Os Novos Pensadores, continuando a exploração sobre as origens ancestrais da tirania, está examinando uma obra, publicada em 1987, de Riane Eisler, intitulada O Cálice e a Espada. Segue o Capítulo 11.
A transcrição do texto abaixo – com a tradução brasileira (de Jayme Salomão) – publicado pela Imago (São Paulo: 1987) ainda não foi revisada.
CAPITULO II
LIBERTAÇÃO: A TRANSFORMAÇÃO INCOMPLETA
Esta deveria ser a era moderna, a idade da razão. O iluminismo deveria substituir a superstição; o humanismo deveria substituir o barbarismo; o conhecimento empírico deveria tomar o lugar da hipocrisia e do dogma. Contudo, talvez nunca tantos poderes mágicos tenham sido atribuídos à Palavra, pois seria através das palavras, daquilo que toma possíveis os processos de pensamento conscientes e lógicos da mente humana, que todas as antigas irracionalidades, todos os antigos erros e enfermidades da humanidade teriam solução hoje. E nunca a palavra, particularmente a palavra escrita, havia chegado tão longe.
Uma das razões disso é que nunca tantas pessoas haviam sido alfabetizadas e nunca tantos novos meios de comunicação haviam difundido a palavra a tantos habitantes de nosso planeta. O movimento rumo ao que o historiador filósofo Henry Aiken denomina a Era da Ideologia (1) ocorreu juntamente com uma mudança sócio-tecnológica maior. Esta mudança, ou “segunda onda”, nas palavras de Alvin Toffler, só foi comparável em proporção à “primeira onda” da revolução agrária, muitos milênios antes (2). A Revolução Industrial, embora basicamente limitada ao Ocidente, trouxe consigo novas tecnologias, entre as quais a prensa tipográfica, que tomou possível a primeira distribuição em larga escala de livros, revistas e jornais. Em seguida surgiram os meios de comunicação auditivos, o telégrafo, o telefone e o rádio. Seguiram-se a eles os meios de comunicação de massa visuais, o cinema e a televisão, os quais, junto com a proliferação colossal de revistas, jornais e livros, literalmente inundaram de palavras cada ponto de nosso planeta.
Mas houve, particularmente no Ocidente, outro motivo para tal explosão ideológica. Com o enfraquecimento das ideologias religiosas, na esteira da industrialização em progresso, surgiu uma fome renovada, na verdade quase um desespero, de novas formas de perceber, ordenar e avaliar a realidade; em outras palavras, a busca de novas ideologias.
Logo as vozes do que alguns consideram como um clero secular — filósofos e cientistas — se fazia ouvir em todo o mundo ocidental. No início do século XIX eles estavam em toda a parte, reinterpretando, reordenando e reavaliando a realidade de acordo com os evangelhos modernos de Kant e Hegel, Copérnico e Galileu, Darwin e Lavoisier, Mill e Rousseau, Marx e Engels, para citar apenas alguns dos primeiros profetas do mundo secular.
O malogro da razão
Esses seriam os profetas da transformação cultural. Com a liberação da mente humana pela razão, o “homem racional” — produto do Iluminismo do século XVIII — deixaria para trás a barbárie do passado.
Com a Revolução Industrial, nossa evolução tecnológica avançou aos trancos e barrancos. Logo nossa evolução cultural também o faria. Da mesma forma que as novas tecnologias materiais, tais como máquinas e medicamentos, produziram mudanças aparentemente milagrosas, novas tecnologias sociais, tais como modos melhores de organização e orientação do comportamento humano, acelerariam a realização dos mais elevados potenciais e aspirações da humanidade. Por fim, a luta secular do ser humano pela justiça, verdade e beleza poderia transformar nossos ideais em realidade.
Essa grande esperança e promessa começou aos poucos, contudo, a declinar, pois ao longo dos séculos XIX e XX o “homem racional” continuou a oprimir, matar, explorar e humilhar seus companheiros e irmãos constantemente. Usando como justificativa as novas doutrinas “científicas” como o darwinismo social do século XIX, prosseguiu a escravidão econômica das raças “inferiores”. Em vez de serem empreendidas para “salvar os pagãos” ou para a glória e poder maiores de Deus e do rei, as guerras coloniais passaram a ser travadas em nome de objetivos econômicos e políticos “racionais”, tais como a promoção do “comércio livre” e a “contenção” dos poderes econômicos e políticos rivais. E se o controle masculino sobre as mulheres não podia mais se basear em motivos irracionais como a desobediência de Eva ao Senhor, agora podia ser justificado através de novos dogmas “racionais-científicos”, que proclamavam ser a dominação masculina uma lei biológica e/ou social.
O “homem racional” então passou a explicar de que forma “subjugaria” a natureza, “domaria” os elementos e — no grande avanço do século XX — “conquistaria” o espaço. Falou sobre como precisaria entrar em guerras a fim de obter a paz, a liberdade e a igualdade, de como teria que matar crianças, mulheres e homens em atividades terroristas, de forma a proporcionar a dignidade e liberação de povos oprimidos. Como membro das elites tanto do mundo capitalista quanto do comunista, ele continuou a acumular propriedades e/ou privilégios. Para garantir mais lucros ou honrar prestações maiores, começou também a envenenar de forma sistemática seu meio ambiente físico, ameaçando assim outras espécies com a extinção, acarretando doenças graves em adultos e deformidades em bebês. E todo o tempo ele continuou explicando que fazia tudo isso por patriotismo, idealismo e — acima de tudo — racionalismo.
Finalmente, após Auschwitz e Hiroshima, a promessa da razão começou a ser questionada. O que dizer do emprego “racional” e eficiente da gordura humana para sabão? Ou da substituição altamente eficiente do banho higiênico pelo gás venenoso? Como explicar os meticulosos experimentos militares sobre os efeitos das bombas atômicas e da radiação em seres humanos totalmente indefesos? Poderia toda essa supereficiente destruição em massa ser chamada de progresso para a humanidade?
Será que a expansão em massa de material bélico, a arregimentação de populações inteiras em linhas de montagem, a computadorização de indivíduos, transformando-os em números, constituiriam um passo à frente para nossa espécie? Ou será que estes modernos desenvolvimentos, juntamente com a crescente poluição da terra, mar e ar, seriam sinais de regressão, em vez de avanço cultural? Como o “homem racional” parecia prestes a profanar e destruir nosso planeta, não seria melhor voltar ao “homem religioso”, ao tempo anterior aos avanços científicos que nos mergulharam na era secular-tecnológica?
No início do último quarto do século XX, os filósofos e cientistas sociais estavam não só questionando a razão, como todas as ideologias modernas progressistas. Nem o capitalismo nem o comunismo haviam cumprido a promessa. Por toda a parte falava-se do “fim do liberalismo” enquanto os “realistas” afirmavam que uma sociedade livre e igualitária jamais chegaria a ser algo além de um sonho utópico.
Desiludidos com o fracasso implícito das ideologias seculares progressistas, em todo o mundo as pessoas começaram a voltar-se para o cristianismo, maometanismo fundamentalista e outros ensinamentos religiosos. Assustados com os crescentes sinais do caos mundial iminente, multidões voltavam-se para a antiga ideia androcrática de que realmente importante não é a vida aqui na Terra, mas o fato de que nossa desobediência a Deus — e aos mandamentos dos homens que falam em seu nome na Terra — fará com que sejamos violentamente punidos por toda a eternidade.
Com a realidade da ameaça de aniquilação global oriunda das bombas nucleares, sob a perspectiva de uma visão de mundo que não oferece alternativas realistas ao sistema predominante, parece haver apenas três formas de responder ao que cada vez mais se assemelha a uma crise global insolúvel. Uma delas consiste em retomar à antiga visão religiosa de que a única saída encontra-se no outro mundo, onde — como afirmam os cristãos e muçulmanos xiitas, nascidos de novo — Deus recompensará aqueles que obedeceram a suas ordens e punirá os que não o fizeram. A segunda forma utiliza formas mais imediatistas de escape: o niilismo, a dessensibilização, a desesperança que alimenta a desilusão irada do punk rock, os excessos entorpecedores das drogas e do álcool ou o sexo mecânico, a decadência do excesso de materialismo ganancioso e a morte de toda compaixão através da moderna indústria de “diversão”, que começa a se assemelhar aos circos sangrentos dos últimos dias do império romano. A terceira forma consiste em tentar levar a sociedade de volta a um passado melhor e imaginário — aos “bons e velhos tempos” antes de as mulheres e “homens inferiores” questionarem seu lugar na “ordem natural”.
Mas sob a perspectiva que vimos desenvolvendo, baseada no cuidadoso reexame de nosso presente e passado, toda essa desesperança é infundada. Nem tudo é irremediável se reconhecermos não ser a natureza humana, mas sim o modelo de sociedade dominadora, o que, em nossa era de alta tecnologia, nos leva inexoravelmente em direção à guerra nuclear. Nem tudo está perdido se reconhecermos ser este sistema, e não alguma lei natural ou divina inexorável, que exige o uso de evoluções tecnológicas em busca de melhores formas de dominação e destruição — mesmo se isso nos levar à bancarrota geral e por fim à guerra nuclear. Em suma, se olharmos nosso presente a partir de uma perspectiva da teoria de transformação cultural, ficará evidente a existência de alternativas para um sistema baseado na supremacia da força de uma metade da humanidade sobre a outra. Também ficará evidente que a grande transformação da sociedade ocidental iniciada com o Iluminismo do século XVIII não fracassou, apenas ainda não foi concluída.
O desafio às premissas androcráticas
As ideias surgidas no Iluminismo do século XVIII na verdade são novas apenas em parte. Enraizadas no passado remoto por nós examinado nos primeiros capítulos, são ideias gilânicas: ideias adequadas a um sistema de parceria, e não a um sistema dominador de organização social. Foram essas ideias que em forma mais moderna ressurgiram durante o Iluminismo, encontrando novo incremento nos salões intelectuais de mulheres como Madame du Châtelet e Madame Geoffrin. A princípio, após tantos séculos de desuso e mal uso, elas não passavam de novidades, entretenimento intelectual para uma elite reduzida e instruída. Em seguida, contudo, através da melhoria nas tecnologias de comunicação de massa, como a prensa tipográfica e posteriormente também a educação de massa, tais ideias — que não se adequavam a um modelo de sociedade dominador — começaram a ser replicadas por toda parte.
Uma das primeiras e mais importantes foi a ideia de progresso, pois se o universo não era, como acreditava o dogma religioso, uma entidade imutável controlada por uma deidade todo- poderosa, e se o “homem” afinal de contas não fora criado à imagem de Deus, os progressos na natureza, na sociedade e no “homem” tornavam-se possibilidades reais. Em geral, esta é a questão ressaltada por aqueles que argumentam ter sido a grande lacuna da cultura ocidental a substituição das ideias religiosas pelas seculares. Mas o que se ignora é que não foi a religião a rejeitada, mas a premissa androcrática de que uma ordem social estática e hierárquica era a vontade de Deus (3).
Quando em 1737 o abade de Saint-Pierre escreveu suas Observações sobre o Progresso Contínuo da Razão Humana, expressou, talvez pela primeira vez em termos tão definidos, a ideia de que à frente da humanidade havia “a perspectiva de uma vida de progressos bem longa” (4). Esta ideia das imensas oportunidades de desenvolvimento da vida social e individual aqui na Terra constituiu uma total rejeição às crenças cristãs de que essa Terra era uma espécie de campo de provas onde os seres humanos, conforme um planejamento divino, são treinados e disciplinados para seu destino último — não aqui na Terra, mas na vida após a morte. A ideia de progresso, não mais sustentando um status quo autoritário, mas, ao contrário, os ideais e aspirações humanos de desenvolvimento contínuo, se harmonizava com grande parte do progresso legal, social e econômico que de fato ocorreu nos séculos XVIII e XIX.
Duas ideias correlatas, igualdade e liberdade, representaram também uma ruptura fundamental com a ideologia androcrática. Em 1651, Thomas Hobbes escreveu em seu Leviatã que “a natureza fez os homens de tal forma iguais nas faculdades de corpo e mente (…) que, feitas todas as contas, a diferença entre um homem e outro não é tão considerável assim que um homem não possa reivindicar para si qualquer benefício que o outro também tenha pretendido” (5).
No século seguinte, na França, Jean-Jacques Rousseau escreveu que os homens não só nasciam livres e iguais, mas também que esse era um “direito natural” que os autorizava a “cortar suas correntes” (6) — visão da realidade que se tomaria fundamental às revoluções francesa e americana. No mesmo século, na Inglaterra, Mary Wollstonecraft afirmava que esse “direito natural” pertencia tanto às mulheres quanto aos homens — visão que se tomaria primordial à revolução feminista ainda em progresso (7).
Por fim, no século XIX, Augusto Comte escreveu sobre o positivismo e a lei do desenvolvimento humano. John Stuart Mill falou sobre o governo representativo como o mais adequado para promover as qualidades intelectuais e morais desejáveis. E Karl Marx, influenciado em parte pelas primeiras descobertas da era pré-androcrática, escreveu a respeito de uma sociedade sem classes, na qual “o desenvolvimento livre de cada um é condição para o livre desenvolvimento de todos” (8).
Sobrepondo-se às inúmeras diferenças entre estes modernos filósofos seculares, havia a admissão antiandrocrática comum de que, em condições sociais adequadas, os seres humanos poderiam viver, e viveriam, em livre e justa harmonia. Em outras palavras, embora não articulado nesses termos, o que essas mulheres e homens imaginavam era a possibilidade de uma sociedade de parceria, e não de dominação.
Assim como hoje, nessa época o termo ser humano relacionava-se em geral com “homens” ou “humanidade”. Assim, o novo compromisso dos séculos XVIII e XIX com os direitos humanos foi geralmente considerado como aplicável apenas aos homens. Na verdade, tal compromisso aplicava-se a princípio aos homens brancos, livres e proprietários. No entanto, junto com essas rupturas ideológicas fundamentais com o passado, surgiram mudanças igualmente fundamentais na realidade social que afetaram de forma profunda as vidas de todas as mulheres e homens.
Primeiro na Revolução Americana, e em seguida na Revolução Francesa, a instituição da monarquia — durante muitos séculos a pedra fundamental da organização social androcrática — foi ameaçada. Nas mentes de um número cada vez maior de pessoas, palavras como igualdade, liberdade e progresso substituíram palavras como fidelidade, ordem e obediência. Na maior parte do mundo ocidental, as repúblicas foram substituindo aos poucos as monarquias, as escolas seculares substituíram as religiosas. E famílias menos autocráticas começaram surgir no lugar de famílias rigidamente dominadas pelo homem, nas quais a palavra do pai e marido, assim como a palavra dos reis, era a lei absoluta.
Hoje, o contínuo enfraquecimento do controle masculino no seio familiar é apresentado por muitos como parte do perigoso declínio familiar. Mas a gradativa erosão da autoridade absoluta do pai e marido constituiu pré-requisito essencial em todo o movimento moderno rumo a uma sociedade mais justa e igualitária. Como escreveu em A Família e seu Futuro o sociólogo Ronald Fletcher, um dos poucos a abordar este ponto crítico, “O fato é que a família moderna foi criada como parte necessária do processo mais amplo de aproximação dos ideais fundamentais de justiça social em toda a reconstituição da sociedade” (9).
Trabalho recente, que lança luz sobre esta dinâmica psico-histórica crítica, embora em geral pouco analisada, A Ascensão da Família Igualitária, de Randolph Trumbach (10), mostra que o surgimento da família igualitária moderna na Inglaterra, anterior a seu advento no continente, pode ser um fator importante para explicar por que a Inglaterra, ao contrário da França, Rússia e Alemanha, não atravessou violentas sublevações antimonárquicas nos séculos XVIII e XIX. A pesquisa salienta como o poder ascendente das mulheres nas famílias das classes dominantes inglesas acarretou importantes mudanças nos homens que governavam a Inglaterra. E tais mudanças tornaram estes homens mais aptos a aceitar as reformas sociais, tais como a mudança para o governo parlamentarista, com a monarquia mantendo só a liderança titular — em agudo contraste com o duradouro despotismo dos reis russos, alemães e franceses.
As ideologias seculares
Se prosseguirmos com a análise da história moderna sob a perspectiva do conflito subjacente entre androcracia e a gilania como dois caminhos distintos para nossa evolução cultural, o surgimento das ideologias seculares cada vez mais modernas adquire novo significado, bem mais auspicioso. Se utilizarmos os novos instrumentos de análise fornecidos pela teoria de transformação cultural, podemos perceber de que forma a replicação de ideias como igualdade e liberdade gradualmente levaram à formulação de novas formas de considerar o mundo. Na função de “indutoras”, tais ideias gilânicas serviram como núcleo para a formação de novos sistemas de crença, ou ideologias, que gradativamente se disseminaram pelo sistema social e, ao menos em parte, substituíram o paradigma androcrático. Aos poucos, essas ideologias desafiaram um mundo piramidal governado de cima por um Deus masculino, com homens, mulheres, crianças e por fim o restante da natureza posicionado em ordem descendente de poder dominador.
Ironicamente, uma dessas primeiras ideologias de progresso é das mais criticadas pelos progressistas atuais: o capitalismo. A base ideológica para o capitalismo já havia sido facilitada pela Reforma Protestante do século XVII. Com a ênfase dada às virtudes mercantis da indústria, realização pessoal e riqueza — e inversamente aos pecados mercantis de preguiça, fracasso pessoal e pobreza —, a ética protestante foi um pré-requisito à ascensão do capitalismo (11). Contudo, só no século XVIII o capitalismo surgiu como ideologia secular. Segundo opinião geral, seu principal autor foi o primeiro dos chamados filósofos mundanos, Adam Smith (12). Tendo sido o primeiro economista, Smith exaltou o mercado livre como fundamental a uma sociedade livre e próspera.
Divergindo de modo radical da antiga visão na qual a riqueza e a posição social dos homens era basicamente uma questão de nascimento, do fato de ele nascer nobre, artífice ou servo, o capitalismo na verdade representou um avanço rumo a uma sociedade mais livre. Ele desafiou fundamentalmente as hierarquias rígidas da organização social inicial ou proto-androcrática, na qual os homens mais fortes, brutais e violentos, os conquistadores guerreiros, nobres e reis, exerciam poderes despóticos justificados por ideologias religiosas de origem divina.
O capitalismo, primeira ideologia moderna fundamentada essencialmente em uma base econômica ou material, constituiu assim importante passo no movimento de uma sociedade dominadora para uma sociedade de parceria. Forneceu também grande parte do impulso em busca de novas formas políticas, mais responsáveis em termos sociais, tais como as monarquias constitucionais e as repúblicas. Sem dúvida, a economia capitalista era infinitamente preferível à economia feudal, que se baseava essencialmente na violência: nas eternas matanças indiscriminadas e pilhagens realizadas por senhores e reis em seu impulso aparentemente insaciável na busca de mais propriedades como base para o poder. Mas, em sua ênfase na aquisição, competitividade e cobiça individuais (a motivação do lucro), sua hierarquia inerente (a estrutura de classes) e sua contínua dependência em relação à violência (por exemplo, as guerras coloniais), o capitalismo permaneceu fundamentalmente androcrático.
E ainda mais, como declaram abertamente os modernos ideólogos capitalistas, como George Gilder, o capitalismo como o conhecemos repousa na supremacia masculina. Em seu livro Riqueza e Pobreza, aclamado pelo ex-presidente Reagan como uma das obras mais importantes sobre o capitalismo desde Riqueza das Nações, de Adam Smith, Gilder exalta de forma específica o que denomina “a agressão superior do homem” como um dos maiores valores sociais e económicos (13).
O socialismo e o comunismo foram as maiores ideologias que surgiriam em seguida. Seus primeiros teóricos rejeitaram muitas das premissas androcráticas esposadas pelo capitalismo. Os estudos de “socialistas utópicos”, tais como Charles Fourier, e o “socialismo científico” de Marx e Engels constituíram fatores poderosos na promoção do ideal de igualdade; isto é, uma organização social baseada na união ou associação, ao invés da supremacia ou dominação (14). E, embora esta tenha sido unicamente um aspecto secundário em suas obras volumosas, Marx e Engels reconheceram explicitamente a importância crucial da opressão das mulheres pelos homens, o que Engels denominou “a primeira opressão de classe” ou “a derrota histórica mundial do sexo feminino” (15).
Mas, embora em muitas partes do mundo as ideias socialistas (tais como a educação pública gratuita e o imposto de renda progressivo) ajudassem na aquisição de maior igualdade social, proporcionando alívio contra a pobreza brutal de milhões de camponeses e operários, socialismo e comunismo também mantiveram importantes componentes androcráticos. Parte do problema repousa na teoria comunista. O marxismo, que se transformou em uma das ideologias mais influentes dos tempos modernos, não abandonou o dogma androcrático de que o poder devia ser obtido através da violência, como confirma seu conhecido provérbio “os fins justificam os meios”. E parte do problema reside na forma como o marxismo tem sido aplicado na primeira nação a adotar o comunismo como ideologia oficial: a União Soviética. Marx e Engels reconheceram que a existência de profunda alteração nas relações entre mulheres e homens em tempos pré-históricos resultara na sociedade de classes que tanto abominavam. Consequentemente, nos primeiros anos da Revolução Russa foram envidados alguns esforços de forma a igualar a posição das mulheres. Mas os homens — e, de modo igualmente critico, os valores “masculinos” — permaneceram no controle (16).
De fato, uma das lições mais instrutivas da história moderna consiste na forma de como esta enorme regressão à violência e ao autoritarismo sob Stalin coincidiu com a reversão de antigas políticas que substituíram as relações patriarcais de família por um relacionamento de igualdade entre homens e mulheres. Como observaria Trotsky (mas só após sua saída do poder e posterior exílio), o fracasso da revolução comunista na obtenção de seus objetivos resultou em grande parte do fracasso de seus líderes em realizar quaisquer modificações fundamentais nas relações de família (17), ou seja, nas relações entre as duas metades da humanidade, as quais continuaram a basear-se na supremacia, e não na união.
Ao longo dos séculos XIX e XX, outras ideologias humanistas modernas — o abolicionismo, o pacifismo, o anarquismo, o anticolonialismo, o ambientalismo — também surgiram. Mas, assim como o proverbial cego descrevendo um elefante, cada uma delas descreveu diferentes manifestações do monstro androcrático como sendo a totalidade do problema. Ao mesmo tempo, fracassaram em apontar o fato de que no centro do problema persiste um modelo de espécie humana com supremacia masculina e submissão feminina.
A única ideologia a desafiar frontalmente esse modelo das relações humanas, bem como o princípio de supremacia humana baseada na violência, foi naturalmente o feminismo. Por esse motivo, ele ocupa posição única na história moderna e na história da nossa evolução cultural.
Considerado sob a longa perspectiva da evolução cultural, detalhada em capítulos anteriores, é evidente que o feminismo não constitui uma ideologia. Enquanto a ideia de nossa associação ou união com outros seres humanos só consegue ser transmitida individualmente em sistemas androcráticos, durante milênios de evolução cultural esta ideia foi expressa em termos operacionais em sociedades mais igualitárias e pacíficas. E, ao longo da história registrada — na Grécia antiga e em Roma, durante as eras trovadoresca e elisabetana, durante o Renascimento e o Iluminismo —, a “questão feminina”, de acordo com a denominação dada por Marx e Engels, constitui tema recorrente.
Porém, o feminismo como ideologia moderna só surgiu em meados do século XIX. Embora muitos dos fundamentos filosóficos para o feminismo tenham sido articulados anteriormente por mulheres como Mary Wollstonecraft, Frances Wright, Ernestine Rose, George Sand, Sarah e Angelina Grimké e Margaret Fuller, seu nascimento formal se deu em 19 de julho de 1848, em Seneca Falls, Nova Iorque (18). Ali, na primeira convenção da história registrada realizada com o fim expresso de lançar as bases para uma luta coletiva das mulheres contra a subordinação e degradação, Elizabeth Cady Stanton fez uma declaração decisiva. “Entre as diversas questões importantes trazidas a público”, disse Stanton, “não há nenhuma que afete de forma mais vital a família humana do que aquela que se costuma chamar tecnicamente de ‘direito das mulheres'” (19).
Embora a crescente expressão dessa declaração hoje desafie nosso sistema com força e certeza maiores do que nunca, o feminismo ainda é percebido por muitas pessoas como um simples “assunto para mulheres”. E consequentemente — como o feminismo continua a se separar da corrente ideológica — as demais ideologias progressistas, do centro à esquerda, continuam crivadas de enormes incoerências internas.
Em contraste, em um quarto grupo de ideologias modernas não há tais dificuldades, não há nenhum problema com a contradição entre impulsos para trás e para diante. Essas são as ideologias que começaram a evoluir nos séculos XVIII e XIX, nas obras de homens como Edmund Burke, Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche, os quais eram franca e despudoradamente androcráticos (20).
Nietzsche, cuja filosofia reidealiza o primitivismo ou a proto-androcracia, ainda é muito citado e admirado. Abertamente, sem qualquer disfarce ou dissimulação, Nietzsche declarou que, assim como só os homens devem governar as mulheres, alguns homens “naturalmente selecionados”, “socialmente puros” devem governar o restante da humanidade. Segundo ele, a religião era uma forma vil e desprezível de superstição, e ele baseava sua oposição a ideias “degeneradas” e “afeminadas” tais como igualdade, democracia, socialismo, emancipação das mulheres e humanitarismo em premissas apenas “racionais” e não-religiosas (21).
A filosofia de Nietzsche, segundo a qual os “nobres e poderosos” “devem agir sobre pessoas de classe inferior como bem desejarem”, foi a precursora do fascismo moderno. Retrocedendo aos mitos indo-europeus, Nietzsche desprezou a tradição judaico-cristã como insuficientemente androcrática, pois continha o que ele denominou moralidade “afeminada”, “escrava”: ideias como “altruísmo”, “caridade”, “benevolência” e “amor ao próximo”. Como nos dias “nobres” dos guerreiros arianos ou indo-europeus, a ordem moral ideal de Nietzsche pregou um mundo no qual apenas “os soberanos” determinavam o que é “bondade” e heróis “super-homens” lutavam em guerras gloriosas. Era um mundo governado por homens que diziam “gosto disso, pego-o para mim”, os quais sabiam como “submeter uma mulher e punir e exterminar a insolência”, e para quem os fracos “se submetem voluntariamente. (…) e sabem seu próprio lugar naturalmente”. Em suma, esse era um universo muito semelhante ao imaginado naquele documento neo-androcrático por excelência, do século XX, o Mein Kampf de Hitler (22).
O modelo dominador para as relações humanas
A moderna ascensão do fascismo e de outras ideologias de direita é muito lamentada por aqueles que ainda nutrem esperanças de que possamos prosseguir em nossa evolução cultural. Observam alarmados que as ideologias direitistas reimporiam o autoritarismo e nos levariam de volta a um período de injustiça e desigualdade ainda maiores. Mostram-se particularmente preocupados com o militarismo dos direitistas e neodireitistas, sua idealização da violência, do derramamento de sangue e da guerra, reconhecendo o perigo iminente, oferecido por esse modo de pensar, a nossa segurança e sobrevivência. Mas há um terceiro aspecto da ideologia direitista, raramente percebido, qual seja, o de que os direitistas — desde a Ação Francesa, no princípio deste século, até a Direita Americana, no fim — não só aceitam mas também reconhecem abertamente o relacionamento sistêmico entre a dominação masculina, a guerra e o autoritarismo (23).
Se reexaminarmos de forma objetiva os regimes políticos dos tempos modernos, veremos que não há coincidência no fato de a dominação masculina rígida, e com ela a supremacia de valores “masculinos”, caracterizar alguns regimes modernos mais violentos e repressores. Foi o caso da Alemanha de Hitler, da Espanha de Franco e da Itália de Mussolini. Regimes repressivos tais como os de Idi Amin na África, Zia-ul-Haq no Paquistão, Trujillo nas Antilhas e Ceausescu na Roménia reforçam essa característica (24).
Ainda mais instrutivo (e grave) é o fato de que, no “berço da moderna democracia”, a mesma administração dos Estados Unidos que se mantém acima da lei, empreende guerras secretas e destrói o bem-estar público gastando as reservas nos orçamentos militares mais elevados da história americana opõe-se igualmente à emenda constitucional que garantiria às mulheres igualdade legal, apoiando por outro lado uma emenda privando as mulheres da liberdade de escolha em relação à reprodução. Além do mais, se considerarmos com cuidado as duas ideologias neo-androcráticas religiosas mais visíveis — a dos pregadores fundamentalistas americanos como Jerry Falwell (amigo e conselheiro espiritual do ex-presidente Reagan) e a do aiatolá Khomeini no Irã —, o elo entre violência institucionalizada, repressão feminina e supressão da liberdade toma-se ainda mais evidente.
Nos Estados Unidos, Jerry Falwell pregou para milhões de telespectadores dizendo que Deus se opõe à Emenda da Igualdade de Direitos. Sua oposição à liberdade de discurso, à livre escolha pela reprodução ou não, à liberdade de culto de acordo com a consciência de cada um, constitui ameaça à liberdade. E seu apoio a uma América mais militarista e “forte”, a um governo mais repressivo na África do Sul e a outros regimes que matam e torturam seu próprio povo com armas fornecidas pelos “líderes americanos tementes a Deus” colocam o selo da vontade de Deus sobre a violência. Assim, o cristianismo androcrático de Falwell demonstra o reconhecimento da conexão entre dominação, autoritarismo e violência masculina.
Reconhecimento similar em relação a conexões foi exibido pelo aiatolá Khomeini ao proclamar a volta do chuddar, a veste de corpo inteiro que as muçulmanas tradicionalmente eram obrigadas a usar como símbolo do retorno iraniano a uma androcracia teocrática, lançada do topo por Khomeini e seus mulas (25). De fato, considerada sob a perspectiva da teoria de transformação cultural, o denominado recrudescimento islâmico representa na verdade o ressurgimento do sistema androcrático, resistindo violentamente ao ímpeto gilânico da atualidade.
O aiatolá Khomeini originalmente fora expulso do Irá após liderar um motim de dois dias em protesto ao tratamento mais igualitário dado às mulheres. Após seu retorno, um de seus primeiros atos oficiais foi a suspensão do Ato de Proteção à Família, de 1967, o que proporcionava às mulheres maior igualdade no divórcio, casamento e herança, exortando seus seguidores a reinstaurar o véu (26). Ao mesmo tempo, novas leis rígidas, que segregavam sexualmente praias e escolas e reduziam a idade mínima de casamento de meninas para 13 anos, também foram impostas de imediato (27).
Sob a nova ordem “moral” de Khomeini, a qual tolerou, e na verdade comandou, a violenta captura de diplomatas americanos como reféns e mergulhou o Irã em uma “guerra santa” contra o Iraque, qualquer desobediência aos homens agora no poder era proclamada crime contra o Islã, punível com a prisão, a tortura e até a morte. Nem a liberdade de expressão nem a imprensa foram toleradas. Qualquer tentativa de criação de partidos de oposição era estigmatizada como heresia (28). Pelo crime de crença em uma fé que estimula a igualdade entre homens e mulheres e por empreender a organização feminina, em 1983 dez mulheres Baha’i, incluindo a primeira médica iraniana, uma pianista, uma enfermeira e três estudantes, foram assassinadas em uma execução pública (29).
Em suma, aqueles que reimpõem o governo de homens fortes tanto sobre homens quanto sobre mulheres consideram básicas as chamadas questões femininas tais como a liberdade de escolha na reprodução e a igualdade de direitos legais. Na verdade, se verificarmos as ações direitistas — da Nova Direita Americana e sua contrapartida religiosa no Ocidente e Oriente —, perceberemos que para elas a volta das mulheres a seu lugar tradicional subserviente constitui prioridade máxima (30).
No entanto, ironicamente, para a maioria dos que se empenham por ideais como progresso, igualdade e paz, a relação entre “questões femininas” e a obtenção de objetivos progressistas continua invisível. Para liberais, socialistas, comunistas e outros do centro à esquerda, a liberação das mulheres é tema secundário ou periférico — a ser considerado, se o for, após a resolução das questões “mais importantes” com que nosso mundo se defronta.
Grande parte da confusão ideológica, bem como o movimento cultural do tipo “vai-e-volta” da atualidade, pode ser relacionada com o fracasso dos que trabalham em prol do progresso em perceber a impossibilidade lógica de criar uma sociedade justa e igualitária enquanto persistir o modelo dominador-dominado nas relações humanas. Na medida em que não conseguimos enxergar que a sociedade igualitária e a desigualdade entre as duas metades da humanidade são contraditórias, na verdade parece que a razão nos abandonou. Isso faz lembrar o conto de Hans Christian Andersen sobre o imperador nu, cuja nudez só era percebida por uma criança ainda sem instrução. Tendo sido adestrados na visão de mundo exigida para a manutenção do sistema predominante, até mesmo os maiores poderes lógicos de nossas mentes encontram dificuldade em estabelecer a conexão entre um modelo dominador das relações humanas e uma sociedade dominadora.
Os dois tipos humanos básicos são o masculino e o feminino. O modo como se estrutura o relacionamento de homens e mulheres representa, assim, modelo básico para as relações humanas. Consequentemente, o relacionamento dominador-dominado com outros seres humanos é internalizado desde o nascimento por cada criança criada em uma família tradicional e patriarcal (31).
No caso do racismo, esse modelo das relações humanas é generalizado de membros de um sexo diferente para membros de uma raça diferente. No fenômeno correlato do colonialismo, ele é um pouco mais generalizado, alcançando membros de uma nação diferente (em geral também de raça diferente). É um modelo que através da história serviu à racionalização de todas as variações possíveis de exploração social e econômica.
Avanço ou retrocesso?
Quando transcendemos os antigos rótulos ideológicos de liberal versus conservador, religioso versus secular ou esquerda versus direita, a história moderna torna-se sob muitos aspectos críticos radicalmente clara. As ideologias progressistas modernas podem ser vistas como parte de uma revolução crescente e contínua contra a androcracia.
Primeiro as rebeliões de burgueses, trabalhadores e camponeses (a burguesia e proletariado de Marx), e depois as dos escravos negros, colonos e mulheres, representam também parte desse movimento, ainda em evolução, de substituição da androcracia pela gilania, pois todas essas rebeliões de massa foram e são fundamentalmente contra um sistema em que a supremacia é o princípio fundamental da organização social.
Contudo, até o momento o desafio ideológico à androcracia tem sido fragmentado. A ideologia direitista ou neo-androcrática fornece uma visão internamente coerente e abrangente para a vida pessoal e pública. Mas, de todas as ideologias progressistas, só o feminismo se esquiva da inconsistência interna, aplicando princípios tais como a igualdade e a liberdade para toda a humanidade — e não só para sua metade masculina. Apenas o feminismo oferece a visão de um reordenamento da instituição social mais fundamental: a família. E o feminismo é o único a traçar a conexão sistêmica explícita da violência masculina do estupro e espancamento de esposas com a violência masculina na guerra (32).
No que concerne ao nosso moderno sistema ideológico, o feminismo pode ser considerado um poderoso “indutor”. Enquanto ainda estava na periferia do sistema, durante os séculos XIX e XX o feminismo tem atuado como um “indutor” periódico, guiando o movimento intelectual rumo a uma visão de mundo na qual mulheres e feminilidade deixem de ser desvalorizadas. Mas, em nossa época de crescente desequilíbrio sistêmico, o feminismo poderia tomar-se o cerne de uma nova ideologia gilânica inteiramente integrada. Incorporando os elementos humanistas de nossas ideologias religiosas e seculares, esta moderna visão gilânica de mundo por fim proporcionaria a ideologia internamente coerente, abrangente, necessária à substituição de uma sociedade dominadora por uma de parceria.
Leia-se no lugar de “indutor” = atrator. Outro ponto: não é uma nova ideologia que pode fazer isso e sim um novo comportamento.
Há hoje em dia movimentos que visam a uma ideologia desse tipo. Por exemplo, em 1985, no Simpósio do Novo Paradigma, patrocinado pelo Instituto Elmwood, de Fritjof Capra, o novo paradigma foi descrito como “pós-patriarcal” e a nova epistemologia vista como representativa de “uma mudança da dominação e controle da natureza para a cooperação e não-violência” (33). Futurólogos do sexo masculino tais como Robert Jungk, David Loye e John Platt também reconheceram a ligação entre a igualdade feminina e a paz (34). A Declaração de 1985 da Baha’i Universal House of Justice, apresentada aos chefes de estado mundiais, reconhece de forma explícita que “a obtenção da total igualdade entre os sexos” é pré-requisito para a paz mundial (35).
Filósofas e ativistas feministas de todo o mundo vêm exigindo uma nova ética para mulheres e homens, baseada nos valores “femininos” tais como a não-violência e o zelo: são mulheres como Wilma Scott Heide, Helen Caldicott, Betty Friedan, Alva Myrdal, Elise Boulding, Fran Hosken, Hilkka Pietila, Charlene Spretnak, Celina Gracia, Gloria Steinem, Dame Nita Barrow, Patricia Ellsberg, Patricia Mische, Barbara Deming, Mara Keller, Bella Abzug, Pam McAllister, Allie Hixson e Elizabeth Dodson-Gray (36). Incontáveis artistas, escritoras, teólogas e cientistas feministas estão fornecendo novas teorias e imagens adequadas a um mundo de parceria, e não de dominação: Jessie Bemard, Carol Christ, Abida Khanum, Susan Griffin, Karen Sacks, Judith Plaskow, June Brindel, Gita Sen, Rosemary Radford Ruether, Dale Spender, Nawai El Saadawi, Jean O’Barr, Betty Reardon, Starhawk, Paula Gunn Allen, Carol Giligan, Charlotte Bunche, Judy Chicago, Mayumi Oda, Alice Walker, Margaret Atwood, Georgia O’Keefe, Peggy Sanday, Holly Near, Ursula Le Guin, E. M. Broner, Marge Piercy, Ellen Marie Chen, Alix Kates Shulman, para citar apenas algumas (37).
Há também tentativas de fundar movimentos políticos essencialmente gilânicos, baseados na união e não na supremacia. Por exemplo, a visão de Petra Kelly sobre um partido ecológico- feminista pacifista forneceu grande parte do impulso para os verdes da Alemanha Ocidental (38). E a Plataforma do Partido dos Cidadãos de Sônia Johnson para as eleições presidenciais de 1985 nos EUA articulou bem a importância fundamental do feminismo para qualquer mudança importante nas áreas social, econômica e política.
Todos esses são passos na direção de uma revisão coerente e integrada da realidade, necessária a efetivamente promover a realização de uma sociedade de parceria. Embora em geral não pensemos nelas dessa forma, a maioria das realidades sociais — escolas, hospitais, bolsas de valores, partidos políticos, igrejas — são realizações de ideias que no passado só existiam na cabeça de algumas mulheres e homens. Isso também se aplica à abolição da escravatura, à substituição de monarquias por repúblicas e a todos os outros avanços que obtivemos nas últimas centenas de anos (39). Até mesmo as realidades físicas — mesas, livros, vasos, aviões, violinos — são realizações de ideias humanas. Mas para que novas ideias sejam traduzidas em novas realidades é preciso não só clareza de visão mas também a oportunidade de mudança das antigas realidades.
A agitação dos tempos modernos como período de mudança tecnológica sem precedentes fornece a oportunidade para a mudança social — potencialmente, para uma transformação social fundamental. Como podemos ver à nossa volta, rápidas mudanças tecnológicas geram instabilidade social. E, como evidencia a teoria de transformação, quando há estados de instabilidade, pode ocorrer uma mudança de um sistema para outro.
As modernas rebeliões de mulheres e homens contra a sociedade dominadora aconteceram junto com grandes avanços tecnológicos. Além disso, todas as grandes mudanças tecnológicas forneceram o impulso para o avanço gilânico, forçando as mudanças nos papéis tanto de mulheres quanto de homens. Hoje até a natureza parece estar se rebelando contra a androcracia; na erosão do solo, no esgotamento de reservas, na chuva ácida, na poluição ambiental. Mas esta rebelião da natureza não significa, como às vezes se argumenta, uma rebelião contra a tecnologia. Ao contrário, é uma rebelião contra os usos exploradores e destrutivos da própria tecnologia empregada em uma sociedade dominadora, na qual os homens devem continuar conquistando — seja a natureza, as mulheres ou outros homens.
Afirma-se que a tecnologia moderna é um perigo não só para nossa evolução cultural como também para nossa evolução biológica. Na medida em que subsistir a androcracia, a tecnologia avançada de fato representara uma ameaça maior a nossa sobrevivência. No entanto, até mesmo essa ameaça fornece maior impulso para a fundamental transformação dos sistemas.
Nesse nível básico, a investida gilânica moderna pode ser vista como um processo adaptativo, impelido pelo impulso de sobrevivência de nossa espécie. Como examinaremos nos capítulos seguintes, a crescente evidência em todos os lugares revela que o sistema dominante está se aproximando muito rápido de seu fim evolutivo lógico, o fim da linha de um desvio androcrático de cinco mil anos. O que pode estar à frente é o último derramamento de sangue, resultante dos esforços violentos desse sistema agonizante na tentativa de manutenção de seu poder. Mas os espasmos mortais da androcracia podem constituir também o parto da gilania e a abertura da porta para um novo futuro.
Notas
1 Henry Aiken, The Age of ideology (Nova Iorque: Mentor, 1956).
2 Alvin Toffler, The Third Wave (Nova Iorque: Baniam, 1980).
3 Riane Eisler e David Loye, Breaking Free, a ser lançado.
4 Abade de Saint-Pierre, citado em Mary Beard, Woman as a Force in History (Nova Iorque: Macmülan, 1946), 330.
5 Ibid. 150. Os Levellers, seita que sustentou a Revolução de Cromwell, a qual derrotou a monarquia britânica em 1649, sustentava também que “por direito natural de nascença todos os homens nascem iguais e semelhantes para apreciar a propriedade, liberdade e independência (…) todo homem por natureza é um Rei, Sacerdote e Profeta em seu próprio circuito e compasso naturais”.
6 Jean-Jacques Rousseau, The Social Contract (Nova Iorque: Hafner Press, 1954).
7 Mary Wollstonecraft, “A Vindication of the Rights of Woman” em Feminism: The Essential Historical Writings, Miriam Schneir, org. (Nova Iorque: Vintage Books, 1972), 6-16.
8 Para Comte, ver Aiken, The Age of ideology, 128. Para Mill e Marx, ver Alburey Castell, An Introduction to Modern Philosophy (Nova Iorque: Macmülan, 1946), 455,535.
9 Ronald Fletcher, “The Making of the Modern Family”, em The Family and Its Future, Katherine Eiliott, org. (Londres: J. & A. Churchill, 1970), 183.
10 Randolph Trumbach, The Rise of the Equalitarian Family: Androcratic Kinship and Domestic Relations (Nova Iorque: Academic Press, 1978).
11 Ver, por exemplo, Max Weber, The Protestara Ethic an the Spirit of Capitalism (Londres, Allen & Unwin, 1930); e R. H. Tawney, Religion and the Rise of Capitalism (Nova Iorque: Harcourt Brace, 1926).
12 Ver, por exemplo, Robert Heilbroner, The Worldly Philosophers (Nova Iorque: Simon & Schuster, 1961).
13 George Gilder, Wealth and Poverty (Nova Iorque: Basic Books, 1981).
14 Ver capítulo sobre Saint-Simon em Timothy Raison, org. The Founding Fathers of Sociology (Baltimore: Peguin Books, 1969); discussão sobre Charles Fourier em Heibroner, The Worldly Philosophers; Karl Marx, O Capital.
15 . Friedrich Engels, The Origin of the Family, Private Property, and the State (Nova Iorque: International Publishers, 1972), 58, 50.
16 Sheila Rowbotham, Women, Resistance and Revolution (Nova Iorque: Vintage, 1974); Kate Millett, Sexual Politics (Nova Iorque: Doubleday, 1970); Riane Eisler e David Loye, The Failure’ of Liberalism: A Reassessment of Ideology from a New Feminine-Masculine Perspective”, Political Psychology 4 (1983): 375-91; Eisler e Loye, Breaking Free.
17 Leon Trotsky, The Revolution Betrayed, traduzido por Max Eastman (Nova Iorque: Merit, 1965). Trotsky salienta: “Não é possível ‘abolir’ a família, é preciso substituí-la” (145).
18 Ver, por exemplo, Dale Spender, org. Feminist Theorists: Three Centuries of Key Women Thinkers (Nova Iorque: Pantheon, 1983); Schneir, org., Feminism.
19 Ellen Carol du Bois, org., Elizabeth Cady Stanton, Susan B. Anthony: Correspondence, Writings, Speeches (Nova Iorque: Schocken, 1981), 29.
20 Ver Castell, 421-52,123-41, 321-36.
21 Ibid., 340.
22 Ibid. Citações de Nietzsche (em ordem) das pp. 358-59, 352, 353; Adolf Hitler, Mein Kampf (Boston: Houghton Mifflin, 1962).
23 Ver, por exemplo, Bertram Gross, Friendly Fascism (Boston: South End Press, 1980); Liberty 79 (julho-agosto de 1984) e 80 (novembro-dezembro de 1985); Eugen Weber, The Nationalist Revival in France: 1905-1914 (Berkeley e Los Angeles: University of Califórnia Press, 1959); Riane Eisler, “Human Rights: The Unfinished Struggle”, International Journal of Women’s Studies 6 (setembro-outubro de 1983): 326-35; Riane Eisler, “The Human Life Amendment and The Future of Human Life”, The Humanist 41 (setembro-outubro de 1981): 13-19; Alan Crawford, Thunder on the Right (Nova Iorque: Pantheon Books, 1980).
24 Ver, por exemplo, Riane Eisler, “Women’s Rights and Human Rights”, The Humanist 40 (novembro-dezembro de 1980): 4-9; Eisler e Loye, “The ‘Failure’ of Liberalism”; Edward L. Ericson, American Freedom and the Radical Right (Nova Iorque: Frederick Ungar, 1982). Ver também Liberty 79 (julho-agosto de 1984).
25 Fred Brenner, “Khomeini’s Dream of an Islamic Republic”, Liberty 74 (julho-agosto de 1979): 11-13.
26 Ibid., 12.
27 Atlas World Press Review, setembro de 1979.
28 Brenner, “Khomeini’s Dream of an Islamic Republic”.
29 Women’s International Network News 9 (outono de 1983): 42. Estas não foram as primeiras mulheres Baha’i a morrer por sua fé, por terem aderido à igualdade de homens e mulheres. Tahiri, uma das discípulas originais de Bab (que fundou a fé Baha’i), entregou-se à morte, proclamando: “Podem me matar, mas não podem deter a emancipação das mulheres” citado em John Huddieston, The Earth Is But One Country (Londres: Baha’i Publishing Trust, 1976): 154.
30 Este ponto será examinado em profundidade em Breaking Free, de Eisler e Loye. Ver também notas 23 e 24 acima.
31 Isto inclui as mulheres e os homens, a fim de que as mulheres não só aceitem a própria dominação, mas apoiem os atos de violência dos homens contra outros.
32 Ver, por exemplo, Wilma Scott Heide, Feminism for the Health of It (Buffalo: Margaretdaughters Press, 1985); Mary Daly, Gyn/Ecology: The Metaethics of Radical Feminism (Boston: Beacon Press, 1978); Adrienne Rich, Of Women Born (Nova Iorque: Baniam, 1976); Sônia Johnson, From Housewife to Heretic (Garden City, Nova Iorque: Anchor Doubleday, 1983). Breaking Free, de Riane Eisler e David Loye analisa em profundidade a dinâmica subjacente à relação entre a dominação masculina e a guerra, enfocando a história contemporânea. Aqui deve ser observada a distinção entre sociedades belicosas e tempos de guerra. O fato de a condição feminina costumar ser inferior em sociedades belicosas não implica necessariamente que a posição das mulheres sempre decline durante períodos de guerra. Na verdade, há algumas situações em que a ausência de homens nas guerras produz uma melhoria temporária no status das mulheres, que então conseguem a oportunidade de assumir algumas “tarefas masculinas” altamente valorizadas. Como exemplo podemos citar regiões da Europa feudal, quando os homens partiram para as Cruzadas, e regiões dos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra Mundial. Mas fundamental é o fato de a independência e condição social feminina só aumentarem por um período de tempo limitado. Como não há maior valorização das mulheres e características “femininas” tais como compaixão, zelo e não-violência, as mulheres são outra vez relegadas às “funções femininas” e à subserviência quando os homens retornam – e o sistema continua pautado na supremacia masculina e na belicosidade.
33 New Paradigm Symposium, Esalen Institute, Big Sur, Califórnia, 29 de novembro a 4 de dezembro de 1985.
34 Ver, por exemplo, John Platt, “Women’s Roles and the Great Worid Trans-formation”, Futures 7 (outubro de 1975); David Loye, “Men at the U.N. Women’s Conference”, The Humanist 45 (novembro/dezembro de 1985). Robert Jungk, um dos “papas” do movimento pacifista europeu, tem também apoiado ativamente a maior participação das mulheres na política, reconhecendo ser este um pré-requisito para a paz.
35 The Promise of World Peace (Haifa: Baha’i Worid Center, 1985), 11-12.
36 Ver, por exemplo, Heide, Feminism for the Health of It, Fran Hosken, The Hosken Report: Genital and Sexual Mutilation of Females (Lexington, MA: Women’s International Network News, 1979); Helen Caldicot, Nuclear Madness (Nova Iorque: Bantam Books, 1980); Pam McAllister, org., Reweaving the Web of Life: Feminism and Nonviolence (Filadélfia, New Society Publishers, 1982); Charlene Spretnak, org., The Politícs of Women’ss Spirituality (Nova Iorque: Doubleday Anchor, 1982); Elizabeth Dodson-Gray, Green Paradise Lost (Wellesley, MA: Roundtable Press, 1979); Hilkka Pietila, “Tomorrow Begins Today”, ICDA/ISIS Workshop in Fórum, Nairobi, 1985.
37 Ver, por exemplo, Abida Khanum, The Black-Eyed Houri: Women m the Moslem Worid (em elaboração); Susan Griffin, Women in Nature (Nova Iorque: Harper Colophon Books, 1978); Paula Guim AUen, The Woman Who Owned the Shadows (San Francisco: Spinster’s Ink, 1983); Jean 0’Barr, Third Worid Women: Factors in Their Changing Status (Durham, NC: Duke University Center for Internacional Studies, 1976); Judy Chicago, The Dinner Party (Garden City, Nova Iorque: Doubleday, 1979); Alice Walker, The Color Purple (Nova Iorque: Harcourt Brace Jovanovich, 1982); Rose-mary Redford Ruether, org., Religion and Sexism: Images of Women in Jewish and Christian Traditions (Nova Iorque: Simon & Schuster, 1974); Evelyn FoX Keller, A Feeling for the Organism: The Life and Work of Barbara Mc-Clintock (San Francisco: W. H. Freeman, 1983).
38 Um notável trabalho sobre o tema é o de Fritjof Capra e Charlene Sprenak, Green Politics (Nova Iorque: Dutton, 1984).
39 Como enfatiza o futurólogo Stuart Conger, assim como o papel e a caneta, carruagens e aviões, ou ábacos e computadores constituem invenções tecnológicas, as instituições que consideramos inerentes, como tribunais, escolas e igrejas, são invenções sociais. Todos são produtos da mente humana (Social Inventions, Prince Albert, Saskatchewan; Saskatchewan Newstart Incorporated, 1970).
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