Totalitarismo por Hannah Arendt – 2.2

Nesta nova jornada dos Novos Pensadores vamos examinar um escrito de Hannah Arendt (1951) sobre o totalitarismo. É a terceira parte do livro Hannah Arendt, Origens do totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. A seguir vai o capítulo 2, segunda parte.

TOTALITARISMO

Os homens normais não sabem que tudo é possível.

David Rousset

ÍNDICE

Prefácio

1. Uma sociedade sem classes

1.1 As massas

1.2 A aliança temporária entre a ralé e a elite

2. O movimento totalitário

2.1 A propaganda totalitária

2.2 A organização totalitária

3. O totalitarismo no poder

4. Ideologia e terror: uma nova forma de governo

2. O MOVIMENTO TOTALITÁRIO

2. A ORGANIZAÇÃO TOTALITÁRIA

As formas da organização totalitária, em contraposição com o seu conteúdo ideológico e os slogans de propaganda, são completamente novas (60). Visam dar às mentiras propagandísticas do movimento, tecidas em torno de uma ficção central — a conspiração dos judeus, dos trotskistas, das trezentas famílias etc. —, a realidade operante e a construir, mesmo em circunstâncias não totalitárias, uma sociedade cujos membros ajam e reajam segundo as regras de um mundo fictício. Em contraste com partidos e movimentos aparentemente semelhantes de orientação fascista ou socialista, nacionalista ou comunista, que dão à sua propaganda o apoio terrorista assim que atingem um certo grau de extremismo (o que geralmente depende do grau de desespero dos seus membros), o movimento totalitário realmente leva a sério a sua propaganda, e essa seriedade se expressa muito mais assustadoramente na organização dos seus adeptos do que na liquidação física dos seus oponentes. A organização e a propaganda, e não o terror e a propaganda, são duas faces da mesma moeda (61).

O mais surpreendentemente novo expediente organizacional dos movimentos na fase que antecede a tomada do poder é a criação de organizações de vanguarda, ou seja, a definição da diferença entre os membros do partido e os seus simpatizantes. Comparadas a essa invenção, outras características tipicamente totalitárias, como a nomeação de funcionários por uma cúpula ideológica e a monopolização final das nomeações por um homem só, são de menor importância. O chamado “princípio de liderança” não é totalitário em si; algumas de suas características derivam do autoritarismo e da ditadura militar, que muito contribuíram para obscurecer e subestimar o fenômeno essencialmente totalitário. Se os funcionários nomeados por alguém de cima tivessem verdadeira autoridade e responsabilidade, estaríamos lidando com uma estrutura hierárquica na qual a autoridade e o poder são delegados e regulados por lei. O mesmo também se aplica à organização de um exército e à ditadura estabelecida segundo o modelo militar; neste caso, o poder absoluto de comando, de cima para baixo, e a obediência absoluta, de baixo para cima, correspondem a uma situação de extrema emergência em combate, e é precisamente por isso que não são totalitárias. Uma escala de comando hierarquicamente organizada significa que o poder do comandante depende de todo o sistema hierárquico dentro do qual atua. Toda hierarquia, por mais autoritária que seja o seu funcionamento, e toda escala de comando, por mais arbitrário e ditatorial que seja o conteúdo das ordens, tende a estabilizar-se e constituiria um obstáculo ao poder total do líder de um movimento totalitário (62). Na linguagem dos nazistas, é o “desejo do Führer”, dinâmico e sempre em movimento — e não as suas ordens, expressão que poderia indicar uma autoridade fixa e circunscrita —, que é a “lei suprema” num Estado totalitário (63). O caráter totalitário do princípio de liderança advém unicamente da posição em que o movimento totalitário, graças à sua peculiar organização, coloca o líder, ou seja, da importância funcional do líder para o movimento. Comprova essa asserção o fato de que, tanto no caso de Hitler como no de Stálin, o verdadeiro princípio de liderança só se cristalizou lentamente, em paralelo com a gradual “totalitarização” do movimento.

Um anonimato que muito contribui para a esquisitice do fenômeno encobre as origens dessa estrutura organizacional. Não sabemos quem primeiro decidiu organizar os simpatizantes em grupos de vanguarda, quem viu primeiro uma força decisiva em si, e não apenas um reservatório de onde se poderiam arregimentar membros, nas massas vagamente simpatizantes — com as quais todo partido costumava contar no dia da eleição, mas que eram consideradas demasiado flutuantes para serem aceitas como membros. As primeiras organizações de simpatizantes de inspiração comunista, tais como os Amigos da União Soviética, tornaram-se grupos de vanguarda, embora originalmente não fossem mais do que os seus nomes indicavam: agrupamentos de simpatizantes para ajuda financeira ou de outra natureza (como, por exemplo, assistência legal). Hitler foi o primeiro a dizer que cada movimento devia dividir as massas conquistadas pela propaganda em duas categorias: simpatizantes e membros. Isso, em si, já é muito interessante: porém, mais significativo ainda é ter baseado essa divisão numa filosofia mais ampla, segundo a qual as pessoas em sua maioria são demasiado preguiçosas e covardes para qualquer ato que ultrapasse o mero conhecimento teórico, é só uma minoria está disposta a lutar por suas convicções (65). Consequentemente, Hitler foi o primeiro a traçar uma política de contínua ampliação dos escalões de simpatizantes, ao mesmo tempo em que mantinha o número de membros do partido estritamente limitado (66). Essa noção de uma minoria de membros do partido cercada por uma maioria de simpatizantes aproxima-se do que vieram a ser as organizações de vanguarda — termo que realmente exprime muito bem a sua função ulterior, e indica a relação entre membros e simpatizantes dentro do próprio movimento. Pois as organizações de vanguarda de simpatizantes não são menos essenciais ao funcionamento do movimento do que os seus verdadeiros membros.

As organizações de vanguarda cercam os membros dos movimentos com uma parede protetora que os separa do mundo exterior normal; ao mesmo tempo, constituem a ponte que os leva de volta à normalidade e sem a qual os membros, na fase anterior à tomada do poder, sentiriam com demasiada clareza as diferenças entre as suas crenças e as das pessoas normais, entre a mentirosa ficção do seu mundo e a realidade do mundo normal. A engenhosidade desse expediente, durante a luta do movimento pelo poder, é que a organização de vanguarda não apenas isola os membros, mas lhes empresta uma aparência de normalidade externa que amortece o impacto da verdadeira realidade de maneira mais eficaz que a simples doutrinação. O que consolida a crença de um nazista ou bolchevista na explicação fictícia do mundo é a diferença entre a sua atitude e a do simpatizante, porque, afinal, o simpatizante tem as mesmas convicções, embora de um modo mais “normal”, isto é, menos fanático e mais confuso; de forma que parece ao membro do partido que qualquer pessoa a quem o movimento não tenha expressamente apontado como inimigo (um judeu, um capitalista etc.) está do seu lado, e que o mundo é cheio de aliados secretos que apenas não têm ainda a necessária força de espírito e de caráter para tirar as conclusões lógicas de suas próprias convicções (67).

Por outro lado, o mundo exterior geralmente tem o primeiro vislumbre do movimento totalitário através das organizações de vanguarda. Os simpatizantes que, ao que tudo indica, são ainda concidadãos inofensivos numa sociedade não totalitária, não podem propriamente ser chamados de fanáticos obstinados; através deles, os movimentos fazem com que suas fantásticas mentiras sejam mais geralmente aceitas, podem divulgar sua propaganda em formas mais suaves e respeitáveis, até que toda a atmosfera esteja impregnada de elementos totalitários disfarçados em opiniões e reações políticas normais. As organizações de simpatizantes dão aos movimentos totalitários uma aparência de normalidade e respeitabilidade que engana os seus membros quanto à verdadeira natureza do mundo exterior, da mesma forma que engana o mundo exterior quanto ao verdadeiro caráter do movimento. As organizações de vanguarda funcionam nas duas direções: como fachada do movimento totalitário para o mundo não totalitário, e como fachada deste mundo para a hierarquia interna do movimento.

Ainda mais notável do que essa relação é o fato de que ela se repete em níveis diferentes dentro do próprio movimento. Os membros do partido mantêm a mesma distância e relação com os simpatizantes que as formações de elite do movimento mantêm com os membros comuns. Se o simpatizante parece ser ainda um habitante normal do mundo exterior que adotou o credo totalitário como se pode adotar o programa de um partido comum, o membro comum do movimento nazista ou bolchevista ainda pertence, em muitos aspectos, ao mundo exterior: suas relações profissionais e sociais ainda não são determinadas de modo absoluto pelo fato de pertencer ao partido, embora ele compreenda — ao contrário do simples simpatizante – que, em caso de conflito entre a fidelidade partidária e a vida privada, deverá prevalecer a primeira. Por outro lado, o membro do grupo militante identifica-se completamente com o movimento, não tendo profissão nem vida pessoal independente deste último. Assim como os simpatizantes constituem um muro de proteção em torno dos membros do movimento e representam para eles o mundo exterior, também os membros comuns envolvem os grupos militantes e representam para estes o mundo exterior normal.

Uma vantagem definida dessa estrutura é que ela neutraliza o impacto de um dos dogmas básicos do totalitarismo, que afirma ser o mundo dividido em dois gigantescos campos inimigos, um dos quais é o movimento, e que este pode e deve lutar contra o resto do mundo — afirmação que abre o caminho para a indiscriminada agressividade dos regimes totalitários. O choque da terrível e monstruosa dicotomia totalitária é neutralizado, e nunca totalmente percebido, graças a uma cuidadosa graduação de militância, na qual cada escalão reflete para o escalão imediatamente superior a imagem do mundo não totalitário, porque é menos militante e os seus membros são menos organizados. Esse tipo de organização evita que os seus membros jamais venham a encarar diretamente o mundo exterior, cuja hostilidade permanece para eles um simples pressuposto ideológico. Permanecem tão bem protegidos contra a realidade do mundo não totalitário que subestimam constantemente os tremendos riscos da política totalitária.

Não há dúvida de que os movimentos totalitários atacam o status quo mais radicalmente que qualquer antigo partido revolucionário. Podem dar-se ao luxo desse radicalismo, aparentemente tão inadequado para organizações de massa, porque a sua organização proporciona um substituto temporário para a vida comum, não política, que o totalitarismo realmente procura abolir. Todas as pessoas que formam o mundo das relações sociais não políticas, das quais o “revolucionário profissional” teve de separar-se ou aceitar como eram, existem sob a forma de grupos menos militantes dentro do movimento; nesse mundo hierarquicamente organizado, os que lutam pela conquista do mundo e pela revolução mundial nunca se expõem ao choque inevitável da discrepância entre as crenças “revolucionárias” e o mundo “normal”. O motivo pelo qual os movimentos, em sua fase revolucionária anterior ao poder, podem atrair tantos homens comuns é que os seus membros vivem num mundo ilusoriamente normal: os membros do partido são rodeados pelo mundo normal dos simpatizantes, e as formações de elite, pelo mundo normal dos partidários comuns.

Outra vantagem do modelo totalitário é que pode ser repetido indefinidamente, e mantém a organização num estado de fluidez que permite a constante inserção de novas camadas e a definição de novos graus de militância. Toda a história do partido nazista pode ser narrada em termos de novas formações dentro do movimento. A SA, as tropas de assalto (fundada em 1922), foi a primeira formação nazista supostamente mais militante que o próprio partido (68); em 1926, foi fundada a SS como a formação de elite da SA; três anos depois, a SS foi separada da SA e colocada sob o comando de Himmler; Himmler levou apenas mais alguns anos para repetir o mesmo jogo dentro da SS: um após outro — e cada qual mais militante que o grupo anterior — vieram à luz, primeiro, as Tropas de Choque (69), depois as unidades da Caveira, criadas para guardarem os campos de concentração e mais tarde reunidas para formar a SS-Armada (Waffen-SS), e finalmente o Serviço de Segurança (o “serviço de espionagem ideológica do Partido”, com a sua ramificação para executar a “política de população negativa”) e o Centro para Questões de Raça e Colonização (Rasse-und Siedlungswesen), cuja função era de “natureza positiva” — todos emanados da SS Geral, cujos membros, com a exceção da elite do Corpo do Führer, permaneciam em suas ocupações civis. Daí em diante, as relações entre essas novas formações e o membro do Corpo do Führer eram as mesmas que entre o membro da SA e o membro da SS, ou entre o membro do partido e o membro da SA, ou entre o membro da organização de vanguarda e o membro do partido (70). Agora, a SS Geral era encarregada não apenas de “salvaguardar a […] corporificação da ideia nacional-socialista”, mas também de “proteger os membros de todos os escalões especiais da SS para que não se afastassem do próprio movimento” (71).

Esse tipo de hierarquia flutuante, com a constante adição de novas camadas e
mudanças de autoridade, é bem conhecido: existe em entidades secretas de controle, como a polícia secreta ou os serviços de espionagem, nos quais sempre há necessidade de novos controles para controlar os controladores. Antes que os movimentos tomem o poder, a espionagem total ainda não é possível; mas a hierarquia flutuante, semelhante à dos serviços secretos, torna possível, mesmo sem o poder efetivo, degradar qualquer escalão ou grupo que vacile ou mostre sinais de perda de radicalismo, através da mera inserção de mais uma camada radical, deslocando assim o grupo mais velho em direção da organização periférica de vanguarda, ou seja, na direção oposta ao centro do movimento. Assim, as formações de elite nazista eram fundamentalmente organizações vindas do âmago do partido; a SA galgou a posição de superpartido quando o radicalismo do partido pareceu diminuir, e foi depois, por sua vez e por motivos semelhantes, substituída pela SS.

Exagera-se frequentemente o valor militar das formações de elite totalitárias, especialmente da SA e da SS, e de certa forma esquece-se o significado puramente interno que tinham para o partido (72). Nenhuma das organizações fascistas, caracterizadas pela cor da camisa, foi fundada para fins específicos de defesa ou de agressão, embora a defesa dos líderes ou dos membros comuns do partido fosse citada como pretexto (73). A natureza paramilitar dos grupos de elite nazistas e fascistas resultou do fato de terem sido fundados como “instrumentos para a luta ideológica do movimento” (74) contra o pacifismo corrente na Europa depois da Primeira Guerra Mundial. Para fins totalitários, era muito mais importante criar, como “expressão de uma atitude agressiva” (75), um exército de imitação que se assemelhasse o mais possível ao falso exército dos pacifistas (os quais, incapazes de compreender a função constitucional do Exército dentro da estrutura política, denunciavam todas as instituições militares como bandos de assassinos voluntários) do que ter uma tropa de soldados bem treinados. A SA e a SS eram, sem dúvida, organizações exemplares para fins de violência arbitrária e de assassinato; não eram tão bem treinadas quanto o Reichswehr Negro e não estavam equipadas para lutar contra tropas regulares. A propaganda militarista foi mais popular na Alemanha do pós-guerra do que o treinamento militar, e os uniformes não aumentaram o valor militar das tropas paramilitares, embora fossem úteis como indicação clara da abolição das normas e da moral dos civis; de certo modo, esses uniformes apaziguavam consideravelmente a consciência dos assassinos e, além disso, tornavam-nos ainda mais acessíveis à obediência cega diante da autoridade inconteste. Apesar desses enfeites militares, a facção interna do partido nazista, que era primordialmente nazista e militarista e, portanto, encarava as tropas paramilitares não apenas como meras formações partidárias, mas como ampliação ilegal do Reichswehr (que havia sido limitado pelo Tratado de Paz de Versalhes), foi a primeira a ser liquidada. Röhm, o líder das tropas de assalto da SA, havia realmente imaginado e negociado a incorporação da sua SA ao Reichswehr depois que os nazistas tomassem o poder. Hitler mandou matá-lo por sua tentativa de transformar o novo regime nazista em ditadura militar (76). Vários anos antes, Hitler havia deixado claro que o movimento nazista não desejava tal coisa; da chefia da SA, demitiu Röhm — um verdadeiro soldado, cuja experiência na guerra e na organização do Reichswehr Negro teria feito dele um elemento indispensável a um programa sério de treinamento militar — e escolheu Himmler, um homem sem o menor conhecimento de assuntos militares, para reorganizar a SS.

Além da importância das formações de elite para a estrutura organizacional dos movimentos, onde constituíam núcleos mutáveis da militância, o seu caráter paramilitar deve ser compreendido em conjunto com outras organizações partidárias profissionais, como as dos mestres, advogados, médicos, estudantes, professores universitários, técnicos e trabalhadores. Todos eram, essencialmente, duplicatas de sociedades profissionais não totalitárias existentes; eram paraprofissionais como as tropas de assalto eram paramilitares. Era típico que, quanto mais claramente os partidos comunistas europeus se tornavam ramificações do movimento bolchevista dirigido por Moscou, tanto mais usavam também as suas organizações de vanguarda para competir com grupos puramente profissionais. A diferença entre os nazistas e os bolchevistas, a esse respeito, era que os nazistas tinham forte tendência de considerar essas formações paraprofissionais como parte da elite do partido, enquanto os bolchevistas preferiam recrutar delas o material para as suas organizações de vanguarda. O importante para os movimentos totalitários é, antes mesmo de tomarem o poder, darem a impressão de que todos os elementos da sociedade estão representados em seus escalões: o fim último da propaganda nazista era organizar todos os alemães como simpatizantes (77). Os nazistas foram um passo adiante neste jogo e criaram uma série de falsos departamentos, moldados segundo a administração regular do Estado, tais como o seu próprio departamento de relações exteriores, educação, cultura, esportes etc. O valor profissional dessas instituições era tão pequeno quanto o valor militar da imitação de exército representada pelas tropas de assalto mas, juntas, criavam um perfeito mundo de aparências onde cada realidade do mundo não totalitário era servilmente reproduzida sob forma de embuste.

Criação de uma réplica do mundo. Importante investigar isso.

Uma pista. Quem conhece hoje a Alemanha e convive com os alemães não consegue imaginar como muitos de seus avós e bisavós se comportaram como se comportaram (na época em que o nazismo estava sendo gestado e se instalou). Não é que era outro tipo de ser humano. Era, basicamente, o mesmo. O que mudou? A configuração do campo, os clusters resilientes (e não eram tantos assim). Suspeito que poucos clusters podem fazer isso. Foi assim na Alemanha nazista, foi assim no seio dos Republicanos americanos, é assim no Brasil de Bolsonaro. Tem primeiro que usinar um tipo estranho de organismo. A difusão (reprodução) vem depois…

Essa técnica de duplicação, que de nada serve para a derrubada direta de um governo, foi extremamente útil no trabalho de solapar instituições atuantes existentes e na “decomposição do status quo” (78), tarefa que as organizações totalitárias invariavelmente preferem a uma franca exibição de força. Se o objetivo dos movimentos é “penetrarem como pólipos em todas as posições de poder” (79), devem estar prontos para qualquer posição específica, social ou política. Dada a pretensão de domínio total, todo grupo organizado na sociedade não totalitária parece constituir, especificamente, uma ameaça de destruir o movimento; cada um deles requer um instrumento específico de destruição. O valor prático das falsas organizações veio à luz quando os nazistas tomaram o poder e demonstraram estar preparados para destruir imediatamente as organizações existentes de professores por meio de outras organizações de professores, os clubes existentes de advogados por meio de um clube de advogados patrocinado pelos nazistas etc. Puderam mudar, da noite para o dia, toda a estrutura da sociedade alemã — e não apenas a vida política — precisamente porque haviam preparado o correspondente exato de cada setor dentro dos seus próprios escalões. Por sinal, a tarefa das formações paramilitares terminou quando a hierarquia militar regular pôde ser colocada, durante os últimos estágios da guerra, sob a autoridade dos generais da SS. A técnica dessa “coordenação” era tão engenhosa e irresistível quanto era rápida e radical a deterioração dos padrões profissionais, embora esses resultados fossem mais imediatamente sentidos no campo altamente técnico e especializado da arte militar do que em qualquer outro.

Se a importância das formações paramilitares para os movimentos totalitários não reside no seu duvidoso valor militar, também não reside inteiramente na sua falsa imitação do Exército regular. Como formações de elite, são mais nitidamente separadas do mundo externo do que qualquer outro grupo. Os nazistas cedo compreenderam a íntima relação entre a militância total e a separação total da normalidade; as tropas de assalto nunca eram enviadas a serviço para as suas comunidades de origem e os oficiais ativos da SA, no estágio anterior ao poder, e os da SS, já sob o regime nazista, eram tão móveis e tão frequentemente substituídos que simplesmente não podiam habituar-se ou deitar raízes em nenhuma parte do mundo comum (80). Eram organizados segundo o modelo das gangues de criminosos e usados para o assassinato organizado (81). Esses assassinatos eram perpetrados publicamente e oficialmente confessados pela alta hierarquia nazista, de modo que essa franca cumplicidade quase impossibilitava aos membros deixarem o movimento, mesmo sob o governo não totalitário e mesmo que não fossem ameaçados, como realmente o eram, por seus antigos camaradas. A esse respeito, a função das formações de elite é exatamente oposta àquela das organizações de vanguarda: enquanto as últimas emprestam ao movimento um ar de respeitabilidade e inspiram confiança, as primeiras, disseminando a cumplicidade, fazem com que cada membro do partido sinta que abandonou para sempre o mundo normal onde o assassinato é colocado fora da lei, e que será responsabilizado por todos os crimes da elite (82). Consegue-se isso ainda no estágio anterior ao poder, quando a liderança sistematicamente assume responsabilidade por todos os crimes e não deixa dúvida de que foram cometidos para o bem final do movimento.

Mais uma pista…

A criação de condições artificiais de guerra civil, através das quais os nazistas exerceram chantagem até subir ao poder, não pretende apenas provocar desordens. Para o movimento, a violência organizada é o mais eficaz dos muros protetores que cercam o seu mundo fictício, cuja “realidade” é comprovada quando um membro receia mais abandonar o movimento do que as consequências da sua cumplicidade em atos ilegais, e se sente mais seguro como membro do que como oponente. Esse sentimento de segurança, resultante da violência organizada com a qual as formações de elite protegem os membros do partido contra o mundo exterior, é tão importante para a integridade do mundo fictício da organização quanto o medo do seu terrorismo.

No centro do movimento, como o motor que o aciona, senta-se o Líder. Separa-o da formação de elite um círculo interno de iniciados que o envolvem numa aura de impenetrável mistério correspondente à sua “preponderância inatingível” (83). Sua posição dentro desse círculo íntimo depende da habilidade com que arma intrigas entre os membros e efetua constantes mudanças de pessoal. Deve a liderança mais à sua extrema capacidade de manobrar as lutas intestinas do partido pelo poder do que a qualidades demagógicas ou burocrático-organizacionais. Difere do antigo tipo de ditador por não precisar vencer por meio da simples violência. Hitler não necessitou nem da SA nem da SS para assegurar a sua posição como líder do movimento nazista; pelo contrário, Röhm, o chefe da SA, que podia contar com a lealdade da SA em relação à sua pessoa, era um dos inimigos de Hitler dentro do partido. Stálin venceu Trótski, que não somente tinha muito maior poder de atração sobre as massas, mas que, ainda como chefe do Exército Vermelho, detinha em suas mãos o maior potencial de poder da Rússia soviética na época (84). E não era Stálin, mas Trótski, o maior talento organizacional, o burocrata mais capaz da Revolução Russa (85). Por outro lado, tanto Hitler como Stálin eram mestres em detalhes e, nos estágios iniciais de suas carreiras, dedicaram-se quase exclusivamente a questões de pessoal, de modo que, alguns anos depois, quase todo homem importante no partido devia a eles a sua posição (86).

Tais capacidades pessoais, no entanto, embora sejam um pré-requisito absoluto para os primeiros estágios da carreira, e mesmo mais tarde estejam longe de serem insignificantes, já não são decisivas a partir do momento em que o movimento totalitário se consolida, em que se estabelece o princípio de que “o desejo do Führer é a lei do Partido”, e toda a hierarquia partidária está eficazmente treinada para o único fim de transmitir rapidamente o desejo do Líder a todos os escalões. A essa altura, o Líder torna-se insubstituível, porque toda a complicada estrutura do movimento perderia a sua raison d’être sem as suas ordens. Agora, a despeito das eternas cabalas do círculo íntimo e das infindáveis mudanças de pessoal, com as tremendas acumulações de ódio, amargura e ressentimento pessoal que acarretam, a posição do Líder pode repousar em segurança contra as caóticas revoluções palacianas — não devido aos seus dons superiores, a respeito dos quais os homens dos círculos íntimos geralmente não têm ilusões, mas graças à sincera e sensata convicção desses homens de que, sem ele, todo o movimento iria imediatamente por água abaixo.

A suprema tarefa do Líder é personificar a dupla função que caracteriza cada camada do movimento — agir como a defesa mágica do movimento contra o mundo exterior e, ao mesmo tempo, ser a ponte direta através da qual o movimento se liga a esse mundo. O Líder representa o movimento de um modo totalmente diferente de todos os líderes de partidos comuns, já que proclama a sua responsabilidade pessoal por todos os atos, proezas e crimes cometidos por qualquer membro ou funcionário em sua qualidade oficial. Essa responsabilidade total é o aspecto organizacional mais importante do chamado princípio de liderança, segundo o qual cada funcionário não é apenas designado pelo Líder, mas é a sua própria encarnação viva, e toda ordem emana supostamente dessa única fonte onipresente. Essa completa identificação do Líder com todo sublíder nomeado por ele e esse monopólio de responsabilidade centralizado por tudo o que foi, está sendo ou virá a ser feito são também os sinais mais visíveis da grande diferença entre o líder totalitário e o ditador ou déspota comum. Um tirano jamais se identificaria com os seus subordinados, e muito menos com cada um dos seus atos (87), poderia usá-los como bodes expiatórios, deixando, com prazer, que fossem criticados para colocar-se a salvo da ira do povo, mas sempre manteria uma distância absoluta de todos os seus subordinados e súditos. O Líder, ao contrário, não pode tolerar críticas aos seus subordinados, uma vez que todos agem em seu nome; se deseja corrigir os próprios erros, tem que liquidar aqueles que os cometerem por ele; se deseja inculpar a outros por esses erros, tem de matá-los. Pois, nessa estrutura organizacional, o erro só pode ser uma fraude: o Líder estava sendo representado por um impostor (88).

Essa responsabilidade total por tudo o que o movimento faz e essa identificação total com cada um dos funcionários têm a consequência muito prática de que ninguém se vê numa situação em que tem de se responsabilizar por suas ações ou explicar os motivos que levaram a elas. Uma vez que o Líder monopoliza o direito e a possibilidade de explicação, ele é, para o mundo exterior, a única pessoa que sabe o que está fazendo, isto é, o único representante do movimento com quem ainda é possível conversar em termos não totalitários e que, em caso de censura ou de oposição, não dirá: não me pergunte, pergunte ao Líder. Estando no centro do movimento, o Líder pode agir como se estivesse acima dele. É, portanto, perfeitamente compreensível (embora perfeitamente fútil) que pessoas de fora depositem, muitas vezes, suas esperanças numa conversa pessoal com o próprio Líder, quando têm de tratar com movimentos ou governos totalitários. O verdadeiro mistério do Líder totalitário reside na organização que lhe permite assumir a responsabilidade total por todos os crimes cometidos pelas formações de elite e, ao mesmo tempo, adotar a honesta e inocente respeitabilidade do mais ingênuo simpatizante (89).

Os movimentos totalitários têm sido chamados de “sociedades secretas montadas à luz do dia” (90). Realmente, embora pouco se saiba quanto à estrutura sociológica e à história mais recente das sociedades secretas, a estrutura dos movimentos, sem precedentes quando comparada com partidos e facções, lembra-nos em primeiro lugar certas características dessas sociedades (91). As sociedades secretas formam também hierarquias de acordo com o grau de “iniciação”, regulam a vida dos seus membros segundo um pressuposto secreto e fictício que faz com que cada coisa pareça ser outra coisa diferente; adotam uma estratégia de mentiras coerentes para iludir as massas de fora, não iniciadas; exigem obediência irrestrita dos seus membros, que são mantidos coesos pela fidelidade a um líder frequentemente desconhecido e sempre misterioso, rodeado, ou supostamente rodeado, por um pequeno círculo de iniciados; e estes, por sua vez, são rodeados por semi-iniciados que constituem uma espécie de “amortecedor” contra o mundo profano e hostil (92). Os movimentos totalitários têm ainda em comum com as sociedades secretas a divisão dicotômica do mundo entre “irmãos jurados de sangue” e uma massa indistinta e inarticulada de inimigos jurados (93). Essa distinção, baseada na absoluta hostilidade contra o mundo que os rodeia, é muito diferente da tendência dos partidos comuns de dividir o povo entre os que pertencem e os que não pertencem à organização. Os partidos e as sociedades abertas, geralmente, só consideram inimigos aqueles que se lhes opõem expressamente, enquanto o princípio das sociedades secretas sempre foi que “aquele que não estiver expressamente incluído, está excluído” (94). Esse princípio esotérico parece inteiramente inadequado a organizações de massa; contudo, os nazistas ofereciam aos seus membros pelo menos o equivalente psicológico do ritual de iniciação das sociedades secretas quando, em lugar de simplesmente excluírem os judeus da organização, exigiam prova de ascendência não judaica dos seus membros, estabelecendo um complicado mecanismo para esclarecer a obscura origem genética de 80 milhões de alemães. O resultado foi uma comédia, e uma comédia cara, quando 80 milhões de alemães saíram à cata de avós judeus; mas aqueles que passavam a prova sentiam pertencer a um grupo de incluídos que se destacava contra uma multidão imaginária de inelegíveis. O mesmo princípio é aplicado no movimento bolchevista, através de repetidos expurgos no partido que inspiram em todos os que sobram uma reafirmação da sua inclusão.

Talvez a mais clara semelhança entre as sociedades secretas e os movimentos totalitários esteja na importância do ritual. As marchas na praça Vermelha em Moscou são, nesse ponto, tão típicas quanto as pomposas formalidades do nazismo do tempo de Nurembergue. No centro do ritual nazista estava a chamada “bandeira de sangue”, e no centro do ritual bolchevista está o corpo mumificado de Lênin, ambos impregnando a cerimônia com um forte elemento de idolatria. Essa idolatria não prova a existência de tendências pseudorreligiosas ou heréticas que muitos querem ver nos movimentos totalitários. Os “ídolos” são simples truques organizacionais, muito praticados nas sociedades secretas, que também forçavam os seus membros a guardar segredo por medo e respeito a símbolos assustadores. As pessoas unem-se mais firmemente através da experiência partilhada de um ritual secreto do que pela simples admissão ao conhecimento do segredo. O fato de que o segredo dos movimentos totalitários é exibido em plena luz do dia não muda necessariamente a natureza da experiência (95).

Naturalmente, essas semelhanças não são acidentais; não podem ser explicadas simplesmente pelo fato de que tanto Hitler como Stálin haviam sido membros de sociedades secretas antes de se tornarem líderes totalitários — Hitler no serviço secreto do Reichswehr e Stálin na conspiração do partido bolchevista. São, até certo ponto, resultado natural da ficção conspiratória do totalitarismo, cujas organizações são supostamente criadas para combater as sociedades secretas — a sociedade secreta dos judeus ou a sociedade dos conspiradores trotskistas. O que é notável nas organizações totalitárias é que saibam adotar expedientes organizacionais das sociedades secretas sem jamais manter em segredo o seu próprio objetivo. Que os nazistas queriam conquistar o mundo, deportar todos os que fossem “racialmente estrangeiros” e exterminar todos os que tivessem “herança biológica inferior”, que os bolchevistas lutam pela revolução mundial — nada disso jamais foi segredo; pelo contrário, esses objetivos sempre fizeram parte da sua propaganda. Em outras palavras, os movimentos totalitários imitam todos os acessórios das sociedades secretas, mas esvaziam-nas do único elemento que poderia justificar os seus métodos: a necessidade de manter segredo.

Nisso, como em tantos outros aspectos, o nazismo e o bolchevismo chegaram ao mesmo resultado organizacional a partir de origens históricas muito diferentes. Os nazistas começaram com a ficção de uma conspiração e imitaram, mais ou menos conscientemente, o modelo da sociedade secreta dos sábios do Sião, enquanto os bolchevistas vieram de um partido revolucionário, cujo objetivo era a ditadura de um só partido, atravessaram a fase em que o partido ficava “inteiramente acima e separado de tudo”, até o instante em que o Politburo do partido ficou “inteiramente acima e separado de tudo” (96) finalmente, Stálin impôs a essa estrutura partidária as rígidas normas totalitárias do seu setor conspirativo, e somente então descobriu a necessidade de uma ficção central para manter na organização de massa a férrea disciplina de uma organização secreta. A evolução nazista pode ser mais lógica, mais coerente consigo mesma, mas a história do partido bolchevista é um exemplo melhor da natureza essencialmente fictícia do totalitarismo, precisamente porque as fictícias conspirações globais, contra as quais e de acordo com as quais a conspiração bolchevista supostamente se organizou, não foram ideologicamente fixadas. Mudaram — dos trotskistas para as trezentas famílias, depois para os vários “imperialismos” e, mais recentemente, para o “cosmopolitismo sem raízes” — e foram ajustadas à realidade política segundo as necessidades do momento; mas nunca e em nenhuma das mais diversas circunstâncias pôde o bolchevismo passar sem algum tipo de ficção.

Os meios pelos quais Stálin transformou a ditadura unipartidária russa em regime totalitário e os partidos comunistas revolucionários de todo o mundo em movimentos totalitários foram a liquidação das facções divergentes, a abolição da democracia interna do partido e a transformação dos partidos comunistas nacionais em ramificações do Comintern dirigidas a partir de Moscou. As sociedades secretas em geral, e o aparelho conspirativo dos partidos revolucionários em particular, sempre foram caracterizados pela ausência de facções, pela supressão de opiniões dissidentes e pela absoluta centralização do comando. Todas essas medidas têm a óbvia finalidade utilitária de proteger os membros contra a perseguição e a sociedade contra a traição; a obediência total exigida de cada membro e o poder absoluto nas mãos do chefe foram apenas subprodutos inevitáveis de necessidades práticas. O problema, porém, é que os conspiradores têm uma tendência, compreensível aliás, de julgar como mais eficazes na política os métodos das sociedades conspirativas e de supor que, se esses métodos puderem ser aplicados abertamente com o apoio dos instrumentos de violência de toda uma nação, as possibilidades de acúmulo de poder tornam-se infinitas (97). O setor conspirativo de um partido revolucionário pode, enquanto o próprio partido ainda está intacto, ser equiparado ao Exército dentro de uma estrutura política intacta; embora as suas próprias regras de conduta sejam radicalmente diferentes das regras do corpo civil, o Exército serve ao corpo político e permanece sujeito e controlado por ele. Da mesma forma que o perigo de uma ditadura militar surge quando o Exército já não quer servir mas dominar o corpo político, também o perigo do totalitarismo surge quando o setor conspirativo do partido revolucionário se emancipa do controle do partido e aspira à liderança. Foi isso o que aconteceu aos partidos comunistas sob o regime de Stálin. Os métodos de Stálin sempre foram típicos de um homem proveniente do setor conspirativo do partido: a devoção ao detalhe, a ênfase quanto ao lado pessoal da política, a crueldade no uso e na liquidação de companheiros e amigos. Quem mais o apoiou na luta pela sucessão após a morte de Lênin foi a polícia secreta (98) que, na época, já era uma das mais importantes e poderosas seções do partido (99). Nada mais natural que as simpatias da Cheka [a polícia secreta da URSS] pendessem a favor do representante da seção conspirativa, do homem que já a encarava como uma espécie de sociedade secreta e que, portanto, provavelmente lhe preservaria e até acrescentaria os privilégios.

A tomada dos partidos comunistas pelos setores conspirativos foi, porém, apenas o primeiro passo da sua transformação em movimento totalitário. Não bastava que a polícia secreta da Rússia e os seus agentes nos partidos comunistas do exterior desempenhassem no movimento o mesmo papel das formações de elite criadas pelos nazistas sob forma de tropas paramilitares. Os próprios partidos tinham de ser transformados, para que o domínio da polícia secreta permanecesse seguro. A liquidação das facções e da democracia interna do partido foi, consequentemente, acompanhada na Rússia pela admissão, como membros, de grandes massas politicamente deseducadas e “neutras”, manobra que foi rapidamente seguida pelos partidos comunistas no estrangeiro depois que a Frente Popular a adotou na França.

O totalitarismo nazista começou com uma organização de massa que foi apenas gradualmente dominada pelas formações de elite, enquanto os bolchevistas começaram com formações de elite e organizaram as massas de acordo com elas. Em ambos os casos o resultado foi idêntico. Além disso, os nazistas, em virtude da tradição e preconceitos militaristas, moldaram inicialmente suas formações de elite segundo o padrão do Exército, enquanto os bolchevistas desde o início outorgaram à polícia secreta o direito de exercer o poder supremo. Contudo, bastaram poucos anos para que também essa diferença desaparecesse: o chefe da SS tornou-se chefe da polícia secreta, e as formações da SS foram gradualmente incorporadas ao antigo pessoal da Gestapo ao qual iriam substituir, embora esse pessoal já fosse constituído de nazistas dignos de confiança (100).

É devido à afinidade fundamental entre o funcionamento de uma sociedade secreta de conspiradores e a polícia secreta organizada para combatê-la que os regimes totalitários, baseados na ficção de um conspiração global e visando ao domínio global, passam a concentrar todo o poder nas mãos da polícia. Na fase que antecede o poder, porém, as “sociedades secretas à luz do dia” proporcionam outras vantagens organizacionais. A contradição óbvia entre uma organização de massa e uma sociedade exclusiva, que é a única à qual se pode confiar um segredo, não tem importância quando é comparada ao fato de que a própria estrutura das sociedades secretas e conspiradoras pode transformar em princípio organizacional a dicotomia ideológica do totalitarismo — a cega hostilidade das massas contra o mundo existente, independentemente de divergências e diferenças. Do ponto de vista da organização que funciona segundo o princípio de que quem não está incluído está excluído, e quem não está comigo está contra mim, o mundo perde todas as nuances, diferenciações e aspectos pluralísticos — coisas que, afinal, haviam se tornado confusas e insuportáveis para as massas que perderam o seu lugar e a sua orientação dentro dele (101). O que as levou à inabalável lealdade de membros de sociedades secretas não foi tanto o segredo como a dicotomia entre nós e todos os outros. Um meio de conservar intacta essa lealdade era imitar a estrutura organizacional das sociedades secretas, esvaziando-a da finalidade racional de preservar um segredo. Tampouco importava que isso fosse motivado por uma ideologia de conspiração, como no caso dos nazistas, ou pela hipertrofia parasitária do setor conspirativo de um partido revolucionário, como no caso dos bolchevistas. A afirmação fundamental da organização totalitária é que tudo o que está fora do movimento está “morrendo”, afirmação que é drasticamente posta em prática no clima assassino do regime totalitário, mas que, mesmo no estágio anterior ao poder, parece plausível a massas que fugiram da desintegração e da desorientação para o fictício abrigo do movimento.

Os movimentos totalitários têm repetidamente demonstrado que podem inspirar a mesma lealdade total, na vida e na morte, que caracterizava as sociedades secretas e conspiradoras (102). Espetáculo curioso foi a completa ausência de resistência de uma tropa perfeitamente treinada e armada como a SA diante do assassínio de um líder bem-amado (Röhm) e de centenas de camaradas. Naquele instante era Röhm, e não Hitler, quem contava com o apoio do Reichswehr. Hoje, porém, esses incidentes do movimento nazista perdem-se de vista diante do constante espetáculo de “criminosos” confessos nos partidos bolchevistas. Julgamentos baseados em confissões absurdas tornaram-se parte de um ritual que é importantíssimo internamente e incompreensível para quem está de fora. Contudo, independentemente de como as vítimas sejam preparadas hoje em dia, o ritual deve a sua existência às confissões, provavelmente verdadeiras, da velha guarda bolchevista de 1936. Muito antes da época dos Julgamentos de Moscou, os condenados à morte recebiam a sentença com grande calma, atitude “que predominava especialmente entre os membros da Cheka” (103). Enquanto o movimento existe, a sua forma peculiar de organização faz com que pelo menos as formações de elite não possam conceber a vida fora do grupo fechado de homens que, mesmo condenados, ainda se sentem superiores ao resto do mundo não iniciado. E, como o fim único dessa organização sempre foi burlar, combater e finalmente conquistar o mundo exterior, os seus membros pagam de bom grado com a própria vida, contanto que isso ajude a burlar o mundo mais uma vez (104).

Mas o principal valor da estrutura organizacional e dos padrões morais das organizações secretas ou conspiratórias para fins de organização da massa não está na garantia intrínseca de participação incondicional e lealdade incondicional, nem na manifestação organizacional de hostilidade cega contra o mundo exterior, mas na sua incomparável capacidade de estabelecer e proteger o mundo fictício por meio de constantes mentiras. Toda a estrutura hierárquica dos movimentos totalitários, desde os ingênuos simpatizantes até os membros do partido, as formações de elite, o círculo íntimo que rodeia o Líder e o próprio Líder, pode ser descrita em termos da mistura curiosamente variada de credulidade e cinismo com que se espera que cada membro, dependendo do seu grau e da posição que ocupa no movimento, reaja às diversas declarações mentirosas do Líder e à ficção ideológica central e imutável do movimento.

Certa mistura de credulidade e cinismo havia sido importante característica da mentalidade da ralé antes que se tornasse fenômeno diário de massa. Num mundo incompreensível e em perpétua mudança, as massas haviam chegado a um ponto em que, ao mesmo tempo, acreditavam em tudo e em nada, julgavam que tudo era possível e que nada era verdadeiro. A própria mistura, por si, já era bastante notável, pois significava o fim da ilusão de que a credulidade fosse fraqueza de gente primitiva e ingênua, e que o cinismo fosse o vício superior dos espíritos refinados. A propaganda de massa descobriu que o seu público estava sempre disposto a acreditar no pior, por mais absurdo que fosse, sem objetar contra o fato de ser enganado, uma vez que achava que toda afirmação, afinal de contas, não passava de mentira. Os líderes totalitários basearam a sua propaganda no pressuposto psicológico correto de que, em tais condições, era possível fazer com que as pessoas acreditassem nas mais fantásticas afirmações em determinado dia, na certeza de que, se recebessem no dia seguinte a prova irrefutável da sua inverdade, apelariam para o cinismo; em lugar de abandonarem os líderes que lhes haviam mentido, diriam que sempre souberam que a afirmação era falsa, e admirariam os líderes pela grande esperteza tática.

Essa reação das audiências de massa tornou-se importante princípio hierárquico para as organizações de massa. Uma mistura de credulidade e cinismo prevalece em todos os escalões dos movimentos totalitários, e quanto mais alto o posto, mais o cinismo prevalece sobre a credulidade. A convicção essencial compartilhada por todos os escalões, desde os simpatizantes até o Líder, é de que a política é um jogo de trapaças, e que o “primeiro mandamento” do movimento — “o Führer sempre tem razão” — é tão necessário aos fins da política mundial — isto é, da trapaça mundial — como as regras da disciplina militar o são para as finalidades da guerra (105).

A máquina que gera, organiza e dissemina as monstruosas falsidades dos movimentos totalitários também depende da posição do Líder. À afirmação propagandística de que todo evento é cientificamente previsível segundo leis naturais ou econômicas, a organização totalitária acrescenta a posição de um homem que monopolizou esse conhecimento e cuja principal qualidade é o fato de que “sempre teve razão e sempre terá razão” (106). Para o membro do movimento totalitário, esse conhecimento nada tem a ver com a verdade, da mesma forma que o fato de se estar com a razão nada tem a ver com a veracidade objetiva das afirmações do Líder, que não podem ser desmentidas pela realidade, mas somente pelos sucessos ou fracassos futuros. O Líder sempre tem razão nos seus atos, e, como estes são planejados para os séculos vindouros, o exame final do que ele faz é inacessível aos seus contemporâneos (107).

O único grupo que deve acreditar leal e textualmente nas palavras do Líder são os simpatizantes, cuja confiança envolve o movimento numa atmosfera de honestidade e ingenuidade, e que ajudam o Líder a cumprir a metade da sua tarefa, isto é, inspirar confiança no movimento. Os membros do Partido jamais acreditam em declarações públicas, nem se espera isso deles, mas a propaganda totalitária louva-lhes a inteligência superior que supostamente os distingue do mundo externo não totalitário, ao qual, por sua vez, só conhecem através da anormal credulidade dos simpatizantes. Só os simpatizantes nazistas acreditaram em Hitler quando ele prestou juramento de legalidade perante a Suprema Corte da República de Weimar; os membros do movimento sabiam muito bem que ele estava mentindo e confiaram nele mais do que nunca exatamente porque ele era capaz de iludir a opinião pública e as autoridades. Quando, anos depois, Hitler repetiu a manobra diante do mundo inteiro, quando protestou boas intenções ao mesmo tempo em que preparava abertamente os seus crimes, a admiração dos membros do partido foi, naturalmente, enorme. Da mesma forma, somente os simpatizantes bolchevistas acreditaram na dissolução do Comintern, e somente as massas não organizadas do povo russo e os simpatizantes no exterior aceitaram como honestas as declarações pró-democracias de Stálin durante a guerra. Os membros do partido bolchevista foram expressamente advertidos a não se deixarem enganar por manobras táticas; deviam admirar a esperteza com que o seu Líder atraiçoava os aliados (108).

Seriam inoperantes as mentiras do Líder sem a divisão organizacional do movimento em formações de elite, membros e simpatizantes. A graduação do cinismo traduzida na hierarquia do desdém é, pelo menos, tão necessária ante a constante refutação quanto a simples credulidade. O fato é que os simpatizantes das organizações de vanguarda desdenhavam a completa laicidade dos seus concidadãos, os membros dos partidos desdenhavam a credulidade e a falta de radicalismo dos simpatizantes, as formações de elite desdenhavam os membros dos partidos pelas mesmas razões e, dentro das formações de elite, uma idêntica hierarquia de desdém acompanhava cada nova criação ou invenção do partido (109). O resultado desse sistema é que a credulidade dos simpatizantes torna as mentiras aceitáveis para o mundo exterior, enquanto, ao mesmo tempo, o gradual cinismo dos membros e das formações de elite afasta o perigo de que o Líder venha a ser forçado, pelo peso da sua própria propaganda, a legitimar as próprias declarações e o próprio simulacro de respeitabilidade. Uma das principais desvantagens do mundo exterior no trato com sistemas totalitários é que ele ignorava esse sistema e, portanto, confiava em que, por um lado, a própria enormidade das mentiras do totalitarismo o levaria à ruína e, por outro lado, seria possível aceitar a palavra do Líder e fazer com que ele a cumprisse, a despeito das suas intenções originais. Infelizmente, o sistema totalitário é imune a essas consequências normais; sua engenhosidade reside precisamente em eliminar a realidade que desmascara o mentiroso ou o força a legitimar as suas mentiras.

Embora os membros não creiam em declarações proferidas para o consumo público, acreditam fervorosamente nos chavões comuns da justificação ideológica e nas explicações da história passada e futura que os movimentos totalitários tomaram emprestado às ideologias do século XIX e transformaram, através da organização, em realidade operante. Esses elementos ideológicos, nos quais, de um modo ou de outro, as massas haviam terminado por acreditar, se bem que vaga e abstratamente, foram convertidos em mentiras concretas de natureza universal (o domínio do mundo pelos judeus em lugar da teoria racial geral e a conspiração de Wall Street em lugar da teoria geral das classes) e foram integrados num plano geral de ação no qual somente os “agonizantes” — as classes agonizantes dos países capitalistas ou as nações decadentes — obstariam o caminho do movimento. Em contraste com as mentiras táticas do movimento, que mudam a cada dia, essas mentiras ideológicas exigem crença absoluta como verdades intocáveis e sagradas. Cerca-as um sistema cuidadosamente elaborado de provas “científicas” que não precisam ser convincentes para os “leigos”, mas que satisfazem certa sede popular de conhecimentos através da “demonstração” da inferioridade dos judeus ou da miséria dos que vivem sob o regime capitalista.

As formações de elite distinguem-se dos membros comuns do partido por não necessitarem dessas demonstrações e nem mesmo serem obrigadas a acreditar literalmente na verdade dos chavões ideológicos. Estes são fabricados para atender a uma busca da verdade por parte das massas que, no seu vezo de explicar e demonstrar, ainda têm muito em comum com o mundo normal. A elite não se compõe de ideólogos; toda a educação dos seus membros objetiva abolir a capacidade de distinguir entre a verdade e a mentira, entre a realidade e a ficção. Sua superioridade consiste na capacidade de transformar imediatamente qualquer declaração de fato em declaração de finalidade. Em contraposição às massas que, por exemplo, necessitam de alguma demonstração da inferioridade da raça judaica antes que se lhes possa exigir, sem riscos, que matem os judeus, as formações de elite compreendem que a afirmação de que todos os judeus são inferiores significa que todos os judeus devem ser mortos; quando se lhes diz que somente Moscou tem um metrô, sabem que o verdadeiro significado da declaração é que todos os outros metrôs devem ser destruídos e não se sentem muito surpresos quando descobrem o metrô de Paris. O tremendo choque da desilusão sofrida pelo Exército Vermelho na sua conquista da Europa só pôde ser curado nos campos de concentração e no exílio forçado de grande parte das tropas vitoriosas; mas as formações policiais que acompanharam o Exército estavam preparadas para o choque, não por meio de informação diferente ou mais correta — não existe na Rússia nenhuma escola de treinamento secreto que forneça dados autênticos sobre a vida no exterior —, mas simplesmente por meio de um treino de supremo desprezo por todo fato e toda realidade.

Essa mentalidade da elite não constitui simples fenômeno de massa, nem simples consequência de desarraigamento social, desastre econômico ou anarquia política; exige cuidadosa preparação e cultivo e foi uma parte mais importante, embora menos facilmente reconhecível, do currículo das escolas de liderança totalitária — as Ordensburgen nazistas para os membros da SS e os centros de treinamento bolchevistas para os agentes do Comintern — do que a doutrinação racial ou as técnicas da guerra civil. Sem a elite e sem a sua incapacidade, artificialmente adquirida, de compreender os fatos como fatos, de distinguir entre a verdade e a mentira, o movimento nunca poderia partir para a realização prática da ficção. A mais importante qualidade negativa da elite totalitária é que nunca se detém a pensar no mundo como realmente ele é e jamais compara as mentiras com a realidade. Paralelamente, a sua virtude mais cultivada é a lealdade ao Líder, que, como um talismã, assegura a vitória final da mentira e da ficção sobre a verdade e a realidade.

A camada superior da organização dos movimentos totalitários é constituída pelo círculo íntimo em torno do Líder, que pode ser uma instituição formal, como o Politburo bolchevista, ou um círculo mutável de homens que não exercem necessariamente uma função pública, como o séquito de Hitler. Para eles, os chavões ideológicos são meros expedientes destinados a congregar as massas, e não sentem qualquer constrangimento quando têm de alterá-los segundo as necessidades do momento, contanto que o princípio organizador permaneça intacto. Nesse ponto, o principal mérito da reorganização da SS por Himmler foi que ele descobriu um método muito simples de “resolver o problema do sangue pela ação”, isto é, de selecionar os membros da elite segundo o “bom sangue” e prepará-los para “realizar uma impiedosa luta racial” contra todos os que não pudessem remontar a sua origem “ariana” até 1750, ou tivessem menos de um metro e setenta de altura (“sei que as pessoas que cresceram até determinada altura devem possuir, em certo grau, o sangue desejado”), ou não tinham olhos azuis e cabelos louros (110). Esse racismo em ação tornava a organização independente de quase todo ensinamento concreto de qualquer “ciência” racial, e também independente do antissemitismo, que era uma doutrina específica e temporária, referente à natureza e ao papel dos judeus, e cuja utilidade terminaria quando os judeus fossem exterminados (111). O racismo não oferecia riscos e independia do cientificismo da propaganda, uma vez que a elite houvesse sido selecionada por uma “comissão racial” e posta sob a autoridade das “leis especiais de casamento” (112), enquanto, no extremo oposto, e sob a jurisdição dessa “elite racial”, existiam campos de concentração para uma “melhor demonstração das leis da hereditariedade e da raça” (113). À base dessa “organização viva”, os nazistas podiam dispensar o dogmatismo e estender a sua amizade a povos semitas, como os árabes, ou fazer alianças com os próprios representantes do “perigo amarelo”, os japoneses. A realidade de uma sociedade racial, a formação de uma elite selecionada de um ponto de vista supostamente racial, constituiria melhor garantia da doutrina do racismo do que as provas científicas ou pseudocientíficas.

Os homens que ditam a política do bolchevismo mostram idêntica superioridade em relação aos dogmas que eles mesmos professam. São perfeitamente capazes de interromper qualquer luta de classes com uma súbita aliança com o capitalismo, sem abalar a confiança dos seus escalões e sem trair a crença na luta de classes. Uma vez que o princípio dicótomo da luta de classes se torna expediente organizacional, e, por assim dizer, se petrifica na inflexível hostilidade contra o mundo inteiro, através dos altos escalões policiais secretos na Rússia e dos agentes do Comintern no exterior, a política bolchevista fica surpreendentemente isenta de “preconceitos”.

É essa liberdade em relação ao conteúdo de sua própria ideologia que caracteriza os mais altos escalões da hierarquia totalitária. São homens que veem a tudo e a todos em termos de organização, inclusive ao Líder que, para eles, não é nem talismã inspirado nem aquele que sempre tem razão, mas a simples consequência desse tipo de organização; é necessário não como pessoa, mas como função, e como tal é indispensável ao movimento. Contudo, diferentemente de outras formas despóticas de governo, nas quais frequentemente quem governa é um círculo restrito e o déspota tem apenas o papel representativo de governante fantoche, os líderes totalitários podem realmente fazer o que bem entendem e contar com a lealdade dos membros de seu séquito, mesmo que um dia se decidam a matá-los.

Aqui mais uma pista de como o campo é configurado…

Uma razão mais técnica dessa lealdade suicida é que não há leis de herança ou de outra natureza que regulem a sucessão ao posto supremo. Uma revolta palaciana bem-sucedida teria resultados tão desastrosos para o movimento como sistema quanto uma derrota militar. É da própria natureza do movimento que, uma vez que o Líder assume o posto, toda a organização se identifica com ele de modo tão absoluto que qualquer confissão de erro ou remoção do cargo quebraria a magia de infalibilidade que envolve a posição de Líder e arruinaria a todos os que estivessem ligados ao movimento. A base da estrutura não está na veracidade das palavras do Líder, mas na infalibilidade dos seus atos. Sem ela, e no calor de uma discussão que presume falibilidade, todo o reino da carochinha do totalitarismo se esboroa, esmagado imediatamente pela verdade do mundo real que somente o movimento, guiado pelo Líder numa direção infalivelmente certa, é capaz de evitar.

Contudo, a lealdade dos que não acreditam nem em chavões ideológicos nem na infalibilidade do Líder tem também razões mais profundas e menos técnicas. O que une esses homens é uma firme crença na onipotência humana. O seu cinismo moral e a sua crença de que tudo é permitido repousam na sólida convicção de que tudo é possível. É verdade que esses homens, pouco numerosos, não são facilmente apanhados em suas próprias mentiras específicas e não creem necessariamente em racismo ou em economia, em conspirações de judeus ou de Wall Street. Contudo, são também iludidos — iludidos pela ideia impudente e presunçosa de que se pode fazer tudo, e pela insolente convicção de que tudo o que existe é apenas um obstáculo temporário a ser certamente vencido pela organização superior. Confiantes de que a força da organização pode destruir a força da substância, como a violência de uma gangue bem organizada pode roubar a riqueza mal guardada de um homem, subestimam constantemente a força das comunidades estáveis e superestimam a força motora do movimento. Além disso, como não creem realmente que exista contra eles uma conspiração mundial, mas usam-na apenas como expediente organizacional, não percebem que a sua própria conspiração pode acabar levando o mundo inteiro a unir-se para combatê-los.

Mas, como quer que venha a ser finalmente derrotada a ilusão da onipotência humana através da organização, a sua consequência prática dentro do movimento é que o séquito do Líder, em caso de desacordo com ele, nunca estará muito seguro de suas próprias opiniões, pois acredita sinceramente que o desacordo não tem importância, e que mesmo o mais louco expediente tem boas possibilidades de sucesso se receber a devida organização. O que caracteriza a sua lealdade não é a crença na infalibilidade do Líder, mas a convicção de que pode tornar-se infalível qualquer pessoa que comande os instrumentos de violência com os métodos superiores da organização totalitária. Essa ilusão é fortalecida quando os regimes totalitários estão no poder, demonstrando como até uma perda de substância pode tornar-se uma vitória da organização. (A administração das empresas industriais na Rússia soviética, fantasticamente deficiente, levou à atomização da classe operária, enquanto o terrivelmente cruel tratamento dos prisioneiros civis pelos nazistas nos territórios ocupados da Europa oriental, embora causasse uma “deplorável perda de mão de obra”, “não podia ser lastimado em termos de gerações”) (114). Além disso, decidir o que é sucesso ou fracasso em circunstâncias totalitárias é, em grande parte, uma questão de opinião pública organizada e aterrorizada. Num mundo totalmente fictício não é preciso registrar, confessar e relembrar os fracassos. Para que a factualidade continue a existir, é preciso que exista o mundo não totalitário.

Notas

* Em 1917, para conquistar as simpatias dos sionistas, disseminados entre os judeus de todos os países, o governo imperial alemão, após a consulta com seu aliado, a Turquia otomana, revelou ser favorável à colonização judaica na Palestina, com o que pretendia enfraquecer a posição idêntica do governo britânico. (N. E.)

60. Hitler, discutindo a relação entre a Weltanschauung e a organização, admite como natural que os nazistas tomassem emprestado a outros grupos e partidos a “ideia racial” (die völkische Idee); e, se agiram como se fossem os seus únicos representantes, é por terem sido os primeiros a basearem nela uma organização combativa e a formularem-na para fins práticos. Op. cit., livro II, capítulo V.
61. Ver Hitler, “Propaganda e organização”, op. cit., livro II, capítulo XI.
62. Exemplo disso é o pedido de Himmler, veementemente urgente, para que “não se emitisse nenhum decreto referente à definição do termo ‘judeu’”; porque, “com todos esses compromissos idiotas, estaremos atando as nossas próprias mãos” (Documento de Nurembergue no 626, carta a Berger datada de 28 de julho de 1942, cópia fotostática no Centre de Documentation Juive).
63. A fórmula “O desejo do Führer é a lei suprema” encontra-se em todas as normas e regulamentações oficiais sobre a conduta do Partido e da SS. A melhor fonte nesse assunto é Otto Gauweiler, Rechtseinrichtungen und Rechtaufgaben der Bewegung [Disposições e tarefas jurídicas do movimento], 1939.
64. Heiden, op. cit., p. 292, menciona a seguinte diferença entre a primeira edição e as edições seguintes de Mein Kampf: a primeira edição propõe a eleição de autoridades do partido que, somente após a eleição, recebem “poder e autoridade ilimitados”; todas as edições posteriores estabelecem a nomeação das autoridades do partido pelo líder imediatamente superior. Naturalmente, para a estabilidade dos regimes totalitários, a nomeação vinda de cima é um princípio muito mais importante do que a “autoridade ilimitada” da autoridade eleita. Na prática, a autoridade do sublíder era limitada pela absoluta soberania do líder. Stálin, que vinha do aparelho conspiratório do partido bolchevista, provavelmente nunca achou que isso constituísse problema. Para ele, as nomeações na máquina do partido eram uma questão de acúmulo de poder pessoal. Contudo, foi somente em meados da década de 30, depois de haver estudado o exemplo de Hitler, que ele se deixou tratar por “líder”. Mas, é forçoso admitir que poderia facilmente justificar esses métodos citando a teoria de Lênin de que “a história de todos os países demonstra que a classe trabalhadora, se depender apenas dos seus próprios esforços, só é capaz de desenvolver uma consciência sindical”, e que a sua liderança, portanto, advém necessariamente de fora. (Ver Que fazer?, publicado pela primeira vez em 1902.) O fato é que Lênin considerava o Partido Comunista como a parte “mais progressista” da classe trabalhadora e, ao mesmo tempo, “a alavanca da organização política” que “dirige toda a massa do proletariado”, isto é, uma organização que está fora e acima da classe. (Ver W. H. Chamberlin, The Russian Revolution, 1917-1921, Nova York, 1935, II, 361.) Não obstante, Lênin não punha em dúvida a validez da democracia intrapartidária, embora se inclinasse pela restrição da democracia com relação à própria classe trabalhadora.
65. Hitler, op. cit., livro II, capítulo XI.
66. Ibid. Esse princípio foi rigorosamente adotado logo que os nazistas tomaram o poder. Dos 7 milhões de membros da juventude hitlerista, somente 50 mil foram aceitos como membros do partido em 1937. Ver o prefácio de H. L. Childs a The Nazi primer. Compare-se também Gottfried Neesse, “Die verfassungsrechtliche Gestaltung der Ein-Partei”, em Zeitschrift für die gesamte Staatswissenschaft, 1948, vol. 98, p. 678: “Mesmo o Partido Único jamais deve crescer a ponto de incluir toda a população. Ele é total devido à influência ideológica que exerce sobre a nação”.
67. Ver a diferenciação feita por Hitler entre as “pessoas radicais”, que eram as únicas que estavam preparadas para se tornarem membros do partido, e as centenas de milhares de simpatizantes, que eram demasiado “covardes” para fazer o necessário sacrifício. Op. cit., loc. cit.
68. Ver Hitler: capítulo sobre a SA, op. cit., livro II, cap. IX, 2a parte.
69. Ao traduzir Verfügungstruppe, ou seja, as unidades da SS que deviam estar à disposição especial de Hitler, como tropas de choque, sigo O. C. Giles, The Gestapo, Oxford Pamphlets on World Affairs, no 36, 1940.
70. A fonte mais importante para a organização e a história da SS é “Wesen und Aufgabe der SS und der Polizei” [Caráter e função da SS e da polícia], de Himmler, em Sammelhefte ausgewählter Vorträge und Reden , 1939. No decorrer da guerra, quando os escalões da Waffen- SS tiveram de ser preenchidos com voluntários, devido às perdas no front, a Waffen-SS perdeu o seu caráter de elite dentro da SS a tal ponto que a SS Geral, isto é, o Corpo do Führer mais elevado, passou mais uma vez a representar o verdadeiro núcleo de elite do movimento em seu aspecto geral. Documentação muito reveladora sobre essa última fase da SS encontra-se nos arquivos da Hoover Library, arquivo Himmler, pasta no 278. Mostra que a SS passou a recrutar trabalhadores estrangeiros e a população nativa, imitando deliberadamente os métodos e normas da Legião Estrangeira Francesa. O recrutamento entre os alemães baseava-se numa ordem de Hitler (nunca publicada), de dezembro de 1942, segundo a qual “a classe de 1925 [devia] ser recrutada para a Waffen-SS” (carta de Himmler a Bormann). A convocação e o recrutamento eram tratados, ostensivamente, como serviços voluntários. Mas numerosos relatórios de líderes da SS encarregados da tarefa mostram o que de fato aconteceu. Um relatório de 21 de julho de 1943 descreve como a polícia cercava o pavilhão dos trabalhadores franceses que seriam recrutados, e como os franceses primeiro cantavam a Marselhesa e depois tentavam pular pelas janelas. As tentativas de recrutamento dos jovens alemães também não eram encorajadoras. Embora fossem submetidos a extraordinárias pressões, e fosse-lhes dito que “certamente não iriam querer incorporar-se aos ‘bandos sujos vestidos de cinza’” (o Exército), somente dezoito de 220 membros da Juventude Hitlerista apresentaram-se para o serviço da SS (segundo relatório de 30 de abril de 1943, submetido por Häussler, chefe do Centro de Recrutamento do Sudoeste, da Waffen- SS); todos os outros preferiram alistar-se na Wehrmacht. É possível que as perdas da SS, maiores que as da Wehrmacht, inAuenciassem a sua decisão (ver Karl O. Paetel, “Die SS”, em Vierteljahresheft für Zeitgeschichte , janeiro de 1954). Mas esse fator, por si só, não poderia ter sido decisivo, como prova o seguinte: já em janeiro de 1940, Hitler havia ordenado o recrutamento de homens da SA para as fileiras da Waffen- SS; os resultados em Koenigsberg, baseados num relatório que foi preservado, foram esses: 1807 membros da SA foram convocados “para serviço policial” (de SS); desses, 1094 deixaram de apresentar-se; 631 foram desclassificados; 82 estavam aptos para servir na SS.
71. Werner Best, op. cit., 1941, p. 99.
72. Hitler sempre insistiu em que o próprio nome da SA (Sturmabteilung) indicava que ela era apenas “uma seção do movimento” como qualquer outra formação partidária. Ele procurou também desfazer a ilusão do possível valor militar de uma formação paramilitar, e queria que o treinamento fosse realizado segundo as necessidades do partido, e não segundo os princípios de um exército. Op. cit., loc. cit.
73. O motivo oficial da fundação da SA foi a proteção dos comícios nazistas, enquanto a tarefa original da SS era a proteção dos líderes nazistas.
74. Hitler, op. cit., loc. cit.
75. Ernst Bayer, Die SA, Berlim, 1938. Tradução citada de Nazi conspiracy, IV.
76. A autobiografia de Röhm mostra claramente quão pouco as suas convicções políticas concordavam com as dos nazistas. Ele desejou um Soldatenstaat (Estado dos soldados) e insistiu na primazia do soldado com relação ao político (op. cit., p. 349). A seguinte passagem revela especialmente a sua incapacidade de compreender o totalitarismo: “Não vejo por que estas três coisas não possam ser compatíveis: a minha lealdade ao príncipe herdeiro da casa de Wittelsbach, herdeiro da coroa da Baviera; minha admiração pelo intendente-geral da Guerra Mundial [isto é, Ludendorff], que hoje representa a consciência do povo alemão; e a minha camaradagem com o arauto e veículo da luta política, Adolf Hitler” (p. 348). O que finalmente custou a Röhm a sua cabeça foi que, após a tomada do poder pelos nazistas, ele visualizava uma ditadura fascista nos moldes do regime italiano, na qual o partido nazista “quebraria as correntes do partido” e “se tornaria, ele próprio, o Estado”, o que era exatamente o que Hitler estava disposto a evitar. Ver o discurso pronunciado por Ernst Röhm perante o corpo diplomático, em dezembro de 1933, em Berlim e publicado, sem data, sob o título Warum SA? [Por que a SA?]. Dentro do partido nazista, nunca foi esquecida a possibilidade de uma trama entre a SA e o Reichswehr contra o domínio da SS e da polícia. Até Hans Frank, governador-geral da Polônia ocupada, foi posto sob suspeita em 1942 — isto é, oito anos depois do assassínio de Röhm (SA) e do general Schleicher (Reichswehr) — por desejar “após a guerra […] iniciar a luta pela justiça, contra a SS, com a ajuda das Forças Armadas e da SA” (Nazi conspiracy, VI, 747).
77. Hitler, op. cit., livro II, capítulo xi, afirma que a propaganda procura forçar uma doutrina sobre todo o povo, enquanto a organização incorpora apenas uma proporção relativamente pequena dos seus membros mais militantes. Compare-se também G. Neesse, op. cit.
78. Hitler, op. cit., loc. cit.
79. Hadamovsky, op. cit., p. 28.
80. As unidades da Caveira da SS eram submetidas às seguintes regras: 1. Nenhuma unidade é convocada para serviço em seu distrito natal. 2. Toda unidade é transferida após três semanas de serviço. 3. Os membros nunca devem ser enviados às ruas sozinhos, nem devem jamais exibir em público sua insígnia da Caveira. Ver “Secret speech by Himmler to the German Army General Staff 1938” (o discurso foi proferido em 1937) em Nazi conspiracy, IV, 616. Publicado também pelo American Committee for Anti-Nazi Literature.
81. Heinrich Himmler, “Die Schutzstaffel als antibolschewistische Kampforganisation” [A SS como organização de luta antibolchevista], em Aus dem Schwarzen Korps, no 3, 1936, disse publicamente: “Sei que existem pessoas na Alemanha que sentem náuseas quando veem este dólmã negro. Compreendemos isto, e não esperamos que muita gente goste de nós”.
82. Em seus discursos para a SS, Himmler sempre acentuava os crimes cometidos, mencionando a sua gravidade. Diria, por exemplo, acerca da liquidação dos judeus: “Desejo também falar-vos de um assunto muito grave. Entre nós, ele pode ser mencionado francamente, mas nunca o mencionaremos em público”. Sobre a liquidação dos intelectuais poloneses: “[…] deveis ser informados disto, e também esquecê-lo imediatamente […]” ( Nazi conspiracy, IV, 558 e 553, respectivamente). Goebbels, op. cit., p. 266, observa no mesmo tom: “No tocante à questão judaica, especialmente, tomamos uma posição da qual não é possível recuar. […] A experiência nos ensina que um movimento e um povo que queimou as suas pontes luta com determinação muito maior que aqueles que ainda podem recuar”.
83. Souvarine, op. cit., p. 648. A maneira como os movimentos totalitários mantiveram absolutamente secreta a vida privada dos seus líderes (Hitler e Stálin) contrasta com a importância que as democracias veem na divulgação da vida privada de presidentes, reis, primeiros-ministros etc. Os métodos totalitários não permitem uma identificação baseada na convicção de que mesmo o mais importante dos homens é apenas um ser humano. Souvarine, op. cit., cita os rótulos mais frequentemente usados para descrever Stálin: “Stálin, o misterioso morador do Kremlin”; “Stálin, personalidade impenetrável”; “Stálin, a Esfinge Comunista”; “Stálin, o Enigma”; o “mistério insolúvel” etc.
84. “Se [Trótski] houvesse preferido montar um coup d’état militar, teria possivelmente derrotado os triúnviros. Mas deixou o cargo sem fazer a menor tentativa de chamar em sua defesa o exército que havia criado e comandado durante sete anos” (Isaac Deutscher, op. cit., p. 297).
85. O Comissariado da Guerra, sob Trótski, “era uma instituição [tão] modelar” que Trótski era procurado sempre que havia desordem nos outros ministérios. Souvarine, op. cit., p. 288.
86. As circunstâncias da morte de Stálin parecem contradizer a infalibilidade desses métodos. É muito possível que Stálin, o qual, antes de morrer, sem dúvida planejava outro expurgo geral, tenha sido morto por alguns elementos do seu séquito devido ao fato de que ninguém mais se sentia seguro — mas isso nunca pôde ser provado. O fato é que os sucessores de Stálin — seus acólitos, sem dúvida, mas, talvez, dentro dos critérios acima, seus assassinos — desfizeram-se depois do único homem que, entre eles, detinha o poder suficiente para eliminá-los. [Trata-se de Beria, o todo-poderoso chefe da polícia secreta da URSS. (N. E.)].
87. Hitler telegrafou pessoalmente aos assassinos da SA assumindo a responsabilidade pelo assassinato de Potempa, embora provavelmente nada tivesse a ver com ele. O que importava, no caso, era estabelecer um princípio de identificação ou, nas palavras dos nazistas, “a lealdade mútua do Líder e do povo” na qual “se baseava o Reich” (Hans Frank, op. cit.).
88. “Uma das principais características de Stálin […] é jogar sistematicamente os seus crimes e malfeitorias, bem como os seus erros políticos […] nos ombros daqueles que ele planeja desacreditar e arruinar” (Souvarine, op. cit., p. 655). É óbvio que um líder totalitário pode escolher livremente quem ele deseja que assuma a culpa dos seus erros, uma vez que todos os atos conhecidos pelos sublíderes são inspirados por ele, de modo que qualquer pessoa pode ser forçada a assumir o papel de impostor.
89. Já ficou provado, por meio de numerosos documentos, que era o próprio Hitler — e não Himmler, nem Bormann, nem Goebbels — quem sempre tomava a iniciativa das medidas realmente “radicais”; que essas medidas eram sempre mais radicais que aquelas propostas por seus seguidores imediatos; que até mesmo Himmler ficou horrorizado quando recebeu a incumbência da “solução final” da questão judaica. E tampouco merece alguma fé a lenda de que Stálin era mais moderado que as facções esquerdistas do partido bolchevista. É importante lembrar que os líderes totalitários procuram invariavelmente parecer mais moderados para o mundo exterior, e que o seu principal papel — que é o de impelir para frente o movimento a qualquer preço, e de acelerá-lo, e não retardá-lo — é sempre cuidadosamente oculto. Ver, por exemplo, o memorando do almirante Erich Raeder, “My relationship to Adolf Hitler and to the Party”, em Nazi conspiracy, VIII, pp. 707 ss: “Quando surgiram informações e boatos acerca de medidas radicais do Partido e da Gestapo, era possível chegar-se à conclusão, pela conduta do Führer, de que essas medidas não haviam sido ordenadas pelo próprio Führer. […] Em anos subsequentes, cheguei gradualmente à conclusão de que o próprio Führer sempre se inclinava pela solução mais radical, sem deixar que ninguém o percebesse”. Na luta intrapartidária que precedeu a subida ao poder absoluto, Stálin sempre teve o cuidado de assumir a pose do “homem do meio-termo” (ver Deutscher, op. cit., pp. 295 ss); embora certamente não fosse nenhum “homem afeito a acomodações”, nunca abandonou inteiramente esse papel. Quando, por exemplo, um jornalista estrangeiro lhe indagou, em 1936, acerca dos objetivos de revolução mundial do movimento comunista, ele respondeu: “Nunca tivemos tais planos e intenções. […] Trata-se de um mal-entendido. […] Um mal-entendido cômico, ou, antes, tragicômico” (Deutscher, op. cit., p. 422).
90. Ver Alexandre Koyré, “The political function of the modern lie”, em Contemporary Jewish Record, junho de 1945. Hitler, op. cit., livro II, capítulo IX, discute longamente os prós e contras das sociedades secretas como modelos para os movimentos totalitários. Na verdade, as considerações que ele faz levam-no à conclusão de Koyré de que é preciso adotar os princípios das sociedades secretas sem o seu sigilo e instalá-las “à plena luz do dia”. No estágio anterior à tomada do poder, os nazistas nada mantinham em segredo. Foi somente durante a guerra, quando o regime nazista se tornou inteiramente totalitarizado e a liderança do partido se viu cercada por todos os lados pela hierarquia militar, da qual dependia para a condução da guerra, que as formações de elite receberam instruções perfeitamente claras para manterem absolutamente secreto tudo o que dissesse respeito à “solução final”, isto é, o extermínio em massa dos judeus. Foi também por essa época que Hitler passou a agir como chefe de um bando de conspiradores, mas não sem anunciar e divulgar pessoalmente esse fato com bastante clareza. No decorrer de uma reunião com o Estado-Maior, em maio de 1939, Hitler estabeleceu as seguintes normas, que parecem haver sido copiadas de uma cartilha de sociedades secretas: “1. Nenhuma informação será dada a quem não precisa saber. 2. Ninguém deve saber mais do que precisa. 3. Ninguém deve saber antes do tempo necessário” (citadas por Heinz Holldack, Was wirklich geschah [O que realmente aconteceu], 1949, p. 378).
91. A análise que fazemos a seguir acompanha de perto “Sociology of secrecy and of secret societies”, de Georg Simmel, em The American Journal of Sociology, vol. XI, no 4, janeiro de 1906, que constitui o capítulo v de sua Soziologie, Leipzig, 1908, da qual alguns trechos foram traduzidos por Kurt Wolff, sob o título The sociology of Georg Simmel, 1950.
92. “Exatamente pelo fato de que os graus inferiores da sociedade constituem uma transição mediatória para o verdadeiro centro do segredo, permitem a compreensão gradual da esfera de repulsa em torno do mesmo, o que proporciona uma proteção mais segura do que adviria da aspereza de uma posição radical, fosse de fora ou de dentro” (ibid., p. 489).
93. As expressões “irmãos jurados”, “camaradas jurados”, “comunidade jurada” etc. são repetidas ad nauseam em toda a literatura nazista, em parte devido à atração que tinham para o romantismo juvenil muito comum no movimento da juventude alemã. Foi principalmente Himmler quem usou essas expressões com um sentido mais definido, introduzindo-as na “senha central” da SS (“Unimo-nos assim e marchamos para um futuro distante segundo as leis imutáveis, como uma classe nacional-socialista de homens nórdicos e comunidade jurada das suas tribos [Sippen].” Ver D’Alquen, op. cit.) e lhes deu o expressivo significado de “absoluta hostilidade” contra todos os outros (ver Simmel, op. cit., p. 489): “Assim, quando a massa da humanidade de 1 a 1,5 bilhão [ sic!] se unir contra nós, o povo alemão […]”. Ver o discurso de Himmler na reunião dos generais da SS em Posen (atual Poznan, Polônia), a 4 de outubro de 1943, Nazi conspiracy, IV, 558.
94. Simmel, op. cit., p. 490. Esse princípio, como tantos outros, foi adotado pelos nazistas após cuidadoso estudo das implicações dos “Protocolos dos sábios do Sião”. Hitler dizia já em 1922: “[Os homens da Direita] ainda não compreenderam que não é necessário ser inimigo dos judeus para que um dia […] acabem na forca. […] Basta […] não ser judeu: com isso se vai parar na forca” (Hitler’s speeches, p. 12). Na época, ninguém podia imaginar que esse tipo de propaganda realmente significava que, um dia, não seria necessário ser um inimigo dos nazistas para ser levado à forca; bastaria ser um judeu ou, finalmente, membro de algum outro povo, para ser declarado “racialmente inapto” à vida por alguma Comissão de Saúde. Himmler acreditava e pregava que toda a SS se baseava no princípio de que “devemos ser honestos, decentes, leais e amigos com os membros do nosso próprio sangue, e com ninguém mais” ( op. cit., loc. cit.).
95. Simmel, op. cit., pp. 480-1.
96. Souvarine, op. cit., p. 319, adota uma expressão de Bukharin.
97. Souvarine, op. cit., p. 113, menciona que Stálin “sempre se impressionava com aqueles que eram bem-sucedidos ‘nos negócios’. Via a política como um ‘negócio’ que exigia destreza”.
98. Nas lutas intrapartidárias dos anos 20, “os colaboradores da GPU eram, quase sem exceção, fanáticos seguidores de Stálin. Os serviços da GPU naquela época eram os baluartes da seção stalinista” (Ciliga, op. cit., p. 48). Souvarine, op. cit., p. 289, relata que, mesmo antes, Stálin havia “continuado a ação policial que havia iniciado durante a Guerra Civil” e havia sido representante do Politburo na GPU.
99. Imediatamente após a guerra civil na Rússia, o Pravda afirmava que “a fórmula ‘Todo o poder aos Sovietes’ havia sido substituída por ‘Todo o poder à Cheka’. […] O fim das hostilidades armadas reduziu o controle militar […] mas deixou uma Cheka ramificada, que se aperfeiçoava através da simplificação operacional” (Souvarine, op. cit., p. 251).
100. A Gestapo [Geheime Staatspolizei: Polícia Secreta do Estado] foi instituída por Göring em 1933: Himmler foi nomeado chefe da Gestapo em 1934 e passou imediatamente a substituir o seu pessoal por homens da SS; no fim da guerra, 75% dos agentes da Gestapo eram homens da SS. Deve-se considerar também que as unidades da SS eram particularmente qualificadas para esse tipo de trabalho, uma vez que Himmler as havia organizado, mesmo na fase anterior ao poder, para tarefas de espionagem entre membros do partido (Heiden, op. cit., p. 308). Quanto à história da Gestapo, ver Giles, op. cit., e também Nazi conspiracy, vol. II, capítulo XII.
101. Provavelmente, um dos erros ideológicos decisivos de Rosenberg, que caiu na desgraça do Führer e perdeu a sua inAuência no movimento a favor de homens como Himmler, Bormann e até mesmo Streicher, foi que o seu Mito do século XX admite um pluralismo racial do qual somente os judeus eram excluídos. Violou, assim, o princípio conforme o qual quem não estivesse incluído (“o povo germânico”) estava excluído (“a massa da humanidade”). Cf. nota 87.
102. Simmel, op. cit., p. 492, menciona sociedades secretas criminosas nas quais os membros voluntariamente escolhem um comandante ao qual passam a obedecer sem crítica e sem limite.
103. Ciliga, op. cit., pp. 96-7. O autor descreve como os prisioneiros comuns da prisão da GPU em Leningrado condenados à morte deixavam-se levar à execução “sem uma palavra, sem um grito de revolta contra o governo que os executava” (p. 183).
104. Ciliga nos diz que os membros do partido que haviam sido condenados “achavam que, se essas execuções serviam para salvar a ditadura burocrática como um todo, se levavam à calma os camponeses rebelados (ou, antes, ao erro), o sacrifício de suas vidas não teria sido em vão” (op. cit., pp. 96-7).
105. A imagem do papel da diplomacia na política, expressa por Goebbels, é típica: “Não há dúvida que o melhor a fazer é manter os diplomatas desinformados quanto ao que ocorre na política. […] O argumento mais convincente de sua fidedignidade política é a sinceridade com que representam o papel de apaziguadores” (op. cit., p. 87).
106. Rudolf Hess numa transmissão radiofônica em 1934. Nazi conspiracy, I, p. 193.
107. Werner Best, op. cit., explica: “O fato de a vontade do governo estabelecer as normas ‘certas’ […] já não é uma questão de lei, mas de destino. Pois os abusos que ocorrerem […] serão punidos perante a história de modo mais seguro pelo próprio destino — com o infortúnio, a destituição e a ruína, devido à violação das ‘leis da vida’ — do que por uma Corte de Justiça”. Tradução citada de Nazi conspiracy, IV, 490.
108. Ver Kravchencko, op. cit., p. 422. “Nenhum comunista devidamente doutrinado achava que o Partido estivesse ‘mentindo’ por pregar em público um tipo de política, enquanto na intimidade professava o oposto”.
109. “O nacional-socialista despreza o seu vizinho alemão, o homem da SA despreza os outros nacional-socialistas, e o homem da SS despreza o homem da SA” (Heiden, op. cit., p. 308).
110. Himmler selecionava os candidatos à SS, em primeiro lugar, por fotografias. Mais tarde, um Comitê Racial, perante o qual o candidato tinha de comparecer pessoalmente, aprovava ou desaprovava a sua aparência racial. Ver Himmler no tocante à “Organização e obrigação da SS e da polícia”, Nazi conspiracy, IV, pp. 616 ss.
111. Himmler estava bem consciente do fato de que uma de suas “mais importantes realizações” era haver transformado a questão racial, de “conceito negativo baseado no antissemitismo natural”, em “uma tarefa organizacional para a constituição da SS” (Der Reichsführer SS und Chef der deutschen Polizei, “exclusivamente para uso da polícia”; sem data). Assim, “pela primeira vez, a questão racial havia sido colocada em foco, ou melhor, se tornara o próprio foco, indo muito além do conceito negativo que havia por trás do ódio natural aos judeus. A ideia revolucionária do Führer recebia uma infusão de sangue novo” (Der Weg der SS. Der Reichsführer SS. SS-Hauptamt- Schulungsamt. Na jaqueta: “difusão proibida”, sem data, p. 25).
112. Logo que foi nomeado chefe da SS, em 1929, Himmler introduziu o princípio de seleção racial e leis de casamento, e acrescentou: “A SS sabe muito bem que esta ordem é da maior importância. A zombaria, o escárnio e a incompreensão não nos afetam; o futuro é nosso”. Citado por D’Alquen, op. cit. E novamente, catorze anos mais tarde, num discurso em Kharkov (Nazi conspiracy, IV, pp. 572 ss), Himmler lembra aos seus líderes da SS que “fomos os primeiros a realmente resolver o problema do sangue pela ação […] e por problema de sangue não entendemos, naturalmente, o antissemitismo. O antissemitismo é exatamente a mesma coisa que catar piolhos. Catar piolhos não é uma questão de ideologia: é uma questão de limpeza. […] Mas para nós a questão do sangue era um lembrete do nosso próprio valor, um lembrete do que realmente mantém unido este povo alemão”.+

113. Himmler, op. cit., Nazi conspiracy, IV, pp. 616 ss.
114. Himmler em seu discurso em Posen, Nazi conspiracy, IV, p. 558.

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gate io вывод средств
2023-06-19 13:51:20
Reading your article helped me a lot and I agree with you. But I still have some doubts, can you clarify for me? I'll keep an eye out for your answers.