Nesta nova jornada dos Novos Pensadores vamos examinar um escrito de Hannah Arendt (1951) sobre o totalitarismo. É a terceira parte do livro Hannah Arendt, Origens do totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. A seguir vai o capítulo 3, terceira parte.
ADVERTÊNCIA
Por que estamos estudando o totalitarismo
Há traços de totalitarismo em qualquer movimento autoritário. Mesmo quando movimentos totalitários não conseguem se organizar. Mesmo quando governos totalitários não conseguem se instalar. Estudar os totalitarismos nazista e stalinista é fundamental para identificar a presença desses traços nas alternativas antidemocráticas atuais.
Entramos aqui na exploração do reconhecimento de padrões. Há muitos isomorfismos, por exemplo, entre nazismo e stalinismo e trumpismo e bolsonarismo.
Mencionemos, a título de exemplos, alguns deles:
Matar a rede ou exterminar o capital social. Destruir todas as conexões sociais.
Abolir a esfera pública, atomizando-a e substituindo-a por miríades de esferas privadas opacas não interagentes horizontalmente entre si.
Reprimir não apenas as opiniões divergentes, mas fazer sumir o próprio conceito de opinião.
Erradicar a ação gratuita. Como dizia Himmler, ninguém deverá “fazer alguma coisa apenas por amor a essa coisa”.
Banir a política do mundo. Sim, Arendt (1951) tinha razão. “Um objetivo político que constitua a finalidade do movimento totalitário simplesmente não existe”.
Buscar que as pessoas não apenas ajam sob comando, mas pensem sob comando. Como dizia Hitler, o pensamento só existe “em virtude da formulação ou execução de uma ordem”.
Quebrar os seres humanos para substituir a humanidade por uma espécie de colmeia borg (que não tem quase nada a ver com um verdadeira colmeia de abelhas).
Só um movimento totalitário que consiga se materializar como governo totalitário – como o de Hitler ou o de Stalin – poderá obter, ainda que temporariamente, tais resultados. Mas isso não significa que movimentos e governos autoritários mais brandos não contenham alguns (ou muitos) desses traços.
Reconhecer esses padrões e perceber isomorfismos quando eles se manifestam em circunstâncias distintas é fundamental para a aprendizagem democrática. Afinal, a democracia – na medida em que é um processo de desconstituição de autocracia – só se aprende pelo avesso.
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Os homens normais não sabem que tudo é possível.
David Rousset
ÍNDICE
1. Uma sociedade sem classes
1.1 As massas
1.2 A aliança temporária entre a ralé e a elite
2. O movimento totalitário
3. O totalitarismo no poder
3.1 O chamado Estado totalitário
3.3 Domínio total
4. Ideologia e terror: uma nova forma de governo
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Os campos de concentração e de extermínio dos regimes totalitários servem como laboratórios onde se demonstra a crença fundamental do totalitarismo de que tudo é possível. Comparadas a esta, todas as outras experiências têm importância secundária — inclusive as médicas, cujos horrores estão registrados em detalhe nos julgamentos contra os médicos do Terceiro Reich —, embora seja característico que esses laboratórios fossem usados para experimentos de todo tipo.
O domínio total, que procura sistematizar a infinita pluralidade e diferenciação dos seres humanos como se toda a humanidade fosse apenas um indivíduo, só é possível quando toda e qualquer pessoa seja reduzida à mesma identidade de reações. O problema é fabricar algo que não existe, isto é, um tipo de espécie humana que se assemelhe a outras espécies animais, e cuja única “liberdade” consista em “preservar a espécie” (125). O domínio totalitário procura atingir esse objetivo através da doutrinação ideológica das formações de elite e do terror absoluto nos campos; e as atrocidades para as quais as formações de elite são impiedosamente usadas constituem a aplicação prática da doutrina ideológica — o campo de testes em que a última deve colocar-se à prova —, enquanto o terrível espetáculo dos campos deve fornecer a verificação “teórica” da ideologia.
Os campos destinam-se não apenas a exterminar pessoas e degradar seres humanos, mas também servem à chocante experiência da eliminação, em condições cientificamente controladas, da própria espontaneidade como expressão da conduta humana, e da transformação da personalidade humana numa simples coisa, em algo que nem mesmo os animais são; pois o cão de Pavlov que, como sabemos, era treinado para comer quando tocava um sino, mesmo que não tivesse fome, era um animal degenerado. Em circunstâncias normais, isso nunca pode ser conseguido, porque a espontaneidade jamais pode ser inteiramente eliminada, uma vez que se relaciona não apenas com a liberdade humana, mas com a própria vida, no sentido da simples manutenção da existência. É somente nos campos de concentração que essa experiência é possível e, portanto, os campos são não apenas la société la plus totalitaire encore réalisé (David Rousset), mas também o modelo social perfeito para o domínio total em geral. Da mesma forma como a estabilidade do regime totalitário depende do isolamento do mundo fictício criado pelo movimento em relação ao mundo exterior, também a experiência do domínio total nos campos de concentração depende de seu fechamento ao mundo de todos os homens, ao mundo dos vivos em geral, até mesmo ao mundo do próprio país que vive sob o domínio totalitário. Esse isolamento explica a peculiar irrealidade e a incredibilidade que caracterizam todos os relatos provenientes dos campos de concentração e constitui uma das principais dificuldades para a verdadeira compreensão do domínio totalitário, pois, por mais incrível que pareça, os campos são a verdadeira instituição central do poder organizacional totalitário.
Existem numerosos relatos de sobreviventes (126). Quanto mais autênticos, menos procuram transmitir coisas que escapam à compreensão humana e à experiência humana – ou seja, sofrimentos que transformam homens em “animais que não se queixam” (127). Nenhum desses relatórios inspira arroubos de indignação e de simpatia capazes de mobilizar os homens em nome da justiça. Pelo contrário, qualquer pessoa que fale ou escreva sobre campos de concentração é tida como suspeita; e se o autor do relato voltou resolutamente ao mundo dos vivos, ele mesmo é vítima de dúvidas quanto à sua própria veracidade, como se pudesse haver confundido um pesadelo com a realidade (128).
Essa dúvida em relação a si mesmo e à realidade de suas próprias experiências apenas demonstra aquilo que os nazistas sempre souberam: que, para os que se dispõem a cometer crimes, convém organizá-los da maneira mais vasta e mais inverossímil. Não apenas porque isso torna inadequada e absurda qualquer punição prevista em lei, mas porque a própria imensidade dos crimes garante que os assassinos, que proclamam a sua inocência com toda sorte de mentiras, sejam mais facilmente acreditados do que as vítimas que dizem a verdade. Os nazistas nem mesmo acharam necessário guardar essa descoberta: Hitler fez circular milhões de cópias do seu livro em que dizia abertamente que, para ser bem-sucedida, a mentira deve ser enorme — o que não impediu que as pessoas acreditassem nele, do mesmo modo como as proclamações nazistas, repetidas ad nauseam, de que os judeus seriam exterminados como insetos (isto é, com gás venenoso), não levaram ninguém a acreditar seriamente nessas enunciações.
Somos todos tentados a explicar o intrinsecamente inacreditável por meio de racionalização. Em cada um de nós existe um liberal que procura persuadir-nos com a voz do bom senso. O caminho do domínio totalitário passa por vários estágios intermediários dos quais podemos encontrar muitas analogias e precedentes. O terror extraordinariamente sangrento durante a fase inicial do governo totalitário atende realmente ao fim exclusivo de derrotar o oponente e de impossibilitar qualquer oposição futura; mas o terror total só é lançado depois de ultrapassada essa fase inicial, quando o regime já nada tem a recear da oposição. O meio se transforma no fim e a afirmação de que “o fim justifica os meios” já não se aplica, pois o terror, não sendo mais o meio de aterrorizar as pessoas, perdeu a sua “finalidade”. Tampouco basta dizer que a revolução, como no caso da Revolução Francesa, passou a devorar os próprios filhos, pois o terror continua mesmo quando todos aqueles que eram, ou se podiam julgar, filhos da revolução de um modo ou de outro — as facções russas, os centros de poder do partido, o Exército, a burocracia — já foram eliminados há muito tempo. Muito do que hoje é peculiar ao governo totalitário é bastante conhecido através dos estudos da história. Sempre houve guerras de agressão; o massacre de populações hostis após uma vitória campeou à solta mesmo depois que os romanos o abrandassem com o parcere subjectis; o extermínio dos povos nativos acompanhou a colonização das Américas, da Austrália e da África; a escravidão é uma das mais antigas instituições da humanidade, e todos os impérios da Antiguidade se basearam no trabalho dos escravos do Estado, que erigiam os seus edifícios públicos. Nem mesmo os campos de concentração são invenção dos movimentos totalitários. Surgiram pela primeira vez durante a Guerra dos Bôeres, no começo do século XX, e continuaram a ser usados na África do Sul e na Índia para os “elementos indesejáveis”; aqui também encontramos pela primeira vez a expressão “custódia protetora”, que mais tarde foi adotada pelo Terceiro Reich. Esses campos correspondem, em muitos detalhes, aos campos de concentração do começo do regime totalitário; eram usados para “suspeitos” cujas ofensas não se podiam provar, e que não podiam ser condenados pelo processo legal comum. Tudo isso aponta claramente na direção dos métodos totalitários; são elementos que eles empregam, desenvolvem e cristalizam à base do princípio niilístico de que “tudo é permitido”, princípio que eles herdaram e aceitaram com naturalidade. Mas, onde essas novas formas de domínio adquirem a estrutura autenticamente totalitária, transcendem esse princípio, que ainda se relaciona com os motivos utilitários e o interesse dos governantes, e vão atuar numa esfera que até agora nos era completamente desconhecida: a esfera onde “tudo é possível”. E, tipicamente, esta é precisamente a esfera que não pode ser limitada nem por motivos utilitários nem pelo interesse pessoal, não importa o conteúdo deste último.
O que contraria o bom senso não é o princípio niilístico de que “tudo é permitido”, já delineado no conceito utilitário de bom senso do século XIX. O que o bom senso e as “pessoas normais” se recusam a crer é que tudo seja possível (129). Tentamos compreender certos elementos da experiência atual ou passada que simplesmente ultrapassam os nossos poderes de compreensão. Tentamos classificar como criminoso um ato que essa categoria jamais poderia incluir. Porque, no fundo, qual o significado do conceito de homicídio quando nos defrontamos com a produção de cadáveres em massa? Tentamos compreender psicologicamente a conduta dos presos dos campos de concentração e dos homens da SS, quando o que é preciso compreender é que a psique humana pode ser destruída mesmo sem a destruição física do homem; que, na verdade, a psique, o caráter e a individualidade parecem, em certas circunstâncias, manifestar-se apenas pela rapidez ou lentidão com que se desintegram (130). Como resultado final surgem homens inanimados, que já não podem ser compreendidos psicologicamente, cujo retorno ao mundo psicologicamente humano (ou inteligivelmente humano) se assemelha à ressurreição de Lázaro. Diante disso, qualquer julgamento do bom senso serve apenas para justificar aqueles que acham “superficial” “deter-se em horrores” (131).
Se é verdade que os campos de concentração são a instituição que caracteriza mais especificamente o governo totalitário, então deter-se nos horrores que eles representam é indispensável para compreender o totalitarismo. Mas a recordação não pode levar a isso mais do que o pode o relato incomunicativo da testemunha ocular. Em ambos há uma tendência de fugir da experiência; instintiva ou racionalmente, ambos são tão conscientes do abismo que separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos-vivos que não conseguem oferecer senão uma série de ocorrências relembradas, que parecem tão incríveis para os que as relatam como para os que as ouvem. Somente pode dar-se ao luxo de continuar a pensar em horrores a imaginação amedrontada dos que, embora provocados por esses relatos, não foram realmente feridos na própria carne, daqueles que, consequentemente, estão a salvo do pavor bestial e desesperado que, após a experiência do horror verdadeiro e presente, paralisa inexoravelmente tudo. Tais pensamentos são úteis apenas para a percepção dos contextos políticos e para a mobilização das paixões políticas. Pois pensar em horrores não leva a mudanças de personalidade de qualquer espécie, como, aliás, também não o faz a verdadeira experiência do horror. A redução do homem a um feixe de reações separa-o tão radicalmente de tudo o que há nele de personalidade e caráter quanto uma doença mental. Mas quando, como Lázaro, ele se ergue dentre os mortos, reencontra inalterados a personalidade e o caráter, exatamente como os havia deixado.
Como o horror não altera o caráter do homem nem pode deixá-lo melhor ou pior, também não pode tornar-se a base de uma comunidade política ou de um partido. A tentativa de criar uma elite europeia baseada no programa de entendimento gerado pela experiência dos campos de concentração, sofrida por toda a Europa, falhou do mesmo modo como haviam falhado as tentativas, feitas depois da Primeira Guerra Mundial, de extrair conclusões políticas da experiência internacional da geração interligada pela vivência das trincheiras. Em ambos os casos, verificou-se que a experiência, em si, nada comunica senão banalidades niilísticas (132). As consequências políticas, como o pacifismo de pós-guerra, por exemplo, resultaram do temor geral da guerra, não das experiências da guerra. Em vez de produzir um pacifismo destituído de realidade, o conhecimento da estrutura das guerras modernas deveria ter levado à compreensão de que o único critério para uma guerra necessária é a luta contra condições em que as pessoas perdem o desejo de viver — e a experiência que tivemos com o inferno atroz dos campos totalitários fez-nos compreender demasiado bem que essas condições são possíveis (133). Assim, o temor dos campos de concentração e o resultante conhecimento do que é o domínio total podem servir para anular todas as obsoletas divergências políticas da direita e da esquerda e introduzir, ao lado e acima delas, a maneira politicamente mais importante de julgar os eventos da nossa época, ou seja: se são úteis ou não ao domínio totalitário.
Em qualquer caso, a imaginação amedrontada tem a grande vantagem de anular as interpretações sofístico-dialéticas da política, que partem da premissa de que algo de bom pode advir do mal. Enquanto o pior que o homem podia infligir ao homem era o homicídio, essa acrobata dialética tinha ao menos uma aparência de justificação. Mas, como sabemos hoje, o homicídio é apenas um mal limitado. O assassino que mata um homem — um homem que, sendo mortal, tem que morrer um dia de qualquer modo — habita o nosso mundo de vida e morte; entre ambos — o assassino e a vítima — existe de fato um elo que serve de base à dialética, mesmo que esta nem sempre o perceba. Mas o assassino que deixa atrás de si um cadáver não afirma nem pretende impor a ideia de que a sua vítima nunca tenha existido; se apaga quaisquer vestígios, são os da sua própria identidade, e não a memória e a dor daqueles que amaram a vítima; destrói uma vida, mas não destrói o fato da própria existência.
Os nazistas, com a precisão que lhes era peculiar, costumavam registrar suas operações nos campos de concentração sob o título “na calada da noite” (Nacht und Nebel). Muitas vezes não se percebe à primeira vista o radicalismo de medidas destinadas a tratar pessoas como se nunca houvessem existido e a fazê-las desaparecer no sentido literal do termo, porque o sistema nazista alemão e o sistema bolchevista russo não são uniformes, mas consistem em um conjunto de categorias em que as pessoas são tratadas de modo muito diferente. No caso da Alemanha, houve diferentes categorias de pessoas no mesmo campo, desprovidas de contato entre si; frequentemente, o isolamento entre as categorias era mais severo que o isolamento entre o campo e o mundo exterior. Assim, por motivos “raciais”, os cidadãos escandinavos, embora fossem inimigos declarados dos nazistas, eram tratados pelos alemães, durante a guerra, diferentemente dos membros de outros grupos inimigos; estes, por sua vez, dividiam-se entre aqueles cujo “extermínio” era imediato, como no caso dos judeus, ou era previsto em futuro próximo, como no caso dos poloneses, russos e ucranianos, e aqueles a respeito dos quais ainda não existiam instruções quanto a uma “solução final” global, como no caso dos franceses e dos belgas. Na Rússia, por outro lado, podemos distinguir três sistemas mais ou menos independentes. Primeiro, há os grupos condenados a autêntico trabalho forçado, que vivem em relativa liberdade e cujas sentenças são limitadas. Depois, há os campos de concentração nos quais o material humano é impiedosamente explorado e o índice de mortalidade é extremamente alto, mas que ainda assim são organizados fundamentalmente para fins de trabalho. E, finalmente, existem os campos de aniquilação, onde os internos são sistematicamente exterminados pela fome ou pelo abandono.
O verdadeiro horror dos campos de concentração e de extermínio reside no fato de que os internos, mesmo que consigam manter-se vivos, estão mais isolados do mundo dos vivos do que se tivessem morrido, porque o horror compele ao esquecimento. No mundo concentracionário mata-se um homem tão impessoalmente como se mata um mosquito. Uma pessoa pode morrer em decorrência de tortura ou de fome sistemática, ou porque o campo está superpovoado e há necessidade de liquidar o material humano supérfluo. Inversamente, pode ocorrer que, devido a uma falta de novas remessas humanas, surja o perigo de que os campos se esvaziem, e seja dada a ordem de reduzir o índice de mortalidade a qualquer preço (134). David Rousset deu ao relato do período que passou num campo de concentração alemão o título de Les jours de notre mort, e, realmente, é como se se pudesse tornar permanente o próprio processo de morrer e criar uma situação em que tanto a morte como a vida são retardadas com a mesma eficácia.
O surgimento de um mal radical antes ignorado põe fim à noção de gradual desenvolvimento e transformação de valores. Não há modelos políticos nem históricos nem simplesmente a compreensão de que parece existir na política moderna algo que jamais deveria pertencer à política como costumávamos entendê-la, a alternativa de tudo ou nada — e esse algo é tudo, isto é, um número absolutamente infinito de formas pelas quais os homens podem viver em comum, ou nada, pois a vitória dos campos de concentração significaria a mesma inexorável ruína para todos os seres humanos que o uso militar da bomba de hidrogênio traria para toda a raça humana.
Não há paralelos para comparar com algo a vida nos campos de concentração. O seu horror não pode ser inteiramente alcançado pela imaginação justamente por situar-se fora da vida e da morte. Jamais pode ser inteiramente narrado, justamente porque o sobrevivente retorna ao mundo dos vivos, o que lhe torna impossível acreditar completamente em suas próprias experiências passadas. É como se o que tivesse a contar fosse uma história de outro planeta, pois para o mundo dos vivos, onde ninguém deve saber se ele está vivo ou morto, é como se ele jamais houvesse nascido. Assim, todo paralelo cria confusão e desvia a atenção do que é essencial. O trabalho forçado nas prisões e colônias penais, o banimento, a escravidão, todos parecem, por um instante, oferecer possibilidade de comparação, mas, num exame mais cuidadoso, não levam a parte alguma.
O trabalho forçado como punição é limitado no tempo e na intensidade. O preso retém os direitos sobre o próprio corpo; não é torturado de forma absoluta nem dominado de modo absoluto. O banimento apenas transfere o banido de uma parte do mundo para outra, também habitada por seres humanos; não o exclui inteiramente do mundo dos homens. Em toda a história, a escravidão foi uma instituição dentro de uma ordem social; os escravos não estavam, como os internos dos campos de concentração, longe dos olhos e, portanto, da proteção dos seus semelhantes; como instrumentos de trabalho, tinham um preço definido e, como propriedade, um valor definido. O interno do campo de concentração não tem preço algum, porque sempre pode ser substituído; ninguém sabe a quem ele pertence, porque nunca é visto. Do ponto de vista da sociedade normal, ele é absolutamente supérfluo, embora em épocas de intensa falta de mão de obra, como na Rússia e na Alemanha durante a guerra, fosse usado para o trabalho.
Como instituição, o campo de concentração não foi criado em nome da produtividade; a única função econômica permanente do campo é o financiamento dos seus próprios supervisores; assim, do ponto de vista econômico, os campos de concentração existem principalmente para si mesmos. Qualquer trabalho que neles tenha sido realizado poderia ter sido feito muito melhor e mais barato em condições diferentes (135). A Rússia especialmente, cujos campos de concentração são em geral descritos como campos de trabalho forçado, porque a burocracia soviética preferiu honrá-los com esse nome, revela com mais clareza que o trabalho forçado não é a questão fundamental; o trabalho forçado é a condição normal de todos os trabalhadores russos, já que eles não têm liberdade de movimento e podem ser arbitrariamente convocados para trabalhar em qualquer lugar a qualquer momento. A incredibilidade dos horrores é intimamente ligada à inutilidade econômica. Os nazistas levaram essa inutilidade ao ponto da franca antiutilidade quando, em meio à guerra e a despeito da escassez de material rolante e de construções, edificaram enormes e dispendiosas fábricas de extermínio e transportaram milhões de pessoas de um lado para o outro (136). Aos olhos de um mundo estritamente utilitário, a evidente contradição entre esses atos e a conveniência militar dava a todo o sistema a aparência de louca irrealidade.
Essa atmosfera de loucura e irrealidade, criada pela aparente ausência de propósitos, é a verdadeira cortina de ferro que esconde dos olhos do mundo todas as formas de campos de concentração. Vistos de fora, os campos e o que neles acontece só podem ser descritos com imagens extraterrenas, como se a vida fosse neles separada das finalidades deste mundo. Os campos de concentração podem ser classificados em três tipos correspondentes às três concepções ocidentais básicas de uma vida após a morte: o Limbo, o Purgatório e o Inferno. Ao Limbo correspondem aquelas formas relativamente benignas, que já foram populares mesmo em países não totalitários, destinadas a afastar da sociedade todo tipo de elementos indesejáveis — os refugiados, os apátridas, os marginais e os desempregados —; os campos de pessoas deslocadas, por exemplo, que continuaram a existir mesmo depois da guerra, nada mais são do que campos para os que se tornaram supérfluos e importunos. O Purgatório é representado pelos campos de trabalho da União Soviética, onde o abandono alia-se ao trabalho forçado e desordenado. O Inferno, no sentido mais literal, é representado por aquele tipo de campo que os nazistas aperfeiçoaram e onde toda a vida era organizada, completa e sistematicamente, de modo a causar o maior tormento possível.
Os três tipos têm uma coisa em comum: as massas humanas que eles detêm são tratadas como se já não existissem, como se o que sucedesse com elas não pudesse interessar a ninguém, como se já estivessem mortas e algum espírito mau, tomado de alguma loucura, brincasse de suspendê-las por certo tempo entre a vida e a morte, antes de admiti-las na paz eterna.
Mais que o arame farpado, é a irrealidade dos detentos que ele confina, que provoca uma crueldade tão incrível que termina levando à aceitação do extermínio como solução perfeitamente normal. Tudo o que se faz nos campos tem o seu paralelo no mundo das fantasias malignas e perversas. O que é difícil entender, porém, é que esses crimes ocorriam num mundo fantasma materializado num sistema em que, afinal, existiam todos os dados sensoriais da realidade, faltando-lhe apenas aquela estrutura de consequências e responsabilidade sem a qual a realidade não passa de um conjunto de dados incompreensíveis. Como resultado, passa a existir um lugar onde os homens podem ser torturados e massacrados sem que nem os atormentadores nem os atormentados, e muito menos o observador de fora, saibam que o que está acontecendo é algo mais do que um jogo cruel ou um sonho absurdo (137).
Os filmes documentários divulgados na Alemanha e em outros países depois da guerra demonstraram claramente que essa atmosfera de loucura e irrealidade não se dissipa com a simples reportagem. Para o observador sem preconceitos essas visões são quase tão pouco convincentes quanto as fotos de misteriosas substâncias tiradas em sessões espíritas (138). O bom senso reagiu aos horrores de Auschwitz com o argumento plausível: “Que crime essas pessoas devem ter cometido para que se lhes fizessem tais coisas!”; ou, na Alemanha e na Áustria, em meio à fome e ao ódio geral: “Que pena que pararam de matar os judeus!”; e, em toda parte, com o ceticismo com que é recebida a propaganda ineficaz.
Se a propaganda da verdade não convence o homem comum, por ser demasiado monstruosa, é positivamente perigosa para aqueles que sabem, em sua própria imaginação, o que são capazes de fazer e, portanto, acreditam plenamente na realidade dos filmes. De repente, torna-se-lhes claro que aquilo que durante milhares de anos fora relegado pela imaginação do homem a uma esfera além da competência humana pode ser fabricado aqui mesmo na Terra, que o Inferno e o Purgatório, e até mesmo um arremedo da sua duração perpétua, podem ser criados pelos métodos mais modernos da destruição e da terapia. Para essas pessoas (e em qualquer cidade grande elas são mais numerosas do que desejamos admitir), o inferno totalitário prova somente que o poder do homem é maior do que jamais ousaram pensar, e que podemos realizar nossas fantasias infernais sem que o céu nos caia sobre a cabeça ou a terra se abra sob os nossos pés.
Essas analogias, repetidas nos relatos do mundo dos agonizantes (139), parecem ser mais que uma tentativa desesperada de exprimir o que está além da linguagem humana. Talvez nada melhor do que a perda da fé num Julgamento Final distinga tão radicalmente as massas modernas daquelas dos séculos passados: os piores elementos perderam o temor, os melhores perderam a esperança. Incapazes de viver sem temor e sem esperança, as massas são atraídas por qualquer esforço que pareça prometer uma imitação humana do Paraíso que desejaram e do Inferno que temeram. Do mesmo modo como a versão popularizada da sociedade sem classes de Marx tem uma estranha semelhança com a Era Messiânica, também a realidade dos campos de concentração lembra, antes de mais nada, as pinturas medievais do Inferno.
Há, porém, um detalhe que tornava a antiga concepção de Inferno tolerável para o homem e que não pode ser reproduzido: o Julgamento Final, a ideia de um critério absoluto de justiça aliado à infinita possibilidade da misericórdia. Pois, no cálculo humano, não existe crime nem pecado comensuráveis com os tormentos eternos do Inferno. Daí a perplexidade, daí a pergunta decorrente do bom senso: que crimes essas pessoas podem ter cometido para sofrer tão desumanamente? Daí, também, a absoluta inocência das vítimas: nenhum homem jamais mereceu tal coisa. E daí, finalmente, a grotesca casualidade da escolha das vítimas dos campos de concentração no reino aperfeiçoado do terror: esse “castigo” pode, com igual justiça ou injustiça, ser aplicado a qualquer um.
Comparado ao insano resultado final — uma sociedade de campos de concentração -, o processo pelo qual os homens são preparados para esse fim e os métodos pelos quais os indivíduos se adaptam a essas condições são transparentes e lógicos. A desvairada fabricação em massa de cadáveres é precedida pela preparação, histórica e politicamente inteligível, de cadáveres vivos. O incentivo e, o que é mais importante, o silencioso consentimento a tais condições sem precedentes resultam daqueles eventos que, num período de desintegração política, súbita e inesperadamente tornaram centenas de milhares de seres humanos apátridas, desterrados, proscritos e indesejados, enquanto o desemprego tornava milhões de outros economicamente supérfluos e socialmente onerosos. Por sua vez, isso só pôde acontecer porque os Direitos do Homem, apenas formulados mas nunca filosoficamente estabelecidos, apenas proclamados mas nunca politicamente garantidos, perderam, em sua forma tradicional, toda a validade.
O primeiro passo essencial no caminho do domínio total é matar a pessoa jurídica do homem. Por um lado, isso foi conseguido quando certas categorias de pessoas foram excluídas da proteção da lei e quando o mundo não totalitário foi forçado, por causa da desnacionalização maciça, a aceitá-los como os fora da lei; logo a seguir, criaram-se campos de concentração fora do sistema penal normal, no qual um crime definido acarreta uma pena previsível. Assim, os criminosos, que, aliás, constituíam um elemento essencial na sociedade dos campos de concentração, geralmente só eram ali confinados depois de completarem a sentença a que haviam sido condenados. Em todas as circunstâncias, o domínio totalitário cuidava para que as categorias confinadas nos campos — judeus, portadores de doenças, representantes das classes agonizantes — perdessem a capacidade de cometer quaisquer atos normais ou criminosos. Do ponto de vista da propaganda, essa “custódia protetora” era apresentada como “medida policial preventiva” (140), isto é, medida que tira das pessoas a capacidade de agir. As exceções a essa regra, na Rússia, devem ser atribuídas à calamitosa escassez de prisões e a um desejo, até agora não realizado, de transformar todo o sistema penal num sistema de campos de concentração (141).
A inclusão de criminosos — a que acabamos de aludir — é necessária para emprestar credibilidade à alegação propagandística do movimento de que a instituição existe para abrigar elementos fora da sociedade (142). Os criminosos não deveriam estar em campos de concentração, porque é mais difícil matar a pessoa jurídica de um homem culpado por algum crime do que a de um outro totalmente inocente. O fato de constituírem categoria permanente entre os internos é uma concessão do Estado totalitário aos preconceitos da sociedade, que assim pode habituar-se mais facilmente à existência dos campos. Por outro lado, para não alterar o sistema de campos, é essencial, enquanto exista no país um sistema penal, que os criminosos somente sejam enviados para lá depois de haverem completado a sentença, isto é, quando de fato já têm direito à liberdade. Em hipótese alguma deve o campo de concentração transformar-se em castigo previsível para um crime definido.
Misturar criminosos às outras categorias de presos tem, além disso, a vantagem de tornar chocantemente evidente a todos os outros internos o fato de que atingiram o mais baixo nível social. E, na verdade, estes logo perceberão que não lhes faltam motivos para invejar o mais vil ladrão ou assassino; mas, no início parecia o nível mais baixo um bom começo. Ademais, tratava-se de eficiente meio de camuflagem: isso só acontece a criminosos; e não está acontecendo nada pior do que os criminosos merecem.
Os criminosos constituem a aristocracia de todos os campos. (Na Alemanha, durante a guerra, foram substituídos na liderança dos campos pelos presos comunistas, pois as caóticas condições criadas por uma administração de criminosos não permitiam a realização sequer de uma transformação temporária na época em que o andamento da guerra o exigia. Tratava-se, porém, apenas de uma transformação temporária dos campos de concentração em campos de trabalho forçado, fenômeno inteiramente atípico e de curta duração (143)). O que leva os criminosos à liderança não é tanto a sua afinidade com o pessoal da supervisão — na União Soviética, aparentemente, os supervisores não são, como a SS, uma elite especial, treinada para cometer crimes (144) — quanto o fato de que somente os criminosos são mandados para o campo em virtude de alguma atividade definida. Eles, pelo menos, sabem por que estão num campo de concentração, e, portanto, conservam ainda um resíduo da personalidade jurídica. Para os criminosos políticos, isso é apenas subjetivamente verdadeiro; seus atos, enquanto atos e não meras opiniões ou vagas suspeitas de terceiros, ou a participação acidental num grupo politicamente condenado, geralmente não são previstos no sistema legal do país nem juridicamente definidos (145).
À mistura de políticos e criminosos com que os campos de concentração da Rússia e da Alemanha iniciaram a sua carreira foi logo acrescentado um terceiro elemento que, em breve, iria constituir a maioria dos internos dos campos de concentração. Desde então, esse grupo mais amplo tem consistido em pessoas que absolutamente nada fizeram que tivesse alguma ligação racional com o fato de terem sido presas, nem em sua consciência nem na consciência dos seus atormentadores. Na Alemanha, a partir de 1938, esse componente era representado por judeus; na Rússia, por qualquer grupo que, por motivos que nada tinham a ver com os seus atos, havia incorrido no desagrado das autoridades. Esses grupos, inocentes em todos os sentidos, prestam-se melhor a experiências radicais de privação de direitos e destruição da pessoa jurídica e são, portanto, em qualidade e quantidade, a categoria mais essencial da população dos campos — princípio que teve a sua aplicação mais ampla nas câmaras de gás, que, pelo menos por sua enorme capacidade, não podiam destinar-se a casos individuais, mas a grandes números de pessoas. A esse respeito, o seguinte diálogo espelha a situação do indivíduo: “Para que servem essas câmaras de gás?” “E para que é que você nasceu?” (146) Esse terceiro grupo dos totalmente inocentes é o que sempre leva a pior nos campos. Certos criminosos e políticos são incorporados a essa categoria; destituídos da distinção protetora de haverem feito alguma coisa, ficam completamente expostos à arbitrariedade. O objetivo final, parcialmente conseguido na União Soviética e claramente visível nas últimas fases do terror nazista, é que toda a população dos campos seja composta dessa categoria de pessoas inocentes.
Em contraste com o completo acaso com que os internos são escolhidos, existem as categorias, inexpressivas em si, mas úteis do ponto de vista organizacional, em que geralmente são divididos por ocasião da chegada. Nos campos alemães, essas categorias eram os criminosos, os políticos, os elementos antissociais, os infratores religiosos e os judeus, cada uma com a sua insígnia diferente. Quando os franceses criaram campos de concentração depois da Guerra Civil Espanhola, adotaram imediatamente o método totalitário de misturar políticos com criminosos e inocentes (no caso, os apátridas) e, a despeito da sua inexperiência, mostraram-se extraordinariamente inventivos na criação de categorias inexpressivas de internos (147). Originalmente destinada a evitar qualquer solidariedade entre os internos, essa técnica demonstrou-se particularmente valiosa, pois ninguém podia saber se a categoria a que pertencia era melhor ou pior que as outras, embora na Alemanha os judeus fossem, em toda e qualquer circunstância, a categoria mais baixa. O aspecto grotesco de tudo isso é que internos se identificavam com as categorias que lhes eram imputadas, como se elas fossem o último vestígio autêntico da sua pessoa jurídica. Não é de se admirar que, em 1933, um comunista saísse dos campos mais comunista do que antes, um judeu mais judeu e, na França, a esposa de um legionário mais convencida do valor da Legião Estrangeira, como se as categorias a que pertenciam lhes acenassem com o último vislumbre de tratamento previsível, como se representassem uma identidade jurídica derradeira e, portanto, fundamental.
A divisão de presos em categorias é apenas uma medida tática organizacional, mas a seleção arbitrária das vítimas indica o princípio essencial da instituição dos campos. Se esses campos dependessem da existência de adversários políticos, não poderiam ter sobrevivido aos primeiros anos dos regimes totalitários. Basta consultar o número de internos de Buchenwald, depois de 1936, para compreender como os inocentes eram necessários para manter a continuidade dos campos. “Os campos teriam desaparecido se, ao prender gente, a Gestapo houvesse levado em conta somente a oposição” (148) e, em fins de 1937, Buchenwald, com menos de mil internos, estava para desaparecer quando os pogroms de novembro trouxeram um reforço de mais de 20 mil deportados (149). Na Alemanha, esse componente de inocentes foi proporcionado em vastos números pelos judeus desde 1938; na Rússia, eram grupos aleatórios da população que, por alguma razão completamente alheia ao que haviam feito, tinham caído em desgraça (150). Mas, se na Alemanha o tipo realmente totalitário de campo de concentração, com a sua vasta maioria de internos completamente inocentes, não foi estabelecido antes de 1938, na Rússia data de começos da década de 30, pois até 1930 a maioria da população dos campos ainda consistia em criminosos, contrarrevolucionários e “presos políticos” (que, nesse caso, eram em geral comunistas membros das facções dissidentes). Desde então, tem havido tantos inocentes nos campos que é difícil classificá-los — pessoas que mantinham algum tipo de contato com algum país estrangeiro; russos de origem polonesa (particularmente entre 1936 e 1938); camponeses cujas aldeias, por alguma razão econômica, foram liquidadas; nacionalidades inteiras deportadas; soldados desmobilizados do Exército Vermelho que, por acaso, pertenciam a regimentos que haviam passado uma temporada longa demais como forças de ocupação ou haviam sido prisioneiros de guerra na Alemanha etc. Mas a existência de oposição política é, para o sistema de campos de concentração, apenas um pretexto: a finalidade do sistema não é atingida, nem mesmo quando, sob o mais monstruoso terror, a população se torna mais ou menos voluntariamente coordenada, isto é, desiste de seus direitos políticos. O fim do sistema arbitrário é destruir os direitos civis de toda a população, que se vê, afinal, tão fora da lei em seu próprio país como os apátridas e os refugiados. A destruição dos direitos de um homem, a morte da sua pessoa jurídica, é a condição primordial para que seja inteiramente dominado. E isso não se aplica apenas àquelas categorias especiais, como os criminosos, os oponentes políticos, os judeus, os homossexuais (com os quais se fizeram as primeiras experiências), mas a qualquer habitante do Estado totalitário. O livre consentimento é um obstáculo ao domínio total, como o é a livre oposição (151). A prisão arbitrária que escolhe pessoas inocentes destrói a validade do livre consentimento, da mesma forma como a tortura — em contraposição à morte — destrói a possibilidade da oposição.
Qualquer limitação dessa perseguição arbitrária a certas opiniões de natureza religiosa ou política, a certas formas de comportamento social, intelectual ou sexual, a certos “crimes” recém-inventados, tornaria os campos supérfluos porque, a longo prazo, nenhuma atitude e nenhuma opinião resistem à ameaça de tanto horror; e, acima de tudo, criaria um novo sistema de justiça que, com alguma estabilidade, produziria inevitavelmente no homem uma nova pessoa jurídica a furtar-se ao domínio totalitário. Os chamados Volksnutzen [necessidades do povo] dos nazistas, que mudavam constantemente (porque o que é útil hoje pode ser nocivo amanhã), e a eternamente variável linha partidária da União Soviética, que, sendo retrospectiva, quase diariamente traça a novos grupos de pessoas o caminho para os campos de concentração, são a única segurança da existência contínua dos campos e, portanto, da contínua e total privação dos direitos do homem.
O próximo passo decisivo do preparo de cadáveres vivos é matar a pessoa moral do homem. Isso se consegue, principalmente, tornando impossível, pela primeira vez na história, o surgimento da condição de mártir: “Quantos aqui ainda acreditam que um protesto tenha mesmo algum valor histórico? Esse ceticismo é a verdadeira obra-prima da SS. Sua grande realização. Corromperam toda a solidariedade humana. A noite caiu sobre o futuro. Quando não há testemunhas, não pode haver testemunho. Dizer quando a morte já não pode ser adiada é uma tentativa de dar à morte um significado, de agir mesmo depois da morte Para ser bem-sucedido, um gesto deve ter significação social. Somos aqui centenas de milhares, todos na mais absoluta solidão. É por isso que somos submissos, aconteça o que acontecer” (152).
Os campos e a matança de adversários políticos são apenas facetas do esquecimento sistemático em que se mergulham não apenas os veículos da opinião pública, como a palavra escrita e falada, mas até as famílias e os amigos das vítimas. A dor e a recordação são proibidas. Na União Soviética, uma esposa pede divórcio assim que o marido é preso, para salvar a vida dos filhos; se ele por acaso retorna, ela o expulsa de casa, indignada (153). Mesmo em seus períodos mais negros, o mundo ocidental deu sempre ao inimigo morto o direito de ser lembrado, num reconhecimento evidente de que todos somos homens (e apenas homens). Até mesmo Aquiles providenciou os funerais de Heitor; os governos mais despóticos honraram o inimigo morto; os romanos permitiam que os cristãos escrevessem martirológios; a Igreja manteve os seus hereges vivos na memória dos homens; e por isso, somente por isso, tudo não foi em vão e jamais poderia ter sido em vão. Os campos de concentração, tornando anônima a própria morte e tornando impossível saber se um prisioneiro está vivo ou morto, roubaram da morte o significado de desfecho de uma vida realizada. Em certo sentido, roubaram a própria morte do indivíduo, provando que, doravante, nada — nem a morte — lhe pertencia e que ele não pertencia a ninguém. A morte apenas selava o fato de que ele jamais havia existido.
A consciência do homem, que lhe diz que é melhor morrer como vítima do que viver como burocrata do homicídio, poderia ainda ter-se oposto a esse ataque contra a pessoa moral. O mais terrível triunfo do terror totalitário foi evitar que a pessoa moral pudesse refugiar-se no individualismo, e tornar as decisões da consciência questionáveis e equívocas. Ante a alternativa de trair e assim matar os seus amigos, de mandar para a morte a esposa e os filhos, pelos quais é em todos os sentidos responsável, quando até mesmo o suicídio significaria a matança imediata da sua família — como deve um homem decidir? A alternativa já não é entre o bem e o mal, mas entre matar e matar. Quem poderia resolver o dilema moral daquela mãe grega, a quem os nazistas permitiram escolher um dos seus três filhos para ser morto? (154)
Pela criação de condições em que a consciência deixa de ser adequada e fazer o bem se torna inteiramente impossível, a cumplicidade conscientemente organizada de todos os homens nos crimes dos regimes totalitários é estendida às vítimas e, assim, torna-se realmente total. Os homens da SS implicavam os internos dos campos de concentração – criminosos, políticos, judeus — em seus crimes, tornando-os responsáveis por grande parte da administração e confrontando-os, assim, com o desesperado dilema de mandarem os seus amigos para a morte ou ajudarem a matar outros homens que lhes eram estranhos — forçando-os, num caso e no outro, a agirem como assassinos (155). Não apenas o ódio era desviado dos que tinham culpa (os capos [presos colaboracionistas] eram mais odiados que os homens da SS), mas também desaparecia a linha divisória entre o perseguidor e o perseguido, entre o assassino e a vítima (156).
Morta a pessoa moral, a única coisa que ainda impede que os homens se transformem em mortos-vivos é a diferença individual, a identidade única do indivíduo. Sob certa forma estéril, essa individualidade pode ser conservada por um estoicismo persistente, e sabemos que muitos homens em regimes totalitários se refugiaram, e ainda se refugiam diariamente, nesse absoluto isolamento de uma personalidade sem direitos e sem consciência. Sem dúvida, essa parte da pessoa humana, precisamente por depender tão essencialmente da natureza e de forças que não podem ser controladas pela vontade alheia, é a mais difícil de destruir (e, quando destruída, é a mais fácil de restaurar) (157).
As maneiras de lidar com essa singularidade da pessoa humana são muitas e não tentaremos arrolá-las. Começam com as monstruosas condições dos transportes a caminho do campo, onde centenas de seres humanos amontoam-se num vagão de gado, completamente nus, colados uns aos outros, e são transportados de uma estação para outra, de desvio a desvio, dia após dia; continuam quando chegam ao campo: o choque bem organizado das primeiras horas, a raspagem dos cabelos, as grotescas roupas do campo; e terminam nas torturas inteiramente inimagináveis, dosadas de modo a não matar o corpo ou, pelo menos, não matá-lo rapidamente. O objetivo desses métodos, em qualquer caso, é manipular o corpo humano — com as suas infinitas possibilidades de dor — de forma a fazê-lo destruir a pessoa humana tão inexoravelmente como certas doenças mentais de origem orgânica.
É aqui que a completa sandice de todo o processo se torna mais evidente. É verdade que a tortura é parte essencial de toda polícia totalitária e do seu aparelho judiciário; é usada diariamente para fazer com que as pessoas falem. Esse tipo de tortura, de objetivo definido e racional, tem certos limites: ou o prisioneiro fala dentro de certo tempo, ou matam-no. A essa tortura racionalmente aplicada ajuntou-se outro tipo irracional e sádico, nos primeiros campos de concentração nazistas e nos porões da Gestapo. Administrada geralmente pela SA, não tinha quaisquer objetivos nem sistema, mas dependia da iniciativa de elementos geralmente anormais. A mortalidade era tão alta que somente uns poucos internos dos campos de concentração de 1933 sobreviveram a esses primeiros anos. Esse tipo de tortura parecia ser menos uma instituição política calculada que uma concessão do regime aos seus partidários criminosos e anormais, dessa forma recompensados pelos serviços prestados. Atrás da cega bestialidade da SA, havia muitas vezes um profundo ódio e ressentimento contra os que eram social, intelectual ou fisicamente melhores que eles, e que estavam agora à sua mercê, como numa realização dos seus mais loucos sonhos. Esse ressentimento, que nunca chegou a desaparecer inteiramente dos campos, parece-nos o derradeiro vestígio de um sentimento humanamente compreensível (158).
O verdadeiro horror, porém, começou quando a SS tomou a seu cargo a administração dos campos. A antiga bestialidade espontânea cedeu lugar à destruição absolutamente fria e sistemática de corpos humanos, calculada para aniquilar a dignidade humana. Os campos já não eram parques de diversões de animais sob forma humana, isto é, de homens que realmente deveriam estar no hospício ou na prisão; agora eram “campos de treinamento”, onde homens perfeitamente normais eram treinados para tornarem-se perfeitos membros da SS (159).
O ato de matar a individualidade do homem, de destruir a sua singularidade, fruto da natureza, da vontade e do destino, a qual tornou-se uma premissa tão autoevidente para todas as relações humanas que até mesmo gêmeos idênticos inspiram certa inquietude, cria um horror que de longe ultrapassa a ofensa da pessoa político-jurídica e o desespero da pessoa moral. É esse horror que dá azo às generalizações niilistas que afirmam, com certa plausibilidade, que todos os homens são essencialmente animais (160). A experiência dos campos de concentração demonstra realmente que os seres humanos podem transformar-se em espécimes do animal humano, e que a “natureza” do homem só é “humana” na medida em que dá ao homem a possibilidade de tornar-se algo eminentemente não natural, isto é, um homem.
Natureza e socialeza.
Depois da morte da pessoa moral e da aniquilação da pessoa jurídica, a destruição da individualidade é quase sempre bem-sucedida. É possível que se descubram leis da psicologia de massa que expliquem por que milhões de seres humanos se deixaram levar, sem resistência, às câmaras de gás, embora essas leis nada venham a explicar senão a destruição da individualidade. Mais importante é o fato de que os que eram condenados individualmente quase nunca tentavam levar consigo um dos seus carrascos, de que raramente havia uma revolta séria, e de que, mesmo no momento da libertação, houve poucos massacres espontâneos de homens da SS. Porque destruir a individualidade é destruir a espontaneidade, a capacidade do homem de iniciar algo novo com os seus próprios recursos, algo que não possa ser explicado à base de reação ao ambiente e aos fatos (161). Morta a individualidade, nada resta senão horríveis marionetes com rostos de homem, todas com o mesmo comportamento do cão de Pavlov, todas reagindo com perfeita previsibilidade mesmo quando marcham para a morte. Esse é o verdadeiro triunfo do sistema: “O triunfo da SS exige que a vítima torturada se deixe levar à forca sem protestos, que renuncie e se entregue ao ponto de deixar de afirmar a sua identidade. Não é gratuitamente nem por mero sadismo que os homens da SS desejam a sua submissão. Sabem que o sistema que consegue destruir a vítima antes que ela suba ao patíbulo […] é, sem dúvida, o melhor para manter um povo inteiro na escravidão, na submissão. Nada é mais terrível que essas procissões de seres humanos que vão para a morte como fantoches. Quem vê isso, diz consigo mesmo: ‘Para que tenham ficado subjugados desse modo, que poder deve estar oculto nas mãos dos dirigentes’, e vira as costas, cheio de impotente amargura, mas derrotado” (162).
Se levarmos a sério as aspirações totalitárias e não nos deixarmos iludir pela sensata afirmação de que são utópicas e irrealizáveis, veremos que a sociedade dos que estão prestes a morrer, criada nos campos, é a única forma de sociedade em que é possível dominar o homem completamente. Quem aspira ao domínio total deve liquidar no homem toda a espontaneidade, produto da existência da individualidade, e persegui-la em suas formas mais peculiares, por mais apolíticas e inocentes que sejam. O cão de Pavlov, o espécime humano reduzido às reações mais elementares, o feixe de reações que sempre pode ser liquidado e substituído por outros feixes de reações de comportamento exatamente igual, é o “cidadão” modelo do Estado totalitário; e esse cidadão não pode ser produzido de maneira perfeita a não ser nos campos de concentração.
É apenas aparente a inutilidade dos campos, sua antiutilidade cinicamente confessada. Na verdade, nenhuma outra de suas instituições é mais essencial para preservar o poder do regime. Sem os campos de concentração, sem o medo indefinido que inspiram e sem o treinamento muito definido que oferecem em matéria de domínio totalitário, que em nenhuma outra parte pode ser inteiramente testado em todas as suas mais radicais possibilidades, o Estado totalitário não pode inspirar o fanatismo das suas tropas nem manter um povo inteiro em completa apatia. Dominador e dominados voltariam logo facilmente à “velha rotina burguesa”; após alguns primeiros “excessos”, sucumbiriam à vida de cada dia e às leis humanas; enfim, marchariam na direção que todos os observadores, aconselhados pelo bom senso, previram tantas vezes. O engano trágico dessas profecias, provenientes de um mundo que ainda vivia em segurança, foi supor a existência de uma natureza humana que era imutável através dos tempos, identificar essa natureza humana com a história, e assim declarar que a ideia de domínio total era não apenas desumana como irrealista. De lá para cá, aprendemos que o poder do homem é tão grande que ele realmente pode vir a ser o que o homem desejar.
É da própria natureza dos regimes totalitários exigir o poder ilimitado. Esse poder só é conseguido se literalmente todos os homens, sem exceção, forem totalmente dominados em todos os aspectos da vida. No reino das relações exteriores, novos territórios devem ser constantemente subjugados, enquanto no país de origem grupos humanos sempre novos devem ser dominados em campos de concentração cada vez maiores ou, quando necessário, liquidados para ceder lugar a outros. O problema da oposição não tem importância, nem em assuntos domésticos nem em assuntos externos. Qualquer neutralidade, e mesmo qualquer amizade oferecida espontaneamente, é tão perigosa quanto a franca hostilidade, exatamente porque a espontaneidade em si, com a sua imprevisibilidade, é o maior de todos os obstáculos para o domínio total do homem.
Os comunistas dos países não comunistas, que fugiram ou foram chamados para Moscou, tiveram a amarga experiência de aprender que constituíam uma ameaça à União Soviética. Nesse sentido, os comunistas convictos são tão ridículos e perigosos para o regime da Rússia como, por exemplo, os nazistas convictos da facção de Röhm o foram para os nazistas.
O que torna a convicção e a opinião de qualquer espécie tão ridículas e perigosas nas condições totalitárias é que os regimes totalitários orgulham-se de não precisarem delas, como dispensam qualquer tipo de auxílio humano. Os homens, na medida em que são mais que simples reações animais e realização de funções, são inteiramente supérfluos para os regimes totalitários. O totalitarismo não procura o domínio despótico dos homens, mas sim um sistema em que os homens sejam supérfluos. O poder total só pode ser conseguido e conservado num mundo de reflexos condicionados, de marionetes sem o mais leve traço de espontaneidade. Exatamente porque os recursos do homem são tão grandes, só se pode dominá-lo inteiramente quando ele se torna um exemplar da espécie animal humana.
Portanto, o caráter pode ser uma ameaça, e até mesmo as normas legais mais injustas podem ser um obstáculo; mas a individualidade, ou qualquer outra coisa que distinga um homem do outro, é intolerável. Enquanto todos os homens não se tornam igualmente supérfluos — e isso só se consegue nos campos de concentração —, o ideal do domínio totalitário não é atingido. Os Estados totalitários procuram constantemente, embora nunca com pleno sucesso, demonstrar a superfluidade do homem — pela arbitrária escolha de vários grupos para os campos de concentração, pelos constantes expurgos do aparelho do governo, pelas liquidações em massa. O bom senso grita desesperadamente, mas em vão, que as massas são submissas e que todo esse gigantesco aparelho de terror é, portanto, supérfluo; se fossem capazes de dizer a verdade, os governantes totalitários responderiam: o aparelho parece supérfluo unicamente porque serve para tornar os homens supérfluos.
A tentativa totalitária de tornar supérfluos os homens reflete a sensação de superfluidade das massas modernas numa terra superpovoada. O mundo dos agonizantes, no qual os homens aprendem que são supérfluos através de um modo de vida em que o castigo nada tem a ver com o crime, em que a exploração é praticada sem lucro, e em que o trabalho é realizado sem proveito, é um lugar onde a insensatez é diariamente renovada. No entanto, na estrutura da ideologia totalitária, nada poderia ser mais sensato e lógico. Se os presos são insetos daninhos, é lógico que sejam exterminados por meio de gás venenoso; se são degenerados, não se deve permitir que contaminem a população; se têm “almas escravas” (Himmler), ninguém deve perder tempo tentando reeducá-los. Vistos através do prisma da ideologia, os campos parecem até ser lógicos demais.
Enquanto os regimes totalitários vão, assim, resoluta e cinicamente, esvaziando o mundo da única coisa que faz sentido para a expectativa utilitária do bom senso, impõem-lhe ao mesmo tempo uma espécie de supersentido que, na verdade, as ideologias sempre insinuaram quando pretenderam haver encontrado a chave da história ou a solução para os enigmas do universo. Acima da insensatez da sociedade totalitária, entrona-se o ridículo supersentido da sua superstição ideológica. As ideologias somente são opiniões inócuas, arbitrárias e destituídas de crítica enquanto não se as leva a sério. Uma vez que se lhes toma literalmente a pretensão de validade total, tornam-se núcleos de sistemas de lógica nos quais, como nos sistemas dos paranoicos, tudo se segue compreensiva e até mesmo compulsoriamente, uma vez que se aceita a primeira premissa. A insanidade desses sistemas reside não apenas na primeira premissa, mas na própria lógica em que se baseiam. A curiosa lógica de todos os ismos, sua simplória confiança no valor salvador da devoção obstinada que não atende a fatores específicos e variados, já contém os primeiros germes do desprezo a realidades e aos fatos próprios do totalitarismo.
O bom senso treinado no pensamento utilitário é impotente contra esse supersentido ideológico, pois os regimes totalitários criam um mundo demente que funciona. O desprezo ideológico pelos fatos ainda continha o orgulhoso pressuposto do domínio do homem sobre o mundo; é, afinal, o desprezo à realidade que torna possível mudar o mundo, construir o artifício humano. O que anula o elemento de orgulho no desprezo totalitário pela realidade (e, assim, o distingue radicalmente das teorias e atitudes revolucionárias) é o supersentido que dá a esse desprezo a sua irrefutabilidade, a sua lógica e consistência. A afirmação bolchevista de que o sistema soviético é superior a todos os outros torna-se expediente realmente totalitário pelo fato de que o governante totalitário tira dessa afirmação a conclusão logicamente impecável de que, sem esse sistema, os homens jamais poderiam ter construído uma coisa maravilhosa como, digamos, um metrô; daí, novamente tira a conclusão lógica de que qualquer pessoa que saiba que existe um metrô em Paris é suspeita, porque pode fazer com que as outras duvidem de que as coisas só podem ser feitas à maneira bolchevista. Isso leva à conclusão final de que, para que um bolchevista se conserve leal, tem de destruir o metrô de Paris. Nada importa a não ser a coerência.
Com essas novas estruturas, constituídas à força do supersentido e impulsionadas pelo motor da lógica, chegamos realmente ao fim da era burguesa dos lucros e do poder, assim como ao fim do imperialismo e da expansão. A agressividade do totalitarismo não advém do desejo do poder e, se tenta expandir-se febrilmente, não é por amor à expansão e ao lucro, mas apenas por motivos ideológicos: para tornar o mundo coerente, para provar que o seu supersentido estava certo.
É principalmente em benefício desse supersentido, em benefício da completa coerência, que se torna necessário ao totalitarismo destruir todos os vestígios do que comumente chamamos de dignidade humana. Pois o respeito à dignidade humana implica o reconhecimento de todos os homens ou de todas as nações como entidades, como construtores de mundos ou coautores de um mundo comum. Nenhuma ideologia que vise à explicação de todos os eventos históricos do passado e o planejamento de todos os eventos futuros pode suportar a imprevisibilidade que advém do fato de que os homens são criativos, de que podem produzir algo novo que ninguém jamais previu.
O que as ideologias totalitárias visam, portanto, não é a transformação do mundo exterior ou a transmutação revolucionária da sociedade, mas a transformação da própria natureza humana. Os campos de concentração constituem os laboratórios onde mudanças na natureza humana são testadas, e, portanto, a infâmia não atinge apenas os presos e aqueles que os administram segundo critérios estritamente “científicos”; atinge a todos os homens. A questão não está no sofrimento, do qual sempre houve demasiado na terra, nem no número de vítimas. O que está em jogo é a natureza humana em si; e, embora pareça que essas experiências não conseguem mudar o homem, mas apenas destruí-lo, criando uma sociedade na qual a banalidade niilística do homo homini lupus é consistentemente realizada, é preciso não esquecer as necessárias limitações de uma experiência que exige controle global para mostrar resultados conclusivos.
Até agora, a crença totalitária de que tudo é possível parece ter provado apenas que tudo pode ser destruído. Não obstante, em seu afã de provar que tudo é possível, os regimes totalitários descobriram, sem o saber, que existem crimes que os homens não podem punir nem perdoar. Ao tornar-se possível, o impossível passou a ser o mal absoluto, impunível e imperdoável, que já não podia ser compreendido nem explicado pelos motivos malignos do egoísmo, da ganância, da cobiça, do ressentimento, do desejo do poder e da covardia; e que, portanto, a ira não podia vingar, o amor não podia suportar, a amizade não podia perdoar. Do mesmo modo como as vítimas nas fábricas da morte ou nos poços do esquecimento já não são “humanas” aos olhos de seus carrascos, também essa novíssima espécie de criminosos situa-se além dos limites da própria solidariedade do pecado humano.
É inerente a toda a nossa tradição filosófica que não possamos conceber um “mal radical”, e isso se aplica tanto à teologia cristã, que concedeu ao próprio Diabo uma origem celestial, como a Kant, o único filósofo que, pela denominação que lhe deu, ao menos deve ter suspeitado de que esse mal existia, embora logo o racionalizasse no conceito de um “rancor pervertido” que podia ser explicado por motivos compreensíveis. Assim, não temos onde buscar apoio para compreender um fenômeno que, não obstante, nos confronta com sua realidade avassaladora e rompe com todos os parâmetros que conhecemos. Apenas uma coisa parece discernível: podemos dizer que esse mal radical surgiu em relação a um sistema no qual todos os homens se tornaram igualmente supérfluos. Os que manipulam esse sistema acreditam na própria superfluidade tanto quanto na de todos os outros, e os assassinos totalitários são os mais perigosos porque não se importam se eles próprios estão vivos ou mortos, se jamais viveram ou se nunca nasceram. O perigo das fábricas de cadáveres e dos poços do esquecimento é que hoje, com o aumento universal das populações e dos desterrados, grandes massas de pessoas constantemente se tornam supérfluas se continuamos a pensar em nosso mundo em termos utilitários. Os acontecimentos políticos, sociais e econômicos de toda parte conspiram silenciosamente com os instrumentos totalitários inventados para tornar os homens supérfluos. O bom senso utilitário das massas, que, na maioria dos países, estão demasiado desesperadas para ter muito medo da morte, compreende muito bem a tentação a que isso pode levar. Os nazistas e bolchevistas podem estar certos de que as suas fábricas de extermínio, que demonstram a solução mais rápida do problema do excesso de população, das massas economicamente supérfluas e socialmente sem raízes, são ao mesmo tempo uma atração e uma advertência. As soluções totalitárias podem muito bem sobreviver à queda dos regimes totalitários sob a forma de forte tentação que surgirá sempre que pareça impossível aliviar a miséria política, social ou econômica de um modo digno do homem.
Notas
125. Em Tischgespräche, Hitler menciona várias vezes estar lutando por uma situação em que “cada indivíduo saiba que vive e morre para a preservação da espécie” (p. 349). Ver também p. 347: “Uma mosca põe milhões de ovos, dos quais todos morrem. Mas a mosca fica”.
126. Os melhores relatos sobre os campos de concentração nazistas são os de David Rousset, Les jours de notre mort, Paris, 1947; Eugen Kogon, op. cit.; Bruno Bettelheim, “On Dachau and Buchenwald” (de maio de 1938 a abril de 1939), em Nazi conspiracy, VII, pp. 824 ss. Quanto aos campos de concentração soviéticos, ver a excelente coleção de relatos de sobreviventes poloneses publicados sob o título The dark side of the moon; e também David J. Dallin, op. cit., embora as suas narrativas sejam menos convincentes por partirem de personalidades “proeminentes” desejosas de redigir manifestos e acusações.
127. The dark side of the moon; a introdução também acentua essa peculiar falta de comunicação: “Eles registram mas não comunicam”.
128. Ver especialmente Bruno Bettelheim, op. cit. “Era como se eu estivesse convencido de que, de certa forma, aquelas coisas horríveis e degradantes não estavam acontecendo a ‘mim’ como sujeito, mas a ‘mim’ como objeto. Essa sensação foi corroborada pelo que me diziam outros prisioneiros. […] Era como se eu visse ocorrerem coisas das quais apenas vagamente participava. […] ‘Isto não pode ser verdadeiro, essas coisas simplesmente não acontecem’. […] Os prisioneiros tinham de convencer a si mesmos de que aquilo era real, que estava realmente acontecendo e que não era apenas um pesadelo. Nunca o conseguiram completamente”. Ver também Rousset, op. cit., p. 213: “[…] Aqueles que não o viram com os próprios olhos não podem acreditar. Você mesmo, antes de vir para cá, levava a sério o que se dizia a respeito das câmaras de gás? Respondi que não. […] Vê? Pois todos são iguaizinhos a você. Todos eles, em Paris, Londres, Nova York, até mesmo em Birkenau, com aqueles crematórios embaixo do próprio nariz […] ainda não acreditam, cinco minutos antes de serem mandados para o porão dos crematórios ainda não acreditam”.
129. O primeiro a compreender isso foi Rousset, em seu Univers concentratinaire, 1947.
130. Rousset, op. cit., p. 587.
131. Ver Georges Bataille em Critique, janeiro de 1948, p. 72.
132. O livro de Rousset contém muitas dessas “intuições” a respeito da “natureza” humana, baseadas principalmente na observação do fato de que, depois de certo tempo, mal se pode distinguir a mentalidade dos internos da mentalidade dos guardas dos campos.
133. A fim de evitar mal-entendidos, convém acrescentar que, com a invenção da bomba de hidrogênio, dos foguetes teleguiados e das armas eletrônicas, a guerra ficou totalmente diferente. Contudo, está fora do escopo deste livro discutir essa questão.
134. Isso aconteceu na Alemanha em fins de 1942, ocasião em que Himmler notificou a todos os comandantes dos campos “que reduzissem a taxa de mortalidade a todo custo”, pois verificara-se que, dos 136 mil recém-deportados, 70 mil já estavam mortos quando chegaram no campo ou morreram logo depois. Ver Nazi conspiracy, IV, anexo II. Relatos posteriores, provenientes dos campos da União Soviética, confirmam unanimemente que, após 1949 — isto é, quando Stálin ainda estava vivo — a taxa de mortalidade nos campos de concentração, que antes havia alcançado até 60% dos presos, foi sistematicamente reduzida, presumivelmente devido à aguda escassez de mão de obra na União Soviética. Essa melhora de condições não deve ser confundida com a crise do regime surgida após a morte de Stálin e que, significativamente, repercutiu primeiro nos campos de concentração. Cf. Wilhelm Starlinger, Grezen der Sowjetmacht [Limites do poder soviético], Würzburg, 1955.
135. Ver Kogon, op. cit., p. 58: “Grande parte do trabalho imposto nos campos de concentração era inútil; ou era supérfluo ou era tão mal planejado que tinha de ser feito duas ou três vezes”. Ver também Bettelheim, op. cit., pp. 831-2: “Os novos prisioneiros eram forçados a realizar tarefas idiotas. […] Sentiam-se degradados […] e preferiam trabalho mais pesado que produzisse alguma coisa de útil”. Mesmo Dallin, que baseou seu livro sobre a tese de que a finalidade dos campos soviéticos é proporcionar mão de obra barata, é forçado a admitir a ineficiência do trabalho nos campos: op. cit., p. 105. As teorias correntes sobre o sistema de campos russo como uma medida econômica, destinada a prover mão de obra barata, seriam claramente refutadas se recentes informes acerca de anistias em massa e da abolição dos campos de concentração provarem-se corretos. Pois, se os campos serviam a um importante objetivo econômico, o regime certamente não poderia ter-se permitido sua rápida liquidação sem graves consequências para todo o sistema econômico.
136. Além dos milhões de pessoas que os nazistas transportaram para os campos de extermínio, constantemente experimentavam novos planos de colonização, transportando alemães da Alemanha ou dos territórios ocupados para o Leste para fins de colonização. Isso, naturalmente, constituía sério obstáculo às ações militares e à exploração econômica. Quanto às numerosas discussões sobre esses assuntos e ao constante conAito entre a hierarquia civil nazista nos territórios ocupados do Leste e a hierarquia da SS, ver especialmente o volume XXIX de Trial of the major war criminals, Nurembergue, 1947.
137. Bettelheim, op. cit., observa que os guardas dos campos adotavam uma atitude semelhante à dos próprios prisioneiros no tocante à atmosfera de irrealidade.
138. Tem certa importância compreender que todas as fotografias dos campos de concentração eram enganadoras, uma vez que mostravam os campos em seus últimos estágios, no momento em que chegavam as tropas aliadas. Não existiam campos de extermínio na Alemanha propriamente dita e, a essa altura, todo o equipamento de extermínio já havia sido desmontado. Por outro lado, o que mais provocou a indignação dos aliados e o que constitui o lado mais horroroso dos filmes — isto é, a visão dos esqueletos humanos — não era de modo algum típico dos campos de concentração alemães; o extermínio era levado a cabo sistematicamente por meio de gás e não de fome. A condição dos campos foi o resultado da guerra durante os últimos meses: Himmler havia ordenado a evacuação de todos os campos de extermínio do Leste europeu onde eles se concentravam (principalmente na Polônia), e, em consequência, os campos de concentração alemães ficaram superpovoados com a vinda dos sobreviventes deportados, sem que houvesse possibilidade de assegurar o suprimento de alimentos.
139. Rousset acentua (op. cit., passim) que a vida num campo de concentração era simplesmente um prolongado processo de morte.
140. Maunz, op. cit., p. 50, insiste em que os criminosos nunca deviam ser mandados para os campos para cumprimento das sentenças regulares.
141. A escassez de prisões na Rússia era tal que, no ano de 1925-6, somente 36% das sentenças puderam ser cumpridas. Ver Dallin, op. cit., pp. 158 ss.
142. “A Gestapo e a SS sempre deram grande importância ao fato de se misturarem as categorias dos internos nos campos. Em nenhum campo os internos pertenciam exclusivamente a uma categoria” (Kogon, op. cit., p. 19). Na Rússia, sempre se costumou misturar prisioneiros políticos e criminosos. Durante os primeiros dez anos de poder soviético, os grupos políticos da Esquerda gozavam de certos privilégios; contudo, o pleno desenvolvimento do caráter totalitário do regime mudou a situação e “após a década de 20, os prisioneiros políticos passaram a ser tratados como inferiores aos criminosos comuns, mesmo oficialmente” (Dallin, op. cit., pp. 177 ss).
143. O livro de Rousset peca por seu exagero da inAuência dos comunistas alemães, que dominavam a administração interna de Buchenwald durante a guerra.
144. Ver, por exemplo, o testemunho da sra. Buber-Neumann (ex-esposa do comunista alemão Heinz Neumann), que sobreviveu aos campos de concentração soviéticos e alemães: “Os russos nunca […] se mostravam tão sádicos quanto os nazistas. […] Nossos guardas russos eram homens decentes e não sádicos, mas satisfaziam fielmente as necessidades daquele desumano sistema” (Under two dictators).
145. Bruno Bettelheim “Behavior in extreme situations”, no Journal of Abnormal and social psycology, vol. XXXVIII, no 4, 1943, descreve a vaidade dos criminosos e prisioneiros políticos comparada com a atitude dos que não haviam feito nada. Estes “eram menos capazes de suportar o choque inicial”, os primeiros a se desintegrar. Bettelheim atribui isso à sua origem na classe média.
146. Rousset, op. cit., p. 71.
147. Quanto às condições nos campos de concentração franceses, ver Arthur Koestler, Scum of the earth, 1941.
148. Kogon, op. cit., p. 6.
149. Ver Nazi conspiracy, IV, pp. 800 ss.
150. Beck e Godin, op. cit., dizem explicitamente que “os opositores políticos constituíam apenas uma proporção relativamente pequena da população das prisões [russas]” (p. 87), e que não havia qualquer relação entre “a prisão de uma pessoa e algum crime” (p. 95).
151. Bruno Bettelheim, “On Dachau and Buchenwald”, ao discutir o fato de que a maioria dos prisioneiros “terminava por aceitar os valores da Gestapo”, acentua que “isso não era o resultado da propaganda […] A Gestapo insistia em que, de qualquer modo, impediria que eles expressassem os seus sentimentos” (pp. 834-5). Himmler proibiu explicitamente qualquer tipo de propaganda nos campos. “A instrução consiste em disciplina, não em qualquer tipo de doutrinação ideológica”, “Sobre a organização e obrigação da SS e da polícia”, em National-politischer Lehrgang der Wehrmacht, 1937. Citado em Nazi conspiracy, IV, pp. 616 ss.
152. Rousset, op. cit., p. 464.
153. Ver o relato de Sergei Malakhov em Dallin, op. cit., pp. 20 ss.
154. Ver Albert Camus em Twice a year, 1947.
155. Grande parte do livro de Rousset, op. cit., ocupa-se das discussões desse dilema pelos prisioneiros.
156. Bettelheim, op. cit., descreve o processo pelo qual os guardas, bem como os prisioneiros, ficavam “condicionados” pela vida do campo e receavam voltar para o mundo exterior. Rousset, portanto, tem razão quando insiste em que a verdade é que “tanto a vítima como o carrasco são ignóbeis; a lição dos campos é a irmandade da abjeção” (p. 588).
157. Bettelheim, op. cit., descreve como “a principal preocupação dos novos prisioneiros parecia ser a de se conservarem intactos como personalidade”, enquanto o problema dos prisioneiros antigos era “como viver da melhor maneira possível dentro do campo”.
158. Rousset, op. cit., p. 390, conta como um homem da SS disse a um professor: “Antigamente você era professor. Agora não é mais professor de coisa alguma. Já não é nenhum mandachuva. Agora você é um nanico: o mandachuva agora sou eu”.
159. Kogon, op. cit., p. 6, menciona a possibilidade de que os campos seriam mantidos como áreas de experimentação e de treinamento para a SS. Faz também um bom relato da diferença entre os antigos campos administrados pela SA e os posteriores sob a chefia da SS. “Nenhum desses primeiros campos tinha mais que mil internos. […] Neles, as condições de vida estavam além de qualquer descrição. As narrativas dos poucos antigos prisioneiros que sobreviveram a esses anos concordam quanto ao fato de que não existia nenhuma forma de perversão sádica que não fosse praticada pelos homens da SA. Mas eram atos de bestialidade individual, ainda não inteiramente organizados num sistema frio que compreendia multidões de homens. Quem conseguiu isto foi a SS” (p. 7). O novo sistema mecanizado procurava atenuar o sentimento de responsabilidade na medida do humanamente possível. Quando, por exemplo, veio a ordem de matar, a cada dia, várias centenas de prisioneiros russos, a matança era feita atirando-se através de um furo para que não se visse a vítima. (Ver Ernst Feder, “Essai sur la psychologie de la terreur”, em Synthèses, Bruxelas, 1946.) Por outro lado, homens normais eram levados artificialmente à perversão. Rousset conta que um guarda da SS lhe disse: “Geralmente eu continuo a bater até ejacular. Tenho uma esposa e três filhos em Breslau. Antes, eu era perfeitamente normal. Foi isto o que eles fizeram de mim. Agora, quando tenho minha folga, não vou para casa. Não ouso olhar de frente para a minha mulher” (p. 273). Os documentos da era nazista contêm numerosos testemunhos quanto à normalidade média dos que eram encarregados de levar a cabo o programa de extermínio de Hitler. Uma boa coleção se encontra em “The weapon of antisemitism”, de Léon Poliakov, publicado pela UNESCO em The Third Reich, Londres, 1955. A maioria dos homens que compunham as unidades usadas para esses fins não eram voluntários; eram policiais comuns convocados para essas tarefas especiais. Mas até mesmo os experimentados homens da SS consideravam esse serviço pior do que a luta no front. Relatando uma execução em massa levada a efeito por membros da SS, uma testemunha ocular louva-lhes “o idealismo”, que era tão grande que “eles puderam exterminar a todos sem precisar recorrer à bebida”. O desejo de eliminar todos os motivos e paixões pessoais durante os “extermínios” e, portanto, de reduzir a crueldade a um mínimo é revelado pelo fato de que um grupo de médicos e engenheiros, encarregados das instalações de gás, estava sempre fazendo melhoramentos que visavam não só aumentar a capacidade produtiva das fábricas de cadáveres, mas também a acelerar e atenuar a agonia da morte.
160. Isso está bem claro no livro de Rousset. “As condições sociais da vida nos campos transformaram as grandes massas de internos, tanto alemães como deportados, independentemente de sua antiga educação ou posição social, […] numa turba degenerada, inteiramente submissa aos reflexos primitivos do instinto animal” (p. 183).
161. Nesse contexto, há também a surpreendente raridade dos suicídios nos campos. Os suicídios ocorriam com muito maior frequência entre a prisão e a deportação do que no próprio campo, fato que, naturalmente, se explica pelos cuidados e providências tomados para evitá-los, uma vez que o suicídio é um ato espontâneo. Segundo estatísticas de Buchenwald (Nazi conspiracy, IV, pp. 800 ss), menos de 0,5% das mortes eram atribuídas ao suicídio; muitas vezes havia apenas dois suicídios por ano, embora o número total de mortes atingisse 3516 no mesmo ano. Os relatórios dos campos russos mencionam o mesmo fenômeno. Cf., por exemplo, Starlinger, op. cit., p. 57.
162. Rousset, op. cit., p. 525.
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