Harari e suas 21 lições para o século 21 – Parte I. 4 – Igualdade

Prosseguindo num novo itinerário de exploração dos Novos Pensadores em 2019 vamos continuar a ler e comentar o último livro de Yuval Harari (2018):

HARARI, Yuval (2018). 21 lessons for the 21st century. New York: Spiegel & Grau, 2018.

Vamos usar a tradução brasileira de Paulo Geiger. 21 lições para o século 21. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

Para baixar o PDF com o texto integral clique aqui: 21-licoes-para-o-seculo-21-Yuval-Noah-Harari

Já foi publicada a Introdução

Também já foi publicada a Parte I. 1. – Desilusão

E ainda a Parte I. 2. – Trabalho

E a Parte I. 3. – Liberdade

As notas em azul servem apenas como provocações para a conversação.

PARTE I

O desafio tecnológico

O gênero humano está perdendo a fé na narrativa liberal que dominou a política global em décadas recentes, justamente quando a fusão da biotecnologia com a tecnologia da informação nos coloca diante das maiores mudanças com que o gênero humano já se deparou.

[…]

4. Igualdade

Os donos dos dados são os donos do futuro

Nas últimas décadas foi dito às pessoas em todo o mundo que o gênero humano está no caminho da igualdade, e que a globalização e as novas tecnologias nos ajudarão a chegar lá mais cedo. Na verdade, o século XXI poderia criar a sociedade mais desigual na história. Embora a globalização e a internet representem pontes sobre as lacunas que existem entre os países, elas ameaçam aumentar a brecha entre as classes, e, bem quando o gênero humano parece prestes a alcançar unificação global, a espécie em si mesma pode se dividir em diferentes castas biológicas.

De que ‘classes’ Harari está falando? Das classes sociais, stricto sensu, como grupos definidos a partir da sua posição no processo de produção ou de acumulação ampliada do capital?

A desigualdade remonta à Idade da Pedra. Trinta mil anos atrás, grupos de caçadores-coletores enterravam alguns de seus membros em sepulturas suntuosas repletas de contas, braceletes, joias e objetos de arte, enquanto outros membros tinham de se contentar com uma cova simples. Não obstante, os antigos grupos de caçadores-coletores ainda eram mais igualitários do que qualquer sociedade humana subsequente, porque tinham poucas propriedades. A propriedade é um pré-requisito para uma desigualdade de longo prazo.

Essa “desigualdade” paleolítica poderia ser considerada uma desigualdade em termos econômicos? Havia desigualdade econômica – derivada de acesso diferencial à propriedade – em grupos de caçadores-coletores?

Depois da revolução agrícola, a propriedade multiplicou-se, e com ela a desigualdade. Quando humanos obtiveram propriedade de terra, animais, plantas e ferramentas, surgiram rígidas sociedades hierárquicas, nas quais pequenas elites monopolizavam a maior parte da riqueza e do poder, geração após geração. Os humanos aceitaram esse arranjo como sendo natural e até mesmo proveniente de ordem divina. A hierarquia não era apenas a norma, mas também o ideal. Como poderia haver ordem sem uma hierarquia clara entre aristocratas e pessoas comuns, entre homens e mulheres, entre pais e filhos? Sacerdotes, filósofos e poetas em todo o mundo explicavam pacientemente que, assim como no corpo humano seus membros não são iguais — os pés têm de obedecer à cabeça —, também na sociedade humana a igualdade só traz o caos.

Quanto depois dessa revolução agrícola isso aconteceu? Ao que se saiba sociedades hierárquicas só apareceram com o surgimento das primeiras formas de Estado ou proto-Estados. Sociedades agrícolas neolíticas não eram hierárquicas, nelas não havia aristocracia. A hierarquia só passou a ser estruturante de um modo de vida e convivência social sob autocracias.

Na modernidade tardia, no entanto, a igualdade tornou-se um ideal em quase todas as sociedades humanas. Isso se deve em parte ao surgimento das novas ideologias do comunismo e do liberalismo. Mas também à Revolução Industrial, que deu às massas uma importância nunca antes vista. A economia industrial dependia de massas de trabalhadores comuns, enquanto exércitos industriais dependiam de massas de soldados comuns. Tanto em ditaduras quanto em democracias, governos investem pesadamente na saúde, educação e bem-estar social das massas, porque precisam de milhões de trabalhadores saudáveis para operar as linhas de produção e de milhões de soldados leais para lutar nas trincheiras.

Consequentemente, a história do século XX girou em grande medida em torno da redução da desigualdade entre classes, raças e gêneros. Embora o mundo no ano 2000 ainda tenha seu quinhão de hierarquias, ele é assim mesmo um lugar muito mais igualitário do que o mundo em 1900. Nos primeiros anos do século XXI esperava-se que o processo igualitário continuasse e até mesmo se acelerasse. Esperava-se que a globalização disseminasse a prosperidade econômica pelo mundo, e que como resultado pessoas na Índia e no Egito usufruiriam das mesmas oportunidades e privilégios de pessoas na Finlândia e no Canadá. Uma geração inteira cresceu sob essa promessa.

Agora parece que a promessa talvez não seja cumprida. Certamente a globalização beneficiou grandes segmentos da humanidade, mas há sinais de uma crescente desigualdade, entre e dentro das sociedades. Alguns grupos monopolizam cada vez mais os frutos da globalização, enquanto bilhões são deixados para trás. Hoje, o 1% mais rico é dono de metade da riqueza do mundo. Ainda mais alarmante, as cem pessoas mais ricas possuem juntas mais do que as 4 bilhões mais pobres (1).

E é provável que fique muito pior. Como explicado nos capítulos anteriores, o surgimento da IA pode extinguir o valor econômico e a força política da maioria dos humanos. Ao mesmo tempo, aprimoramentos em biotecnologia poderiam possibilitar que a desigualdade econômica se traduza em desigualdade biológica. Os super-ricos teriam finalmente algo que vale a pena fazer com sua estupenda riqueza. Enquanto até agora só podiam comprar pouco mais que símbolos de status, logo poderão ser capazes de comprar a própria vida. Se os novos tratamentos para prolongar a vida e aprimorar habilidades físicas e cognitivas forem dispendiosos, o gênero humano poderia se dividir em castas biológicas.

No decorrer da história, os ricos e a aristocracia sempre imaginaram que tinham qualificações superiores às de todos os outros, e que por isso estavam no controle. Até onde podemos afirmar, isso não era verdade. Um duque mediano não era mais talentoso do que um camponês mediano — sua superioridade era devida apenas a uma discriminação legal e econômica injusta. No entanto, em 2100 os ricos poderiam realmente ser mais talentosos, mais criativos e mais inteligentes do que os moradores de favelas. Uma vez aberto um fosso entre habilidades de ricos e pobres, será quase impossível fechá-lo. Se os ricos utilizarem suas competências superiores para enriquecer ainda mais, e se dinheiro a mais pode comprar para eles corpos e cérebros incrementados, com o tempo a brecha vai só aumentar. Em 2100, o 1% mais rico poderia possuir não apenas a maior parte da riqueza do mundo mas também a maior parte da beleza, da criatividade e da saúde.

É um cenário comum de ficção científica. Mas Harari ainda pensa em termos de mundo único. Em alguns mundos é possível que isso que ele prevê aconteça (e que em 2100 ainda existam favelas). Em outros, não.

Os dois processos juntos – a bioengenharia associada à ascensão da IA – poderiam, portanto, resultar na divisão da humanidade em uma pequena classe de super-humanos e uma massiva subclasse de Homo sapiens inúteis. Para piorar ainda mais uma situação que já é nefasta, à medida que as massas perdem importância econômica e poder político, o Estado poderia perder pelo menos parte do incentivo para investir em sua saúde, sua educação e seu bem-estar social. É perigoso ser obsoleto. O futuro das massas dependerá então da boa vontade de uma pequena elite. Talvez haja boa vontade durante umas poucas décadas. Mas em tempos de crise — como uma catástrofe climática — seria muito tentador e fácil descartar as pessoas supérfluas.

Em países como a França e a Nova Zelândia, com longa tradição de convicções liberais e práticas de Estado de bem-estar social, talvez a elite continue a cuidar das massas mesmo quando não precisar delas. No entanto, nos Estados Unidos, mais capitalistas, a elite poderia aproveitar a primeira oportunidade para desmantelar o que restava do Estado de bem-estar social. Um problema ainda maior ocorre em grandes países em desenvolvimento, como a Índia, a China, a África do Sul e o Brasil. Lá, se as pessoas comuns perderem seu valor econômico, a desigualdade poderia disparar.

Consequentemente, em vez de a globalização resultar em prosperidade global, ela poderia na verdade resultar em “especiação”: a divisão do gênero humano em diferentes castas biológicas, ou até mesmo espécies diferentes. A globalização unirá o mundo horizontalmente, apagando fronteiras nacionais, mas ao mesmo tempo vai dividir a humanidade verticalmente. As oligarquias no poder em países tão diversos como Estados Unidos e Rússia podem unir-se contra a massa de Sapiens comuns. Dessa perspectiva, o atual ressentimento popular em relação “às elites” é bem fundamentado. Se não tivermos cuidado, os netos dos magnatas do Vale do Silício e dos bilionários de Moscou podem se tornar uma espécie superior à dos netos de lenhadores dos Apalaches e dos vilarejos da Sibéria.

No longo prazo, esse cenário poderia até mesmo desglobalizar o mundo, pois a classe superior se congrega numa autoproclamada “civilização” e constrói muros e fossos para isolá-la das hordas de “bárbaros” no lado de fora. No século XX, a civilização industrial depende dos “bárbaros” para ter mão de obra barata, matéria-prima e mercados. Por isso ela os conquistou e absorveu. Mas no século XXI, uma civilização pós-industrial baseada em IA, bioengenharia e nanotecnologia poderia ser muito mais autocontida e autossustentada. Não apenas classes, mas países e continentes inteiros poderiam tornar-se irrelevantes. Fortificações guardadas por drones e robôs poderiam separar a zona autoproclamada civilizada, onde ciborgues lutam entre si em código, das terras bárbaras onde humanos selvagens lutam entre si com machetes e Kaláshnikovs.

Isso é possível. Mas aponta para múltiplos mundos. A desglobalização (ou a reação à globalização) já começou, ao lado, porém, da globalização. Na verdade, se trata de glocalização (local conectado como o mundo todo) e localização não-cosmopolita (tipo America First), com o reflorescimento de nacionalismos.

Ao longo deste livro usei frequentemente a primeira pessoa do plural para falar sobre o futuro do gênero humano. Falo sobre o que “nós” precisamos fazer quanto aos “nossos” problemas. Porém talvez não haja “nós”. Talvez um dos “nossos” maiores problemas seja o de que diferentes grupos humanos têm futuros completamente diferentes. Talvez em algumas partes do mundo você deva ensinar seus filhos a escrever programas de computador, enquanto em outras seria melhor ensiná-los a atirar com precisão.

Exato. Muitos mundos.

QUEM É DONO DOS DADOS?

Se quisermos evitar a concentração de toda a riqueza e de todo o poder nas mãos de uma pequena elite, a chave é regulamentar a propriedade dos dados. Antigamente a terra era o ativo mais importante no mundo, a política era o esforço por controlar a terra, e se muitas terras acabassem se concentrando em poucas mãos — a sociedade se dividia em aristocratas e pessoas comuns. Na era moderna, máquinas e fábricas tornaram-se mais importantes que a terra, e os esforços políticos focam-se no controle desses meios de produção. Se um número excessivo de fábricas se concentrasse em poucas mãos — a sociedade se dividiria entre capitalistas e proletários. Contudo, no século XXI, os dados vão suplantar tanto a terra quanto a maquinaria como o ativo mais importante, e a política será o esforço por controlar o fluxo de dados. Se os dados se concentrarem em muito poucas mãos — o gênero humano se dividirá em espécies diferentes.

Esta hipótese – a principal (talvez a única) de Harari – é considerável.

A corrida para obter dados já começou, liderada por gigantes como Google, Facebook e Tencent. Até agora, muitos deles parecem ter adotado o modelo de negócios dos “mercadores da atenção” (2). Eles capturam nossa atenção fornecendo-nos gratuitamente informação, serviços e entretenimento, e depois revendem nossa atenção aos anunciantes. Mas provavelmente visam a muito mais do que qualquer mercador de atenção anterior. Seu verdadeiro negócio não é vender anúncios. E sim, ao captar nossa atenção, eles conseguem acumular imensa quantidade de dados sobre nós, o que vale mais do que qualquer receita de publicidade. Nós não somos seus clientes — somos seu produto.

A médio prazo, esse acúmulo de dados abre caminho para um modelo de negócio inédito, cuja primeira vítima será a própria indústria da publicidade. O novo modelo baseia-se na transferência da autoridade de humanos para algoritmos, inclusive a autoridade para escolher e comprar coisas. Quando algoritmos escolherem e comprarem coisas para nós, a indústria da publicidade tradicional irá à falência. Considere o Google. O Google quer chegar a um ponto no qual poderemos perguntar-lhe qualquer coisa e obter a melhor resposta do mundo. O que vai acontecer quando pudermos perguntar ao Google: “Oi, Google, com base em tudo o que você sabe sobre carros e com base em tudo o que você sabe sobre mim (inclusive minhas necessidades, meus hábitos, minhas opiniões sobre o aquecimento global, e até mesmo minhas ideias sobre a política no Oriente Médio), qual é o melhor carro para mim?”. Se o Google for capaz de dar uma boa resposta, e se aprendermos com a experiência a confiar no bom senso do Google em vez de em nossos sentimentos facilmente manipuláveis, qual será a utilidade das propagandas de carro? (3)

No longo prazo, ao reunir informação e força computacional em quantidade suficiente, os gigantes dos dados poderão penetrar nos mais profundos segredos da vida, e depois usar esse conhecimento não só para fazer escolhas por nós ou nos manipular mas também na reengenharia da vida orgânica e na criação de formas de vida inorgânicas. Vender anúncios pode ser necessário para sustentar os gigantes no curto prazo, mas eles frequentemente avaliam aplicativos, produtos e companhias em função dos dados que colhem deles, e não do dinheiro que eles geram. Um aplicativo popular pode não ter um bom modelo de negócios e até mesmo perder dinheiro no curto prazo, mas na medida em que absorver dados pode valer bilhões (4). Mesmo que não se saiba como fazer dinheiro com os dados hoje em dia, vale a pena tê-los porque eles podem ser a chave para controlar e modelar a vida no futuro. Não tenho certeza de que os gigantes dos dados pensam explicitamente nesses termos, mas suas ações indicam que dão mais valor aos dados acumulados do que a meros dólares e centavos.

Humanos comuns vão descobrir que é muito difícil resistir a esse processo. No presente, as pessoas ficam contentes de ceder seu ativo mais valioso — seus dados pessoais — em troca de serviços de e-mail e vídeos de gatinhos fofos gratuitos. É um pouco como as tribos africanas e nativas americanas que inadvertidamente venderam países inteiros a imperialistas europeus em troca de contas coloridas e bugigangas baratas. Se, mais tarde, pessoas comuns decidirem tentar bloquear o fluxo de dados, podem descobrir que isso é cada vez mais difícil, especialmente se tiverem chegado a ponto de depender da rede para todas as suas decisões, até mesmo para sua saúde e sua sobrevivência física.

Humanos e máquinas poderão se fundir tão completamente que os humanos não serão capazes de sobreviver se estiverem desconectados da rede. Estarão conectados desde o útero, e, se em algum momento da vida você optar por se desconectar, as companhias de seguro talvez se recusem a lhe fazer um seguro de vida, empregadores talvez se recusem a empregá-lo, e serviços de saúde talvez se recusem a cuidar de você. Na grande batalha entre saúde e privacidade, a saúde provavelmente vencerá sem muito esforço.

De que rede Harari fala? A rede social não aparece em nenhum momento. Ele fala das redes de dados, das redes de informação, das redes de computadores.

À medida que, através de sensores biométricos, cada vez mais dados fluírem de seu corpo e seu cérebro para máquinas inteligentes, será fácil para corporações e agências do governo conhecer você, manipular você e tomar decisões por você. Mais importante ainda, eles serão capazes de decifrar os mecanismos profundos de todos os corpos e cérebros, e com isso adquirir o poder de fazer a engenharia da vida. Se quisermos evitar que uma pequena elite monopolize esses poderes, que parecem divinos, e se quisermos impedir que a humanidade se fragmente em castas biológicas, a questão-chave é: quem é dono dos dados? Os dados de meu DNA, meu cérebro e minha vida pertencem a mim, ao governo, a uma corporação ou ao coletivo humano?

Obrigar os governos a nacionalizar os dados provavelmente ia restringir o poder das grandes corporações, mas também pode resultar em assustadoras ditaduras digitais. Os políticos são um pouco como músicos, e o instrumento que eles tocam é o sistema emocional e bioquímico humano. Eles fazem um discurso — e há uma onda de medo no país. Eles escrevem uma mensagem no Twitter, e há uma explosão de ódio. Não acho que deveríamos dar a esses músicos um instrumento mais sofisticado para eles tocarem. Quando políticos forem capazes de manipular nossas emoções, provocando, segundo sua vontade, ansiedade, ódio, alegria e tédio, a política se tornará um mero circo emocional. Por mais que devamos temer o poder das grandes corporações, a história sugere que não estaríamos necessariamente melhor nas mãos de governos superpoderosos. Neste momento, em março de 2018, eu prefiro dar meus dados a Mark Zuckerberg a dá-los a Vladimir Putin (apesar de o escândalo da Cambridge Analytica ter revelado que dados confiados a Zuckerberg podem acabar nas mãos de Putin).

A propriedade privada de seus próprios dados soa mais atraente do que qualquer dessas opções, mas não está claro o que isso quer dizer. Tivemos milhares de anos de experiência de regulação da propriedade de terra. Sabemos construir uma cerca em torno de um campo, pôr um guarda no portão e controlar quem pode entrar. Nos dois séculos passados nos tornamos extremamente sofisticados em regular a propriedade da indústria — hoje posso comprar ações e ser dono de um pedaço da General Motors e um pedacinho da Toyota. Mas não temos muita experiência em regular a propriedade de dados, que é inerentemente uma tarefa muito mais difícil, porque, ao contrário da terra e de máquinas, os dados estão em toda parte e em parte alguma ao mesmo tempo, podem movimentar-se à velocidade da luz, e podem ser indefinidamente copiados.

Assim, faríamos melhor em invocar juristas, políticos, filósofos e mesmo poetas para que voltem sua atenção para essa charada: como regular a propriedade de dados? Essa talvez seja a questão política mais importante de nossa era. Se não formos capazes de responder a essa pergunta logo, nosso sistema sociopolítico pode entrar em colapso. As pessoas já estão sentindo a chegada do cataclismo. Talvez seja por isso que cidadãos do mundo inteiro estão perdendo a fé na narrativa liberal, que apenas uma década atrás parecia irresistível.

Como sempre, Harari não se refere à democracia liberal e sim à narrativa liberal (ou neoliberal, ou liberal em termos econômicos, não políticos). Outro ponto é se o fundamental é a propriedade de dados ou o acesso aos dados (confira a distopia-utopia de Bruce Sterling: Islands in the Net, traduzida no Brasil como Piratas de Dados) e a possibilidade de fazer alguma coisa com os dados (que não depende só da posse dos dados).

Como, então, avançar a partir daqui, e como lidar com os imensos desafios das revoluções da biotecnologia e da tecnologia da informação? Talvez os mesmos cientistas e empresários responsáveis pelas disrupções do mundo contemporâneo consigam montar alguma solução tecnológica? Por exemplo, será que algoritmos em rede poderão fornecer as estruturas de uma comunidade humana global que poderia ser, coletivamente, dona de todos os dados e supervisionar o futuro desenvolvimento da vida? Quando a desigualdade global só faz crescer e aumentam as tensões em todo o mundo, quem sabe Mark Zuckerberg poderia convocar seus 2 bilhões de amigos para reunir forças e fazer alguma coisa juntos?

Por que seria necessário uma comunidade humana global? Por que não podem ser múltiplas comunidades humanas glocais? Trata-se de “supervisionar o futuro desenvolvimento da vida” ou de criar novas formas de convivência social?

OBSERVAÇÃO FINAL

As redes sociais (pessoas interagindo enquanto estão interagindo) – e a emergência de uma sociedade-em-rede – são ideias completamente estranhas para Yuval Harari.

ADENDO – UM TEMA IMPORTANTE PARA OS NOVOS PENSADORES

Ainda estamos no século 20

A década de 1990 foi apenas uma interrupção num século que ainda não acabou

Entre a queda da muro de Berlim (1989) e a derrocada da URSS (1991) e o atentado ao World Trade Center (2001) tivemos um interregno no trágico século 20. Uma janela se abriu, uma brisa fresca soprou e pudemos experimentar, entre outras coisas, o fim (temporário) da guerra fria e da política de blocos, a expansão das democracias liberais, a ascensão de um chamado terceiro setor, a World Wide Web, o florescimento da blogosfera, a introdução da noção de capital social como variável sistêmica nas equações do desenvolvimento, o surgimento das teorias dos sistemas dinâmicos complexos adaptativos e a fundação da nova ciência das redes. Depois, quando todos esperávamos o nascimento de uma nova era, com o início do terceiro milênio, o que aconteceu foi o contrário. O século 20 continuou como um pesadelo persistente, prolongando-se nas duas primeiras décadas do que deveria ser o século 21.

O que tivemos? Recessão e desconsolidação democrática (a partir de 2005), ascensão dos populismos (de esquerda e direita), retomada do unilateralismo na política internacional, ressurgimento do nacionalismo, tentativas de erigir novos muros, surgimento de mídias sociais que acabaram servindo de meios de broadcasting e não de ferramentas de netweaving (e de mídias privadas contra as redes, com topologia descentralizada de árvore – como o WhatsApp – e não distribuída), prevalência do sharp power das grandes potências autocráticas (como Rússia e China), enfim, brutal reação do Estado-nação surgido no século 17 e das formas de governança e convivência (ou coexistência competitiva) hierárquicas à emergência da sociedade-em-rede.

Há quase 40 anos Edgar Morin (1981) publicou um livro intitulado “Para sair do século 20” (que devoramos na época). Depois alguns escreveram livros de lições para o século 21. Recentemente, Timothy Snyder (2017) fez um intitulado “20 lições do século 20”. Yuval Harari (2018) fez outro, intitulado “21 lições para o século 21”. Mas talvez seja o caso de pensar nas lições do século 21 para o século 20. Pois, apesar dos esforços de Morin, a maioria das pessoas ainda não conseguiu sair do século 20.

Comentário do Eduardo Carvalho:

“Desculpe o textão.

Perfeito. Acho que vc poderia escrever sobre isso em um livro. E logo, devido à atualidade da questão que coloca. Digo isso por três motivos (dentre dezenas de outros): vc foi o único (que conheço), que levantou esta questão da democracia como modo de vida, na atualidade, como nos ensinaram os gregos e alertou Dewey no século XX (confunde-se muito ainda democracia com eleição, forma de governo, etc.); da potência de comunicação que as redes sociais alcançaram com o amassamento do mundo e, da sociedade como agenciamento que descobriu que, como o mercado e o estado, tem sua própria racionalidade e sua própria autonomia e agora se manifesta de forma inconteste embora transformando a netwave em netwar.

Edgar Morin, não obstante sua significativa obra, apenas trocou, na sua abordagem sobre a COMPLEXIDADE, a complexidade do mecanismo da máquina pela complexidade do organismo vivo, ainda mantendo o mundo como um todo e suas partes, assim como fez Fritjof Capra em A Teia da Vida e outros teóricos da complexidade. Ou seja, enxergam a realidade como uma totalidade mais complexa, mas, uma totalidade ainda amarrada ao cogito cartesiano que aprisiona a diferença, alerta dado por Deleuze quando crítica a célebre frase de Descartes, “Penso logo existo” e os quatro ramos deste seu cogito: Identidade do conceito; analogia do juízo; oposição dos predicados e semelhança do percebido. A grande contribuição, portanto, de Gilles Deleuze foi estilhaçar está ideia holística da realidade, do todo e suas partes, embora mais complexo tendo como metáfora o organismo. Como ele afirmou que para ele, até escrever o Anti-Édipo, a realidade era esta complexidade, depois de Mil Platôs isso mudou (aqui permita-me eu repetir parte de uma citação de Deleuze que resume sua obra posterior ao O anti-Édipo, encontrada na introdução de Mil Platôs: “As Multiplicidades são a própria realidade e não supõem nenhuma unidade, não entram em nenhuma totalidade e tampouco remetem a um sujeito. As subjetivações, as totalizações, as unificações são, ao contrário, processos que se produzem e aparecem nas multiplicidades……”).

O que é isso senão redes distribuídas atacadas aqui e ali por fenômenos que represam fluxos, desata clusters e elimina nodos? Por ele não ter tido uma visão de rede associou esta multiplicidade a um caldo quântico (o que não deixa de ser em certo sentido).

Acho que seus estudos sobre democracia, redes sociais, sociedade-em-rede vem preencher esta lacuna deixada por Deleuze talvez o único pensador do século XX que inaugurou um plano de imanência com este conceito de multiplicidades, criando novos conceitos e atualizando o sentido de conceitos existentes.

A hora é essa! Tá na hora de sair da toca (sem precisar mudar de endereço rs) e espalhar suas relfexões pelo mundo. O analfabetismo democrático é monstruoso inclusive em autores de grandes best-sellers da atualidade”.

Notas

1. “Richest 1 Percent Bagged 82 Percent of Wealth Created Last Year — Poorest Half of Humanity Got Nothing” (Oxfam, 22 jan. 2018). Disponível em: <https://www.oxfam.org/en/pressroom/pressreleases/2018-01-22/richest-1- percent-bagged-82-percent-wealth-created-last-year>. Acesso em: 28 fev. 2018. Josh Lowe, “The 1 Percent Now Have Half the World’s Wealth” (Newsweek, 14 nov. 2017). Disponível em: <http://www.newsweek.com/1-wealth-money- half-world-global-710714>. Acesso em: 28 fev. 2018. Adam Withnall, “All the World’s Most Unequal Countries Revealed in One Chart”, Independent, 23 nov. 2016. Disponível em:
<http://www.independent.co.uk/news/world/politics/credit-suisse-global-wealth-world-most-unequal-countries- revealed-a7434431.html>. Acesso em: 11 mar. 2018.

2. Tim Wu, The Attention Merchants (Nova York: Alfred A. Knopf, 2016).

3. Cara McGoogan, “How to See All the Terrifying Things Google Knows about You’, Telegraph, 18 ago. 2017. Disponível em: <http://www.telegraph.co.uk/technology/0/see-terrifying-things-google-knows/>. Acesso em: 19 out. 2017. Caitlin Dewey, “Everything Google Knows about You (and How It Knows It)”, Washington Post, 19 de nov. 2014. Disponível em: <https://www.washingtonpost.com/news/the-intersect/wp/2014/11/19/everything-google-knows- about-you-and-how-it-knows-it/?utm_term=.b81c3ce3ddd6>. Acesso em: 19 out. 2017.

4. Dan Bates, “YouTube Is Losing Money Even Though It Has More Than 1 Billion Viewers’, Daily Mail, 26 fev. 2015, Disponível em: <http://www.dailymail.co.uk/news/article-2970777/YouTube-roughly-breaking-nine-years- purchased-Google-billion-viewers.html>. Acesso em: 19 out. 2017; Olivia Solon, “Google’s Bad Week: YouTube Loses Millions As Advertising Row Reaches US”, Guardian, 25 mar. 2017. Disponível em:<https://www.theguardian.com/technology/2017/mar/25/google-youtube-advertising-extremist-content-att-verizon>. Acesso em: 19 de out. 2017; Seth Fiegerman, “Twitter Is Now Losing Users in the US”, CNN, 27 jul. 2017. Disponível em: <http://money.cnn.com/2017/07/27/technology/business/twitter-earnings/index.html>. Acesso em: 19 out. 2017.

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