Totalitarismo por Hannah Arendt – 2.1

Nesta nova jornada dos Novos Pensadores vamos examinar um escrito de Hannah Arendt (1951) sobre o totalitarismo. É a terceira parte do livro Hannah Arendt, Origens do totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. A seguir vai o capítulo 2, primeira parte.

TOTALITARISMO

Os homens normais não sabem que tudo é possível.

David Rousset

ÍNDICE

Prefácio

1. Uma sociedade sem classes

1.1 As massas

1.2 A aliança temporária entre a ralé e a elite

2. O movimento totalitário

2.1 A propaganda totalitária

3. O totalitarismo no poder

4. Ideologia e terror: uma nova forma de governo

2. O MOVIMENTO TOTALITÁRIO

1. A PROPAGANDA TOTALITÁRIA

Somente a ralé e a elite podem ser atraídas pelo ímpeto do totalitarismo; as massas têm de ser conquistadas por meio da propaganda. Sob um governo constitucional e havendo liberdade de opinião, os movimentos totalitários que lutam pelo poder podem usar o terror somente até certo ponto e, como qualquer outro partido, necessitam granjear aderentes e parecer plausíveis aos olhos de um público que ainda não está rigorosamente isolado de todas as outras fontes de informação.

Nos países totalitários, a propaganda e o terror parecem ser duas faces da mesma moeda (1). Isso, porém, só é verdadeiro em parte. Quando o totalitarismo detém o controle absoluto, substitui a propaganda pela doutrinação e emprega a violência não mais para assustar o povo (o que só é feito nos estágios iniciais, quando ainda existe a oposição política), mas para dar realidade às suas doutrinas ideológicas e às suas mentiras utilitárias. O totalitarismo não se contenta em afirmar, apesar de prova em contrário, que o desemprego não existe; elimina de sua propaganda qualquer menção sobre os benefícios para os desempregados (2). Igualmente importante é o fato de que a recusa em reconhecer o desemprego corrobora — embora de modo inesperado — a velha doutrina socialista de que quem não trabalha não come. Ou, para citar outro exemplo, quando Stálin decidiu reescrever a história da Revolução Russa, a propaganda da sua nova versão consistiu em destruir, juntamente com os livros e documentos, os seus autores e leitores: a publicação, em 1938, da nova história oficial do Partido Comunista assinalou o fim do super-expurgo que havia dizimado toda uma geração de intelectuais soviéticos. Da mesma forma, nos territórios ocupados da Europa oriental, os nazistas se utilizaram, no início, de propaganda antissemita principalmente para assegurar um controle mais firme da população. Não precisaram lançar mão do terror para nele apoiar a sua propaganda, nem o fizeram. Quando liquidaram a maioria dos intelectuais poloneses, não o fizeram devido à sua oposição, mas porque, segundo a doutrina nazista, os poloneses não tinham intelecto; e, quando planejaram levar para a Alemanha as crianças de olhos azuis e cabelos louros, não pretendiam com isso aterrorizar a população, mas apenas salvar “o sangue germânico” (3).

Por existirem num mundo que não é totalitário, os movimentos totalitários são forçados a recorrer ao que comumente chamamos de propaganda. Mas essa propaganda é sempre dirigida a um público de fora — sejam as camadas não totalitárias da população do próprio país, sejam os países não totalitários do exterior. Essa área externa à qual a propaganda totalitária dirige o seu apelo pode variar grandemente; mesmo depois da tomada do poder, a propaganda totalitária pode ainda dirigir-se àqueles segmentos da própria população cuja coordenação não foi seguida de doutrinação suficiente. Nesse ponto, os discursos de Hitler aos seus generais, durante a guerra, são verdadeiros modelos de propaganda, caracterizados principalmente pelas monstruosas mentiras com que o Führer entretinha os seus convidados na tentativa de conquistá-los (4).

A esfera externa pode também ser representada por grupos de simpatizantes que ainda não estejam preparados para aceitar os verdadeiros alvos do movimento. E, em muitos casos, até mesmo certos membros do partido são considerados, pelo círculo íntimo do Führer ou pelos membros das formações de elite, como pertencentes a essa esfera externa e ainda necessitados de propaganda, já que não podem ainda ser dominados com segurança. Para que não se subestime a importância das mentiras da propaganda, convém lembrar os muitos casos em que Hitler foi completamente sincero e brutalmente claro na definição dos verdadeiros objetivos do movimento, os quais, no entanto, simplesmente deixaram de ser percebidos pelo público, despreparado para tamanho despropósito (5). Basicamente, porém, o domínio totalitário procura restringir os métodos propagandísticos unicamente à sua política externa ou às ramificações do movimento no exterior, a fim de lhes fornecer material adequado. Sempre que a doutrinação totalitária no país de origem entra em conflito com a linha de propaganda para consumo externo (como sucedeu na Rússia, durante a guerra, não quando Stálin se aliou a Hitler, mas quando a guerra com Hitler fê-lo passar para o lado das democracias), a propaganda é explicada no país de origem como temporária “manobra tática” (6). Na medida do possível, estabelece-se, logo na fase anterior à tomada do poder, a diferença entre a doutrina ideológica destinada aos iniciados do movimento, que já não precisam de propaganda, e a propaganda para o mundo exterior. A relação entre a propaganda e a doutrinação depende do tamanho do movimento e da pressão externa. Quanto menor o movimento, mais energia despenderá em sua propaganda. Quanto maior for a pressão exercida pelo mundo exterior sobre os regimes totalitários — pressão que não é possível ignorar totalmente mesmo atrás da “cortina de ferro” — mais ativa será a propaganda totalitária. O fato essencial é que as necessidades da propaganda são sempre ditadas pelo mundo exterior; por si mesmos, os movimentos não propagam, e sim doutrinam. Por outro lado, a doutrinação, inevitavelmente aliada ao terror, cresce na razão direta da força dos movimentos ou do isolamento dos governantes totalitários que os protege da interferência externa.

A propaganda é, de fato, parte integrante da “guerra psicológica”; mas o terror o é mais. Mesmo depois de atingido o seu objetivo psicológico, o regime totalitário continua a empregar o terror; o verdadeiro drama é que ele é aplicado contra uma população já completamente subjugada. Onde o reino do terror atinge a perfeição, como nos campos de concentração, a propaganda desaparece inteiramente; na Alemanha nazista, chegou a ser expressamente proibida (7). Em outras palavras, a propaganda é um instrumento do totalitarismo, possivelmente o mais importante, para enfrentar o mundo não totalitário; o terror, ao contrário, é a própria essência da sua forma de governo. Sua existência não depende do número de pessoas que a infringem.

O terror como substituto da propaganda alcançou maior importância no nazismo do que no comunismo. Os nazistas não cometeram atentados contra personalidades importantes como havia acontecido anteriormente em ondas de crimes políticos na Alemanha (assassinatos de Rathenau e de Erzberger); em vez disso, matavam pequenos funcionários socialistas ou membros influentes dos partidos inimigos, procurando mostrar à população o perigo que podia acarretar o simples fato de pertencer a um partido. Esse tipo de terror dirigido contra a massa era valioso no sentido daquilo que um autor nazista chamou adequadamente de “propaganda de força” (8), e aumentou progressivamente porque nem a polícia nem os tribunais processavam seriamente os criminosos políticos da chamada Direita. Para a população em geral, tornava-se claro que o poder dos nazistas era maior que o das autoridades, e que era mais seguro pertencer a uma organização paramilitar nazista do que ser um republicano leal. Essa impressão foi grandemente reforçada pelo uso específico que os nazistas fizeram dos seus crimes políticos. Sempre os confessavam publicamente, nunca se desculpavam por “excessos dos escalões inferiores” — essas justificativas eram usadas apenas pelos simpatizantes do nazismo — e impressionavam a população por serem muito diferentes dos “meros faladores” dos outros partidos.

As semelhanças entre esse tipo de terror e o simples banditismo são claras demais para serem enumeradas. Isso não significa que o nazismo era banditismo, como às vezes se diz, mas apenas que os nazistas, sem o confessarem, aprenderam tanto com as organizações dos gângsteres americanos quanto a sua propaganda, confessadamente, aprendeu com a publicidade comercial americana.

Contudo, o que caracteriza a propaganda totalitária melhor do que as ameaças diretas e os crimes contra indivíduos é o uso de insinuações indiretas, veladas e ameaçadoras contra todos os que não derem ouvidos aos seus ensinamentos, seguidas de assassinato em massa perpetrado igualmente contra “culpados” e “inocentes”. A propaganda comunista ameaça as pessoas com a possibilidade de perderem o trem da história, de se atrasarem irremediavelmente em relação ao tempo, de esbanjarem as suas vidas inutilmente, tal como os nazistas as ameaçavam com uma existência contrária às eternas leis da natureza e da vida e com uma irreparável e misteriosa degeneração do sangue. A forte ênfase que a propaganda totalitária dá à natureza “científica” das suas afirmações tem sido comparada a certas técnicas publicitárias igualmente dirigidas às massas. De fato, os anúncios mostram o “cientificismo” com que um fabricante “comprova” — com fatos, algarismos e o auxílio de um departamento de “pesquisa” — que o seu “sabonete é o melhor do mundo” (9). Também é verdade que há um certo elemento de violência nos imaginosos exageros publicitários; por trás da afirmação de que as mulheres que não usam essa determinada marca de sabonete podem viver toda a vida espinhentas e solteironas, há um arrojado sonho monopolista, o sonho de que, algum dia, o fabricante do “único sabonete que evita espinhas” tenha o poder de privar de maridos todas as mulheres que não o usem. Tanto no caso da publicidade comercial quanto no da propaganda totalitária, a ciência é apenas um substituto do poder. A obsessão dos movimentos totalitários pelas demonstrações “científicas” desaparece assim que eles assumem o poder. Os nazistas dispensaram até mesmo os eruditos que procuraram servi-los, e os bolchevistas usam a reputação dos seus cientistas para finalidades completamente não científicas, transformando-os em charlatães.

Mas cessa aí a semelhança, frequentemente exagerada, entre a publicidade e a propaganda de massa. Os homens de negócio geralmente não se arrogam a profetas e não demonstram constantemente a correção de suas predições. O cientificismo da propaganda totalitária é caracterizado por sua insistência quase exclusiva na profecia “científica”, em contraposição com o apelo ao passado, já fora de moda. Nunca se percebe tão claramente a origem ideológica do socialismo e do racismo como quando os seus porta-vozes alegam ter descoberto as forças ocultas que lhe trarão boa sorte na “corrente da fatalidade”. As massas sentem-se naturalmente atraídas pelos “sistemas absolutistas que pretendem ver todos os eventos da história dependentes das grandes causas originais ligadas pela corrente da fatalidade, como que eliminando os homens da história da raça humana” (Tocqueville). Mas não se pode duvidar que a liderança nazista realmente acreditava em doutrinas como a que segue, e não as usava apenas como propaganda: “Quanto mais fielmente reconhecemos e seguimos as leis da natureza e da vida, […] tanto mais nos conformamos ao desejo do Todo-Poderoso. Quanto melhor conhecermos o desejo do Todo-Poderoso, maior será o nosso sucesso” (10). É evidente que o credo de Stálin pode ser expresso em duas sentenças muito parecidas: “Quanto mais fielmente reconhecemos e observamos as leis da história e da luta de classes, mais nos conformamos ao materialismo dialético. Quanto mais conhecermos o materialismo dialético, maior será o nosso sucesso” (11).

A propaganda totalitária aperfeiçoou o cientificismo ideológico e a técnica de afirmações proféticas a um ponto antes ignorado de eficiência metódica e absurdo de conteúdo porque, do ponto de vista demagógico, a melhor maneira de evitar discussão é tornar o argumento independente de verificação no presente e afirmar que só o futuro lhe revelará os méritos. Contudo, não foram as ideologias totalitárias que inventaram esse método e não foram elas as únicas a empregá-lo. O cientificismo da propaganda de massa tem sido empregado de modo tão universal na política moderna que chegou a ser identificado como sintoma mais geral da obsessão com a ciência que caracterizou o Ocidente desde o florescimento da matemática e da física no século XVI. Assim, o totalitarismo parece ser apenas o último estágio de um processo durante o qual “a ciência [tornou-se] um ídolo que, num passe de mágica, cura os males da existência e transforma a natureza do homem” (12). Realmente, há uma antiga ligação entre o cientificismo e o surgimento das massas. O “coletivismo” das massas foi acolhido de bom grado por aqueles que viam no surgimento de “leis naturais do desenvolvimento histórico” a eliminação da incômoda imprevisibilidade das ações e da conduta do indivíduo (13). Cita-se o exemplo de Enfantin, que pressentia a chegada do “tempo em que a arte de movimentar as massas estará tão perfeitamente desenvolvida que o pintor, o músico e o poeta terão o poder de agradar e comover com a mesma certeza com que os matemáticos resolvem um problema geométrico ou um químico analisa qualquer substância”. Talvez tenha sido nesse instante que nasceu a propaganda moderna (14).

Contudo, quaisquer que sejam as falhas do positivismo, do pragmatismo e do
behaviorismo, e por maior que seja a sua influência na formação do tipo de bom senso característico do século XIX, não é de modo algum “o produto canceroso do segmento utilitário da existência” (15) que caracteriza as massas atraídas pela propaganda totalitária e pelo cientificismo. A convicção dos positivistas, como a conhecemos através de Comte, de que o futuro pode vir a ser previsto cientificamente repousa na crença de que o interesse é a força que existe por trás de tudo na história, e na pressuposição de que o poder tenha leis objetivas que podem ser descobertas. O cerne do utilitarismo moderno, positivista ou socialista, é a teoria política de Rohan, de que “os reis comandam os povos e os interesses comandam os reis”, de que o interesse objetivo é a “única [lei] que não falha”, e de que, “mal ou bem compreendido, o interesse é responsável pela existência e pelo desaparecimento dos governos”. Mas nenhuma dessas teorias aceita a possibilidade de “transformar a natureza do homem”, como o totalitarismo realmente procura fazer. Pelo contrário, implícita ou explicitamente, todas presumem que a natureza do homem é sempre a mesma, que a história é o relato de circunstâncias, e que o interesse, corretamente compreendido, pode levar a uma mudança de circunstâncias, mas não à mudança das reações humanas em si. O “cientificismo” da política ainda pressupõe que o bem-estar humano é a sua finalidade, conceito que é completamente alheio ao totalitarismo (16).

Exatamente porque se supunha que as ideologias tivessem um natural conteúdo utilitário, a conduta antiutilitária dos governos totalitários e a sua completa indiferença pelo interesse da massa causaram um choque tão profundo. Essa conduta introduziu na política contemporânea um elemento de imprevisibilidade até então desconhecido. Contudo, a propaganda totalitária já havia indicado, antes mesmo que o totalitarismo tomasse o poder, até que ponto as massas haviam se afastado da preocupação pelo seu próprio interesse. Assim, não se justificava a suspeita dos aliados de que a matança dos loucos, ordenada por Hitler no começo da guerra, fosse ditada pelo desejo de eliminar bocas desnecessárias (17). Hitler não foi forçado pela guerra a atirar pelos ares todas as considerações de ordem ética, mas sim considerava a carnificina da guerra uma excelente oportunidade para dar início a um programa de assassinatos que, como todos os outros pontos do seu programa, se media em termos de milênios (18). Como virtualmente toda a história europeia, durante muitos séculos, havia ensinado o povo a julgar cada ação política por seu cui bono [proveito, vantagem] e todos os acontecimentos políticos por seus interesses subjacentes, estava-se agora subitamente diante de um elemento de imprevisibilidade sem precedentes. Dadas as suas características demagógicas, a propaganda totalitária — que, muito antes da tomada do poder, mostrava claramente quão pouco as massas se deixavam motivar pelo famoso instinto de autoconservação — não foi tomada a sério. Mas o sucesso da propaganda totalitária não se deve tanto à sua demagogia quanto ao conhecimento de que o interesse, como força coletiva, só se faz sentir onde um corpo social estável proporciona a necessária conexão motora entre o indivíduo e o grupo; nenhuma propaganda baseada no mero interesse pode ser eficaz entre as massas, já que a sua característica principal é não pertencerem a nenhum corpo social ou político e constituírem, portanto, um verdadeiro caos de interesses individuais. O fanatismo dos membros dos movimentos totalitários, cuja intensidade difere tão claramente da lealdade dos membros dos partidos comuns, resulta exatamente da falta de egoísmo interesseiro dos indivíduos que formam as massas e que estão perfeitamente dispostos a se sacrificarem pela ideia. Os nazistas demonstraram que se pode levar todo um povo à guerra com o lema “de outra forma pereceremos” (o que a propaganda de guerra evidentemente evitou em 1914), mesmo em época que não seja de miséria, de desemprego ou de frustradas ambições nacionais. O mesmo espírito prevaleceu durante os últimos meses de uma guerra obviamente perdida, quando a propaganda nazista consolou a população, já grandemente atemorizada, com a promessa de que o Führer, “em sua sabedoria, havia preparado uma morte suave para o povo alemão, por meio de gás, em caso de derrota” (19).

Os movimentos totalitários empregam o socialismo e o racismo esvaziando-os do seu conteúdo utilitário, dos interesses de uma classe ou de uma nação. A forma de predição infalível sob a qual esses conceitos são apresentados é mais importante que o seu conteúdo (20). A principal qualificação de um líder de massas é a sua infinita infalibilidade; jamais pode admitir que errou (21). Além disso, a pressuposição de infalibilidade baseia-se não tanto na inteligência superior quanto na correta interpretação de forças históricas ou naturais essencialmente seguras, forças que nem a derrota nem a ruína podem invalidar porque, a longo prazo, tendem a prevalecer (22). Uma vez no poder, os líderes da massa cuidam de algo que está acima de quaisquer considerações utilitárias: fazer com que as suas predições se tornem verdadeiras. Os nazistas não hesitaram em lançar mão, no fim da guerra, de toda a força da sua organização ainda intacta para destruir a Alemanha do modo mais completo possível, a fim de que fosse verdadeira a sua predição de que o povo alemão seria arruinado em caso de derrota.

O efeito propagandístico da infalibilidade, o extraordinário sucesso que decorre da humilde pose de mero agente interpretador de forças previsíveis, estimulou nos ditadores totalitários o hábito de anunciar as suas intenções políticas sob a forma de profecias. O exemplo mais famoso é o anúncio que Hitler fez ao Reichstag alemão em janeiro de 1939: “Desejo hoje mais uma vez fazer uma profecia: caso os financistas judeus […] consigam novamente arrastar os povos a uma guerra mundial o resultado será […] a aniquilação da raça judaica na Europa” (23). Traduzido em linguagem não totalitária, isso significa: pretendo travar uma guerra e pretendo matar os judeus da Europa. Da mesma forma, Stálin, no discurso proferido perante o Comitê Central do Partido Comunista em (1930), ao descrever os seus dissidentes no partido como representantes de “classes agonizantes” (24), abriu o caminho para a sua eliminação física. Em estilo totalitário, essa definição anunciava a destruição física daqueles cuja “agonia” acabava de ser profetizada. Em ambos os casos, consegue-se o mesmo objetivo: o extermínio vira processo histórico no qual o homem apenas faz ou sofre aquilo que, de acordo com leis imutáveis, sucederia de qualquer modo. Assim que as vítimas são executadas, a “profecia” transforma-se em álibi retrospectivo: o que sucedeu foi apenas o que havia sido predito (25). Pouco importa se “leis históricas” acarretam a “ruína” de certas classes e de seus representantes, ou se “leis naturais (…) exterminam” todos aqueles elementos — democracias, judeus, sub-homens [Untermenschen] do Leste europeu, ou doentes incuráveis — que, de qualquer forma, não são “dignos de viver”. Por sinal, Hitler também mencionou “classes agonizantes” que deviam ser “eliminadas sem mais problemas” (26).

Esse método, como outros da propaganda totalitária, só é infalível depois que os movimentos tomam o poder. A essa altura, discutir a verdade ou a mentira da predição de um ditador totalitário é tão insensato como discutir com um assassino em potencial se a sua próxima vítima está morta ou viva — pois, matando a pessoa em questão, o assassino pode prontamente demonstrar que a sua afirmação era correta. O único argumento válido nessas ocasiões seria a imediata salvação da pessoa cuja morte é profetizada. Antes que os líderes das massas tomem o poder para fazer com que a realidade se ajuste às mentiras que proclamam, sua propaganda exibe extremo desprezo pelos fatos em si, pois, na sua opinião, os fatos dependem exclusivamente do poder do homem que os inventa (27). A afirmação de que o metrô de Moscou é o único do mundo só é falsa enquanto os bolchevistas não puderem destruir os outros. Em outras palavras, o método da predição infalível, mais que qualquer outro expediente da propaganda totalitária, revela o seu objetivo último de conquista mundial, pois somente num mundo inteiramente sob o seu controle pode o governante totalitário dar realidade prática às suas mentiras e tornar verdadeiras todas as suas profecias.

A linguagem do cientificismo profético correspondia às necessidades das massas que haviam perdido o seu lugar no mundo e, agora, estavam preparadas para se reintegrar nas forças eternas e todo-poderosas que, por si, impeliriam o homem, nadador no mar da adversidade, para praia segura. “Moldamos a vida do nosso povo e a nossa legislação segundo o veredicto da genética” (28). afirmaram os nazistas, do mesmo modo como os bolchevistas asseguraram aos seus seguidores que as forças econômicas têm o poder de um veredicto histórico. Assim, prometiam uma vitória que não dependia de derrotas e fracassos “temporários”. Pois as massas, em contraste com as classes, desejam a vitória e o sucesso em si mesmos, em sua forma mais abstrata; não as unem quaisquer interesses coletivos especiais que considerem essenciais à sua sobrevivência como um grupo e pelos quais, portanto, poderiam lutar contra a adversidade. Mais importante que a causa que venha a ser vitoriosa ou o empreendimento que tenha possibilidades de vencer, é para elas a vitória em não importa que causa e o sucesso em não importa que empreendimento.

A propaganda totalitária aperfeiçoa as técnicas da propaganda de massa, mas não lhe inventa os temas. Estes foram preparados pelos cinquenta anos de imperialismo e desintegração do Estado nacional, quando a ralé adentrou o cenário da política europeia. Tal como os primeiros líderes da ralé, os porta-vozes dos movimentos totalitários tinham um modo infalível de distinguir tudo aquilo que a propaganda partidária comum ou a opinião pública evitava ou não ousava abordar. Tudo o que fosse oculto, tudo o que fosse mantido em silêncio adquiria grande importância, qualquer que fosse o seu valor intrínseco. A ralé realmente acreditava que a verdade era tudo aquilo que a sociedade respeitável houvesse hipocritamente escamoteado ou acobertado com a corrupção.

O primeiro critério para a escolha dos tópicos era o mistério em si. A origem do mistério não importava; podia estar num desejo de segredo razoável e politicamente compreensível, como no caso dos Serviços Secretos Britânicos ou do Deuxième Bureau francês; ou na necessidade conspiratória de grupos revolucionários, como no caso das seitas anárquicas e terroristas; ou na estrutura de sociedades secretas, embora seu conteúdo secreto já fosse conhecido e somente o ritual formal retivesse ainda o antigo mistério, como no caso da maçonaria; ou em superstições antiquíssimas que haviam gerado lendas em torno de certos grupos, como no caso dos jesuítas e judeus. Os nazistas eram, sem dúvida, mestres na escolha desses tópicos para uso em propaganda de massa; mas os bolchevistas pouco a pouco aprenderam-lhes os truques, embora confiassem menos em mistérios tradicionalmente aceitos e preferissem suas próprias invenções; desde meados da década de 30, uma misteriosa conspiração mundial tem seguido outra na propaganda bolchevista, a começar pelo complô dos trotskistas, passando pelo domínio das trezentas famílias, até as sinistras maquinações imperialistas dos serviços secretos britânicos e americanos (29).

A eficácia desse tipo de propaganda evidencia uma das principais características das massas modernas. Não acreditam em nada visível, nem na realidade da sua própria experiência; não confiam em seus olhos e ouvidos, mas apenas em sua imaginação, que pode ser seduzida por qualquer coisa ao mesmo tempo universal e congruente em si. O que convence as massas não são os fatos, mesmo que sejam fatos inventados, mas apenas a coerência com o sistema do qual esses fatos fazem parte.

Importante aqui: os isomorfismos com os movimentos reacionários do populismo-autoritário contemporâneo.

O que as massas se recusam a compreender é a fortuidade de que a realidade é feita. Predispõem-se a todas as ideologias porque estas explicam os fatos como simples exemplos de leis e ignoram as coincidências, inventando uma onipotência que a tudo atinge e que supostamente está na origem de todo acaso. A propaganda totalitária prospera nesse clima de fuga da realidade para a ficção, da coincidência para a coerência.

Idem. Não pode haver acaso. Não pode haver imprevisibilidade. O acaso na história e a imprevisibilidade da política são os dois antídotos às ideologias autoritárias (e suas teorias da conspiração).

A principal desvantagem da propaganda totalitária é que não pode satisfazer esse anseio das massas por um mundo completamente coerente, compreensível e previsível sem entrar em sério conflito com o bom senso. Se, por exemplo, todas as “confissões” de inimigos políticos na União Soviética empregam os mesmos termos e admitem os mesmos motivos, as massas, sedentas de coerência, aceitam a ficção como prova suprema da veracidade dos fatos; no entanto, o bom senso nos diz que é exatamente essa coerência que é irreal, demonstrando que as confissões são falsas. De modo figurado, é como se as massas exigissem uma repetição constante do milagre da Septuaginta, quando — segundo a lenda aceita pelo judaísmo e cristianismo — setenta sábios alexandrinos, isolados entre si, apresentaram a mesma idêntica tradução grega do Velho Testamento. O bom senso só pode aceitar essa história como lenda, mas ela também pode ser tomada como prova da absoluta e divina fidelidade de cada palavra do texto traduzido.

Em outras palavras, embora seja verdade que as massas são obcecadas pelo desejo de fugirem da realidade porque, privadas de um lugar no mundo, já não podem suportar os aspectos acidentais e incompreensíveis dessa situação, também é verdade que a sua ânsia pela ficção tem algo a ver com aquelas faculdades do espírito humano cuja coerência estrutural transcende a mera ocorrência. Fugindo à realidade, as massas pronunciam um veredicto contra um mundo no qual são forçadas a viver e onde não podem existir, uma vez que o acaso é o senhor supremo deste mundo e os seres humanos necessitam transformar constantemente as condições do caos e do acidente num padrão humano de relativa coerência. A revolta das massas contra o “realismo”, o bom senso e todas “as plausibilidades do mundo” (Burke) resultou da sua atomização, da perda de seu status social, juntamente com todas as relações comunitárias em cuja estrutura o bom senso faz sentido. Em sua condição de deslocados espirituais e sociais, um conhecimento medido da interdependência entre o arbitrário e o planejado, entre o acidental e o necessário, já não produz efeito. A propaganda totalitária pode insultar o bom senso somente quando o bom senso perde a sua validade. Entre enfrentar a crescente decadência, com a sua anarquia e total arbitrariedade, e curvar-se ante a coerência mais rígida e fantasticamente fictícia de uma ideologia, as massas provavelmente escolherão este último caminho, dispostas a pagar por isso com sacrifícios individuais — não porque sejam estúpidas ou perversas, mas porque, no desastre geral, essa fuga lhes permite manter um mínimo de respeito próprio.

Enquanto a propaganda nazista especializava-se em tirar proveito do anseio das massas pela coerência, os métodos bolchevistas demonstraram claramente o seu impacto sobre o homem de massa isolado. A polícia secreta soviética, tão ávida de convencer suas vítimas a assumirem responsabilidade por crimes que nunca cometeram e que, em muitos casos, nem sequer estavam em posição de cometer, isola e elimina completamente todos os fatores reais, de sorte que a própria lógica, a própria congruência da “estória” contida na confissão forjada, se torna irrefutável. Diante de uma situação na qual a linha divisória entre a ficção e a realidade é apagada pela inerente coerência da acusação, é indispensável não apenas a firmeza de caráter para resistir a constantes ameaças, mas também uma grande dose de confiança na existência de semelhantes — parentes, amigos ou vizinhos — que nunca acreditarão na “estória”, para que se resista à tentação de ceder a uma abstrata possibilidade de culpa.

É verdade que esse extremo de loucura artificialmente forjada só pode ser atingido num mundo inteiramente totalitário. No entanto, já hoje faz parte do aparelho de propaganda dos regimes totalitários, onde as confissões não são indispensáveis para levarem à punição. As “confissões” são uma especialidade do regime bolchevista, como o curioso pedantismo da legalização de crimes por meio de leis retrospectivas e retroativas era especialidade do sistema nazista. Em ambos os casos, o objetivo é a coerência.

Antes de tomarem o poder e criarem um mundo à imagem da sua doutrina, os movimentos totalitários invocam esse falso mundo de coerências, que é mais adequado às necessidades da mente humana do que a própria realidade; nele, através de pura imaginação, as massas desarraigadas podem sentir-se à vontade e evitar os eternos golpes que a vida e as experiências verdadeiras infligem aos seres humanos e às suas expectativas. A força da propaganda totalitária — antes que os movimentos façam cair cortinas de ferro para evitar que alguém perturbe, com a mais leve realidade, a horripilante quietude de um mundo completamente imaginário — reside na sua capacidade de isolar as massas do mundo real. Os únicos sinais que o mundo real ainda oferece à compreensão das massas desintegradas e em desintegração — que se tornam mais crédulas a cada golpe de má sorte — são, por assim dizer, as suas lacunas, as perguntas que ele prefere não discutir em público, os boatos que não ousa contradizer porque ferem, embora de modo exagerado e distorcido, algum ponto fraco.

É desses pontos fracos que as mentiras da propaganda totalitária extraem o elemento de veracidade e experiência real de que necessitam para transpor o abismo entre a realidade e a ficção. Só o terror poderia confiar na mera ficção, mas mesmo as ficções sustentadas pelo terror dos regimes totalitários ainda não se tornaram completamente arbitrárias, embora sejam geralmente mais grosseiras, mais descaradas e mais originais que as ficções geradas pelos movimentos. (É preciso ter força, não talento propagandístico, para fazer circular uma história revisada da Revolução Russa na qual nenhum homem chamado Trótski jamais foi comandante em chefe do Exército Vermelho.) Já as mentiras dos movimentos são muito mais sutis. Atêm-se a todo aspecto da vida social e política que esteja oculto aos olhos do público. Conseguem maior sucesso onde as autoridades oficiais vivam numa atmosfera de segredo. Aos olhos da massa, adquirem então a reputação de “realismo” superior, porque se referem a supostas condições reais, cuja existência vinha sendo ocultada. A revelação de escândalos na alta sociedade, de corrupção de homens públicos, tudo o que interessa à imprensa marrom, se torna em suas mãos uma arma de importância mais que sensacional.

A mais eficaz ficção da propaganda nazista foi a história de uma conspiração mundial judaica. Concentrar-se em propaganda antissemita era expediente comum dos demagogos desde fins do século XIX, e muito difundido na Alemanha e na Áustria na década de 1920. Quanto mais constantemente os partidos e órgãos da opinião pública evitavam discutir a questão judaica, mais a ralé se convencia de que os judeus eram os verdadeiros representantes das autoridades constituídas, e de que a questão judaica era o símbolo da hipocrisia e da desonestidade de todo o sistema.

O verdadeiro conteúdo da propaganda antissemita do pós-guerra [depois de 1918] não era monopólio dos nazistas nem particularmente novo e original. Mentiras acerca de uma conspiração mundial judaica haviam sido veiculadas desde o Caso Dreyfus, e baseavam-se na inter-relação e interdependência do povo judaico disseminado por todo o mundo. Mais antigas ainda são as noções exageradas do poder mundial dos judeus; encontramo-las em fins do século XVIII, quando a estreita relação entre os comerciantes judeus e os Estados-nações se tornou visível. A apresentação de “o judeu” como a encarnação do mal é geralmente atribuída a vestígios e supersticiosas lembranças da Idade Média, mas na verdade tem íntima ligação com o papel mais recente e mais ambíguo que os judeus representaram na sociedade europeia depois da sua emancipação. Uma coisa era inegável: no período do pós-guerra, os judeus haviam se tornado mais proeminentes do que nunca.

Mas, no tocante aos próprios judeus, o fato é que haviam se tornado mais proeminentes e mais notórios na razão inversa da sua verdadeira influência e posição de poder. Cada perda de estabilidade e de força dos Estados-nações era um golpe direto contra a posição dos judeus. A conquista do Estado pela nação, parcialmente bem-sucedida, tornou impossível à máquina governamental manter a sua posição acima de todas as classes e partidos, e anulou o valor da aliança com o segmento judaico da população, o qual, ademais, era rechaçado da estrutura estatal, que se pretendia uniformemente nacional, e mantido fora dos escalões sociais; assim, permanecia indiferente à política dos partidos. À crescente preocupação da burguesia imperialista com a política externa e à sua crescente influência sobre a máquina estatal seguiu-se a firme recusa, por parte daquele setor judaico que realmente concentrava riquezas, de se engajar em indústrias e abandonar a tradição do comércio de capitais. A soma de todos esses fatores quase acabou com a utilidade econômica, para o Estado, dos judeus como um grupo e com a vantagem, para os judeus, da sua separação social. Depois da Primeira Guerra Mundial, as comunidades judaicas da Europa central foram assimiladas e incorporadas à nação, como ocorreu à comunidade judaica da França durante as primeiras décadas da Terceira República.

O grau de consciência dos Estados interessados dessa nova situação veio à luz quando, em 1917, o governo da Alemanha, seguindo uma antiga tradição, tentou usar os seus judeus para negociações experimentais de paz com os aliados. Em lugar de se dirigir aos líderes estabelecidos das comunidades judaicas alemãs, o governo apelou para a pequena e relativamente pouco influente minoria sionista, que ainda gozava da sua confiança porque insistia na existência de um povo judaico independente de cidadania, e da qual, portanto, se poderiam esperar serviços que dependessem de conexões internacionais. Isso, porém, como se verificou mais tarde, foi um erro do governo alemão. Os sionistas fizeram algo que nenhum dos banqueiros judeus havia feito antes: estabeleceram as suas próprias condições e disseram ao governo que só negociariam a paz sem anexações ou reparações (30). Já não existia a velha indiferença dos judeus pela política; a maioria dos judeus já não podia ser usada, pois não estava mais isolada da nação em cujo seio vivia, e a minoria sionista era inútil, porque tinha ideias políticas próprias.

A substituição dos governos monárquicos pela república na Europa central completou a desintegração das comunidades judaicas da região, do mesmo modo que a criação da Terceira República o havia feito na França cerca de cinquenta anos antes. Os judeus já haviam perdido grande parte da sua influência quando os novos governos se estabeleceram em condições nas quais não tinham poder para proteger os judeus nem interesse em fazê-lo. Por ocasião das negociações de paz em Versalhes, os judeus foram usados principalmente como peritos, e mesmo certos antissemitas admitiram que os pequenos escroques judeus da era do pós-guerra, dos quais muitos eram recém-chegados aos países em que agiam (e atrás de cujas atividades fraudulentas, que os distinguiam claramente dos seus correligionários nativos, havia uma atitude vagamente semelhante à antiga indiferença pelas normas do meio ambiente em que passavam a viver), não tinham quaisquer conexões com os representantes de uma suposta internacional judaica (31).

Em meio a um grande número de grupos antissemitas concorrentes e numa atmosfera carregada de antissemitismo, a propaganda nazista elaborou um método específico de tratar esse assunto, método diferente e superior a todos os outros. Não obstante, nenhum dos slogans nazistas era novo — nem mesmo a astuta imagem oferecida por Hitler de uma luta de classes provocada pelo comerciante judeu que explorava os trabalhadores, enquanto outro judeu, na fábrica, os incitava a entrarem em greve (32). O único elemento novo era que o nazismo exigia prova de ascendência não judaica aos candidatos a membros do Partido. Ademais, o nazismo sempre foi, não obstante o programa de Feder, extremamente vago quanto às verdadeiras medidas que tomaria contra os judeus quando galgasse o poder (33). Os nazistas deram à questão judaica a posição central na sua propaganda, no sentido de que o antissemitismo já não era uma questão de opinião acerca de um povo diferente da maioria, nem uma questão de política nacional (34), mas sim a preocupação íntima de todo indivíduo na sua existência pessoal; ninguém podia pertencer ao partido se a sua “árvore genealógica” não estivesse em ordem, e quanto mais alto o posto na hierarquia nazista, mais longe no passado se vasculhava essa árvore genealógica (35). Do mesmo modo, embora sem tanta coerência, o bolchevismo alterou a doutrina marxista da inevitável vitória final do proletariado, organizando os seus membros como “proletários de nascença” e tornando vergonhoso e escandaloso descender de qualquer outra classe (36).

A propaganda nazista foi suficientemente engenhosa para transformar o antissemitismo em princípio de autodefinição, libertando-o assim da inconstância de uma mera opinião. Usou a persuasão da demagogia de massa apenas como fase preparatória, e nunca superestimou sua duradoura influência, fosse em discursos ou por escrito (37). Isso deu às massas de indivíduos atomizados, indefiníveis, instáveis e fúteis um meio de se autodefinirem e identificarem, não somente restaurando a dignidade que antes lhes advinha da sua função na sociedade, como também criando uma espécie de falsa estabilidade que fazia deles melhores candidatos à participação ativa. Através desse tipo de propaganda, o movimento podia apresentar-se como extensão artificial das reuniões de massa, e racionalizar os fúteis sentimentos de empáfia e de histérica segurança que oferecia aos indivíduos isolados de uma sociedade atomizada (38).

Percebia-se a mesma engenhosa aplicação de slogans , criados por terceiros e já experimentados antes, no tratamento que os nazistas davam a outras questões importantes. Quando a atenção pública concentrou-se no nacionalismo, de um lado, e no socialismo, de outro, quando se julgava que os dois eram incompatíveis e constituíam a verdadeira linha divisória ideológica entre a Direita e a Esquerda, o “Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães” (nazista) ofereceu uma síntese que supostamente levaria à unidade nacional, uma solução semântica cuja dupla marca registrada — “alemão” e “trabalhador” — ligava o nacionalismo da Direita ao internacionalismo da Esquerda. O próprio nome do movimento nazista esvaziava politicamente todos os outros partidos, e pretendia implicitamente incorporá-los a todos. Misturas de doutrinas políticas supostamente antagônicas (nacional-socialista, social-cristã etc.) já haviam sido experimentadas antes com sucesso; mas os nazistas deram tal realidade prática à sua mistura que toda a luta parlamentar entre os socialistas e os nacionalistas, entre aqueles que pretendiam ser trabalhadores em primeiro lugar e aqueles que em primeiro lugar eram alemães, parecia uma farsa destinada a ocultar motivos ulteriores e sinistros — pois o membro do movimento nazista não era tudo isso e de uma só vez?

É interessante notar que, mesmo no seu começo, os nazistas sempre tiveram a prudência de não usar slogans que, como democracia, república, ditadura ou monarquia, indicassem uma forma específica de governo (39). É como se, pelo menos nesse assunto, sempre soubessem que iriam ser completamente originais. Toda discussão a respeito da verdadeira forma do seu futuro governo podia ser rejeitada como conversa-fiada a respeito de meras formalidades — pois o Estado, segundo Hitler, era apenas um “meio” para a preservação da raça, do mesmo modo como, segundo a propaganda bolchevista, o Estado é apenas um instrumento na luta de classes (40).

De outro modo curioso e indireto, porém, os nazistas deram uma resposta propagandística à pergunta sobre qual seria o seu futuro papel, e o fizeram pela maneira como usaram os “Protocolos dos sábios do Sião” como modelo para a futura organização das massas alemãs num “império mundial”. Não foram apenas os nazistas que usaram os Protocolos; centenas de milhares de cópias foram vendidas na Alemanha após a guerra de 1918, e a sua franca adoção como manual político sequer constituía novidade (41). A fraude, porém, era usada principalmente com a finalidade de denunciar os judeus e despertar a ralé para os perigos do domínio judaico (42). Em termos de mera propaganda, a descoberta dos nazistas foi que as massas não receavam tanto que os judeus dominassem o mundo, quanto estavam interessadas em saber como isso podia ser feito; que a popularidade dos Protocolos se baseava mais na admiração e na avidez de aprender, do que no ódio; e que seria boa ideia adotar algumas de suas principais fórmulas, como no caso do famoso slogan “O direito é aquilo que é bom para o povo alemão”, que foi copiado das palavras dos Protocolos: “tudo o que beneficia o povo judaico é moralmente correto e sagrado” (43).

Em muitos sentidos, os Protocolos são um documento curioso e digno de nota. À parte o seu maquiavelismo barato, sua característica política essencial é que, de modo um tanto doido, abordam todas as questões políticas importantes da época. São por princípio antinacionais e pintam o Estado-nação como um colosso de pés de barro. Rejeitam a soberania nacional e acreditam, como Hitler disse certa vez, num império mundial à base de uma nação (44). Não se satisfazem com a revolução num determinado país, mas visam à conquista e domínio do mundo. Prometem que, a despeito da inferioridade em número, território e poder estatal, o seu povo poderá conquistar o mundo através da mera organização. É certo que parte de sua força persuasiva se deve a superstições muito antigas. A noção da existência ininterrupta de uma seita internacional que luta pelos mesmos objetivos revolucionários desde a Antiguidade é muito velha (45) e desempenhou certo papel na literatura política clandestina desde a Revolução Francesa, embora não tivesse ocorrido a nenhum escritor do fim do século XVIII que a “seita revolucionária”, essa “nação peculiar […] em meio a todas as nações civilizadas”, pudesse ser o povo judeu (46).

O que mais atraía as massas nos Protocolos era o tema de uma conspiração global, que correspondia à nova situação de forças. (Logo no início da sua carreira, Hitler prometeu que o movimento nazista iria “transcender os estreitos limites do nacionalismo moderno” (47) e já durante a guerra houve tentativas dentro da SS de riscar a palavra “nação” do vocabulário nacional-socialista.) Só as potências mundiais pareciam ter ainda uma chance de sobrevivência independente e só a política global parecia poder conseguir resultados duradouros. É bastante compreensível que essa situação assustasse as nações menores que não eram potências mundiais. Os Protocolos pareciam apontar uma solução que não dependia de condições objetivas e inalteráveis, mas apenas do poder da organização.

A propaganda nazista, em outras palavras, descobriu no “judeu supranacional porque intensamente nacional” (48) o precursor do conquistador germânico do mundo, e assegurou às massas que “as nações que primeiro conhecerem o judeu pelo que é, e forem as primeiras a combatê-lo, tomarão o seu lugar no domínio mundial” (49). A ilusão de um domínio mundial judeu já existente constituiu a base da ilusão do futuro domínio mundial alemão. Isso era o que Himmler tinha em mente quando disse que “devemos a arte de governar aos judeus”, ou seja, aos Protocolos que “o Führer sabia de cor” (50). Assim, os Protocolos apresentavam a conquista mundial como uma possibilidade prática, insinuavam que tudo era apenas uma questão de know-how inspirado ou astuto, e que o único obstáculo à vitória alemã sobre o mundo inteiro era um povo sabidamente pequeno, os judeus, que dominava sem possuir instrumentos de violência — um adversário fácil, portanto, uma vez que se desvendasse o seu segredo e se emulasse o seu método em maior escala.

A propaganda nazista concentrou toda essa nova e promissora visão num só conceito, que chamou de Volksgemeinschaft. Essa nova comunidade, tentativamente concretizada no movimento nazista na atmosfera pré-totalitária, baseava-se na absoluta igualdade de todos os alemães, igualdade não de direitos, mas de natureza, e na suprema diferença que os distinguia de todos os outros povos (51). Depois que os nazistas chegaram ao poder, esse conceito gradualmente perdeu a sua importância e cedeu lugar, por um lado, a um desprezo geral pelo povo alemão (desprezo que os nazistas sempre haviam nutrido, mas que não podiam demonstrar até então em público) (52) e, por outro lado, a um grande desejo de aumentarem os próprios escalões com “arianos” de outros países, ideia que não tivera muita importância na fase da propaganda nazista anterior à tomada do poder (53). A Volksgemeinschaft era apenas a preparação propagandística para uma sociedade racial “ariana” que, no fim, teria destruído todos os povos, inclusive os alemães.

Até certo ponto, a Volksgemeinschaft era a tentativa nazista de combater a promessa comunista de uma sociedade sem classes. A vantagem propagandística da primeira sobre a segunda parece clara, se desprezarmos todas as implicações ideológicas. Embora ambas prometessem acabar com todas as diferenças sociais e de propriedade, a sociedade sem classes tinha a conotação óbvia de que todos desceriam ao nível de um empregado de fábrica, enquanto a Volksgemeinschaft, com a sua conotação de conspiração para a conquista mundial, oferecia uma razoável esperança de que todo alemão poderia vir a ser um dono de fábrica. Mas a vantagem ainda maior da Volksgemeinschaft era que a sua criação não precisava esperar por alguma data futura e não dependia de condições objetivas: podia ser realizada imediatamente no mundo fictício do movimento.

O verdadeiro objetivo da propaganda totalitária não é a persuasão mas a organização — o “acúmulo da força sem a posse dos meios de violência” (54). Para esse fim, a originalidade do conteúdo ideológico só pode ser considerada como dificuldade desnecessária. Não foi por acaso que os dois movimentos totalitários do nosso tempo, tão assustadoramente “novos” em seus métodos de domínio e engenhosos em suas formas de organização, nunca prepararam uma doutrina nova, nunca inventaram uma ideologia que já não fosse popular (55). Não são os sucessos passageiros da demagogia que conquistam as massas, mas a realidade palpável e a força de uma “organização viva” (56). Os brilhantes dons de Hitler como orador de massa não lhe conquistaram a posição que ocupava no movimento, mas levaram os seus oponentes a subestimá-lo como simples demagogo, enquanto Stálin pôde derrotar o outro orador superior da Revolução Russa (57). O que distingue os líderes e ditadores totalitários é a obstinada e simplória determinação com que, entre as ideologias existentes, escolhem os elementos que mais se prestam como fundamentos para a criação de um mundo inteiramente fictício. A ficção dos Protocolos era tão adequada quanto a ficção de uma conspiração trotskista, pois ambas continham um elemento de plausibilidade — a influência oculta dos judeus no passado, a luta pelo poder entre Trótski e Stálin — que nem mesmo o mundo fictício do totalitarismo pode de todo dispensar. Sua arte consiste em usar e, ao mesmo tempo, transcender o que há de real, de experiência demonstrável na ficção escolhida, generalizando tudo num artifício que passa a estar definitivamente fora de qualquer controle possível por parte do indivíduo. Com tais generalizações, a propaganda totalitária cria um mundo fictício capaz de competir com o mundo real, cuja principal desvantagem é não ser lógico, coerente e organizado. A coerência da ficção e o rigor organizacional permitem que a generalização sobreviva ao desmascaramento de certas mentiras mais específicas — o poder dos judeus após o seu massacre sem defesa, a sinistra conspiração global dos trotskistas após a sua liquidação na União Soviética e o assassínio do próprio Trótski.

A obstinação com que os ditadores totalitários se aferram às suas mentiras originais, mesmo diante do absurdo, deve-se a algo mais que a supersticiosa gratidão àquilo que “funcionou” e, pelo menos no caso de Stálin, não pode ser explicada pela psicologia do mentiroso, cujo sucesso faz dele próprio a sua última vítima. Uma vez integrados numa “organização viva”, esses slogans de propaganda não podem ser eliminados sem riscos, sem destruir toda a estrutura. A propaganda totalitária transformou a suposição de uma conspiração mundial judaica de assunto discutível que era, em principal elemento da realidade nazista; o fato é que os nazistas agiam como se o mundo fosse dominado pelos judeus e precisasse de uma contraconspiração para se defender. Para eles, o racismo já não era uma teoria debatível, de duvidoso valor científico, mas sim a realidade prática de cada dia na hierarquia operante de uma organização política em cuja estrutura teria sido muito “irrealista” pô-lo em dúvida. Do mesmo modo, o bolchevismo já não precisa vencer uma discussão a respeito da luta de classes, do internacionalismo e da dependência incondicional do proletariado em relação ao bem-estar da União Soviética; a organização ativa do Comintern — até a sua dissolução nessa forma oficial — foi mais convincente do que qualquer argumento ou mera ideologia.

O motivo fundamental da superioridade da propaganda totalitária em comparação com a propaganda de outros partidos e movimentos é que o seu conteúdo, pelo menos para os membros do movimento, não é mais uma questão objetiva a respeito da qual as pessoas possam ter opiniões, mas tornou-se parte tão real e intocável de sua vida como as regras da aritmética. A organização de toda a textura da vida segundo uma ideologia só pode realizar-se completamente sob um regime totalitário. Na Alemanha nazista, duvidar da validade do racismo e do antissemitismo, quando nada importava senão a origem racial, quando uma carreira dependia de uma fisionomia “ariana” (Himmler costumava selecionar os candidatos à SS por fotografias) e a quantidade de comida que cabia a uma pessoa dependia do número dos seus avós judeus, era como colocar em dúvida a própria existência do mundo.

As vantagens de uma propaganda que constantemente empresta à voz fraca e falível do argumento a “força da organização” (58) e dessa forma realiza, por assim dizer, instantaneamente tudo o que diz, são tão óbvias que dispensam demonstração. Garantida contra argumentos baseados numa realidade que os movimentos prometeram mudar, contra uma propaganda adversária desqualificada pelo simples fato de pertencer ou defender um mundo que as massas ociosas não podem e não querem aceitar, sua inverdade só pode ser demonstrada por outra realidade mais forte ou melhor.

É no momento da derrota que a fraqueza inerente da propaganda totalitária se torna visível. Sem a força do movimento, seus membros cessam imediatamente de acreditar no dogma pelo qual ainda ontem estavam dispostos a sacrificar a vida. Logo que o movimento, isto é, o mundo fictício que as abrigou, é destruído, as massas revertem ao seu antigo status de indivíduos isolados que aceitam de bom grado uma nova função num mundo novo ou mergulham novamente em sua antiga e desesperada superfluidade. Os membros dos movimentos totalitários, inteiramente fanáticos, enquanto o movimento existe, não seguem o exemplo dos fanáticos religiosos morrendo como mártires, embora estivessem antes tão dispostos a morrer como robôs (59), mas abandonam calmamente o movimento como algo que não deu certo e procuram em torno de si outra ficção promissora, ou esperam até que a velha ficção recupere força suficiente para criar novo movimento de massa.

A experiência dos aliados, que em vão tentaram localizar um único nazista confesso e convicto entre o povo alemão, 90% do qual fora sincero simpatizante num ou noutro momento, não deve ser tomada simplesmente como sinal de fraqueza humana e grosseiro oportunismo. O nazismo, como ideologia, havia sido “realizado” de modo tão completo que o seu conteúdo deixara de existir como um conjunto independente de doutrinas. Perdera, assim, a sua existência intelectual; a destruição da realidade, portanto, quase nada deixou em seu rastro, muito menos o fanatismo dos adeptos.

APRENDENDO DEMOCRACIA PELO AVESSO

Há traços de totalitarismo em qualquer movimento autoritário. Mesmo quando movimentos totalitários não conseguem se organizar. Mesmo quando governos totalitários não conseguem se instalar. Estudar os totalitarismos nazista e stalinista é fundamental para identificar a presença desses traços nas alternativas antidemocráticas atuais.

Entramos aqui na exploração do reconhecimento de padrões. Há muitos isomorfismos, por exemplo, entre nazismo e stalinismo e trumpismo e bolsonarismo.

Mencionemos, a título de exemplos, alguns deles:

Matar a rede ou exterminar o capital social. Destruir todas as conexões sociais.

Abolir a esfera pública, atomizando-a e substituindo-a por miríades de esferas privadas opacas não interagentes horizontalmente entre si.

Reprimir não apenas as opiniões divergentes, mas fazer sumir o próprio conceito de opinião.

Erradicar a ação gratuita. Como dizia Himmler, ninguém deverá “fazer alguma coisa apenas por amor a essa coisa”.

Banir a política do mundo. Sim, Arendt (1951) tinha razão. “Um objetivo político que constitua a finalidade do movimento totalitário simplesmente não existe”.

Buscar que as pessoas não apenas ajam sob comando, mas pensem sob comando. Como dizia Hitler, o pensamento só existe “em virtude da formulação ou execução de uma ordem”.

Quebrar os seres humanos para substituir a humanidade por uma espécie de colmeia borg.

Só um movimento totalitário que consiga se materializar como governo totalitário – como o de Hitler ou o de Stalin – poderá obter, ainda que temporariamente, tais resultados. Mas isso não significa que movimentos e governos autoritários mais brandos não contenham alguns (ou muitos) desses traços.

Reconhecer esses padrões e perceber isomorfismos quando eles se manifestam em circunstâncias distintas é fundamental para a aprendizagem democrática. Afinal, a democracia – na medida em que é um processo de desconstituição de autocracia – só se aprende pelo avesso.

Notas

1. Ver, por exemplo, E. Kohn-Bramstedt: em Dictatorship and political police: the technique of control by fear, Londres, 1945, pp. 164 ss, afirma que “o terror sem a propaganda perderia muito do seu efeito psicológico, enquanto a propaganda sem o terror cresce de impacto” (p. 175). O que não é considerado nessa e em outras declarações, que na sua maioria andam em círculos, é o fato de que não apenas a propaganda política mas toda a moderna publicidade de massa contêm um elemento de ameaça; que o terror, por outro lado, pode ser totalmente efetivo sem a propaganda, desde que se trate apenas do terror político convencional da tirania. Somente quando o terror objetiva coagir não apenas de fora mas, como foi o caso, de dentro, quando o regime político quer mais do que poder, somente então o terror precisa da propaganda. Nesse sentido, o teórico nazista, Eugen Hadamovsky, pôde dizer em Propaganda und nationale Macht [Propaganda e poder nacional], 1933: “A propaganda e a violência nunca são contraditórias. O uso da violência pode ser parte da propaganda” (p. 22).

2. “Quando se anunciou oficialmente que o desemprego havia sido eliminado na Rússia soviética, foram realmente eliminados como resultado desse sintoma todos os benefícios para os desempregados”. (Anton Ciliga, The Russian enigma, Londres, 1940, p. 109.)

3. A chamada “Operação Feno” começou com um decreto datado de 16 de fevereiro de 1942, assinado por Himmler, “referente [a indivíduos] de raça germânica na Polônia”. Segundo o decreto, as crianças de características “arianas” deveriam ser enviadas a famílias alemãs “dispostas [a aceitá-las] sem reserva, por amor ao bom sangue que elas têm” (Documento de Nurembergue R 135). Parece que, em junho de 1944, o Nono Exército sequestrou aproximadamente 40 mil a 50 mil crianças, transportando-as para a Alemanha. Um relatório sobre o assunto, remetido ao Estado-Maior Geral da Wehrmacht em Berlim por um funcionário chamado Brandenburg, menciona planos semelhantes para a Ucrânia (Documento PS 031, publicado por Léon Poliakov em Bréviaire de la haine, p. 317). O próprio Himmler fez várias referências a esse plano. (Ver Nazi conspiracy and aggression, Office of the United States Chief of Counsel for the Prosecution of Axis Criminality, U. S. Government, Washington, 1946, III, 640, que contém excertos do discurso de Himmler proferido em Cracóvia em março de 1942; ver também os comentários sobre o discurso de Himmler em Bad Schachen, de 1943, em Kohn-Bramstedt, op. cit., p. 244.) O modo de selecionar essas crianças pode ser deduzido pelos certificados médicos emitidos pela Seção Médica II em Minsk, na Bielo- Rússia, em fi0 de agosto de 1942: “O exame racial de Natalie Harpf, nascida a 4 de agosto de 1922, mostrou uma jovem normalmente desenvolvida, de tipo predominantemente báltico-oriental com traços nórdicos” — “Exame de Arnold Coenies, nascido a 19 de fevereiro de 1930, mostrou um garoto normalmente desenvolvido, de doze anos de idade, de tipo predominantemente oriental com traços nórdicos”. Assinado: N. Wc. (Documento nos arquivos do Yiddish Scientifíc Institute, Nova York, no Occ E 3a-17.) Quanto ao extermínio da intelectualidade polonesa, que, na opinião de Hitler, podia ser “liquidada sem escrúpulos”, ver Poliakov, op. cit., p. 321, e Documento no 2471.

4. Ver Hitlers Tischgespräche. No verão de 1942, ele ainda fala de expulsar “até o último judeu para fora da Europa” (p. 113), e de reinstalá-los na Sibéria ou na África (p. 311) ou em Madagascar, quando, na realidade, muito antes de invadir a Rússia, provavelmente em 1940, já havia tomado a decisão quanto à “solução final” e havia mandado construir as câmaras de gás no outono de 1941 (ver Nazi conspiracy and aggression, II, pp. 265 ss; III, pp. 783 ss. Documento PS 1104; V, pp. 322 ss. Documento PS 2605). Na primavera de 1941, Himmler já sabia que “os judeus [devem ser] exterminados [pois] este é o desejo e ordem inequívoca do Führer” (Dossiê Kersten no Centre de Documentation Juive).

5. A esse respeito, há um relatório muito interessante, datado de 16 de julho de 1940, sobre uma discussão no quartel-general do Führer na presença de Rosenberg, Lammers e Keitel, a que Hitler deu início declarando os seguintes “princípios básicos”: “Era essencial então não exibir nosso objetivo ulterior aos olhos de todo o mundo; […] Portanto, não deve ficar óbvio que os decretos que mantenham ordem nos territórios ocupados levem à solução final [dos judeus]. Todas as medidas necessárias — execuções, transferências de população etc. — podem ser e serão executadas apesar da letra dos decretos”. Segue-se uma discussão que não faz qualquer referência às palavras de Hitler e da qual Hitler já não participa. É óbvio que ele não foi “compreendido” (Documento L 221 no Centre de Documentation Juive, Paris).

6. Quanto à convicção de Stálin de que Hitler não atacaria a Rússia, ver Isaac Deutscher, Stalin: a political biography, Nova York, Londres, 1949, pp. 454 ss, e especialmente a nota ao pé da página 458: “Foi somente em 1948 que o chefe da Comissão de Planejamento do Estado, o vice-premiê N. Voznessensky, revelou que os planos econômicos para o terceiro trimestre de 1941 haviam sido baseados na premissa de que haveria paz, sendo que um novo plano, adequado à guerra, só havia sido elaborado após o início das hostilidades”. A suposição de Deutscher foi confirmada por relato de Khrushchev quanto à reação de Stálin ao ataque alemão contra a União Soviética. (Ver o seu “Discurso sobre Stálin” no Vigésimo Congresso, transcrito pelo New York Times, 5 de junho de 1956.)

7. “A educação [nos campos de concentração] consiste em disciplina e nunca em instrução baseada na ideologia, uma vez que os prisioneiros em sua maioria têm almas de escravos” (Heinrich Himmler, Nazi conspiracy, IV, pp. 616 ss).

8. Eugen Hadamovsky, op. cit., é um dos mais importantes autores na literatura sobre propaganda totalitária. Sem o dizer explicitamente, Hadamovsky oferece uma inteligente e reveladora interpretação pró-nazista da exposição do próprio Hitler sobre o assunto em “Propaganda e organização”, no livro II, capítulo xi, de Mein Kampf (2 vols., 1a edição alemã, 1925 e 1927 respectivamente). Ver também F. A. Six, Die politische Propaganda der NSDAP im Kampf um die Macht [A propaganda política do NSDAP na luta pelo poder], 1936, pp. 21 ss.

9. A análise de Hitler da “Propaganda de guerra” (Mein Kampf, livro I, cap. vi) acentua o lado comercial da propaganda e usa exatamente o exemplo da publicidade de sabonetes. Sua importância tem sido geralmente superestimada, enquanto suas positivas ideias posteriores sobre “Propaganda e organização” foram negligenciadas.

10. Ver o importante memorando de Martin Borman sobre “A relação entre o nacional-socialismo e o cristianismo” em Nazi conspiracy, VI, pp. 1036 ss. Formulações semelhantes se repetem com frequência na literatura panAetária publicada pela SS para a “doutrinação ideológica” de seus cadetes. “As leis da natureza estão sujeitas a uma vontade imutável que não pode ser inAuenciada. Daí ser necessário reconhecer essas leis” (“SS-Mann und Blutsfrage” [O SS e a questão do sangue], em Schriftenreihe für die weltanschauliche Schulung der Ordnungspolizei [Escritos para a instrução ideológica da polícia], 1942). Todas elas são meras variações de certas frases extraídas de Mein Kampf, de Hitler, das quais esta é citada como lema para o panfleto que acabamos de mencionar: “Quando o homem tenta lutar contra a lógica de ferro da natureza, entra em conAito com os princípios básicos aos quais deve a sua própria existência como homem”.

11. J. Stálin, Leninism (1933), vol. II, capítulo III.

12. Eric Voegelin, “The origins of scientism”, em Social Research, dezembro de 1948.

13. Ver F. A. v. Hayek, “The counter-revolution of Science”, em Economica, vol. VIII (fevereiro, maio, agosto de 1941), p. 13.

14. Ibid., p. 137. A citação é da revista saint-simonista Producteur, I, p. 399.

15. Voegelin, op. cit.

16. William Ebenstein, The Nazi State, Nova York, 1943, quando discute a permanente economia de guerra do Estado nazista é praticamente o único crítico a compreender que “a interminável discussão […] quanto à natureza socialista ou capitalista da economia alemã sob o regime nazista é em grande parte artificial, […] [porque] tende a esquecer o fato vital de que tanto o capitalismo quanto o socialismo são categorias pertinentes à economia de bem- estar ocidental” (p. 239).

17. Nesse contexto, é característico o testemunho de Karl Brandt, um dos médicos encarregados por Hitler de executar o programa de eutanásia (Medical trial. US against Karl Brandt et al. Hearing of May 14, 1947 ). Brandt protestou violentamente contra a suspeita de que o projeto havia sido iniciado com a finalidade de eliminar consumidores supérfluos de alimentos; acentuou que os membros do partido que haviam mencionado tais argumentos na discussão tinham sido severamente repreendidos. Em sua opinião, as medidas haviam sido ditadas unicamente por “considerações éticas”. Naturalmente, o mesmo se aplica às deportações. Os arquivos estão cheios de memorandos desesperados dos militares, queixando-se de que as deportações de milhões de judeus poloneses constituíam um completo descaso às “necessidades econômicas e militares”. Ver Poliakov, op. cit., p. 321, bem como os documentos ali publicados.

18. O decreto decisivo que originou todos os assassínios em massa subsequentes foi assinado por Hitler a fio de setembro de 1939 — no dia em que foi declarada a guerra à Polônia — e se refere não aos loucos apenas (como se supõe erradamente muitas vezes) mas a todos os que eram “doentes incuráveis”. Os loucos foram apenas os primeiros a morrer.

19. Ver Friedrich Percyval Reck-Malleczewen, Tagebuch eines Verzweifelten [Diário de um desesperado], Sttutgart, 1947, p. 190.

20. Hitler baseava a superioridade dos movimentos ideológicos em relação aos partidos políticos no fato de que as ideologias (Weltanschauungen) sempre “proclamam sua infalibilidade” (Mein Kampf, livro II, capítulo v, “Weltanschauung e organização”). As primeiras páginas do manual oficial da Juventude Hitlerista ( The Nazi primer, Nova York, 1938) acentuam consequentemente que todas as questões de Weltanschauung, antes consideradas “irrealistas” e “incompreensíveis”, “se tornaram tão claras, simples e definidas [o grifo é meu] que qualquer um dos nossos camaradas pode entendê-las e cooperar na sua solução”.

21. O primeiro dos “juramentos do membro do Partido”, enumerados pelo Organisationsbuch der NSDAP, diz: “O Führer sempre tem razão”. Edição publicada em 1936, p. 8. Mas o Dienstvorschrift für die P. D. der NSDAP, 1932, p. 38, assim se exprime: “A decisão de Hitler é final!”. Note-se a grande diferença de fraseologia. “A pretensão de serem infalíveis, [o fato de que] nenhum deles jamais sinceramente admitiu um erro”, eis a diferença decisiva entre Stálin e Trótski, de um lado e Lênin, de outro. Ver Boris Souvarine, Stalin: a critical survey of Bolshevism, Nova York, 1939, p. 583.

22. É óbvio que a dialética hegeliana constitui maravilhoso instrumento para que sempre se tenha razão, uma vez que permite a interpretação de todas as derrotas como o começo da vitória. Um dos mais belos exemplos desse tipo de sofisma ocorreu após 1933, quando os comunistas alemães, durante quase dois anos, recusaram-se a reconhecer que a vitória de Hitler havia sido uma derrota para o Partido Comunista Alemão.

23. Ver Goebbels: The Goebbels diaries (1942-1943), editados por Louis Lochner, Nova York, 1948, p. 148.

24. Stálin, op. cit., loc. cit.

25. Num discurso que pronunciou em setembro de 1942, quando o extermínio dos judeus estava em pleno andamento, Hitler referiu-se explicitamente ao seu discurso de 30 de janeiro de 1939 (publicado como folheto com o título Der Führer vor dem ersten Reichstag Grossdeutchlands [O Führer diante do primeiro Parlamento da Grande Alemanha], 1939) e à sessão do Reichstag de fio de setembro de 1939, quando anunciou que, “se o povo judeu instigasse o mundo internacional a exterminar os povos arianos da Europa, não os povos arianos, mas os judeus seriam [resto da frase abafado pelos aplausos]” (ver Der Führer zum Kriegswinterhilfswerd, Schriften NSV, no 14, p. 33).

26. No discurso de 30 de janeiro de 1939, cf. citado acima.

27. Konrad Heiden, De Fuehrer: Hitler’s rise to power, acentua a “fenomenal deslealdade” de Hitler, “a falta de realidade demonstrável em quase todos os seus pronunciamentos”, a sua “indiferença pelos fatos, que ele não considerava vitalmente importantes” (pp. 368, 374). Em termos quase idênticos, Khrushchev descreve “a relutância de Stálin em levar em conta as realidades da vida” e a sua indiferença “quanto ao verdadeiro estado das coisas”, op. cit. O melhor exemplo da opinião de Stálin quanto à importância dos fatos são as revisões a que ele periodicamente submetia a história da Rússia.

28. Do Manual da Juventude Hitlerista (Hitlerjugend).

29. É interessante notar que os bolchevistas, durante a era de Stálin, de certa forma acumularam conspirações, e que a descoberta de uma nova trama não significava que abandonassem a anterior. A conspiração trotskista começou por volta de 1930; a das trezentas famílias foi acrescentada no período da Frente Popular na França, a partir de 1935; o imperialismo britânico foi apotando como verdadeira conspiração durante a aliança Stálin-Hitler; o “Serviço Secreto Americano” seguiu-lhe pouco depois do fim da guerra.

30. Ver a autobiografia de Chaim Weizmann, Trial and error, Nova York, 1949, p. 185.

31. Ver, por exemplo, Otto Bonhard, Jüdische Geld Weltherrschaft? [Domínio financeiro e mundial judaico?], 1926, p. 57.

32. Hitler usou essa imagem pela primeira vez em 1922: “Moisés Kohn, por um lado, incita a sua companhia a recusar as exigências dos trabalhadores, enquanto o seu irmão Isaac na fábrica convida as massas […] a entrarem em greve”. (Hitler’s speeches: 1922-1939, editado por Baynes, Londres, 1942, p. 29). É digno de nota que nenhuma coleção completa dos discursos de Hitler jamais foi publicada na Alemanha nazista, de modo que é necessário recorrer à edição inglesa. Não se trata de mero acaso, como se pode ver da bibliografia compilada por Philipp Bouhler, Die Reden des Führers nach der Machtübernahme [Os discursos do Führer após a tomada do poder], 1940: somente os discursos públicos eram impressos verbatim no Völkischer Beobachter; os outros discursos para o Fuehrerkorps e outras unidades do partido eram meramente “mencionados” naquele jornal. Não se destinavam de modo algum à publicação.

33. Os 25 pontos de Feder continham apenas medidas habituais exigidas por todos os grupos antissemitas: expulsão do país dos judeus naturalizados e tratamento dos judeus nativos como estrangeiros. A oratória antissemita nazista era sempre muito mais radical do que o seu programa. Waldemar Gurian, “Antisemitism in modern Germany”, em Essays on antisemitism, editado por Koppel S. Pinson, Nova York, 1946, p. 243, acentua a falta de originalidade do antissemitismo nazista: “Nenhuma dessas exigências e opiniões era notável por sua originalidade — eram evidentes em todos os círculos nacionalistas —; o que era notável era a habilidade demagógica e oratória com que eram apresentadas”.

34. Um exemplo típico de mero antissemitismo nacionalista dentro do próprio partido nazista é Röhm, que escreve: “E mais uma vez neste ponto a minha opinião difere da do filisteu nacional. Não digo: o Judeu é culpado de tudo! Nós é que temos a culpa do fato de o judeu poder dominar hoje em dia” (Ernst Röhm, Die Geschichte eines Hochverräters, 1933, Volksausgabe, p. 284).

35. Os candidatos à SS tinham de vasculhar seus antepassados até o ano de 1750. Os que se candidatavam a posições de liderança partidária tinham de responder a apenas três perguntas: 1. O que é que você fez pelo Partido? 2. Você é absolutamente são, física, mental e moralmente? 3. Sua árvore genealógica está em ordem? Ver Nazi primer. Típico da afinidade entre os dois sistemas é o fato de que a elite e as formações policiais dos bolchevistas — a NKVD — também exigiam prova da genealogia dos seus membros. Ver F. Beck e W. Godin, Russian purge and the extraction of confessions, 1951.

36. As tendências totalitárias do macarthismo nos Estados Unidos também vieram à tona claramente na tentativa de não apenas perseguir os comunistas, mas de forçar todo cidadão a provar que não era comunista.

37. “Não se deve exagerar a influência da imprensa […], ela geralmente diminui à medida que cresce a influência da organização” (Hadamovsky, op. cit., p. 64). Os “jornais são inúteis quando procuram lutar contra a força agressiva de uma organização viva” (ibid., p. 65). “As formações de poder que têm sua origem na mera propaganda são instáveis e podem desaparecer rapidamente a não ser que a violência de uma organização apoie a propaganda” (ibid., p. 21).

38. “As reuniões de massa são a forma mais poderosa de propaganda […] [porque] cada indivíduo se sente mais confiante e mais forte na unidade da massa” (ibid., p. 47). “O entusiasmo do momento torna-se um princípio e uma atitude espiritual através da organização e do treinamento e disciplina sistemáticos” (ibid., pp. 21-2).

39. Nas poucas vezes em que Hitler se preocupou com essa questão, costumava acentuar: “Aliás, não sou chefe de um Estado como o é um ditador ou monarca, mas sou o líder do povo alemão” (ver Ausgewählte Reden des Führers [Discursos escolhidos do Führer], 1939, p. 114). Hans Frank expressa-se no mesmo tom: “O Reich Nacional- Socialista não é um regime ditatorial, e muito menos arbitrário. Baseia-se na lealdade mútua do Führer e do povo” (em Recht und Verwaltung) [Direito e administração], Munique, 1939, p. 15).

40. Hitler repetiu muitas vezes: “O Estado é apenas um meio para um fim. O fim é: conservação da raça” ( Reden, 1939, p. 125). Acentuou ainda que o seu movimento “não se baseia na ideia do Estado, mas principalmente na Volksgemeinschaft fechada” (ver Reden, 1933, p. 125, e o discurso à nova geração de líderes políticos [ Führemachwuchs], 1937, que é publicado como adendo em Hitlers Tischgespräche , p. 446). Mutatis mutandi, é esse também o cerne da complicada algaravia que é a “teoria estatal” de Stálin: “Somos a favor da morte do Estado, e ao mesmo tempo defendemos o fortalecimento da ditadura do proletariado, que representa a mais forte e poderosa autoridade entre todas as formas de Estado que já existiram até hoje. O desenvolvimento maior possível do poder do Estado com o fim de preparar as condições para a morte do Estado: eis a fórmula marxista” (op. cit., loc. cit.)

41. Alexander Stein, em Adolf Hitler, Schüler der “Weisen von Zion ” [A. H., aluno dos “sábios do Sião”], Karlsbad, 1936, foi o primeiro a analisar, por comparação filológica, a identidade ideológica entre os ensinamentos dos nazistas e os dos “sábios do Sião”. Ver também R. M. Blank, Adolf Hitler et les “Protocoles des sages de Sion”, Paris, 1938. O primeiro a admitir a sua dívida para com os ensinamentos dos Protocolos foi Theodor Fritsch, o “patriarca” do antissemitismo alemão do pós-guerra. Diz ele no epílogo da sua edição dos Protocolos, 1924: “Nossos futuros estadistas e diplomatas terão de aprender com os mestres orientais da velhacaria até mesmo o ABC do governo e, para esse fim, os ‘Protocolos do Sião’ são um excelente curso preparatório”.

42. Quanto à história dos Protocolos, ver John S. Curtiss, An appraisal of the Protocols of Zion, 1942. O fato de que os Protocolos eram forjados não importava para fins de propaganda. O publicista russo S. A. Nilus, que publicou a edição russa em 1905, conhecia muito bem o caráter duvidoso desse “documento” e acrescentou o óbvio: “Mas, se fosse possível demonstrar a sua autenticidade por meio de documentos ou do depoimento fidedigno de testemunhas, se fosse possível revelar quem são as pessoas à frente dessa trama mundial […] então […] ‘a secreta iniquidade’ poderia ser desfeita. […]”. Tradução de Curtiss, op. cit.
Hitler não precisou de Nilus para usar o mesmo truque: a melhor prova de sua autenticidade é o fato de ter se provado que se trata de uma falsificação. E acrescentou ainda o argumento da sua “plausibilidade”: “O que muitos judeus podem fazer inconscientemente é conscientemente exposto aqui com clareza. E isto é o que importa” (Mein Kampf, livro I, capítulo XI).

43. Fritsch, op. cit.: [Der Juden] oberster Grundsatz laute: ‘‘Alles was dem Volke Juda nützt, ist moralisch und ist heilig”.

44. “Os impérios mundiais têm origem numa base nacional, mas logo se expandem muito além dela” (Reden).

45. Henri Rollin, L’Appocalypse de notre temps, Paris, 1939, em cuja opinião a popularidade dos Protocolos só perde para a Bíblia (p. 40), mostra a semelhança entre eles e os Monita secreta, publicados pela primeira vez em 1612 e ainda vendidos em 1939 nas ruas de Paris, que pretendem denunciar uma conspiração jesuíta “que justifica todas as vilezas e todos os usos da violência. […] Trata-se de verdadeira campanha contra a ordem estabelecida” (p. 32).

46. Um significativo representante de toda essa literatura é Chevalier de Malet, Recherches politiques et historiques qui prouvent l’existence d’une secte révolutionnaire, 1817, com extensas citações de autores anteriores. Para ele, os heróis da Revolução Francesa são mannequins de uma agence secrète, agentes da franco-maçonaria. Mas a franco-maçonaria é apenas o nome que os seus contemporâneos deram a uma “seita revolucionária” que existiu em todas as épocas, e cujo método sempre consistiu em atacar “permanecendo atrás das cortinas, manipulando os cordões das marionetes que lhe convinha colocar em cena”. Começa dizendo: “Provavelmente será difícil acreditar num plano que foi concebido na Antiguidade e se manteve com a mesma constância; […] os autores da Revolução não são mais franceses do que alemães, italianos, ingleses etc. Constituem uma nação peculiar que nasceu e cresceu às ocultas, em meio a todas as nações civilizadas, com o objetivo de submetê-las ao seu domínio”. Para uma ampla discussão dessa literatura, ver E. Lesueur, La Franc-Maçonnerie Artésiénne au 18e siècle, Bibliothèque d’Histoire Révolutionnaire, 1914. Verifica-se como são persistentes essas lendas de conspiração, mesmo em circunstâncias normais, pela enorme quantidade de livros malucos antimaçons na França, tão numerosos quanto os seus equivalentes antissemitas. Uma espécie de compêndio de todas as teorias que viam na Revolução Francesa o produto de sociedades conspirativas secretas pode ser encontrado em G. Bord, La Franc-Maçonnerie en France dès origines à 1815, 1908.

47. Reden. Ver a transcrição de uma sessão do Comitê da SS para Questões Trabalhistas, no quartel-general da SS em Berlim, no dia 12 de janeiro de 1943, onde se sugeriu que a palavra “nação”, conceito carregado de conotações liberais, devia ser eliminada por ser inadequada aos povos germânicos (Documento 705 — PS em Nazi conspiracy and aggression, V, 515).

48. Hitler’s speeches, editado por Baynes, p. 6.

49. Goebbels, op. cit., p. 377. Essa promessa, implícita em toda propaganda antissemita do tipo nazista, já se anunciava nas palavras de Hitler. “O maior contraste do ariano é o judeu” (Mein Kampf, livro I, capítulo XI).

50. Dossiê Kersten, no Centre de Documentation Juive, Paris.

51. A antiga promessa de Hitler (Reden) — “Nunca reconhecerei que as outras nações têm o mesmo direito que a nação alemã” — tornou-se doutrina oficial: “O fundamento do modo nacional-socialista de encarar a vida é a percepção da dessemelhança entre os homens” (Nazi primer, p. 5).

52. Por exemplo, Hitler disse em 1923: “O povo alemão consiste em um terço de heróis, outro terço de covardes, e outros são traidores” (Hitlers speeches, editado por Baynes, p. 76). Após a tomada do poder, essa tendência tornou-se mais brutal e franca. Ver, por exemplo, Goebbels, em 1934: “Quem é o povo para reclamar? Membros do Partido? Não. O resto do povo alemão? Devem dar-se por felizes por ainda estarem vivos. Seria o cúmulo se deixássemos que nos criticassem aqueles que vivem à nossa mercê”. Citado de Kohn-Bramstedt, op. cit., pp. 178-9. Hitler declarou durante a guerra: “Sou apenas um ímã que se move constantemente sobre a nação alemã, extraindo o aço dessa gente. E já disse muitas vezes que o tempo virá em que todos os homens de valor da Alemanha se passarão para o meu lado. E os que não passarem para o meu lado, não valem nada”. Já nessa época o séquito imediato de Hitler sabia muito bem o que sucederia àqueles que “não valiam nada” (ver Der grossdeutsche Freiheitskampf. Reden Hitlers vom 1.9.1939-10.3.1940 [A luta pela liberdade da Grande Alemanha. Discursos do Führer…], p. 174). Himmler queria dizer a mesma coisa quando declarou: “O Führer não pensa em alemão, mas em termos germânicos” (Dossiê Kersten, cf. acima), mas sabemos pelo Hitlers Tischgespräche (pp. 315 ss) que já naquele tempo ele ridicularizava esse “clamor” germânico e pensava mais amplamente em “termos arianos”.

53. Himmler, num discurso para os líderes da SS em Kharkov, em abril de 1943 ( Nazi Conspiracy, IV, pp. 572 ss), disse: “Logo fundei uma SS germânica nos vários países”. Uma velha indicação, da fase anterior à tomada do poder, dessa política não nacional foi dada por Hitler (Reden): “Certamente aceitaremos também na nova classe dominante representantes de outras nações, ou seja, aqueles que o merecerem devido à sua participação em nossa luta”.

54. Hadamovsky, op. cit.

55. Heiden, op. cit., p. 139: a propaganda não é “a arte de inspirar nas massas uma opinião. Na verdade, é a arte de receber uma opinião das massas”.

56. Hadamovsky, op. cit., passim. A expressão é extraída do Mein Kampf de Hitler (livro II, capítulo IX), em que a “organização viva” de um movimento é contrastada com o “mecanismo morto” de um partido burocrático.

57. Seria grave erro interpretar os líderes totalitários em termos da categoria de Max Weber de “liderança carismática”. Ver Hans Gerth, “The Nazi Party”, em American Journal of Sociology, 1940, vol. XLV. (Um erro semelhante constitui o defeito da biografia de Heiden, op. cit.) Gerth descreve Hitler como líder carismático de um partido burocrático. Em sua opinião, somente isso pode explicar o fato de que, “por mais Aagrante que fosse a contradição entre os atos e as palavras, nada podia destruir a organização firmemente disciplinada”. (Essa contradição, aliás, é muito mais característica de Stálin, que “tinha o cuidado de dizer sempre o oposto do que fazia, e de fazer o oposto do que dizia”. Souvarine, op. cit., p. 431.) Para a origem desse erro de interpretação, ver Alfred von Martin, “Zur Soziologie der Gegenwart” [Para a sociologia da atualidade], em Zeitschrift für Kulturgeschichte, vol. 27, e Arnold Koettgen, “Die Gesetzmässigkeit der Verwaltung im Führerstaat” [A normalidade administrativa no Estado do Führer], em Reichsverwaltungsblatt, 1936; ambos caracterizam o Estado nazista como uma burocracia sob liderança carismática.

58. Hadamovsky, op. cit., p. 21. Para fins totalitários, é um erro propagar a ideologia através do ensino e da persuasão. Nas palavras de Robert Ley, ela não pode ser “ensinada” nem “aprendida”, mas apenas exercida” e “praticada” (em: Der Weg zur Ordensburg, sem data).

59. R. Hoehn, um dos principais teóricos políticos nazistas, interpreta essa ausência de doutrina, ou mesmo de um conjunto comum de ideais e crenças no movimento, em seu Reichsgemeinschaft und Volksgemeinschaft, Hamburgo, 1935: “Do ponto de vista da comunidade do povo, é destrutiva toda a comunidade de valores” (p. 83).

60. Hitler, discutindo a relação entre a Weltanschauung e a organização, admite como natural que os nazistas tomassem emprestado a outros grupos e partidos a “ideia racial” (die völkische Idee); e, se agiram como se fossem os seus únicos representantes, é por terem sido os primeiros a basearem nela uma organização combativa e a formularem-na para fins práticos. Op. cit., livro II, capítulo V.

61. Ver Hitler, “Propaganda e organização”, op. cit., livro II, capítulo XI.

62. Exemplo disso é o pedido de Himmler, veementemente urgente, para que “não se emitisse nenhum decreto referente à definição do termo ‘judeu’”; porque, “com todos esses compromissos idiotas, estaremos atando as nossas próprias mãos” (Documento de Nurembergue no 626, carta a Berger datada de 28 de julho de 1942, cópia fotostática no Centre de Documentation Juive).

63. A fórmula “O desejo do Führer é a lei suprema” encontra-se em todas as normas e regulamentações oficiais sobre a conduta do Partido e da SS. A melhor fonte nesse assunto é Otto Gauweiler, Rechtseinrichtungen und Rechtaufgaben der Bewegung [Disposições e tarefas jurídicas do movimento], 1939.

64. Heiden, op. cit., p. 292, menciona a seguinte diferença entre a primeira edição e as edições seguintes de Mein Kampf: a primeira edição propõe a eleição de autoridades do partido que, somente após a eleição, recebem “poder e autoridade ilimitados”; todas as edições posteriores estabelecem a nomeação das autoridades do partido pelo líder imediatamente superior. Naturalmente, para a estabilidade dos regimes totalitários, a nomeação vinda de cima é um princípio muito mais importante do que a “autoridade ilimitada” da autoridade eleita. Na prática, a autoridade do sublíder era limitada pela absoluta soberania do líder. Stálin, que vinha do aparelho conspiratório do partido bolchevista, provavelmente nunca achou que isso constituísse problema. Para ele, as nomeações na máquina do partido eram uma questão de acúmulo de poder pessoal. Contudo, foi somente em meados da década de 30, depois de haver estudado o exemplo de Hitler, que ele se deixou tratar por “líder”. Mas, é forçoso admitir que poderia facilmente justificar esses métodos citando a teoria de Lênin de que “a história de todos os países demonstra que a classe trabalhadora, se depender apenas dos seus próprios esforços, só é capaz de desenvolver uma consciência sindical”, e que a sua liderança, portanto, advém necessariamente de fora. (Ver Que fazer?, publicado pela primeira vez em 1902.) O fato é que Lênin considerava o Partido Comunista como a parte “mais progressista” da classe trabalhadora e, ao mesmo tempo, “a alavanca da organização política” que “dirige toda a massa do proletariado”, isto é, uma organização que está fora e acima da classe. (Ver W. H. Chamberlin, The Russian Revolution, 1917-1921, Nova York, 1935, II, 361.) Não obstante, Lênin não punha em dúvida a validez da democracia intrapartidária, embora se inclinasse pela restrição da democracia com relação à própria classe trabalhadora.

65. Hitler, op. cit., livro II, capítulo XI.

66. Ibid. Esse princípio foi rigorosamente adotado logo que os nazistas tomaram o poder. Dos 7 milhões de membros da juventude hitlerista, somente 50 mil foram aceitos como membros do partido em 1937. Ver o prefácio de H. L. Childs a The Nazi primer. Compare-se também Gottfried Neesse, “Die verfassungsrechtliche Gestaltung der Ein-Partei”, em Zeitschrift für die gesamte Staatswissenschaft, 1948, vol. 98, p. 678: “Mesmo o Partido Único jamais deve crescer a ponto de incluir toda a população. Ele é total devido à influência ideológica que exerce sobre a nação”.

67. Ver a diferenciação feita por Hitler entre as “pessoas radicais”, que eram as únicas que estavam preparadas para se tornarem membros do partido, e as centenas de milhares de simpatizantes, que eram demasiado “covardes” para fazer o necessário sacrifício. Op. cit., loc. cit.

68. Ver Hitler: capítulo sobre a SA, op. cit., livro II, cap. IX, 2a parte.

69. Ao traduzir Verfügungstruppe, ou seja, as unidades da SS que deviam estar à disposição especial de Hitler, como tropas de choque, sigo O. C. Giles, The Gestapo, Oxford Pamphlets on World Affairs, no 36, 1940.

70. A fonte mais importante para a organização e a história da SS é “Wesen und Aufgabe der SS und der Polizei” [Caráter e função da SS e da polícia], de Himmler, em Sammelhefte ausgewählter Vorträge und Reden , 1939. No decorrer da guerra, quando os escalões da Waffen- SS tiveram de ser preenchidos com voluntários, devido às perdas no front, a Waffen-SS perdeu o seu caráter de elite dentro da SS a tal ponto que a SS Geral, isto é, o Corpo do Führer mais elevado, passou mais uma vez a representar o verdadeiro núcleo de elite do movimento em seu aspecto geral. Documentação muito reveladora sobre essa última fase da SS encontra-se nos arquivos da Hoover Library, arquivo Himmler, pasta no 278. Mostra que a SS passou a recrutar trabalhadores estrangeiros e a população nativa, imitando deliberadamente os métodos e normas da Legião Estrangeira Francesa. O recrutamento entre os alemães baseava-se numa ordem de Hitler (nunca publicada), de dezembro de 1942, segundo a qual “a classe de 1925 [devia] ser recrutada para a Waffen-SS” (carta de Himmler a Bormann). A convocação e o recrutamento eram tratados, ostensivamente, como serviços voluntários. Mas numerosos relatórios de líderes da SS encarregados da tarefa mostram o que de fato aconteceu. Um relatório de 21 de julho de 1943 descreve como a polícia cercava o pavilhão dos trabalhadores franceses que seriam recrutados, e como os franceses primeiro cantavam a Marselhesa e depois tentavam pular pelas janelas. As tentativas de recrutamento dos jovens alemães também não eram encorajadoras. Embora fossem submetidos a extraordinárias pressões, e fosse-lhes dito que “certamente não iriam querer incorporar-se aos ‘bandos sujos vestidos de cinza’” (o Exército), somente dezoito de 220 membros da Juventude Hitlerista apresentaram-se para o serviço da SS (segundo relatório de 30 de abril de 1943, submetido por Häussler, chefe do Centro de Recrutamento do Sudoeste, da Waffen- SS); todos os outros preferiram alistar-se na Wehrmacht. É possível que as perdas da SS, maiores que as da Wehrmacht, inAuenciassem a sua decisão (ver Karl O. Paetel, “Die SS”, em Vierteljahresheft für Zeitgeschichte , janeiro de 1954). Mas esse fator, por si só, não poderia ter sido decisivo, como prova o seguinte: já em janeiro de 1940, Hitler havia ordenado o recrutamento de homens da SA para as fileiras da Waffen- SS; os resultados em Koenigsberg, baseados num relatório que foi preservado, foram esses: 1807 membros da SA foram convocados “para serviço policial” (de SS); desses, 1094 deixaram de apresentar-se; 631 foram desclassificados; 82 estavam aptos para servir na SS.

71. Werner Best, op. cit., 1941, p. 99.

72. Hitler sempre insistiu em que o próprio nome da SA (Sturmabteilung) indicava que ela era apenas “uma seção do movimento” como qualquer outra formação partidária. Ele procurou também desfazer a ilusão do possível valor militar de uma formação paramilitar, e queria que o treinamento fosse realizado segundo as necessidades do partido, e não segundo os princípios de um exército. Op. cit., loc. cit.

73. O motivo oficial da fundação da SA foi a proteção dos comícios nazistas, enquanto a tarefa original da SS era a proteção dos líderes nazistas.

74. Hitler, op. cit., loc. cit.

75. Ernst Bayer, Die SA, Berlim, 1938. Tradução citada de Nazi conspiracy, IV.

76. A autobiografia de Röhm mostra claramente quão pouco as suas convicções políticas concordavam com as dos nazistas. Ele desejou um Soldatenstaat (Estado dos soldados) e insistiu na primazia do soldado com relação ao político (op. cit., p. 349). A seguinte passagem revela especialmente a sua incapacidade de compreender o totalitarismo: “Não vejo por que estas três coisas não possam ser compatíveis: a minha lealdade ao príncipe herdeiro da casa de Wittelsbach, herdeiro da coroa da Baviera; minha admiração pelo intendente-geral da Guerra Mundial [isto é, Ludendorff], que hoje representa a consciência do povo alemão; e a minha camaradagem com o arauto e veículo da luta política, Adolf Hitler” (p. 348). O que finalmente custou a Röhm a sua cabeça foi que, após a tomada do poder pelos nazistas, ele visualizava uma ditadura fascista nos moldes do regime italiano, na qual o partido nazista “quebraria as correntes do partido” e “se tornaria, ele próprio, o Estado”, o que era exatamente o que Hitler estava disposto a evitar. Ver o discurso pronunciado por Ernst Röhm perante o corpo diplomático, em dezembro de 1933, em Berlim e publicado, sem data, sob o título Warum SA? [Por que a SA?]. Dentro do partido nazista, nunca foi esquecida a possibilidade de uma trama entre a SA e o Reichswehr contra o domínio da SS e da polícia. Até Hans Frank, governador-geral da Polônia ocupada, foi posto sob suspeita em 1942 — isto é, oito anos depois do assassínio de Röhm (SA) e do general Schleicher (Reichswehr) — por desejar “após a guerra […] iniciar a luta pela justiça, contra a SS, com a ajuda das Forças Armadas e da SA” (Nazi conspiracy, VI, 747).

77. Hitler, op. cit., livro II, capítulo xi, afirma que a propaganda procura forçar uma doutrina sobre todo o povo, enquanto a organização incorpora apenas uma proporção relativamente pequena dos seus membros mais militantes. Compare-se também G. Neesse, op. cit.

78. Hitler, op. cit., loc. cit.

79. Hadamovsky, op. cit., p. 28.

80. As unidades da Caveira da SS eram submetidas às seguintes regras: 1. Nenhuma unidade é convocada para serviço em seu distrito natal. 2. Toda unidade é transferida após três semanas de serviço. 3. Os membros nunca devem ser enviados às ruas sozinhos, nem devem jamais exibir em público sua insígnia da Caveira. Ver “Secret speech by Himmler to the German Army General Staff 1938” (o discurso foi proferido em 1937) em Nazi conspiracy, IV, 616. Publicado também pelo American Committee for Anti-Nazi Literature.

81. Heinrich Himmler, “Die Schutzstaffel als antibolschewistische Kampforganisation” [A SS como organização de luta antibolchevista], em Aus dem Schwarzen Korps, no 3, 1936, disse publicamente: “Sei que existem pessoas na Alemanha que sentem náuseas quando veem este dólmã negro. Compreendemos isto, e não esperamos que muita gente goste de nós”.

82. Em seus discursos para a SS, Himmler sempre acentuava os crimes cometidos, mencionando a sua gravidade. Diria, por exemplo, acerca da liquidação dos judeus: “Desejo também falar-vos de um assunto muito grave. Entre nós, ele pode ser mencionado francamente, mas nunca o mencionaremos em público”. Sobre a liquidação dos intelectuais poloneses: “[…] deveis ser informados disto, e também esquecê-lo imediatamente […]” ( Nazi conspiracy, IV, 558 e 553, respectivamente). Goebbels, op. cit., p. 266, observa no mesmo tom: “No tocante à questão judaica, especialmente, tomamos uma posição da qual não é possível recuar. […] A experiência nos ensina que um movimento e um povo que queimou as suas pontes luta com determinação muito maior que aqueles que ainda podem recuar”.

83. Souvarine, op. cit., p. 648. A maneira como os movimentos totalitários mantiveram absolutamente secreta a vida privada dos seus líderes (Hitler e Stálin) contrasta com a importância que as democracias veem na divulgação da vida privada de presidentes, reis, primeiros-ministros etc. Os métodos totalitários não permitem uma identificação baseada na convicção de que mesmo o mais importante dos homens é apenas um ser humano. Souvarine, op. cit., cita os rótulos mais frequentemente usados para descrever Stálin: “Stálin, o misterioso morador do Kremlin”; “Stálin, personalidade impenetrável”; “Stálin, a Esfinge Comunista”; “Stálin, o Enigma”; o “mistério insolúvel” etc.

84. “Se [Trótski] houvesse preferido montar um coup d’état militar, teria possivelmente derrotado os triúnviros. Mas deixou o cargo sem fazer a menor tentativa de chamar em sua defesa o exército que havia criado e comandado durante sete anos” (Isaac Deutscher, op. cit., p. 297).

85. O Comissariado da Guerra, sob Trótski, “era uma instituição [tão] modelar” que Trótski era procurado sempre que havia desordem nos outros ministérios. Souvarine, op. cit., p. 288.

86. As circunstâncias da morte de Stálin parecem contradizer a infalibilidade desses métodos. É muito possível que Stálin, o qual, antes de morrer, sem dúvida planejava outro expurgo geral, tenha sido morto por alguns elementos do seu séquito devido ao fato de que ninguém mais se sentia seguro — mas isso nunca pôde ser provado. O fato é que os sucessores de Stálin — seus acólitos, sem dúvida, mas, talvez, dentro dos critérios acima, seus assassinos — desfizeram-se depois do único homem que, entre eles, detinha o poder suficiente para eliminá-los. [Trata-se de Beria, o todo-poderoso chefe da polícia secreta da URSS. (N. E.)].

87. Hitler telegrafou pessoalmente aos assassinos da SA assumindo a responsabilidade pelo assassinato de Potempa, embora provavelmente nada tivesse a ver com ele. O que importava, no caso, era estabelecer um princípio de identificação ou, nas palavras dos nazistas, “a lealdade mútua do Líder e do povo” na qual “se baseava o Reich” (Hans Frank, op. cit.).

88. “Uma das principais características de Stálin […] é jogar sistematicamente os seus crimes e malfeitorias, bem como os seus erros políticos […] nos ombros daqueles que ele planeja desacreditar e arruinar” (Souvarine, op. cit., p. 655). É óbvio que um líder totalitário pode escolher livremente quem ele deseja que assuma a culpa dos seus erros, uma vez que todos os atos conhecidos pelos sublíderes são inspirados por ele, de modo que qualquer pessoa pode ser forçada a assumir o papel de impostor.

89. Já ficou provado, por meio de numerosos documentos, que era o próprio Hitler — e não Himmler, nem Bormann, nem Goebbels — quem sempre tomava a iniciativa das medidas realmente “radicais”; que essas medidas eram sempre mais radicais que aquelas propostas por seus seguidores imediatos; que até mesmo Himmler ficou horrorizado quando recebeu a incumbência da “solução final” da questão judaica. E tampouco merece alguma fé a lenda de que Stálin era mais moderado que as facções esquerdistas do partido bolchevista. É importante lembrar que os líderes totalitários procuram invariavelmente parecer mais moderados para o mundo exterior, e que o seu principal papel — que é o de impelir para frente o movimento a qualquer preço, e de acelerá-lo, e não retardá-lo — é sempre cuidadosamente oculto. Ver, por exemplo, o memorando do almirante Erich Raeder, “My relationship to Adolf Hitler and to the Party”, em Nazi conspiracy, VIII, pp. 707 ss: “Quando surgiram informações e boatos acerca de medidas radicais do Partido e da Gestapo, era possível chegar-se à conclusão, pela conduta do Führer, de que essas medidas não haviam sido ordenadas pelo próprio Führer. […] Em anos subsequentes, cheguei gradualmente à conclusão de que o próprio Führer sempre se inclinava pela solução mais radical, sem deixar que ninguém o percebesse”. Na luta intrapartidária que precedeu a subida ao poder absoluto, Stálin sempre teve o cuidado de assumir a pose do “homem do meio-termo” (ver Deutscher, op. cit., pp. 295 ss); embora certamente não fosse nenhum “homem afeito a acomodações”, nunca abandonou inteiramente esse papel. Quando, por exemplo, um jornalista estrangeiro lhe indagou, em 1936, acerca dos objetivos de revolução mundial do movimento comunista, ele respondeu: “Nunca tivemos tais planos e intenções. […] Trata-se de um mal-entendido. […] Um mal-entendido cômico, ou, antes, tragicômico” (Deutscher, op. cit., p. 422).

90. Ver Alexandre Koyré, “The political function of the modern lie”, em Contemporary Jewish Record, junho de 1945. Hitler, op. cit., livro II, capítulo IX, discute longamente os prós e contras das sociedades secretas como modelos para os movimentos totalitários. Na verdade, as considerações que ele faz levam-no à conclusão de Koyré de que é preciso adotar os princípios das sociedades secretas sem o seu sigilo e instalá-las “à plena luz do dia”. No estágio anterior à tomada do poder, os nazistas nada mantinham em segredo. Foi somente durante a guerra, quando o regime nazista se tornou inteiramente totalitarizado e a liderança do partido se viu cercada por todos os lados pela hierarquia militar, da qual dependia para a condução da guerra, que as formações de elite receberam instruções perfeitamente claras para manterem absolutamente secreto tudo o que dissesse respeito à “solução final”, isto é, o extermínio em massa dos judeus. Foi também por essa época que Hitler passou a agir como chefe de um bando de conspiradores, mas não sem anunciar e divulgar pessoalmente esse fato com bastante clareza. No decorrer de uma reunião com o Estado-Maior, em maio de 1939, Hitler estabeleceu as seguintes normas, que parecem haver sido copiadas de uma cartilha de sociedades secretas: “1. Nenhuma informação será dada a quem não precisa saber. 2. Ninguém deve saber mais do que precisa. 3. Ninguém deve saber antes do tempo necessário” (citadas por Heinz Holldack, Was wirklich geschah [O que realmente aconteceu], 1949, p. 378).

91. A análise que fazemos a seguir acompanha de perto “Sociology of secrecy and of secret societies”, de Georg Simmel, em The American Journal of Sociology, vol. XI, no 4, janeiro de 1906, que constitui o capítulo v de sua Soziologie, Leipzig, 1908, da qual alguns trechos foram traduzidos por Kurt Wolff, sob o título The sociology of Georg Simmel, 1950.

92. “Exatamente pelo fato de que os graus inferiores da sociedade constituem uma transição mediatória para o verdadeiro centro do segredo, permitem a compreensão gradual da esfera de repulsa em torno do mesmo, o que proporciona uma proteção mais segura do que adviria da aspereza de uma posição radical, fosse de fora ou de dentro” (ibid., p. 489).

93. As expressões “irmãos jurados”, “camaradas jurados”, “comunidade jurada” etc. são repetidas ad nauseam em toda a literatura nazista, em parte devido à atração que tinham para o romantismo juvenil muito comum no movimento da juventude alemã. Foi principalmente Himmler quem usou essas expressões com um sentido mais definido, introduzindo-as na “senha central” da SS (“Unimo-nos assim e marchamos para um futuro distante segundo as leis imutáveis, como uma classe nacional-socialista de homens nórdicos e comunidade jurada das suas tribos [Sippen].” Ver D’Alquen, op. cit.) e lhes deu o expressivo significado de “absoluta hostilidade” contra todos os outros (ver Simmel, op. cit., p. 489): “Assim, quando a massa da humanidade de 1 a 1,5 bilhão [ sic!] se unir contra nós, o povo alemão […]”. Ver o discurso de Himmler na reunião dos generais da SS em Posen (atual Poznan, Polônia), a 4 de outubro de 1943, Nazi conspiracy, IV, 558.

94. Simmel, op. cit., p. 490. Esse princípio, como tantos outros, foi adotado pelos nazistas após cuidadoso estudo das implicações dos “Protocolos dos sábios do Sião”. Hitler dizia já em 1922: “[Os homens da Direita] ainda não compreenderam que não é necessário ser inimigo dos judeus para que um dia […] acabem na forca. […] Basta […] não ser judeu: com isso se vai parar na forca” (Hitler’s speeches, p. 12). Na época, ninguém podia imaginar que esse tipo de propaganda realmente significava que, um dia, não seria necessário ser um inimigo dos nazistas para ser levado à forca; bastaria ser um judeu ou, finalmente, membro de algum outro povo, para ser declarado “racialmente inapto” à vida por alguma Comissão de Saúde. Himmler acreditava e pregava que toda a SS se baseava no princípio de que “devemos ser honestos, decentes, leais e amigos com os membros do nosso próprio sangue, e com ninguém mais” ( op. cit., loc. cit.).

95. Simmel, op. cit., pp. 480-1.

96. Souvarine, op. cit., p. 319, adota uma expressão de Bukharin.

97. Souvarine, op. cit., p. 113, menciona que Stálin “sempre se impressionava com aqueles que eram bem-sucedidos ‘nos negócios’. Via a política como um ‘negócio’ que exigia destreza”.

98. Nas lutas intrapartidárias dos anos 20, “os colaboradores da GPU eram, quase sem exceção, fanáticos seguidores de Stálin. Os serviços da GPU naquela época eram os baluartes da seção stalinista” (Ciliga, op. cit., p. 48). Souvarine, op. cit., p. 289, relata que, mesmo antes, Stálin havia “continuado a ação policial que havia iniciado durante a Guerra Civil” e havia sido representante do Politburo na GPU.

99. Imediatamente após a guerra civil na Rússia, o Pravda afirmava que “a fórmula ‘Todo o poder aos Sovietes’ havia sido substituída por ‘Todo o poder à Cheka’. […] O fim das hostilidades armadas reduziu o controle militar […] mas deixou uma Cheka ramificada, que se aperfeiçoava através da simplificação operacional” (Souvarine, op. cit., p. 251).

100. A Gestapo [Geheime Staatspolizei: Polícia Secreta do Estado] foi instituída por Göring em 1933: Himmler foi nomeado chefe da Gestapo em 1934 e passou imediatamente a substituir o seu pessoal por homens da SS; no fim da guerra, 75% dos agentes da Gestapo eram homens da SS. Deve-se considerar também que as unidades da SS eram particularmente qualificadas para esse tipo de trabalho, uma vez que Himmler as havia organizado, mesmo na fase anterior ao poder, para tarefas de espionagem entre membros do partido (Heiden, op. cit., p. 308). Quanto à história da Gestapo, ver Giles, op. cit., e também Nazi conspiracy, vol. II, capítulo XII.

101. Provavelmente, um dos erros ideológicos decisivos de Rosenberg, que caiu na desgraça do Führer e perdeu a sua inAuência no movimento a favor de homens como Himmler, Bormann e até mesmo Streicher, foi que o seu Mito do século XX admite um pluralismo racial do qual somente os judeus eram excluídos. Violou, assim, o princípio conforme o qual quem não estivesse incluído (“o povo germânico”) estava excluído (“a massa da humanidade”). Cf. nota 87.

102. Simmel, op. cit., p. 492, menciona sociedades secretas criminosas nas quais os membros voluntariamente escolhem um comandante ao qual passam a obedecer sem crítica e sem limite.

103. Ciliga, op. cit., pp. 96-7. O autor descreve como os prisioneiros comuns da prisão da GPU em Leningrado condenados à morte deixavam-se levar à execução “sem uma palavra, sem um grito de revolta contra o governo que os executava” (p. 183).

104. Ciliga nos diz que os membros do partido que haviam sido condenados “achavam que, se essas execuções serviam para salvar a ditadura burocrática como um todo, se levavam à calma os camponeses rebelados (ou, antes, ao erro), o sacrifício de suas vidas não teria sido em vão” (op. cit., pp. 96-7).

105. A imagem do papel da diplomacia na política, expressa por Goebbels, é típica: “Não há dúvida que o melhor a fazer é manter os diplomatas desinformados quanto ao que ocorre na política. […] O argumento mais convincente de sua fidedignidade política é a sinceridade com que representam o papel de apaziguadores” (op. cit., p. 87).

106. Rudolf Hess numa transmissão radiofônica em 1934. Nazi conspiracy, I, p. 193.

107. Werner Best, op. cit., explica: “O fato de a vontade do governo estabelecer as normas ‘certas’ […] já não é uma questão de lei, mas de destino. Pois os abusos que ocorrerem […] serão punidos perante a história de modo mais seguro pelo próprio destino — com o infortúnio, a destituição e a ruína, devido à violação das ‘leis da vida’ — do que por uma Corte de Justiça”. Tradução citada de Nazi conspiracy, IV, 490.

108. Ver Kravchencko, op. cit., p. 422. “Nenhum comunista devidamente doutrinado achava que o Partido estivesse ‘mentindo’ por pregar em público um tipo de política, enquanto na intimidade professava o oposto”.

109. “O nacional-socialista despreza o seu vizinho alemão, o homem da SA despreza os outros nacional-socialistas, e o homem da SS despreza o homem da SA” (Heiden, op. cit., p. 308).

110. Himmler selecionava os candidatos à SS, em primeiro lugar, por fotografias. Mais tarde, um Comitê Racial, perante o qual o candidato tinha de comparecer pessoalmente, aprovava ou desaprovava a sua aparência racial. Ver Himmler no tocante à “Organização e obrigação da SS e da polícia”, Nazi conspiracy, IV, pp. 616 ss.

111. Himmler estava bem consciente do fato de que uma de suas “mais importantes realizações” era haver transformado a questão racial, de “conceito negativo baseado no antissemitismo natural”, em “uma tarefa organizacional para a constituição da SS” (Der Reichsführer SS und Chef der deutschen Polizei, “exclusivamente para uso da polícia”; sem data). Assim, “pela primeira vez, a questão racial havia sido colocada em foco, ou melhor, se tornara o próprio foco, indo muito além do conceito negativo que havia por trás do ódio natural aos judeus. A ideia revolucionária do Führer recebia uma infusão de sangue novo” (Der Weg der SS. Der Reichsführer SS. SS-Hauptamt- Schulungsamt. Na jaqueta: “difusão proibida”, sem data, p. 25).

112. Logo que foi nomeado chefe da SS, em 1929, Himmler introduziu o princípio de seleção racial e leis de casamento, e acrescentou: “A SS sabe muito bem que esta ordem é da maior importância. A zombaria, o escárnio e a incompreensão não nos afetam; o futuro é nosso”. Citado por D’Alquen, op. cit. E novamente, catorze anos mais tarde, num discurso em Kharkov (Nazi conspiracy, IV, pp. 572 ss), Himmler lembra aos seus líderes da SS que “fomos os primeiros a realmente resolver o problema do sangue pela ação […] e por problema de sangue não entendemos, naturalmente, o antissemitismo. O antissemitismo é exatamente a mesma coisa que catar piolhos. Catar piolhos não é uma questão de ideologia: é uma questão de limpeza. […] Mas para nós a questão do sangue era um lembrete do nosso próprio valor, um lembrete do que realmente mantém unido este povo alemão”.

113. Himmler, op. cit., Nazi conspiracy, IV, pp. 616 ss.

114. Himmler em seu discurso em Posen, Nazi conspiracy, IV, p. 558.

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