nazistas simplesmente conservaram a administração existente, destituindo-a de todos os poderes, Stálin foi forçado a reavivar o seu governo fantasma, que, no começo da década de 30, já havia perdido todas as funções e estava semiesquecido na Rússia, e introduziu a Constituição soviética como símbolo da existência e da impotência dos sovietes. Nenhum parágrafo dessa constituição jamais teve o menor significado prático na vida ou na jurisdição russa; mas o governo ostensivo russo, completamente desprovido do fascínio da tradição, tão necessária a uma fachada, aparentemente precisava da aura sagrada da lei escrita. O desafio do totalitarismo à lei e à legalidade (que “a despeito das maiores mudanças […] ainda [são] a expressão de uma ordem permanentemente desejada” (27)) encontrou na Constituição soviética escrita, como na Constituição de Weimar que nunca foi repudiada, um modo de lançar um repto permanente ao mundo e aos critérios não totalitários, cujo desamparo e impotência podiam ser demonstrados diariamente (28).

A duplicação de órgãos e a divisão da autoridade, a existência de um poder real ao lado de um poder aparente, são suficientes para criar confusão, mas não explicam o “amorfismo” de toda a estrutura. Não se deve esquecer que somente uma construção pode ter estrutura, e que um movimento — se tomarmos o termo tão sério e literal como o queriam os nazistas — pode ter apenas direção, e que qualquer forma de estrutura, legal ou governamental, só pode estorvar um movimento que se dirige com velocidade crescente numa certa direção. Mesmo na fase anterior ao poder, os movimentos totalitários já representavam aquelas massas que não queriam viver em qualquer tipo de estrutura, qualquer que fosse a sua natureza; massas que começavam a mover-se para transpor as barreiras legais e geográficas fortemente impostas pelo governo. Portanto, julgados segundo a nossa concepção de estrutura de governo e de Estado, esses movimentos, quando ainda fisicamente limitados a um território específico, devem necessariamente procurar destruir toda e qualquer estrutura; e não basta para essa deliberada destruição a mera duplicação de todos os órgãos na existência simultânea de instituições partidárias e estatais. Como a duplicação implica um relacionamento entre a fachada do Estado e o miolo do partido, poderia resultar dele também algum tipo de estrutura, na qual a relação entre o partido e o Estado levaria automaticamente a uma regulamentação legal que restringiria e estabilizaria as duas autoridades (29).

De fato, a duplicação de órgãos, que aparentemente resulta do problema suscitado pelo relacionamento entre o partido e o Estado em todas as ditaduras unipartidárias, é apenas o principal sintoma de um fenômeno mais complicado, melhor definido como multiplicação de órgãos, e não duplicação. Os nazistas não se contentaram em criar Gaue que se somassem às antigas províncias, mas introduziram ainda uma série de outras divisões geográficas segundo as diferentes organizações do Partido: as unidades territoriais da SA, que não coincidiam nem com as Gaue nem com as províncias e que, além disso, diferiam das da SS, sendo que nenhuma delas correspondia às zonas em que se dividia a Juventude Hitlerista (30). A essa confusão geográfica deve acrescentar-se o fato de que o relacionamento original entre o poder real e o poder ostensivo se repetia em cada nível, se bem que de modo sempre diferente. O habitante do Terceiro Reich de Hitler não apenas vivia sob a simultânea e frequentemente contraditória autoridade de poderes rivais, tais como a administração estatal, o partido, a SA e a SS, como também nunca sabia ao certo, e nunca se lhe dizia explicitamente, qual autoridade deveria considerar acima de todas as outras. Tinha de desenvolver uma espécie de sexto sentido para saber, a cada momento, a quem devia obedecer e a quem devia ignorar.

Por outro lado, os que tinham de executar as ordens que a liderança julgava genuinamente necessárias para o bem do movimento — e que, em contraste com as medidas governamentais, eram confiadas somente às formações de elite do partido — ficavam na mesma situação. Geralmente, essas ordens eram “intencionalmente vagas, emitidas na expectativa de que quem as recebesse perceberia a intenção de quem ordenava, e agisse de acordo” (31); pois as formações de elite não eram obrigadas a obedecer apenas às ordens do Führer, mas a “obedecer ao desejo da liderança” (32). E, como indicam os longos processos submetidos às cortes do partido, referentes a “excessos”, as duas coisas não eram em forma alguma idênticas. A única diferença era que as formações de elite, graças à doutrinação especial, haviam sido treinadas para compreender que certas “insinuações significavam mais do que meros conteúdos verbais” (33).

Tecnicamente falando, o movimento dentro do aparato de domínio totalitário deriva a sua mobilidade do fato de que a liderança está continuamente transferindo o verdadeiro centro do poder, muitas vezes para outras organizações, mas sem dissolver e nem mesmo denunciar publicamente os grupos cuja autoridade foi eliminada. Na fase inicial do regime nazista, imediatamente após o incêndio do Reichstag, a SA era a verdadeira autoridade e o partido era o poder ostensivo; depois, o poder foi transferido da SA para a SS e, finalmente, da SS para o Serviço de Segurança (34). O fato é que nenhum dos órgãos jamais foi privado do direito de pretender representar o desejo do Líder (35). A constante divisão, sempre alterada, entre a verdadeira autoridade secreta e a representação franca e ostensiva, fazia da verdadeira sede do poder um mistério por definição, a tal ponto que sequer os membros dos círculos governantes jamais podiam estar absolutamente seguros quanto a sua própria posição na secreta hierarquia do poder. Alfred Rosenberg, por exemplo, a despeito da longa carreira no partido e do impressionante acúmulo de poder e cargos ostensivos na hierarquia do nazismo, ainda falava em criar uma série de Estados na Europa oriental como proteção contra Moscou, numa época em que aqueles que detinham o verdadeiro poder já haviam decidido que nenhuma estrutura estatal deveria sobreviver à derrota da União Soviética, e que a população dos territórios ocupados no Leste já era definitivamente apátrida e, portanto, podia ser exterminada (36). Em outras palavras, uma vez que o conhecimento da fonte das ordens e a sedimentação comparativamente permanente da hierarquia poderiam introduzir um elemento de estabilidade alheio ao domínio totalitário, os nazistas constantemente repudiavam a verdadeira autoridade, sempre que esta se tornava pública, e criavam novas instâncias de governo, em relação às quais a anterior virava governo fantasma — um jogo que, é claro, podia continuar ad infinitum. Uma das mais importantes diferenças técnicas entre o sistema soviético e o sistema nazista é que Stálin, sempre que transferia a ênfase do poder dentro do movimento de um aparelho para outro, tendia a liquidar o aparelho juntamente com o seu pessoal, enquanto Hitler, apesar dos seus desdenhosos comentários sobre pessoas que “têm medo de pular sobre a própria sombra” (37), estava perfeitamente disposto a continuar a usar essas sombras, embora em outra função.

A multiplicação de órgãos era extremamente útil para a constante transferência do poder; além disso, quanto mais tempo um regime totalitário permanece no poder, maiores se tornam o número de órgãos e a possibilidade de empregos que dependem exclusivamente do movimento, uma vez que nenhum órgão é abolido quando a sua autoridade é liquidada. O regime nazista começou essa multiplicação com uma coordenação inicial de todas as associações, sociedades e instituições existentes, sem que essa coordenação implicasse incorporá-las às organizações partidárias. Como resultado, surgiram duas organizações de estudantes nacional-socialistas, duas organizações nazistas femininas, duas organizações nazistas de professores universitários advogados, médicos, e assim por diante (38). Mas nunca se sabia ao certo se a organização partidária era mais poderosa que a sua rival coordenada (39), nem se podia prever com segurança qual o órgão partidário a ser promovido nos escalões da hierarquia interna do partido (40).

Um exemplo clássico dessa informidade planejada ocorreu na organização do antissemitismo científico. Em 1933, foi fundado em Munique um instituto para o estudo da questão judaica (Institut zur Erforschung der Judenfrage). Partindo da premissa de que a questão judaica houvesse determinado a evolução de toda a história da Alemanha, esse órgão foi logo ampliado para tornar-se um instituto de pesquisa da história alemã moderna. Chefiado pelo conhecido historiador Walter Frank, transformou as universidades tradicionais em sedes do aparente saber pseudocientífico. Em 1940, outro instituto para o estudo da questão judaica foi criado em Frankfurt, sob a chefia de Alfred Rosenberg, cuja posição como membro do partido era muito superior. Consequentemente, o instituto de Munique foi relegado a uma existência fantasma; o instituto de Frankfurt, não o de Munique, é que deveria receber os tesouros das coleções judaicas roubadas na Europa e transformar-se em biblioteca central sobre o judaísmo. No entanto, quando, alguns anos mais tarde, essas coleções chegaram à Alemanha, o que havia de mais precioso não foi para Frankfurt, mas para Berlim, para as mãos do departamento especial da Gestapo encarregado da liquidação (e não apenas do estudo) da questão judaica, cujo chefe era Eichmann. Nenhuma das instituições anteriores foi abolida, de sorte que em 1944 a situação era esta: atrás da fachada dos departamentos de história das universidades, erguia-se o poder “mais legítimo” do instituto de Munique, por trás do qual estava o instituto de Frankfurt de Rosenberg e, somente por trás dessas três fachadas, escondido e protegido por elas, estava o verdadeiro centro da autoridade, o Reichssicherheitshauptamt, uma divisão especial da Gestapo.

A despeito da sua constituição escrita, a fachada do governo soviético é ainda mais inconsistente. Destina-se ainda mais a impressionar os estrangeiros do que a administração estatal que os nazistas herdaram da República de Weimar e conservaram em funcionamento. Não tendo, como os nazistas, processado a duplicação de cargos na fase de coordenação, o regime soviético confia ainda mais na criação de novos órgãos para relegar à sombra os antigos centros do poder. O gigantesco aumento do aparelho burocrático que esse método acarreta é controlado pela repetida liquidação através de expurgos. Não obstante, podemos distinguir, também na Rússia, pelo menos três organizações absolutamente distintas: o aparelho soviético ou estatal, o aparelho do partido e o aparelho da NKVD, cada qual dispondo de seus próprios departamentos independentes de economia e de política, um ministério de educação e cultura, um departamento militar etc. (41).

Na Rússia, o poder ostensivo da burocracia do partido, em contraposição com o verdadeiro poder da polícia secreta, corresponde à duplicação original de partido e Estado que ocorreu na Alemanha nazista, e a multiplicação só é evidente na própria polícia secreta, que possui uma rede extremamente complicada e vastamente ramificada de agentes, na qual um departamento está sempre ocupado em supervisionar e espionar o outro. Cada empreendimento na União Soviética tem o seu departamento especial de polícia secreta, que espiona tanto os membros do partido como o pessoal comum. Coexiste com esse departamento outra divisão de polícia do próprio partido, que por sua vez vigia todo mundo, inclusive os agentes da NKVD, e cujos membros são desconhecidos pela entidade rival. A essas duas organizações de espionagem, devem acrescentar-se os sindicatos das fábricas, cuja função é fazer com que os trabalhadores cumpram as metas que lhes foram atribuídas. Muito mais importante que esses aparelhos, porém, é o “departamento especial” da NKVD, que representa “uma NKVD dentro da NKVD”, ou seja, uma polícia secreta dentro da polícia secreta (42). Todos os relatórios dessas agências policiais rivais vão terminar no Comitê Central de Moscou e no Politburo. É aí que se decide qual dos relatórios será levado em conta, e qual das divisões terá o direito de tomar as respectivas medidas policiais. Nem o habitante comum do país nem qualquer dos departamentos de polícia sabem, naturalmente, que decisão será tomada. Entre todos esses departamentos, não há nenhuma hierarquia de poder ou de autoridade com base na lei; a única certeza é que um dia um deles será escolhido para encarnar “o desejo da liderança”.

A única regra segura num Estado totalitário é que, quanto mais visível é uma agência governamental, menos poder detém; e, quanto menos se sabe da existência de uma instituição, mais poderosa ela é. De acordo com essa regra, os sovietes, reconhecidos por uma constituição escrita como a mais alta autoridade do Estado, têm menos poder que o partido bolchevista; o partido bolchevista, que recruta abertamente os seus membros e é reconhecido como classe governante, tem menos poder que a polícia secreta. O verdadeiro poder começa onde o segredo começa. Nesse particular, os Estados nazista e bolchevista foram muito parecidos; a diferença era principalmente o monopólio e a centralização dos serviços de polícia secreta nas mãos de Himmler, no primeiro caso, e o labirinto de atividades policiais russas, aparentemente sem qualquer relação ou ligação umas com as outras, no segundo caso.

Se considerarmos o Estado totalitário unicamente como instrumento de poder, e deixarmos de lado as questões de eficiência administrativa, capacidade industrial e produtividade econômica, então o seu “amorfismo” passa a ser instrumento ideal para a realização do chamado princípio de liderança. A contínua rivalidade entre os órgãos, cujas funções não apenas se sobrepõem, mas que são encarregados das mesmas tarefas (43), quase não permite que a oposição ou a sabotagem venham a ser eficazes; a rápida mudança de ênfase, que relega um órgão ao esquecimento para promover outro ao nível da autoridade, pode resolver todos os problemas sem que ninguém perceba a mudança ou mesmo o fato de ter existido oposição; a vantagem adicional é que o órgão opositor provavelmente nunca virá a descobrir que foi derrotado, uma vez que nunca é abolido (como no caso do regime nazista) ou é liquidado muito mais tarde, sem qualquer relação aparente com a questão específica. Isso pode ser levado a cabo com extrema facilidade, pois ninguém, exceto poucos iniciados, conhece a relação exata entre as autoridades. Só de vez em quando o mundo não totalitário tem um vislumbre dessa situação, como no caso de um alto funcionário no exterior confessar que um obscuro empregado da embaixada era o seu superior imediato. Em retrospecto, é possível muitas vezes determinar por que ocorreu tão súbita perda de autoridade ou, antes, determinar se ela realmente ocorreu. Por exemplo, não é difícil compreender hoje o motivo pelo qual, ao eclodir a guerra, homens como Alfred Rosenberg ou Hans Frank foram removidos dos seus cargos partidários e, dessa forma, eliminados do verdadeiro centro do poder, ou seja, do círculo interno do Führer (44). O que importa é que eles não somente ignoravam as razões dessas manobras, como provavelmente nem suspeitavam que os novos cargos, aparentemente tão altos, como os de governador-geral da Polônia ou Reichsminister para todos os territórios do Leste, significavam não o clímax, mas o fim de suas carreiras nacional-socialistas.

O princípio do Líder não estabelece nenhuma hierarquia no Estado totalitário, como não o faz no movimento totalitário; a autoridade não se filtra de cima para baixo através de todas as camadas intermediárias até a base da estrutura política, como no caso dos regimes autoritários. A razão concreta é que não há hierarquia sem autoridade: e, a despeito dos muitos erros de interpretação cometidos em relação à “personalidade autoritária”, o princípio da autoridade é, para todos os efeitos, diametralmente oposto ao princípio do domínio totalitário. O seu caráter primígeno já aparece na história romana: ali a autoridade, sob qualquer forma, visa restringir ou limitar a liberdade, mas nunca aboli-la. O domínio totalitário, porém, visa à abolição da liberdade e até mesmo à eliminação de toda espontaneidade humana e não a simples restrição, por mais tirânica que seja, da liberdade. Essa ausência da autoridade hierárquica no sistema totalitário é demonstrada pelo fato de que, entre o supremo poder (o Führer) e os governos, não existem níveis intermediários definidos, cada um com o seu devido quinhão de autoridade e de obediência. O desejo do Führer pode encarnar-se em qualquer parte e a qualquer momento, sem que o próprio Führer esteja ligado a qualquer hierarquia, nem mesmo àquela que ele mesmo possa ter criado. Portanto, não é exato dizer que o movimento, após a tomada do poder, cria uma multidão de principados onde cada pequeno líder é livre para fazer o que quiser e imitar o grande líder lá de cima (45). A afirmação nazista de que “o partido é uma concatenação dos líderes” (46) não passava de balela. Do mesmo modo como a multiplicação infinita de órgãos e a confusão da autoridade leva ao estado de coisas no qual cada cidadão se sente diretamente confrontado com o desejo do Líder, que escolhe arbitrariamente o órgão executante das suas decisões, também o milhão e meio de “führers” disseminados por todo o Terceiro Reich (47) sabia muito bem que a sua autoridade emanava diretamente de Hitler, sem os níveis intermediários de uma hierarquia operante (48). A dependência direta era real e a hierarquia intermediária apenas imitava de maneira ostensiva, mas espúria, um Estado autoritário.

O absoluto monopólio do poder e da autoridade por parte do Líder é mais evidente no seu relacionamento com o chefe de polícia que, num país totalitário, ocupa o cargo público mais poderoso. Contudo, a despeito do enorme poderio material e organizacional colocado à sua disposição como dirigente de um verdadeiro exército policial e de formações de elite, o chefe de polícia aparentemente nunca está em posição de tomar o poder e tornar-se o governante do país. Assim, antes da queda de Hitler, Himmler nunca sonhou com a liderança (49) e nunca foi proposto por ninguém como seu eventual sucessor. Nesse particular, ainda mais interessante foi a malfadada tentativa de Béria de tomar o poder após a morte de Stálin. Embora Stálin nunca houvesse permitido que qualquer um dos seus chefes de polícia gozasse de posição semelhante à que Himmler desfrutava durante os últimos anos de governo nazista, Béria também dispunha de tropas suficientes para desafiar o domínio do partido depois da morte de Stálin. Ninguém, exceto o Exército Vermelho, poderia ter frustrado a sua pretensão de poder, o que poderia ter levado a uma sangrenta guerra civil, cujo desfecho seria completamente incerto. O fato é que Béria abandonou voluntariamente todos os seus cargos poucos dias depois da morte de Stálin, embora devesse saber que pagaria com a vida — como pagou — a ousadia de antepor por alguns dias o poder da polícia ao poder do partido (50).

Essa falta de poder absoluto não impede ao chefe de polícia organizar a máquina sob seu comando segundo os princípios do poder autoritário. Assim, é sintomático ver como Himmler, depois de nomeado, passou a reorganizar a polícia alemã, introduzindo a multiplicação de órgãos na estrutura do serviço secreto, até então centralizada; aparentemente, fez aquilo que os mestres do jogo do poder anteriores aos regimes totalitários teriam chamado de descentralização tendente à diminuição do poder. Himmler acrescentou à Gestapo primeiro o Serviço de Segurança, originalmente uma divisão da SS criada como corpo policial interpartidário. Embora as sedes da Gestapo e do Serviço de Segurança viessem a ser centralizadas em Berlim, as suas ramificações regionais conservaram identidades separadas e cada uma reportava-se diretamente ao gabinete do próprio Himmler em Berlim (51). No decorrer da guerra, Himmler acrescentou mais dois serviços de espionagem: um consistia nos chamados inspetores sob a jurisdição da SS, que deviam controlar e coordenar com a polícia o Serviço de Segurança; o outro era uma agência de espionagem especificamente militar, que agia independentemente das forças militares do Reich e veio a absorver a própria espionagem militar do Exército (52).

A completa ausência de revoluções palacianas, bem-sucedidas ou não, é uma das mais peculiares características das ditaduras totalitárias. Com uma exceção apenas, nenhum nazista participou da conspiração militar contra Hitler em julho de 1944. Superficialmente, o princípio do Líder parece um convite a mudanças sangrentas de poder pessoal sem alteração do regime. Esse é apenas um dos numerosos indícios de que a forma totalitária de governo muito pouco tem a ver com o desejo de poder ou mesmo com o desejo de uma máquina geradora de poder, com o jogo do “poder pelo amor ao poder” que caracterizou os últimos estágios do domínio imperialista. É, contudo, uma das indicações mais importantes de que o governo totalitário, não obstante todas as aparências, não é o governo de uma clique ou de uma gangue (53). As ditaduras de Hitler e de Stálin mostram claramente o fato de que o isolamento de indivíduos atomizados não apenas constitui a base para o domínio totalitário, mas é levado a efeito de modo a atingir o próprio topo da estrutura. Stálin fuzilou quase todos os que podiam dizer que pertenciam à clique governante, e trocou e retrocou os membros do Politburo sempre que uma clique estava a ponto de consolidar-se. Hitler destruiu esses círculos na Alemanha nazista com métodos menos drásticos — o único expurgo sangrento foi dirigido contra o círculo de Röhm, que era firmemente unido pela homossexualidade dos seus principais membros: evitou a formação de cliques através de constantes transferências de poder e de autoridade, além de frequentes mudanças dos elementos íntimos que privavam do seu círculo imediato, de modo que toda a antiga solidariedade entre os que haviam chegado com ele ao poder desapareceu rapidamente. Além disso, parece óbvio que a monstruosa deslealdade, descrita em termos quase idênticos como o principal traço do caráter de Hitler e de Stálin, não lhes permitiria chefiar um grupo tão duradouro e coeso como uma clique. Seja como for, o fato é que não existe qualquer inter-relação entre os que exercem as funções de comando. Nem a igualdade de status, nem o relacionamento entre chefes e subordinados, nem mesmo a duvidosa lealdade dos gângsteres conseguem integrá-los numa hierarquia política. Na União Soviética, todos sabem que tanto um gerente geral de uma grande empresa estatal quanto o ministro das Relações Exteriores podem ser rebaixados a qualquer dia para a mais humilde condição social e política, e um completo desconhecido pode tomar-lhes o lugar. Por outro lado, a cumplicidade dos gângsteres que de fato foi importante nos estágios iniciais da ditadura nazista perde toda a força de coesão, pois o totalitarismo usa o poder exatamente para disseminar essa cumplicidade entre toda a população, até que o povo sob o seu domínio esteja totalmente unido por uma só culpa (54).

A falta de um grupo governante torna a sucessão do ditador totalitário especialmente desconcertante e incômoda. É verdade que todos os usurpadores tiveram esse problema, e é bem típico dos ditadores totalitários que nenhum jamais tenha experimentado o antigo método de fundar uma dinastia e transmitir o poder aos filhos. Ao lado do método de Hitler, de fazer tantas nomeações que nenhuma era válida, há o método de Stálin, que fez da sucessão uma das honrarias mais perigosas da União Soviética. Num regime totalitário, conhecer o labirinto de correias transmissoras que põem o sistema a funcionar equivale a ter o poder supremo, e todo sucessor nomeado que realmente descobre o que está acontecendo é automaticamente removido dentro de certo tempo. Uma nomeação válida e relativamente permanente implicaria a existência de um círculo cujos membros compartilhariam o monopólio do Líder no tocante ao saber do que acontece, coisa que o Líder tem de evitar por todos os meios. Hitler certa vez explicou isso aos comandantes supremos da Wehrmacht que, em meio ao tumulto da guerra, remoíam exatamente esse problema: “Como fator máximo, devo, com toda a modéstia, declarar-me insubstituível. […] O destino do Reich depende exclusivamente de mim” (55). Não há ironia na palavra “modéstia”; o líder totalitário, em agudo contraste com todos os antigos usurpadores, déspotas e tiranos, parece acreditar que a questão da sua sucessão não é tão importante assim, que a tarefa não exige dons ou treinamentos especiais, que o país no fim obedecerá a quem quer que seja nomeado por ocasião da sua morte, e que nenhum rival sedento de poder contestará a legitimidade do substituto (56).

Como técnicas de governo, os expedientes do totalitarismo parecem simples e engenhosamente eficazes. Asseguram não apenas um absoluto monopólio do poder, mas a certeza incomparável de que todas as ordens serão sempre obedecidas; a multiplicidade das correias que acionam o sistema e a confusão da hierarquia asseguram a completa independência do ditador em relação a todos os subordinados e possibilitam as súbitas e surpreendentes mudanças de política pelas quais o totalitarismo é famoso. A estrutura política do país mantém-se à prova de choques exatamente por ser amorfa.

As razões pelas quais tão extraordinária eficiência nunca havia sido experimentada antes são tão simples como o próprio expediente. A multiplicação de cargos destrói todo o senso de responsabilidade e de competência; não apenas representa um aumento tremendamente oneroso e improdutivo de administração, mas é realmente um estorvo à produtividade, pois o trabalho genuíno é constantemente retardado por ordens contraditórias até que o comando do Líder venha a decidir a questão. O fanatismo dos altos escalões da elite, absolutamente essencial para o funcionamento do movimento, liquida sistematicamente todo real interesse em tarefas específicas e produz uma mentalidade que vê em toda e qualquer ação um meio de atingir algo completamente diferente (57). E essa mentalidade não se limita à elite, mas gradualmente toma conta de toda a população, cuja vida ou morte depende, em seus menores detalhes, de decisões políticas — isto é, de motivos e causas ulteriores que nada têm a ver com o seu desempenho. As constantes remoções, demoções e promoções impossibilitam o desenvolvimento do trabalho de equipe e impedem o acúmulo da experiência. Um exemplo: do ponto de vista econômico, a escravidão é um luxo ao qual a Rússia não se poderia dar; numa época de grave escassez de técnicos, os campos de concentração estavam abarrotados de “engenheiros altamente qualificados [que] competem pelo direito de trabalhar como encanadores, consertadores de relógios, de rede elétrica e de telefones” (58). Por outro lado, do ponto de vista puramente utilitário, a Rússia não deveria ter empreendido os expurgos na década de 30: eles interromperam uma recuperação econômica longamente esperada e, por causa da destruição física do estado-maior do Exército Vermelho, quase levaram o país à derrota na guerra sino-soviética.

Na Alemanha, as condições diferiam em intensidade. No começo, os nazistas demonstraram certa tendência de conservar a mão de obra técnica e administrativa, permitir a lucratividade nos negócios e exercer domínio econômico sem excesso de interferência. Quando a guerra eclodiu, a Alemanha ainda não estava completamente totalitarizada e, se aceitarmos o preparo bélico como motivo racional, temos de reconhecer que, até por volta de 1942, a sua economia pôde funcionar mais ou menos racionalmente. Em si, o preparo bélico não é antiutilitário, a despeito do seu custo proibitivo (59), pois realmente pode ser muito “mais barato apoderar-se da riqueza e dos recursos de outras nações através da conquista do que comprá-los de países estrangeiros ou produzi-los em casa” (60). As leis econômicas do investimento e da produção, da rentabilidade, do lucro e da depreciação perdem sua validade quando se pretende reabastecer a economia nacional através da pilhagem de outros países; a verdade é que o famoso slogan nazista de “canhões ou manteiga” realmente significava “manteiga por meio de canhões”, e o povo alemão, simpatizante do nazismo, sabia disso muito bem (61). Somente em 1942 é que as normas do domínio totalitário passaram a prevalecer sobre tudo, mesmo sobre a economia.

O processo de radicalização totalitária começou imediatamente após a deflagração da guerra; pode-se até conjecturar que Hitler provocou a guerra, entre outras razões, porque ela lhe permitia acelerar esse processo de uma forma que teria sido inconcebível em tempos de paz (62). O mais curioso, porém, é que essa radicalização não foi absolutamente prejudicada por uma derrota tão fragorosa como a de Stalingrado, e que o risco de perder inteiramente a guerra foi apenas mais um motivo para pôr de lado quaisquer considerações utilitárias e procurar atingir, por meio da impiedosa organização total, os objetivos da ideologia racial totalitária, nem que fosse por pouco tempo (63). Depois de Stalingrado, as formações de elite, antes tão rigidamente separadas do povo, foram amplamente expandidas; a proibição de militares pertencerem ao partido foi suspensa e o comando militar foi subordinado aos comandantes da SS. O monopólio do crime, zelosamente guardado pela SS, foi abandonado e agora qualquer soldado podia ser incumbido de assassínios em massa (64). Nem considerações econômicas, nem militares nem políticas podiam mais interferir com o oneroso e incômodo programa de extermínio e deportação em massa.

Quem estuda esses últimos anos de governo nazista e a sua versão de um “plano quinquenal”, que não foi realizado por falta de tempo, mas que visava ao extermínio do povo polonês e ucraniano, de 170 milhões de russos (como um dos planos menciona), da intelligentsia da Europa ocidental (como a da Holanda) e do povo da Alsácia e Lorena, bem como de todos os alemães que não se enquadrassem na projetada lei de saúde pública do Reich ou numa futura lei de “estrangeiros em comunidade”, não pode deixar de perceber a semelhança com o plano quinquenal bolchevista de 1929, que foi o primeiro ano de clara ditadura totalitária na Rússia. No primeiro caso, os vulgares slogans da eugenia e, no segundo, os altissonantes lemas econômicos foram o prelúdio de “um exemplo de prodigiosa loucura, que virava de cabeça para baixo todas as regras da lógica e os princípios da economia” (65).

É claro que os ditadores totalitários não enveredam conscientemente pelo caminho da loucura. O caso é que nosso espanto em face da natureza antiutilitária da estrutura estatal do totalitarismo se deve à falsa noção de que, afinal, estamos lidando com um Estado normal — uma burocracia, uma tirania, uma ditadura —, e ao fato de não levarmos em conta a enfática afirmação dos governos totalitários de que consideram o país no qual galgaram o poder apenas como sede temporária do movimento internacional a caminho da conquista do mundo; de que, para eles, as vitórias e as derrotas são computadas em termos de séculos ou milênios; e de que os interesses globais sempre terão prioridade sobre os interesses locais do seu próprio território (66). A famosa frase “o direito é aquilo que é bom para o povo alemão” destinava-se apenas à propaganda de massa; o que se dizia aos nazistas era que “o direito é aquilo que é bom para o movimento” (67) e os dois interesses absolutamente não coincidiam. Os nazistas não achavam que os alemães fossem uma raça superior, à qual pertenciam, mas sim que deviam ser comandados, como todas as outras nações, por uma raça superior que somente agora estava nascendo (68). A aurora dessa nova raça não eram os alemães, mas a SS (69). O “império mundial germânico”, como disse Himmler, ou o império mundial “ariano”, como teria preferido Hitler, só viria dali a séculos (70). Para o “movimento”, era mais importante demonstrar que era possível fabricar uma raça pela aniquilação de outras “raças” do que vencer uma guerra de objetivos limitados. O que ao observador de fora parece “um exemplo de prodigiosa loucura” é apenas a consequência do primado absoluto do movimento, não apenas em relação ao Estado, mas também no que tange à nação, ao povo e à posição de poder dos próprios líderes. O motivo pelo qual os engenhosos expedientes do governo totalitário, com a sua absoluta e inaudita concentração do poder nas mãos de um só homem, nunca haviam sido experimentados antes é que nenhum tirano comum foi jamais suficientemente louco para desprezar todos os interesses limitados e locais — econômicos, nacionais, humanos, militares — em favor da realidade puramente fictícia de um futuro distante e indefinido.

Uma vez que o totalitarismo no poder permanece fiel aos dogmas originais do movimento, as notáveis semelhanças entre os expedientes organizacionais do movimento e o chamado Estado totalitário não devem causar surpresa. A divisão entre membros do partido e simpatizantes agrupados em organizações de vanguarda, longe de desaparecer, leva à “coordenação” de toda população, organizada agora como simpatizantes. Controla-se o grande aumento de simpatizantes limitando-se a força partidária a uma “classe” privilegiada de alguns milhões, e criando-se um superpartido de várias centenas de milhares, que são as formações de elite. A multiplicação de cargos, a duplicação de funções e a adaptação do relacionamento do simpatizante a essas novas condições significam simplesmente a conservação da estrutura peculiar do movimento, no qual cada camada é a vanguarda da próxima formação mais militante. A máquina estatal vira uma organização de vanguarda de burocratas simpatizantes, cuja função nos negócios nacionais é propagar confiança entre as massas de cidadãos meramente coordenados, e cujas relações exteriores consistem em burlar o mundo exterior não totalitário. O Líder, na dupla capacidade de chefe do Estado e líder do movimento, continua a concentrar em si mesmo um máximo de falta de escrúpulos militante e uma aparência de normalidade capaz de inspirar confiança.

Uma das importantes diferenças entre movimento e Estado totalitários é que o ditador totalitário pode e necessita praticar a arte totalitária de mentir com maior consistência e em maior escala que o líder do movimento. Isso é, em parte, consequência automática da ampliação dos escalões de simpatizantes e, em parte, resultado do fato de que uma declaração desagradável, vinda de um estadista, não é tão fácil de revogar quanto a de um demagógico líder partidário. Para esse fim, Hitler preferiu apelar, sem maiores rodeios, para o velho nacionalismo que ele mesmo denunciara tantas vezes antes da subida ao poder; assumindo a pose de nacionalista violento, afirmando que o nacional-socialismo não era “produto de exportação”, aplacava ao mesmo tempo alemães e não alemães, e insinuava que as ambições nazistas estariam satisfeitas quando fossem cumpridas as tradicionais exigências da política externa alemã nacionalista — a volta dos territórios cedidos no tratado de Versalhes, o Anschluss da Áustria, e a anexação das regiões da Boêmia de língua alemã. Stálin também levou em conta a opinião pública russa e o mundo não russo quando inventou a sua teoria de “socialismo num só país” e culpou Trótski pela ideia da revolução mundial (71).

Mentir ao mundo inteiro de modo sistemático e seguro só é possível sob um regime totalitário, no qual a qualidade fictícia da realidade de cada dia quase dispensa a propaganda. Na fase que antecede o poder, os movimentos não se podem dar ao luxo de esconder a esse ponto os seus verdadeiros objetivos — afinal, o que eles visam é inspirar organizações de massa. Mas, dada a possibilidade de exterminar os judeus como se fossem insetos, isto é, com gás venenoso, já não há necessidade de propagar que os judeus sejam insetos (72); dado o poder de ensinar à nação inteira a história da Revolução Russa sem mencionar o nome de Trótski, já não há mais necessidade de fazer propaganda contra Trótski. Contudo, o emprego dos métodos de realizar os objetivos ideológicos só pode ser “esperado” daqueles que são “absolutamente firmes quanto à ideologia” — tenham eles adquirido essa firmeza nas escolas do Comintern ou nos centros especiais de doutrinação nazista —, mesmo que esses objetivos continuem a ser disseminados pela propaganda. É então que se verifica, invariavelmente, que os meros simpatizantes nunca sabem o que está acontecendo (73). Isso nos leva ao paradoxo de que a “sociedade secreta à luz do dia” nunca é tão conspirativa em sua natureza e em seus métodos como depois de ter sido aceita como membro da comunidade das nações em pleno gozo dos seus direitos. É apenas lógico que Hitler, antes da tomada do poder, resistisse a todas as tentativas de organizar o partido, e até mesmo as organizações de elite, numa base conspirativa; contudo, após 1933, vemo-lo bastante desejoso de ajudar a transformar a SS numa espécie de sociedade secreta (74). Do mesmo modo, os partidos comunistas dirigidos por Moscou preferem o clima da conspiração, mesmo onde se lhes permite existir em completa legalidade (75). Quanto mais visível o poder do totalitarismo, mais secretos são os seus verdadeiros objetivos. Para que se conhecessem os objetivos finais do governo de Hitler, era muito mais sensato confiar nos seus discursos de propaganda e no Mein Kampf do que na oratória do chanceler do Terceiro Reich; da mesma forma como teria sido mais sensato desconfiar das palavras de Stálin acerca do “socialismo num só país”, inventadas com a finalidade passageira de tomar o poder após a morte de Lênin, e levar mais a sério a sua constante hostilidade contra os países democráticos. Os ditadores totalitários mostraram conhecer muito bem o perigo que acarretava a sua afetação de normalidade, isto é, o perigo de uma política verdadeiramente nacionalista ou da verdadeira instalação do socialismo num só país. Procuraram evitar esse risco através de uma discrepância permanente e constante entre as palavras tranquilizadoras e a realidade do domínio, desenvolvendo conscientemente um método de fazerem sempre o oposto do que dizem (76). Stálin levou essa arte do equilíbrio, que exige mais habilidade do que a rotina comum da diplomacia, ao ponto em que toda moderação na política externa ou na linha política do Comintern era quase invariavelmente seguida de expurgos radicais no partido russo. Por certo não foi mera coincidência o fato de que a política da Frente Popular no Ocidente e a redação da Constituição soviética, comparativamente liberal, precederam os julgamentos de Moscou.

As literaturas nazista e bolchevista provam repetidamente que os governos totalitários visam conquistar o globo e trazer todos os países para debaixo do seu jugo. Contudo, não chegam a ser decisivos esses programas ideológicos, herdados dos movimentos pré-totalitários (dos partidos antissemitas supranacionais e dos sonhos pangermânicos de império, no caso dos nazistas, e do conceito internacional do socialismo revolucionário, no caso dos bolchevistas). Decisivo é que os regimes totalitários realmente conduzem a sua política estrangeira na constante pressuposição de que um dia conseguirão atingir o seu objetivo final, e nunca o perdem de vista, por mais remoto que ele pareça ou por mais que se choque com as necessidades do momento. Assim, não consideram país algum como permanentemente estrangeiro, mas, ao contrário, todo país é potencialmente uma parte do seu território. A subida ao poder, o fato de que o mundo fictício do movimento se tornou realidade tangível num determinado país, cria com os outros países um relacionamento semelhante à situação do partido totalitário sob um governo não totalitário: a realidade tangível da ficção, com o apoio de um poder estatal internacionalmente reconhecido, pode ser exportada da mesma forma como o desprezo pelo parlamento pôde ser importado por um parlamento não totalitário. Nesse particular, a “solução” da questão judaica de antes da guerra era o principal produto de exportação da Alemanha nazista: a expulsão dos judeus carreou para outros países uma importante parcela do nazismo; forçando os judeus a deixarem o Reich sem passaportes e sem dinheiro, os nazistas tornaram real a lenda do Judeu Errante e, forçando os judeus à hostilidade contra os países entre os quais eles realizaram a imagem do judeu estrangeiro, criaram o pretexto para que se interessassem apaixonadamente pela política nacional de todos os países (77).

A seriedade com que os nazistas encaravam a ficção conspiratória, segundo a qual seriam os futuros senhores do mundo, veio à luz em 1940, quando — a despeito da necessidade, e apesar da possibilidade demasiado real de converterem à sua causa os povos ocupados da Europa — começaram a sua política de despovoamento dos territórios do Leste, sem atentar para a perda de mão de obra e as sérias consequências militares, e introduziram leis que, com força retroativa, exportaram parte do código penal do Terceiro Reich para os países ocidentais ocupados (78). Não havia maneira mais eficaz de propagar a pretensão de domínio mundial dos nazistas do que punir como alta traição qualquer pronunciamento ou ato contra o Terceiro Reich, não importa quando, onde ou por quem fosse feito. A lei nazista tratava o mundo inteiro como se estivesse potencialmente sob a sua jurisdição, de sorte que o exército de ocupação já não era um instrumento de conquista que levasse consigo a nova lei do conquistador, mas um órgão executivo que fazia cumprir uma lei que tacitamente já existia para todos.

O pressuposto de que a lei nazista estava em vigor além das fronteiras da Alemanha e a punição de cidadão de outros países eram mais do que simples expedientes de opressão. Os regimes totalitários não receiam as implicações lógicas da conquista mundial, mesmo que estas lhes sejam contrárias e em detrimento dos interesses do seu próprio povo. Logicamente, é indiscutível que um plano de conquista mundial acarreta a abolição das diferenças entre a nação conquistadora e os territórios ocupados, bem como da diferença entre a política externa e interna, nas quais se baseiam todas as instituições não totalitárias existentes e todo o intercâmbio internacional. Se o conquistador totalitário age em toda parte como se estivesse em casa, deve pelo mesmo motivo tratar a sua própria população como conquistador estrangeiro (79). E a pura verdade é que o movimento totalitário toma o poder no mesmo sentido em que um conquistador estrangeiro ocupa um país que passa a governar em benefício de terceiros. Os nazistas agiram como conquistadores estrangeiros na Alemanha quando, contra todos os interesses nacionais, tentaram e quase conseguiram transformar a sua derrota numa catástrofe final para todo o povo alemão; e também quando, em caso de vitória, pretendiam estender a sua política de extermínio aos escalões de alemães “racialmente inadequados” (80).

Atitude semelhante parece ter inspirado a política externa soviética após a guerra. O custo da sua agressividade foi proibitivo para o próprio povo soviético, e foi rejeitado até o elevado empréstimo dos Estados Unidos que teria permitido à Rússia reconstruir as áreas devastadas e industrializar o país de modo racional e produtivo. A instalação de governos do Comintern em quase todos os países balcânicos e a ocupação de extensos territórios do Leste não trouxeram qualquer benefício tangível, mas, ao contrário, abalaram ainda mais os recursos da Rússia. Mas essa política certamente serviu aos interesses do movimento bolchevista, que se espalhou por quase metade do mundo habitado.

Como um conquistador estrangeiro, o ditador totalitário vê as riquezas naturais e industriais de cada país, inclusive o seu, como fonte de pilhagem e como meio de preparar o próximo passo da expansão. Uma vez que a economia de sistemática espoliação é levada a cabo para o bem do movimento e não do país, nenhum povo e nenhum território, como beneficiário em potencial, pode constituir ponto de saturação para o processo. O ditador totalitário é como um conquistador estrangeiro que não vem de parte alguma; a sua pilhagem provavelmente não beneficiará ninguém. A distribuição dos despojos não se destina a fortalecer a economia do seu país, mas é apenas uma manobra tática temporária. Para fins econômicos, os regimes totalitários sentem-se tão à vontade em seus países como os gafanhotos. O fato de que o ditador totalitário governa o seu país como um conquistador estrangeiro torna as coisas ainda piores, pois acrescenta à crueldade uma eficácia que as tiranias certamente não alcançam nos territórios ocupados. A guerra de Stálin contra a Ucrânia, no início da década de 30, foi duas vezes mais eficaz que a invasão e a ocupação alemã, terrivelmente sangrentas (81). Esse é o motivo pelo qual o totalitarismo prefere o governo de quislings ao governo direto, a despeito dos riscos óbvios de tais regimes.

O problema com os regimes totalitários não é que eles joguem a política do poder de um modo especialmente cruel, mas que atrás de suas políticas esconde-se um conceito de poder inteiramente novo e sem precedentes, assim como atrás de sua Realpolitik jaz um conceito de realidade inteiramente novo e sem precedentes. Supremo desprezo pelas consequências imediatas e não a falta de escrúpulos; desarraigamento e desprezo pelos interesses nacionais e não o nacionalismo; desdém em relação aos motivos utilitários e não a promoção egoísta do seu próprio interesse; “idealismo”, ou seja, a fé inabalável num mundo ideológico fictício e não o desejo de poder — tudo isso introduziu na política internacional um fator novo e mais perturbador do que teria resultado da mera agressão.

O poder, como concebido pelo totalitarismo, reside exclusivamente na força produzida pela organização. Do mesmo modo como Stálin via cada instituição, qualquer que fosse a sua função verdadeira, apenas como “a correia de transmissão que liga o partido ao povo” (82), e acreditava honestamente que os tesouros mais preciosos da União Soviética não eram as riquezas do solo nem a capacidade produtiva da sua enorme população, mas os “quadros” do partido (83) (ou seja, a polícia), também Hitler, já em 1929, via a “grandeza” do movimento no fato de que 60 mil homens “pareciam quase uma só unidade, que realmente esses membros são uniformes não apenas nas ideias, mas até a expressão facial é quase a mesma. Vejam esses olhos sorridentes, esse entusiasmo fanático, e ficarão sabendo […] como 100 mil homens num movimento podem tornar-se um só” (84). Para o homem ocidental, o poder tem certa conexão com as posses, a riqueza, os tesouros e os bens terrenos; para o homem totalitário, essa conexão desaparece numa espécie de mecanismo desmaterializado cujo movimento gera poder como a fricção gera eletricidade. A divisão totalitária entre as nações-que-têm e as-que-não-têm é mais do que um artifício demagógico; os que a fazem estão realmente convencidos de que a força das posses materiais é desprezível e apenas estorva o caminho da evolução do poder organizacional. Para Stálin, o constante crescimento e desenvolvimento dos escalões policiais era incomparavelmente mais importante que o petróleo de Baku, o carvão e os minérios dos Urais, os celeiros da Ucrânia ou os tesouros potenciais da Sibéria — enfim, o desenvolvimento de todo o arsenal de poder da Rússia. A mesma mentalidade fez com que Hitler sacrificasse toda a Alemanha aos quadros da SS; para ele, a guerra não estava perdida quando cidades alemãs tombaram em ruínas e a capacidade industrial havia sido destruída, mas somente quando soube que já não podia confiar nas tropas da SS (85). Para um homem que acreditava na onipotência da organização contra todos os fatores meramente materiais, militares ou econômicos, e que, além disso, calculava o futuro triunfo de sua obra em termos de séculos, a derrota não era a catástrofe militar nem a ameaça de fome para a população, mas apenas a destruição das organizações de elite, que deveriam levar a conspiração de domínio mundial ao seu fim último.

A ausência de estrutura no Estado totalitário, o seu desprezo pelos interesses materiais, a sua independência da motivação do lucro e as suas atitudes não utilitárias em geral contribuíram, mais que qualquer outro elemento, para tornar quase imprevisível a política contemporânea. O mundo não totalitário é incapaz de compreender uma mentalidade que funciona independentemente de toda ação calculável em termos de homens e de bens materiais, e que é completamente indiferente ao interesse nacional e ao bem-estar do povo; e isso o coloca num curioso dilema de julgamento. Aqueles que compreendem corretamente a terrível eficiência da organização e da polícia totalitárias tendem a subestimar a força material dos países totalitários, enquanto aqueles que compreendem a esbanjadora incompetência da economia totalitária tendem a subestimar o potencial de poder que pode ser criado à revelia de todos os fatores materiais.

Notas

1. Os nazistas compreendiam muito bem que a tomada do poder poderia levar ao estabelecimento do absolutismo. “Mas o nacional-socialismo não encabeçou a luta contra o liberalismo para atolar-se no absolutismo e começar tudo de novo” (Werner Best, Die deutsche Polizei, p. 20). A advertência dessa frase é dirigida ao absolutismo do Estado.

2. A teoria de Trótski, enunciada pela primeira vez em 1905, naturalmente não diferia da estratégia revolucionária de todos os leninistas, para quem “a própria Rússia é apenas o primeiro domínio, o primeiro baluarte da revolução internacional: os seus interesses seriam subordinados à estratégia supranacional do socialismo militante. Por enquanto, porém, os limites da Rússia e os do socialismo vitorioso são os mesmos” (Isaac Deutscher, Stalin: a political biography, Nova York e Londres, 1949, p. 243).

3. O ano de 1934 é significativo devido ao novo estatuto do Partido, anunciado no Décimo Sétimo Congresso, que estabelecia que “periódicos […] expurgos [serão] realizados para a limpeza sistemática do Partido”. (Citado de A. Avtorkhanov, “Social differentiation and contradictions in the Party”, Bulletin of the Institute for the Study of the USSR, Munique, fevereiro de 1956.) Os expurgos do Partido, realizados durante os primeiros anos da Revolução Russa, nada têm em comum com a sua transformação posterior em instrumento de instabilidade permanente. Os primeiros expurgos foram levados a efeito por comissões locais de controle, perante um foro aberto, ao qual membros do Partido, ou mesmo os de fora do Partido, tinham livre acesso. Foram planejados como um órgão democrático de controle contra a corrupção burocrática do Partido e “deveriam servir como substituto das verdadeiras eleições” (Deutscher, op. cit., pp. 233-4). Um excelente apanhado da evolução dos expurgos encontra-se no artigo de Avtorkhanov, que também refuta a lenda de que o assassinato de Kirov tenha motivado a nova política. O expurgo geral já havia começado antes da morte de Kirov, que não passou de um “pretexto para lhe dar mais força”. Em vista das muitas circunstâncias “inexplicáveis e misteriosas” em torno do assassinato de Kirov, suspeita-se que o “pretexto” foi cuidadosamente planejado e executado pelo próprio Stálin. Ver o “Discurso sobre Stálin”, de Khrushchev, New York Times, 5 de junho de 1956.

4. Deutscher, op. cit., p. 282, descreve o primeiro ataque contra a “revolução permanente” de Trótski e a contrafórmula de Stálin de “socialismo num só país” como um “acidente” em manobras políticas. Em 1924, a “finalidade imediata [de Stálin] era desacreditar Trótski. […] Rebuscando o passado de Trótski, os triúnviros encontraram a teoria de ‘revolução permanente’, que ele havia formulado em 1905. […] Foi no decurso dessa polêmica que Stálin chegou à sua fórmula do ‘socialismo num só país’”.

5. A liquidação da facção de Röhm, em junho de 1934, foi precedida por um breve intervalo de estabilização. No começo do ano, Rudolf Diels, chefe da polícia política de Berlim, podia comunicar que não havia mais prisões ilegais (“revolucionárias”) por parte da SA e que as prisões anteriores desse tipo estavam sendo investigadas. (Nazi conspiracy, U. S. Government, Washington, 1946, V, 205). Em abril de 1934, o ministro do Interior, Wilhelm Frick, antigo membro do partido nazista, assinou um decreto limitando a prática da “custódia protetora” ( ibid., III, 555), em face da “estabilização da situação nacional”. (Ver Das Archiv, abril de 1934, p. 31.) Esse decreto, porém, nunca foi publicado (Nazi conspiracy, VII, 1099; II, 259). A polícia política da Prússia havia preparado para Hitler um relatório especial sobre os excessos da SA cometidos em 1933, e sugeriu que se processassem os líderes da SA nele mencionados.
Hitler resolveu a situação matando esses líderes da SA sem processo legal e demitindo todas as autoridades policiais que se haviam oposto à SA. (Ver o testemunho, sob juramento, de Rudolf Diels, ibid., V, 224.) Dessa forma, ele ficava completamente a salvo de qualquer legalização e estabilização. Entre os numerosos juristas que entusiasticamente serviram à “ideia nacional-socialista”, somente uns poucos compreenderam o que realmente estava em jogo. A esse grupo pertence principalmente Theodor Maunz, cujo ensaio Gestalt und Recht der Polizei [Constituição e jurisdição da polícia] (Hamburgo, 1943) é citado e aprovado mesmo por aqueles autores que, como Paul Werner, pertenciam à camada superior (Fuehrerkorps) da SS.

6. Robert Ley, Der Weg zur Ordensburg (sem data, cerca de 1936). “Edição especial […] para o Führerkorps do Partido […] Venda Proibida”.

7. Heinrich Himmler, “Dei Schutzstaffel”, em Grundlagen, Aufbau und Wirtschaftsordnung des nationalsozialitischen Staates, Nr. 7b . A radicalização do princípio da antiga seleção racial pode ser verificada em todas as fases da política nazista. Assim, os primeiros a serem exterminados eram os judeus “puro-sangue”, seguidos dos que eram “meio- judeus” e “um-quarto-judeus”; em outra área, os primeiros a serem incluídos eram os loucos, seguidos dos portadores de doenças incuráveis e, depois, pelas famílias em que surgisse algum “doente incurável”. A “seleção que não pode ser detida” não o foi nem sequer diante dos membros da SS. Um decreto do Führer, de 19 de maio de 1943, ordenava que todos os que tivessem ligações com estrangeiros através de laços familiares, casamento ou amizade deviam ser eliminados do Estado, do partido, da Wehrmacht e da economia; isso afetou 1200 líderes da SS (ver os Hoover Library Archives, arquivo Himmler, pasta 300).

8. É sabido que na Rússia “a repressão contra os socialistas e anarquistas aumentou na mesma proporção em que o país foi sendo pacificado” (Anton Ciliga, The Russian enigma, Londres, 1940, p. 244). Deutscher, op. cit., p. 218, acha que a razão para o desaparecimento do “espírito de liberdade da revolução” no momento da vitória está numa mudança de atitude dos camponeses: estes viraram-se contra o bolchevismo “tanto mais resolutamente quanto mais se convenciam de que o poder dos proprietários de terras e dos generais brancos tinha sido destruído”. A explicação parece muito débil em face das dimensões que o terror assumiria depois de 1930. E deixa de levar em consideração o fato de que o terror total não foi desencadeado na década de 20, mas na de 30, quando nem sequer a oposição das classes camponesas era atuante. Também Khrushchev ( op. cit.) observa que “medidas extremas de repressão não foram usadas” contra a oposição durante a luta contra os trotskistas e bukharinistas, mas que “a repressão contra eles começou” muito mais tarde, quando já estavam vencidos havia muito tempo. O terror, no regime nazista, alcançou o seu ponto mais alto durante a guerra, quando a nação alemã realmente já estava “unida”. A preparação do terror data de 1936, quando havia desaparecido toda a resistência interna organizada e Himmler propôs uma expansão do sistema de campos de concentração. Típico desse espírito de opressão, independentemente de resistência, é o discurso de Himmler em Kharkov, perante os líderes da SS, em 1943: “temos uma só tarefa, […] levar adiante a luta racial sem dó nem piedade. […] Nunca deixaremos que se perca aquela excelente arma — o pavor e a terrível reputação que nos precedeu nas batalhas por Kharkov — mas continuaremos a cultivá-la” (Nazi conspiracy, IV, pp. 572 ss).

9. Ver Theodor Maunz, op. cit., pp. 5 e 49. O pouco caso que os nazistas faziam das leis e normas que eles próprios haviam criado, e que eram regularmente publicadas por W. Hoche sob o título Die Gesetzgebung des Kabinetts Hitler [A legislação do gabinete Hitler] (Berlim, 1933 et seq.), é exemplificado pela observação, feita ao acaso por um dos seus juristas constituintes. Achava ele que, a despeito da inexistência de nova estrutura legal, tinha havido, não obstante, uma “ampla reforma” (ver Ernst R. Huber, “Die deutsche Plizei”, em Zeitschrift für die gesamte Staatswissenschaft, vol. 101, 1940-1, pp. 273 ss).

10. Maunz, op. cit., p. 49. Ao que se saiba, Maunz é o único autor nazista que menciona essa circunstância e lhe dá a devida ênfase. Somente através do estudo dos cinco volumes de Verfügungen, Anordnungen, Bekanntgaben [Decretos, disposições, editais], coletados e impressos durante a guerra pela chancelaria do partido segundo instruções de Martin Bormann, é possível obter algum conhecimento dessa legislação secreta pela qual a Alemanha era governada. De acordo com o prefácio, os volumes destinavam-se “apenas ao uso interno do partido e deviam ser tratados como confidenciais”. Quatro desses volumes, evidentemente muito raros, comparada aos quais a coleção de Hoche da legislação do gabinete de Hitler era mera fachada, estão na Hoover Library.

11. Hitler aos juristas em 1933, citado por Hans Frank, Nationalsozialistische Leitsätze für ein neues deutsches Strafrecht [Diretivas nacional-socialistas para um novo direito penal alemão], 2a parte, 1936, p. 8.

12. Deutscher, op. cit., p. 381. Em 1918 e 1924 foram feitas tentativas de redigir uma constituição. A reforma constitucional de 1944, segundo a qual algumas das Repúblicas Soviéticas teriam os seus próprios representantes estrangeiros e os seus próprios exércitos, foi uma manobra tática destinada a conseguir para a União Soviética mais de uma representação nas Nações Unidas.

13. Ver Deutscher, op. cit., p. 375. Uma atenta leitura do discurso de Stálin referente à Constituição (o seu relatório ao Oitavo Congresso Extraordinário dos Sovietes de 25 de novembro de 1936), revela que nunca houve intenção de torná-la definitiva. Stálin disse explicitamente: “Esta é a estrutura da nossa constituição no dado momento histórico. O projeto da nova constituição representa, assim, a soma total dos caminhos que já trilhamos, a soma total das realizações já existentes”. Em outras palavras, a constituição já estava datada no instante em que foi anunciada, e o seu interesse era meramente histórico. Não se trata de uma interpretação arbitrária, como o prova Molotov, que, em seu discurso sobre a constituição, serve-se do tema de Stálin e acentua o seu caráter provisório: “Realizamos apenas a primeira fase do comunismo, e mesmo essa primeira fase, que é o socialismo, ainda não é completa: só erigimos até agora o seu esqueleto” (ver Die Verfassung des Sozialistischen Staates der Arbeiter und Bauern [A Constituição do Estado Socialista dos Trabalhadores e Camponeses], Estrasburgo, Editions Prométhée, 1937, pp. 42 e 84).

14. “A vida constitucional alemã caracteriza-se por sua completa informidade, em contraste com a Itália” (Franz Neumann, Behemoth, 1942, apêndice, p. 521).

15. Citado por Boris Souvarine, Stalin: a critical survey of Bolshevism, Nova York, fi939, p. 695.

16. Stephen H. Roberts, The house that Hitler built, Londres, 1939, p. 72.

17. O juiz Robert H. Jackson, em seu discurso de abertura dos Julgamentos de Nurembergue, baseou sua descrição da estrutura política da Alemanha nazista na coexistência de “dois governos na Alemanha — o verdadeiro e o ostensivo. A forma da República Alemã foi mantida durante certo tempo e constituía o governo externo e visível. Mas a verdadeira autoridade estatal estava fora e acima da lei, e repousava no Corpo de Liderança do Partido Nazista” (Nazi conspiracy, I, 125). Os estudiosos da Alemanha nazista concordam que o Estado tinha apenas uma função ostensiva. Para a única exceção, ver Ernst Fraenkel, The dual state, Nova York e Londres, 1941, que afirma que o Estado normativo (governo formal) era mantido pelos nazistas para a proteção da ordem capitalista e da propriedade privada e tinha plena autoridade em todas as questões econômicas, enquanto o Estado prerrogativo (Partido) era supremo em todos os assuntos políticos.

18. “No caso daquelas posições do poder estatal que os nacional-socialistas não podiam preencher com os seus próprios elementos, criavam na própria organização do Partido ‘órgãos-fantasmas’ correspondentes, montando assim um segundo Estado ao lado do Estado. […]” (Konrad Heiden, Der Fueher: Hitler’s rise to power, Boston, 1944, p. 616.)

19. O. C. Giles, The Gestapo, Oxford Pamphlets on World Affairs, n o 36, 1940, descreve a constante superposição dos departamentos do Partido e do Estado.

20. É bem característico um memorando do ministro do Interior, Frick, que se ressentia do fato de que Himmler, líder da SS, tivesse poderes superiores aos dele. Ver Nazi conspiracy, III, p. 547. Dignas de nota a esse respeito são também as observações feitas por Rosenberg acerca de uma conversa com Hitler em 1942: Rosenberg nunca havia antes ocupado uma posição estatal, mas pertencia ao círculo íntimo de Hitler. Agora que era ministro para os Territórios Ocupados no Leste, defrontava-se constantemente com “ações diretas” de outros plenipotenciários (principalmente homens da SS) que o menosprezavam porque ele pertencia ao aparelho ostensivo do Estado. Ver ibid., IV, pp. 65 ss. O mesmo sucedeu a Hans Frank, governador-geral da Polônia. Houve apenas dois casos em que a promoção a ministro não acarretou perda de poder ou de prestígio: o do ministro da Propaganda, Goebbels, e o do ministro do Interior, Himmler. No tocante a Himmler, possuímos um memorando, presumivelmente do ano de 1935, que é um exemplo da sistemática obstinação com que os nazistas regulamentavam as relações entre o partido e o Estado. Esse memorando, que parece ter partido do séquito imediato de Hitler e que foi encontrado entre a correspondência do Reichsadjudantur do Führer e da Gestapo, contém uma advertência contra a nomeação de Himmler para o cargo de secretário de Estado do Ministério do Interior, porque, em tal caso, ele “já não poderia ser um líder político” e “seria alienado do partido”. Nele encontramos também o princípio técnico que regulava as relações entre o partido e o Estado: “Um Reichsleiter [líder do partido] não deve ser subordinado a um Reichsminister [ministro de Estado]”. (O memorando, sem data e sem assinatura, intitulado Die Geheime Staatspolizei, pode ser encontrado na Hoover Library, arquivo P. Wiedemann.)

21. Ver o “Brief report on activities of Rosenberg’s Foreign Affairs Bureau of the Party from 1933 to 1943”, ibid., III, pp. 27 ss.

22. Baseado num decreto do Führer de 12 de agosto de 1942. Ver Verfügungen, Anordnungen, Bekanntgaben, op. cit., Nr. A. 54/42.

23. “Por trás do governo ostensivo estava o verdadeiro governo”, que Victor Kravchenko ( I chose freedom: the personal life of a soviet official, Nova York, 1946, p. 111) via no “sistema da polícia secreta”.

24. Ver Arthur Rosenberg, A history of Bolshevism, Londres, 1934, capítulo VI. “Existem na realidade dois edifícios políticos na Rússia, que se erguem paralelamente um ao outro: o governo fantasma dos sovietes e o governo de fato do partido bolchevista.”

25. Deutscher, op. cit., pp. 255-6, resume o relatório de Stálin ao Décimo Segundo Congresso do Partido acerca do trabalho do departamento de pessoal durante o primeiro ano de sua gestão como secretário-geral: “No ano anterior, somente 27% dos líderes regionais dos sindicatos eram membros do partido. Atualmente, 57% deles são comunistas. A percentagem de comunistas na gerência das cooperativas havia subido de 5 para 50%; e, entre os oficiais- comandantes das Forças Armadas, de 16 para 24%. O mesmo sucedia em todas as outras instituições que Stálin descrevia como as ‘correias de transmissão’ que ligavam o partido ao povo”.

26. Arthur Rosenberg, op. cit., loc. cit.

27. Maunz, op. cit., p. 12.

28. O jurista e Obersturmbannfueher professor R. Hoehn, exprimiu isso nas seguintes palavras: “Havia também outra coisa à qual os estrangeiros, e também os alemães, tinham de acostumar-se: a tarefa da polícia secreta do Estado […] estava nas mãos de um grupo de pessoas que provinham de dentro do movimento e ainda estavam enraizadas nele” (Grundfragen der deutschen Polizei [Questões fundamentais da polícia alemã], Relatório da Sessão Constitutiva do Comitê de Legislação Policial da Academia de Direito Alemão, 11 de outubro de 1936, Hamburgo, 1937, contendo contribuições de Frank, Himmler e Hoehn).

29. Por exemplo: uma tentativa de circunscrever as diversas responsabilidades e combater a “anarquia da autoridade” foi empreendida por Hans Frank em Recht und Verwaltung [Direito e administração], 1939, e repetida num discurso intitulado Technik des Staates [Técnica do Estado], em 1941. Expressava a opinião de que as “garantias legais” não eram a “prerrogativa dos sistemas liberais de governo”, e que a administração devia continuar a ser governada, como antes, pelas leis do Reich, agora inspiradas e guiadas pelo programa do partido nacional-socialista. Precisamente porque queria impedir essa nova ordem legal a qualquer preço, Hitler nunca reconheceu o programa do partido nazista. A respeito dos membros do partido que faziam tais propostas, Hitler costumava falar com desprezo, descrevendo-os como “eternamente amarrados ao passado”, como pessoas “incapazes de pular por cima da própria sombra” (Felix Kersten, Totenkopf und Treue [Caveira e fidelidade], Hamburgo).

30. “As 32 Gaue […] não coincidem com as regiões administrativas nem com as militares, nem com as 21 divisões da SA, nem com as dez regiões da SS, nem com as 23 zonas da Juventude Hitlerista. […] O mais notável dessas discrepâncias é que não havia motivo para elas” (Roberts, op. cit., p. 98).

31. Documento de Nurembergue, PS 3063, no Centre de Documentation Juive, de Paris, é um relatório da Suprema Corte do Partido acerca de “eventos e debates na Corte do Partido relativos às demonstrações antissemitas de 9 de novembro de 1938”. À base das investigações da polícia e do gabinete do procurador-geral, a Suprema Corte chegou à conclusão de que “todos os líderes do Partido devem ter compreendido que as instruções verbais do Reichspropagandaleiter significavam que, para observadores de fora, o Partido não queria aparecer como o instigador da demonstração, mas na verdade deveria organizá-la e levá-la a cabo […] O reexame dos escalões de comando revelou […] que o nacional-socialista ativo, temperado na luta que antecedeu o poder (Kampfzeit), aceita naturalmente que as ações em que o Partido não deseja aparecer no papel de organizador não são ordenadas com clareza inequívoca nem com todos os detalhes. Assim, está habituado a compreender que uma ordem pode significar mais que o seu conteúdo verbal, como se tornou mais ou menos rotina para quem dá as ordens no interesse do Partido não dizer tudo e apenas insinuar o que deseja obter com a ordem. […] Desse modo, as […] ordens de que, por exemplo, não o judeu Grünspan mas todo o povo judeu deve levar a culpa pela morte do camarada Von Rath, […] [de que] devem trazer-se pistolas, […] [de que] todo homem da SA devia a esta altura saber o que tinha que fazer — eram compreendidas por um número de sublíderes como indicativas de que haveria de correr sangue judeu pela morte do camarada Von Rath”. Particularmente significativo é o fim do relatório, no qual a Suprema Corte do Partido abertamente objeta contra esses métodos: “Outra questão é se, no interesse da disciplina, a ordem intencionalmente vaga, dada na expectativa de que quem a recebe reconhece a intenção de quem ordena, e aja de acordo, não deva ser relegada ao passado”. Eis aqui, novamente, pessoas que, nas palavras de Hitler, “tinham medo de pularem sobre a própria sombra” e insistiam em medidas legislativas, por não compreenderem que a lei suprema não era a ordem, mas o desejo do Führer. Fica bem clara, neste exemplo, a diferença de mentalidade entre as formações de elite do partido e os seus diversos órgãos.

32. Best (op. cit.) assim se expressa: “Enquanto a polícia executa esse desejo da liderança, age em conformidade com a lei; se o desejo da liderança é violado, então não a polícia, mas um membro da polícia cometeu uma violação”.

33. Ver nota 31.

34. Em 1933, após o incêndio do Reichstag, “os líderes da SA eram mais poderosos que um Gauleiter. Recusavam- se também a obedecer a Göring”. Ver Rudolf Diels em suas declarações sob juramento, em Nazi conspiracy, V, p. 224; Diels era chefe da polícia política sob Göring.

35. Sem dúvida, a SA se ressentia da perda de posição e de poder na hierarquia nazista e tentou desesperadamente manter as aparências. Em suas revistas — Der SA-Mann, Das Archiv etc. —, encontram-se muitas indicações, veladas ou abertas, de sua impotente rivalidade com a SS. O mais interessante é que Hitler, ainda em 1936, quando a SA já havia perdido a sua força, assegurava aos seus homens num discurso: “Tudo o que vocês são, o são através de mim; tudo o que eu sou, sou através de vocês”. Ver Ernst Bayer, Die SA, Berlim, 1938. A fonte desta citação é Nazi conspiracy, IV, p. 782.

36. Compare-se o discurso de Rosenberg de junho de 1941: “Creio que a nossa tarefa política será […] organizar esses povos em certos tipos de corpos políticos […] que se anteponham a Moscou”, com o “Memorando (sem data) para a Administração dos Territórios Ocupados do Leste”: “Com a dissolução da União Soviética após sua derrota, nenhuma estrutura política restará nos territórios do Leste e, portanto, […] sua população não terá cidadania” ( Trial of the major war criminal, Nurembergue, 1947, XXVI, pp. 616 e 604, respectivamente).

37. Hitlers Tischgespräche, Bonn, 1951, p. 213.

38. Quanto à variedade de organizações partidárias superpostas, ver Rang-und Organisationsliste der NSDAP, Stuttgart, 1947, e Nazi conspiracy, I, p. 178, que enumera quatro categorias principais: 1. Gliederungen der NSDAP, que haviam existido antes da subida ao poder; 2. Angeschlossene Verbände der NSDAP, que abrange aquelas sociedades que haviam sido coordenadas; 3. Bereute Organisationen der NSDAP; e 4. Weitere nationalsozialistische Organisationen . Em quase todas essas categorias, encontra-se uma organização diferente de estudantes, de mulheres, de professores e de trabalhadores.
39. A gigantesca organização das obras públicas, chefiada por Todt e, mais tarde, por Albert Speer, foi criada por Hitler fora de qualquer hierarquia ou afiliação partidária. Essa organização podia ser usada contra a autoridade do partido e até mesmo da polícia. É digno de nota que Speer pudesse arriscar-se a apontar a Hitler (durante uma conferência em 1942) a impossibilidade de organizar a produção sob o regime de Himmler, e até mesmo exigir jurisdição sobre o trabalho escravo e os campos de concentração. Ver Nazi conspiration, I, 916-7.

40. Por exemplo, uma organização inócua e sem importância como a NSKK (agremiação nazista de automobilistas, fundada em 1930) foi subitamente promovida, em 1933, à posição de formação de elite, compartilhando com a SA e a SS o privilégio de unidade independente afiliada ao partido. Essa ascensão na escala hierárquica do nazismo não teve maiores consequências; em retrospecto, parece ter sido apenas uma fútil ameaça à
SA e à SS.

41. F. Beck e W. Godin, Russian purge and the extraction of confessions, 1951, p. 153.

42. Ibid., pp. 159 ss. Segundo outras fontes, existem vários exemplos dessa desconcertante multiplicação do aparelho de polícia soviético, principalmente as associações locais e regionais da NKVD, que funcionam independentemente uma da outra e têm suas correspondentes nas redes locais e regionais dos agentes do partido. É natural que saibamos muito menos a respeito das condições na Rússia do que a respeito do que ocorria na Alemanha, especialmente no tocante a detalhes da organização.

43. Segundo o testemunho de um dos seus ex-funcionários (Nazi conspiracy, VI, 461), “Himmler confiava a mesma tarefa a duas pessoas diferentes”.

44. No discurso mencionado acima (ver nota 29), Hans Frank deixou claro que, em alguma data futura, queria estabilizar o movimento; as suas numerosas queixas como governador-geral da Polônia demonstram a total falta de compreensão das tendências absolutamente antiutilitárias da polícia nazista. Ele não podia compreender por que os povos dominados não eram explorados, mas exterminados. Rosenberg, aos olhos de Hitler, era racialmente indigno de fé, uma vez que pretendia estabelecer Estados satélites nos territórios conquistados do Leste e não compreendia que a política de despopulação de Hitler visava esvaziar esses territórios.

45. A noção da divisão em “pequenos principados” constituindo “uma pirâmide de poder fora da lei com o Fuehrer no topo” é de Robert H. Jackson. Ver o cap. xii de Nazi conspiracy, II, pp. 1 ss. Para evitar a criação desse tipo de Estado autoritário, Hitler, já em 1934, baixou o seguinte decreto: “O tratamento de ‘Mein Führer’ fica reservado apenas para o Fuehrer. Todos os sublíderes do NSDAP ficam doravante proibidos a se deixarem tratar por ‘Mein Reichsleiter’ etc., tanto por escrito como oralmente. Em vez disso, o tratamento deve ser Pg. [abreviatura de Parteigenosse — Camarada do Partido] […] ou Gauleiter etc.” Ver Verfügungen, Anordnungen, Bekanntgaben , op. cit., decreto de 20 de agosto de 1934.

46. Ver o Organisationsbuch der NSDAP.

47. Ver o quadro no 14 do vol. VIII de Nazi conspiracy.

48. Todos os juramentos, no partido e nas formações de elite, eram feitos com a invocação pessoal de Adolf Hitler.

49. O primeiro passo de Himmler nessa direção foi dado no outono de 1944, quando mandou, por iniciativa própria, desmontar as câmaras de gás em alguns dos campos de extermínio e parar a matança em massa. Foi a sua maneira de dar início às negociações de paz com as potências do Ocidente. É interessante que Hitler nunca chegasse a ser informado desses preparativos; aparentemente, ninguém ousou dizer-lhe que um dos seus mais importantes objetivos de guerra — o extermínio dos judeus — tinha sido parcialmente abandonado. Ver Léon Poliakov, Bréviaire de la haine, 1951, p. 232.

50. Quanto aos acontecimentos que se seguiram à morte de Stálin, ver Harrison E. Salisbury, American in Russia, Nova York, 1955.

51. Ver a excelente análise da estrutura da polícia nazista em Nazi conspiracy, II, pp. 250 ss, esp. p. 256.

52. Ibid., p. 252.

53. Franz Neumann, op. cit., pp. 521 ss, duvida se se “pode chamar a Alemanha de Estado. Parece mais uma gangue em que os líderes são perpetuamente compelidos a concordar [com seus chefes, mesmo] depois dos desacordos”. As obras de Konrad Heiden sobre a Alemanha nazista exemplificam a teoria de que o país era governado por uma clique. No tocante à formação de cliques em torno de Hitler, The Bormann letters, publicadas por Trevor-Roper, são muito elucidativas. No julgamento dos médicos (The United States vs. Karl Brandt et al., audiência de 13 de maio de 1947), Victor Brack testemunhou que, já em 1933, Bormann, certamente por ordem de Hitler, havia começado a organizar um grupo de pessoas que estariam acima do Estado e do partido.

54. Compare-se a contribuição da autora à discussão do problema da culpabilidade alemã: “Organized guilt”, em Jewish Frontier, janeiro de 1945.

55. Num discurso de 23 de novembro de 1939, citado em Trial of major war criminals, vol. 26, p. 332. Esse pronunciamento representava mais que uma aberração histérica provocada pelo acaso, como se depreende do discurso de Himmler (cuja transcrição estenográfica se encontra nos arquivos da Biblioteca Hoover, arquivo Himmler, pasta 332) na conferência dos prefeitos em Posen, em março de 1944. Diz Himmler: “Que valores podemos colocar na balança da história? O valor do nosso próprio povo. […] O segundo valor, e eu quase diria ainda maior, é a singular pessoa do nosso Führer Adolf Hitler, […] que, pela primeira vez em 2 mil anos, […] foi enviado à raça germânica como um guia supremo”.

56. Ver as declarações de Hitler sobre essa questão em Hitlers Tischgespräche, pp. 253 e 222: O novo Führer teria de ser eleito por um “senado”; o princípio orientador das eleições do Führer seria a cessação de qualquer discussão entre as personalidades que participassem da eleição. Dentro de três horas, a Wehrmacht, o partido e todos os servidores públicos teriam de prestar novo juramento. “Ele não tinha ilusões quanto ao fato de que, nessa eleição do supremo chefe do Estado, nem sempre poderia surgir uma personalidade marcante de Líder para comandar o Reich”. Mas isso não acarretava perigos, “contanto que a maquinaria geral funcionasse devidamente”.

57. Um dos princípios mestres da SS, formulado pelo próprio Himmler, diz: “Nenhuma tarefa é executada em benefício de si mesma”. Ver Gunter d’Alquen, Die SS Geschichte, Aufgabe und Organisation der Schutzstaffeln der NSDAP [A SS. História, função e organização dos Esquadrões de Proteção do NSDAP], 1939, Schriften der Hochschule für Politik.

58. Ver David J. Dallin e Boris I. Nicolaevsky, Forced labor in Russia, 1947. Durante a guerra, quando a mobilização havia criado agudo problema de mão de obra, a taxa de mortalidade nos campos de trabalho atingiu cerca de 40%. De modo geral, calcula-se que a produção de um trabalhador nos campos é menor em 50% da de um trabalhador livre.

59. Thomas Reveille, The spoil of Europe, 1941, calcula que somente durante o primeiro ano da guerra a Alemanha pôde cobrir todas as suas despesas com a preparação do conflito entre 1933 e 1939.

60. William Ebenstein, The Nazi State, p. 257.

61. Ibid., p. 270.

62. Em apoio a essa conjectura, há o fato de que o decreto para assassinar todos os doentes incuráveis foi emitido no dia em que a guerra foi declarada. As declarações de Hitler durante a guerra, citadas por Goebbels (The Goebbels diaries, editados por Louis P. Lochner, 1948), são claras nesse sentido: ‘‘A guerra possibilitou resolvermos uma porção de problemas que nunca teriam sido resolvidos em tempos normais”, e, “qualquer que seja o resultado do conflito, os judeus certamente levarão a pior” (p. 314).

63. A Wehrmacht tentou muitas vezes explicar aos vários órgãos do partido os perigos de conduzir uma guerra na qual as ordens eram dadas com o mais completo descaso às necessidades militares, civis e econômicas (ver Poliakov, op. cit., p. 321). Mas até mesmo muitos dos altos funcionários nazistas tinham dificuldade em compreender esse desprezo por todos os fatores objetivos econômicos e militares da situação. Dizia-se-lhes repetidamente que “basicamente devem esquecer as considerações econômicas na solução do problema [judaico]” (Nazi conspiracy, VI, pp. 402), mas ainda assim eles se queixavam de que importantes planos de construção não teriam sido interrompidos na Polônia “se os judeus que nele trabalhavam não houvessem sido deportados. Agora, ordena-se que os judeus sejam removidos dos projetos de armamentos. Espero que essa […] ordem seja logo cancelada, porque senão a situação será pior”. Essa esperança de Hans Frank, governador-geral da Polônia, foi tão frustrada quanto as suas expectativas posteriores de uma política militarmente mais sensata em relação aos poloneses e ucranianos. Suas queixas são interessantes (ver o seu diário em Nazi conspiracy, IV, pp. 902 ss), porque o que o assustava era exclusivamente o aspecto antiutilitário da política nazista durante a guerra. “Uma vez que a guerra tenha sido ganha, pouco se me dá se se fizer picadinho dos poloneses e ucranianos e de todos os mais aqui.”

64. Originalmente, somente as unidades especiais da SS — as formações da Caveira — eram empregadas nos campos de concentração. Mais tarde, vieram reforços das divisões da Waffen- SS. A partir de 1944, empregaram-se também unidades de Forças Armadas regulares. A maneira como a presença ativa da Wehrmacht se fazia sentir nos campos de concentração foi descrita no diário do campo de concentração de Odd Nansen, Day after day, Londres, 1949. Infelizmente, esse diário mostra que as tropas do Exército regular eram pelo menos tão brutais quanto a SS.

65. Deutscher, op. cit., p. 326. Trata-se de uma citação de peso, pois é da autoria do mais benévolo dos biógrafos não comunistas de Stálin.

66. Os nazistas gostavam especialmente de pensar em termos de milênios. Os pronunciamentos de Himmler de que os homens da SS interessavam-se unicamente por “questões ideológicas que seriam importantes em termos de décadas e de séculos” e que “serviam a uma causa que só ocorria uma vez a cada 2 mil anos” são repetidas, com ligeiras variações, em todo o material de doutrinação emitido pelo SS-Hauptamt-Schulungsamt (Wesen und Aufgabe der SS und der Polizei, p. 160). Quanto à versão bolchevista, a melhor referência é o programa da Internacional Comunista formulado por Stálin, já em 1928, no Sexto Congresso, em Moscou. Particularmente interessante é a avaliação da União Soviética como “a base do movimento mundial, o centro da revolução internacional, o mais importante fator da história do mundo. Na URSS, o proletariado mundial adquire um país pela primeira vez […]” (citado por W. H. Chamberlain, Blue-print for world conquest, 1946, que reproduz verbatim os programas da Terceira Internacional).

67. Essa mudança do lema oficial pode ser encontrada no Organisationsbuch der NSDAP, p. 7.

68. Ver Heiden, op. cit., p. 722. Hitler declarou, num discurso de 23 de novembro de 1937 perante os futuros líderes políticos na Ordensburg Sonthofen: Não “tribos ridicularmente pequenas, pequeninos países, Estados ou dinastias […] mas somente raças [podem] funcionar como conquistadores do mundo. Mas uma raça — pelo menos no sentido consciente — é algo que ainda temos de nos tornar” (ver Hitlers Tischgespräche , p. 445). Em completa harmonia com esse fraseado, que de modo algum era acidental, está o decreto de 9 de agosto de 1941 no qual Hitler proíbe o uso da expressão “raça alemã”, porque ela tenderia a “sacrificar a ideia racial em si a favor de um simples princípio de nacionalidade, e a destruir importantes precondições conceituais de toda a nossa política racial e popular” (Verfügungen, Anordnungen, Bekanntgaben ). É óbvio que o conceito de uma raça alemã teria constituído um obstáculo à progressiva “seleção” e exterminação de grupos indesejáveis da população alemã que, naqueles mesmos anos, estava sendo planejada para o futuro.

69. Ao fundar uma SS Germânica em vários países, Himmler declarou: “Não esperamos que vocês se tornem alemães por oportunismo. Mas esperamos que subordinem o seu ideal nacional ao ideal maior, racial e histórico, do Reich Alemão” (Heiden, op. cit.). A futura tarefa dessa SS seria formar, através “da mais copiosa reprodução”, um “superestrato racial” que, em vinte ou trinta anos, apresentaria “a toda a Europa a sua nova classe dirigente” (discurso de Himmler na reunião dos generais da SS em Posen, em 1943, em Nazi conspiracy, IV, pp. 558 ss).

70. Himmler, ibid., p. 572.

71. Deutscher, op. cit., descreve a notável “sensibilidade [de Stálin] para todas aquelas correntes psicológicas ocultas […] das quais se arrogava em porta-voz” (p. 292). “O próprio nome da teoria de Trótski, ‘revolução permanente’, parecia ominosa advertência a uma geração cansada. […] Stálin apelou diretamente ao horror ao risco e à incerteza que dominava muitos bolchevistas” (p. 291).

72. Assim, Hitler pôde dar-se ao luxo de usar o chavão ‘‘judeu decente”, quando havia começado a exterminá-los, ou seja, em dezembro de 1941 (Hitlers Tischgespräche, p. 346).

73. Ao falar, em novembro de 1937, a vários membros do Estado-Maior Geral (Blomberg, Fritsch, Raeder) e altos funcionários civis (Neurath, Göring), Hitler permitiu-se declarar abertamente que necessitava de espaços vazios e rejeitava a ideia de conquistar povos estrangeiros. Evidentemente nenhum dos seus ouvintes compreendeu que isso resultaria automaticamente numa política de extermínio desses povos.

74. Isso começou com uma ordem, em julho de 1934, pela qual a SS era promovida à posição de organização independente dentro do partido nazista, e foi completado com um decreto altamente confidencial de agosto de 1938, que declarava que as formações especiais da SS, as Unidades da Caveira e as Tropas de Choque ( Verfügungstruppen) não faziam parte nem do Exército nem da polícia; os Esquadrões tinham de “executar tarefas de natureza policial” e as Tropas de Choque eram “uma unidade armada de prontidão, exclusivamente à minha disposição” (Nazi conspiracy, III, pp. 459). Dois decretos subsequentes, de outubro de 1939 e abril de 1940, criavam uma jurisdição especial em assuntos gerais para todos os membros da SS (ibid., II, 184). Daí em diante, todos os panAetos publicados pelo órgão de doutrinação da SS trazem advertências como “exclusivamente para uso da polícia”, “publicação proibida”, “exclusivamente para os líderes e encarregados de educação ideológica”. Valeria a pena compilar uma bibliografia da volumosa literatura secreta da era nazista, que inclui muitas medidas legislativas. O interessante é que não há um único folheto da SA entre esse tipo de literatura, o que constitui a melhor prova de que a SA deixara de ser uma formação de elite a partir de 1934.

75. Compare-se Franz Borkenau, “Die neue Komintern”, em Der Monat, Berlim, 1949, vol. 4.

76. Os exemplos são demasiado óbvios e numerosos para serem citados. Essa tática, porém, não deve ser confundida com a enorme deslealdade e inveracidade que todos os biógrafos de Hitler e de Stálin apontam como o principal traço do caráter de cada um deles.

77. Ver a Circular do Ministério das Relações Exteriores para todas as autoridades alemãs no exterior, em janeiro de 1939, em Nazi conspiracy, VI, pp. 87 ss.

78. Em 1940, o governo nazista decretou que todos os crimes, desde alta traição contra o Reich até “pronunciamentos maliciosos e agitadores contra pessoas de importância do Estado ou do Partido Nazista”, seriam punidos com força retroativa em todos os territórios ocupados, independentemente de haverem sido cometidos por alemães ou por nativos desses países. Ver Giles, op. cit. Quanto às desastrosas consequências da Siedlungspolitik [política de transferência populacional] nazista na Polônia e na Ucrânia, ver Trial, op. cit., vols. XXVI e XIX.

79. A ideia é de Kravchencko, op. cit., p. 303, que, ao descrever as condições que prevaleciam na Rússia após o superexpurgo de 1936-8, observa: “Se um conquistador estrangeiro houvesse se apossado da máquina da vida soviética […] a mudança não poderia ter sido mais completa nem mais cruel”.

80. Hitler planejou, durante a guerra, a criação de uma Lei de Saúde Nacional: “Depois de um exame de raios X de toda a nação, o Fuehrer receberia uma lista de pessoas doentes, particularmente de portadores de moléstias do pulmão e do coração. Segundo essa nova lei de saúde do Reich […] essas famílias já não podiam permanecer misturadas ao público nem gerar crianças. O que será feito delas é objeto de futuras ordens do Fuehrer”. Não é preciso ter muita imaginação para adivinhar o que teriam sido essas ordens futuras. O número de pessoas que já não poderiam “permanecer misturadas ao público” teria constituído uma considerável proporção do povo alemão ( Nazi conspiracy, VI, p. 175).

81. O total de russos mortos durante os quatro anos de guerra é calculado entre 12 e 21 milhões. Num só ano, Stálin exterminou cerca de 8 milhões de pessoas somente na Ucrânia. Ver Communism in action, U. S. Government, Washington, 1946, House Document n o 754, pp. 140-1. Em contraste com o regime nazista, que mantinha uma conta bastante precisa do número de suas vítimas, não existe um cálculo digno de confiança dos milhões de pessoas que foram mortas no sistema soviético. Não obstante, a seguinte estimativa, citada por Souvarine, op. cit., p. 69, tem certo valor uma vez que provém de Walter Krivitsky, que tinha acesso à informação dos arquivos da GPU. Segundo ele, o censo de 1937 na União Soviética, que estatísticos russos haviam esperado que atingisse 171 milhões de pessoas, mostrou que existiam somente 145 milhões. Isso indicaria uma perda populacional de 26 milhões, algarismo que não inclui as perdas citadas acima.

82. Deutscher, op. cit., p. 256.

83. B. Souvarine, op. cit., p. 605, cita as seguintes palavras de Stálin, proferidas no auge do terror em 1937: “É preciso compreender que, de todos os recursos existentes no mundo, os melhores e mais preciosos são os quadros [do partido]”. Todos os relatórios demonstram que, na União Soviética, a polícia secreta é considerada como a verdadeira formação de elite do partido. Típico dessa natureza da polícia é o fato de que, desde o começo da década de 20, os agentes da NKVD “não eram recrutados como voluntários”, mas eram tirados dos escalões do partido. Além disso, “a NKVD não podia ser escolhida como carreira” (ver Beck e Godin, op. cit., p. 160).

84. Citado por Heiden, op. cit., p. 311.

85. Segundo relatos da última reunião, Hitler decidiu cometer suicídio depois de saber que já não podia confiar nas tropas da SS. Ver H. R. Trevor-Roper The last days of Hitler, 1947, pp. 116 ss.

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2024-03-30 15:52:55
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