Totalitarismo por Hannah Arendt – 1.1

Nesta nova jornada dos Novos Pensadores vamos examinar um escrito de Hannah Arendt (1951) sobre o totalitarismo. É a terceira parte do livro Hannah Arendt, Origens do totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. A seguir vai o capítulo 1.

TOTALITARISMO

Os homens normais não sabem que tudo é possível.

David Rousset

ÍNDICE

Prefácio

1. Uma sociedade sem classes

2. O movimento totalitário

3. O totalitarismo no poder

4. Ideologia e terror: uma nova forma de governo

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1. UMA SOCIEDADE SEM CLASSES

1. AS MASSAS

Nada caracteriza melhor os movimentos totalitários em geral — e principalmente a fama de que desfrutam os seus líderes — do que a surpreendente facilidade com que são substituídos. Stálin conseguiu legitimar-se como herdeiro político de Lênin à custa de amargas lutas intrapartidárias e de vastas concessões à memória do antecessor. Já os sucessores de Stálin procuraram substituí-lo sem tais condescendências, embora ele houvesse permanecido no poder por trinta anos e dispusesse de uma máquina de propaganda, desconhecida ao tempo de Lênin, para imortalizar o seu nome. O mesmo se aplica a Hitler, que durante toda a vida exerceu um fascínio que supostamente cativava a todos (1), e que, depois de derrotado e morto, está hoje tão completamente esquecido que mal representa alguma coisa, mesmo entre os grupos neofascistas e neonazistas da Alemanha. Essa impermanência tem certamente algo a ver com a volubilidade das massas e da fama que as tem por base; mas seria talvez mais correto atribuí-la à essência dos movimentos totalitários, que só podem permanecer no poder enquanto estiverem em movimento e transmitirem movimento a tudo o que os rodeia. Assim, até certo ponto, essa impermanência é um testemunho lisonjeiro para os líderes mortos, pois significa que conseguiram contaminar os seus súditos com aquele vírus especificamente totalitário que se caracteriza, entre outras coisas, pela extraordinária adaptabilidade e falta de continuidade. Donde se conclui que pode ser errado presumir que a inconstância e o esquecimento das massas signifiquem estarem curadas da ilusão totalitária, vez por outra identificada com o culto a Hitler ou a Stálin: a verdade pode ser exatamente o oposto.

Seria um erro ainda mais grave esquecer, em face dessa impermanência, que os regimes totalitários, enquanto no poder, e os líderes totalitários, enquanto vivos, sempre “comandam e baseiam-se no apoio das massas” (2). A ascensão de Hitler ao poder foi legal dentro do sistema majoritário (3) e ele não poderia ter mantido a liderança de tão grande população, sobrevivido a tantas crises internas e externas, e enfrentado tantos perigos de lutas intrapartidárias, se não tivesse contado com a confiança das massas. Isso se aplica também a Stálin. Nem os julgamentos de Moscou nem a liquidação do grupo de Röhm teriam sido possíveis se essas massas não tivessem apoiado Stálin e Hitler. A crença generalizada de que Hitler era simplesmente um agente dos industriais alemães e a de que Stálin só venceu a luta sucessória depois da morte de Lênin graças a uma conspiração sinistra são lendas que podem ser refutadas por muitos fatos e, acima de tudo, pela indiscutível popularidade dos dois líderes (4). Não se pode atribuir essa popularidade ao sucesso de uma propaganda magistral e mentirosa que conseguiu arrolar a ignorância e a estupidez. Pois a propaganda dos movimentos totalitários, que precede a instauração dos regimes totalitários e os acompanha, é invariavelmente tão franca quanto mentirosa, e os governantes totalitários em potencial geralmente iniciam suas carreiras vangloriando-se de crimes passados e planejando cuidadosamente os seus crimes futuros. Os nazistas “estavam convencidos de que o mal, em nosso tempo, tem uma atração mórbida” (5); os bolchevistas diziam não reconhecer os padrões morais comuns, e essa afirmação, feita dentro e fora da Rússia, tornou-se um dos pilares da propaganda comunista; e a experiência demonstrou que o valor propagandístico do mal e o desprezo geral pelos padrões morais independem do interesse pessoal, que se supõe ser o fator psicológico mais poderoso na política.

A atração que o mal e o crime exercem sobre a mentalidade da ralé não é novidade. Para a ralé, os “atos de violência podiam ser perversos, mas eram sinal de esperteza” (6). Mas o que é desconcertante no sucesso do totalitarismo é o verdadeiro altruísmo dos seus adeptos. É compreensível que as convicções de um nazista ou bolchevista não sejam abaladas por crimes cometidos contra os inimigos do movimento; mas o fato espantoso é que ele não vacila quando o monstro começa a devorar os próprios filhos, nem mesmo quando ele próprio se torna vítima da opressão, quando é incriminado e condenado, quando é expulso do partido e enviado para um campo de concentração ou de trabalhos forçados. Pelo contrário: para o assombro de todo o mundo civilizado, estará até disposto a colaborar com a própria condenação e tramar a própria sentença de morte, contanto que o seu status como membro do movimento permaneça intacto (7). Seria ingênuo pensar que essa obstinada convicção, que sobrevive a todas as experiências reais e anula todo interesse pessoal, seja mera expressão de idealismo ardente. O idealismo, tolo ou heroico, nasce da decisão e da convicção individuais, mas forja-se na experiência (8). O fanatismo dos movimentos totalitários, ao contrário das demais formas de idealismo, desaparece no momento em que o movimento deixa em apuros os seus seguidores fanáticos, matando neles qualquer resto de convicção que possa ter sobrevivido ao colapso do próprio movimento (9). Mas, dentro da estrutura organizacional do movimento, enquanto ele permanece inteiro, os membros fanatizados são inatingíveis pela experiência e pelo argumento; a identificação com o movimento e o conformismo total parecem ter destruído a própria capacidade de sentir, mesmo que seja algo tão extremo como a tortura ou o medo da morte.

Os movimentos totalitários objetivam e conseguem organizar as massas — e não as classes, como o faziam os partidos de interesses dos Estados nacionais do continente europeu, nem os cidadãos com suas opiniões peculiares quanto à condução dos negócios públicos, como o fazem os partidos dos países anglo-saxões. Todos os grupos políticos dependem da força numérica, mas não na escala dos movimentos totalitários, que dependem da força bruta, a tal ponto que os regimes totalitários parecem impossíveis em países de população relativamente pequena (10), mesmo que outras condições lhes sejam favoráveis. Depois da Primeira Guerra Mundial, uma onda antidemocrática e pró-ditatorial de movimentos totalitários e semitotalitários varreu a Europa: da Itália disseminaram-se movimentos fascistas para quase todos os países da Europa central e oriental (os tchecos — mas não os eslovacos — foram uma das raras exceções); contudo, nem mesmo Mussolini, embora useiro da expressão “Estado totalitário”, tentou estabelecer um regime inteiramente totalitário (11), contentando-se com a ditadura unipartidária. Ditaduras não totalitárias semelhantes surgiram, antes da Segunda Guerra Mundial, na Romênia, Polônia, nos Estados bálticos (Lituânia e Letônia), na Hungria, em Portugal e, mais tarde, na Espanha. Os nazistas, cujo instinto era infalível para discernir essas diferenças, costumavam comentar com desprezo as falhas dos seus aliados fascistas, ao passo que a genuína admiração que nutriam pelo regime bolchevista da Rússia (e pelo Partido Comunista da Alemanha) só era igualada e refreada por seu desprezo em relação às raças da Europa oriental (12). O único homem pelo qual Hitler sentia “respeito incondicional” era “Stálin, o gênio” (13) e, embora no caso de Stálin e do regime soviético não possamos dispor (e provavelmente nunca venhamos a ter) a riqueza de documentos que encontramos na Alemanha nazista, sabemos, desde o discurso de Khrushchev perante o Vigésimo Congresso do Partido Comunista, que também Stálin só confiava num homem, e que esse homem era Hitler (14).

Em todos esses países menores da Europa, movimentos totalitários precederam ditaduras não totalitárias, como se o totalitarismo fosse um objetivo demasiadamente ambicioso, e como se o tamanho do país forçasse os candidatos a governantes totalitários a enveredar pelo caminho mais familiar da ditadura de classe ou de partido. Na verdade, esses países simplesmente não dispunham de material humano em quantidade suficiente para permitir a existência de um domínio total — qualquer que fosse — e as elevadas perdas populacionais decorrentes da implantação de tal sistema (15). Sem muita possibilidade de conquistar territórios, os ditadores desses pequenos países eram obrigados à moderação, sem a qual corriam o risco de perder os poucos súditos de que dispunham. Por isso, também o nazismo, antes do início da guerra, ficou tão aquém do seu similar russo em matéria de coerência e crueldade, uma vez que nem sequer o povo alemão era suficientemente numeroso para permitir o completo desenvolvimento dessa nova forma de governo. Somente se tivesse vencido a guerra, a Alemanha teria conhecido um governo totalitário completo; e podem-se avaliar e vislumbrar os sacrifícios a que isso teria levado não apenas as “raças inferiores”, mas os próprios alemães, através dos planos de Hitler que ficaram para a posteridade (16). De qualquer modo, foi só durante a guerra, depois que as conquistas do Leste forneceram grandes massas e tornaram possíveis os campos de extermínio, que a Alemanha pôde estabelecer um regime verdadeiramente totalitário. (O regime totalitário encontra ambiente assustadoramente favorável nas áreas de tradicional despotismo oriental como a Índia ou a China, onde existe material humano quase inesgotável para alimentar a máquina de poder e de destruição de homens que é o domínio total, e onde, além disso, o sentimento de superfluidade do homem da massa — um fenômeno inteiramente novo na Europa, resultado do desemprego em massa e do crescimento populacional dos últimos 150 anos — prevalece há séculos no desprezo pela vida humana.) A moderação ou métodos menos sangrentos de domínio não se deviam tanto ao receio dos governos de que pudesse haver rebelião popular: resultaram de uma ameaça muito mais séria: o despovoamento de seus próprios países. Somente onde há grandes massas supérfluas que podem ser sacrificadas sem resultados desastrosos de despovoamento é que se torna viável o governo totalitário, diferente do movimento totalitário.

Os movimentos totalitários são possíveis onde quer que existam massas que, por um motivo ou outro, desenvolveram certo gosto pela organização política. As massas não se unem pela consciência de um interesse comum e falta-lhes aquela específica articulação de classes que se expressa em objetivos determinados, limitados e atingíveis. O termo massa só se aplica quando lidamos com pessoas que, simplesmente devido ao seu número, ou à sua indiferença, ou a uma mistura de ambos, não se podem integrar numa organização baseada no interesse comum, seja partido político, organização profissional ou sindicato de trabalhadores. Potencialmente, as massas existem em qualquer país e constituem a maioria das pessoas neutras e politicamente indiferentes, que nunca se filiam a um partido e raramente exercem o poder de voto.

Em sua ascensão, tanto o movimento nazista da Alemanha quanto os movimentos comunistas da Europa depois de 1930 (17) recrutaram os seus membros dentre essa massa de pessoas aparentemente indiferentes, que todos os outros partidos haviam abandonado por lhes parecerem demasiado apáticas ou estúpidas para lhes merecerem a atenção. A maioria dos seus membros, portanto, consistia em elementos que nunca antes haviam participado da política. Isso permitiu a introdução de métodos inteiramente novos de propaganda política e a indiferença aos argumentos da oposição: os movimentos, até então colocados fora do sistema de partidos e rejeitados por ele, puderam moldar um grupo que nunca havia sido atingido por nenhum dos partidos tradicionais. Assim, sem necessidade e capacidade de refutar argumentos contrários, preferiram métodos que levavam à morte em vez da persuasão, que traziam terror em lugar de convicção. As discórdias ideológicas com outros partidos ser-lhes iam desvantajosas se eles competissem sinceramente com esses partidos; não o eram, porém, porquanto lidavam com pessoas que tinham motivos para hostilizar igualmente todos os partidos.

Ou seja, os movimentos totalitários inventam uma nova população politicamente ativa a partir de um campo antipolítico.

O sucesso dos movimentos totalitários entre as massas significou o fim de duas ilusões dos países democráticos em geral e, em particular, dos Estados-nações europeus e do seu sistema partidário. A primeira foi a ilusão de que o povo, em sua maioria, participava ativamente do governo e todo indivíduo simpatizava com um partido ou outro. Esses movimentos, pelo contrário, demonstraram que as massas politicamente neutras e indiferentes podiam facilmente constituir a maioria num país de governo democrático e que, portanto, uma democracia podia funcionar de acordo com normas que, na verdade, eram aceitas apenas por uma minoria. A segunda ilusão democrática destruída pelos movimentos totalitários foi a de que essas massas politicamente indiferentes não importavam, que eram realmente neutras e que nada mais constituíam senão um silencioso pano de fundo para a vida política da nação. Agora, os movimentos totalitários demonstravam que o governo democrático repousava na silenciosa tolerância e aprovação dos setores indiferentes e desarticulados do povo, tanto quanto nas instituições e organizações articuladas e visíveis do país. Assim, quando os movimentos totalitários invadiram o Parlamento com o seu desprezo pelo governo parlamentar, pareceram simplesmente contraditórios; mas, na verdade, conseguiram convencer o povo em geral de que as maiorias parlamentares eram espúrias e não correspondiam necessariamente à realidade do país, solapando com isso a dignidade e a confiança dos governos na soberania da maioria.

Tem sido frequentemente apontado que os movimentos totalitários usam e abusam das liberdades democráticas com o objetivo de suprimi-las. Não porque os seus líderes sejam diabolicamente espertos ou as massas sejam infantilmente ignorantes. As liberdades democráticas podem basear-se na igualdade de todos os cidadãos perante a lei; mas só adquirem significado e funcionam organicamente quando os cidadãos pertencem a agremiações ou são representados por elas, ou formam uma hierarquia social e política. O colapso do sistema de classes como estratificação social e política dos Estados-nações europeus foi certamente “um dos mais dramáticos acontecimentos da recente história alemã” (18) e favoreceu a ascensão do nazismo na mesma medida em que a ausência de estratificação social na imensa população rural da Rússia – esse “grande corpo flácido destituído de educação política, quase inacessível a ideias capazes de ação nobilitante”, como disse Górki (19) – favoreceu a deposição, pelos bolchevistas, do governo democrático de Kerenski. As condições sociais da Alemanha antes de Hitler mostraram os perigos implícitos no desenvolvimento do Ocidente, uma vez que, com o fim da Segunda Guerra Mundial, o mesmo dramático colapso do sistema de classes se repetiu em quase todos os países europeus, enquanto as ocorrências na Rússia indicam claramente o rumo que podem tomar as inevitáveis mudanças revolucionárias na Ásia. Na prática, pouco importa que os movimentos totalitários adotem os padrões do nazismo ou do bolchevismo, que organizem as massas em nome de classes ou de raças, ou que pretendam seguir as leis da vida e da natureza ou as da dialética e da economia.

A indiferença em relação aos negócios públicos e a neutralidade em questões de política não são, por si, causas suficientes para o surgimento de movimentos totalitários. A sociedade competitiva de consumo criada pela burguesia gerou apatia, e até mesmo hostilidade, em relação à vida pública, não apenas entre as camadas sociais exploradas e excluídas da participação ativa no governo do país, mas acima de tudo entre a sua própria classe. O longo período de falsa modéstia, em que a burguesia se contentou em ser a classe social dominante sem aspirar ao domínio político, relegado à aristocracia, foi seguido pela era imperialista, durante a qual a burguesia tornou-se cada vez mais hostil às instituições nacionais existentes e passou a exigir o poder político e a organizar-se para exercê-lo. Tanto a antiga apatia como a nova exigência de direção monopolística e ditatorial resultavam de uma filosofia para a qual o sucesso ou o fracasso do indivíduo em acirrada competição era o supremo objetivo, de tal modo que o exercício dos deveres e responsabilidades do cidadão era tido como perda desnecessária do seu tempo e energia. Essas atitudes burguesas são muito úteis àquelas formas da ditadura nas quais um “homem forte” assume a incômoda responsabilidade de conduzir os negócios públicos; mas constituem um obstáculo para os movimentos totalitários, que não podem tolerar o individualismo burguês ou qualquer outro tipo de individualismo. Os elementos apáticos da sociedade burguesa, por mais que relutem em assumir as responsabilidades de cidadãos, mantêm intacta a sua personalidade, pelo menos porque ela lhes permite sobreviver na luta competitiva pela vida.

É difícil perceber onde as organizações da ralé do século 19 diferem dos movimentos de massa do século 20, porque os modernos líderes totalitários não diferem muito em psicologia e mentalidade dos antigos líderes da escória, cujos padrões morais e esquemas políticos, aliás, tanto se assemelhavam aos da burguesia. Embora o individualismo caracterizasse tanto a atitude da burguesia como a da ralé em relação à vida, os movimentos totalitários podem, com justiça, afirmar terem sido os primeiros partidos realmente antiburgueses, o que não aconteceu com os seus predecessores do século 19. Nem a Sociedade do 1.0 de Dezembro (que ajudou a colocar Luís Napoleão no poder), nem as brigadas de açougueiros (que atuaram no Caso Dreyfus), nem as Centenas Negras (que organizavam os pogroms na Rússia), nem os movimentos étnicos de unificação envolveram os seus membros ao ponto de fazê-los perder completamente suas reivindicações e ambições individuais, nem chegaram a conceber que uma organização conseguisse apagar a identidade do indivíduo para sempre, e não apenas por um instante de heroico gesto coletivo.

A relação entre a sociedade de classes dominada pela burguesia e as massas que emergiram do seu colapso não é a mesma entre a burguesia e a ralé, que era um subproduto da produção capitalista. As massas têm em comum com a ralé apenas uma característica, ou seja, ambas estão fora de qualquer ramificação social e representação política normal. As massas não herdam, como o faz a ralé, os padrões e atitudes da classe dominante, mas repetem, e de certo modo pervertem, os padrões e atitudes de todas as classes em relação aos negócios públicos. Os padrões do homem da massa são determinados não apenas pela classe específica à qual antes pertenceu, mas acima de tudo por influências e convicções gerais que são tácita e silenciosamente compartilhadas por todas as classes da sociedade.

Fazer parte de uma classe, embora mais vaga e nunca tão inevitavelmente determinada pela origem social como nas ordens e Estados da sociedade feudal, era geralmente uma questão de nascimento, e somente a sorte ou dons extraordinários poderiam mudá-la. O status social era decisivo para que um indivíduo participasse da política e, exceto em casos de emergência, quando se esperava que ele agisse apenas como um nacional, independentemente de classe ou partido, ele nunca se defrontava diretamente com as coisas públicas ou se sentia diretamente responsável por conduzi-las. À ascensão de uma classe correspondia a intensificação da instrução e treinamento de certo número de seus membros para a política como carreira e para o serviço do governo, pago ou gratuito, se a isso podiam permitir-se, e para a representação da classe no Parlamento. A ninguém importava que a maioria dos membros de cada classe permanecesse fora de qualquer partido ou organização política. Em outras palavras, o fato de um indivíduo pertencer a uma classe, que tinha obrigações grupais limitadas e certas atitudes tradicionais em relação ao governo, impediu o crescimento de um corpo de cidadãos que se sentissem, individual e pessoalmente, responsáveis pelo governo do país. Esse caráter apolítico das populações dos Estados-nações veio à tona somente quando o sistema de classes entrou em colapso e destruiu toda a urdidura de fios visíveis e invisíveis que ligavam o povo à estrutura política.

O colapso do sistema de classes significou automaticamente o colapso do sistema partidário, porque os partidos, cuja função era representar interesses, não mais podiam representá-los, uma vez que a sua fonte e origem eram as classes. Sua continuidade tinha ainda certa importância para os membros das antigas classes que esperavam inutilmente recuperar o status social, e mantinham-se coesos não porque ainda tivessem interesses comuns, mas porque esperavam restaurá-los. Consequentemente, os partidos tornaram-se mais e mais psicológicos e ideológicos em sua propaganda, e mais apologéticos e nostálgicos em sua orientação política. Além disso, haviam perdido, sem que o percebessem, aqueles simpatizantes neutros que nunca se haviam interessado por política por acharem que os partidos existiam para cuidar dos seus interesses. Assim, o primeiro sintoma do colapso do sistema partidário continental não foi a deserção dos antigos membros do partido, mas o insucesso em recrutar membros dentre a geração mais jovem e a perda do consentimento e apoio silencioso das massas desorganizadas, que subitamente deixavam de lado a apatia e marchavam para onde vissem oportunidade de expressar a sua violenta oposição.

A queda das paredes protetoras das classes transformou as maiorias adormecidas, que existiam por trás de todos os partidos, numa grande massa desorganizada e desestruturada de indivíduos furiosos que nada tinham em comum exceto a vaga noção de que as esperanças partidárias eram vãs; que, consequentemente, os mais respeitados, eloquentes e representativos membros da comunidade eram uns néscios e que as autoridades constituídas eram não apenas perniciosas mas também obtusas e desonestas. Para o nascimento dessa solidariedade, pouco importava que o trabalhador desempregado odiasse o status quo e as autoridades sob a forma do Partido Social-Democrata; que o pequeno proprietário desapossado o fizesse sob a forma de um partido centrista ou de direita; e que os antigos membros das classes média e superior se manifestassem sob a forma de extrema direita tradicional. Essa massa de homens insatisfeitos e desesperados aumentou rapidamente na Alemanha e na Áustria após a Primeira Guerra Mundial, quando a inflação e o desemprego agravaram as consequências desastrosas da derrota militar, despontou em todos os Estados sucessórios e apoiou os movimentos extremistas da França e da Itália desde a Segunda Guerra Mundial.

Foi nessa atmosfera de colapso da sociedade de classes que se desenvolveu a psicologia do homem de massa da Europa. O fato de que o mesmo destino, com monótona mas abstrata uniformidade, tocava um grande número de indivíduos não evitou que cada qual se julgasse, a si próprio, em termos de fracasso individual e criticasse o mundo em termos de injustiça específica. Contudo, essa amargura egocêntrica, embora constantemente repetida no isolamento individual e a despeito da sua tendência niveladora, não chegaria a constituir laço comum, porque não se baseava em qualquer interesse comum, fosse econômico, social ou político. Esse egocentrismo, portanto, trazia consigo um claro enfraquecimento do instinto de autoconservação. A consciência da desimportância e da dispensabilidade deixava de ser a expressão da frustração individual e tornava-se um fenômeno de massa. O velho provérbio de que o pobre e o oprimido nada têm a perder exceto o sofrimento nem sequer se aplicava aos homens da massa porque, ao perderem o interesse no próprio bem-estar, eles perdiam muito mais do que o sofrimento da miséria; perdiam a fonte das preocupações e cuidados que inquietam e moldam a vida humana. Himmler, que conhecia tão bem a mentalidade daqueles a quem organizava, descreveu não apenas os membros da SS, mas as vastas camadas de onde os recrutava, quando disse que eles não estavam interessados em “problemas do dia a dia”, mas somente em “questões ideológicas de importância para as próximas décadas ou séculos”, conscientes de que “trabalham numa grande tarefa que só aparece uma vez a cada 2 mil anos” (20). A gigantesca formação de massas produziu um tipo de mentalidade que, como Cecil Rhodes quarenta anos antes, raciocinava em termos de continentes e sentia em termos de séculos.

Eminentes homens de letras e estadistas europeus predisseram, a partir do começo do século 19, o surgimento do homem da massa e o advento de uma era da massa. Toda uma literatura sobre a conduta da massa e a psicologia da massa demonstrou e popularizou o conhecimento, tão comum entre os antigos, da afinidade entre a democracia e a ditadura, entre o governo da ralé e a tirania. Mas, embora as previsões quanto ao surgimento de demagogia, credulidades, superstições e brutalidade tenham se realizado até certo ponto, grande parte do seu significado se diluiu em vista de fenômenos inesperados e imprevistos, como a perda radical do interesse do indivíduo em si mesmo (21), a indiferença cínica ou enfastiada diante da morte, a inclinação apaixonada por noções abstratas guindadas ao nível de normas de vida, e o desprezo geral pelas óbvias regras do bom senso.

As massas, contrariamente ao que foi previsto, não resultaram da crescente igualdade de condição e da expansão educacional, com a sua consequente perda de qualidade e popularização de conteúdo, pois até os indivíduos altamente cultos se sentiam particularmente atraídos pelos movimentos de massa. Nem o mais sofisticado individualismo evitava aquele autoabandono em direção à massa que os movimentos de massa propiciavam. O fato de a individualização e a cultura não evitarem a formação de atitudes de massa era tão inesperado que foi atribuído à morbidez e ao niilismo da moderna intelligentsia, ao ódio de si próprios que supostamente caracteriza os intelectuais. Não obstante, os caluniados intelectuais constituíam apenas o exemplo mais ilustrativo e eram os porta-vozes mais eloquentes de um fenômeno geral. A atomização social e a individualização extrema precederam os movimentos de massa, que, muito antes de atraírem, com muito mais facilidade, os membros sociáveis e não individualistas dos partidos tradicionais, acolheram os completamente desorganizados, os típicos “não alinhados” que, por motivos individualistas, sempre haviam se recusado a reconhecer laços ou obrigações sociais.

A verdade é que as massas surgiram dos fragmentos da sociedade atomizada, cuja estrutura competitiva e concomitante solidão do indivíduo eram controladas apenas quando se pertencia a uma classe. A principal característica do homem da massa não é a brutalidade nem a rudeza, mas o seu isolamento e a sua falta de relações sociais normais. Vindas da sociedade do Estado-nação, que era dominada por classes cujas fissuras haviam sido cimentadas pelo sentimento nacionalista, essas massas, no primeiro desamparo da sua existência, tenderam para um nacionalismo especialmente violento, que os líderes aceitavam por motivos puramente demagógicos, contra os seus próprios instintos e finalidades (22).

Nem o nacionalismo tribal nem o niilismo rebelde são característicos das massas, ou lhes são ideologicamente apropriados, como o eram para a ralé. Mas os mais talentosos líderes de massa de nossa época ainda vieram da ralé, e não das massas (23). Hitler, cuja biografia se lê como um livro-texto exemplar a esse respeito, e Stálin provinham da aparelhagem conspirativa do partido, onde se misturavam proscritos e revolucionários. O antigo partido de Hitler, composto quase exclusivamente de desajustados, fracassados e aventureiros, constituía na verdade “um exército de boêmios” (24) que eram apenas o avesso da sociedade burguesa e a quem, consequentemente, a burguesia alemã poderia ter usado com sucesso para seus próprios fins. Na realidade, a burguesia se deixou enganar pelos nazistas do mesmo modo como a facção Röhm-Schleicher no Reichswehr [o Exército regular da República de Weimar], que também julgou que Hitler, a quem havia usado como alcaguete, ou a SA, que tinha sido usada para propaganda militarista e treino paramilitar, agiriam como seus agentes e ajudariam a criar uma ditadura militar (25). Ambos consideraram o movimento nazista em seus próprios termos de filosofia política da ralé (26), e não perceberam o apoio independente e espontâneo das massas aos novos líderes da ralé, nem o genuíno talento desses líderes para a criação de novas formas de organização. A ralé, enquanto força motriz das massas, já não era o agente da burguesia nem de ninguém a não ser das próprias massas.

Os movimentos totalitários dependiam menos da falta de estrutura de uma sociedade de massa do que das condições específicas de uma massa atomizada e individualizada, como se pode constatar por uma comparação do nazismo com o bolchevismo, que surgiram em seus respectivos países em circunstâncias muito diversas. A fim de transformar a ditadura revolucionária de Lênin em completo regime totalitário, Stálin teve primeiro de criar artificialmente aquela sociedade atomizada que havia sido preparada para os nazistas na Alemanha por circunstâncias históricas.

A vitória, surpreendentemente fácil, da Revolução de Outubro ocorreu num país onde a burocracia despótica e centralizada governava uma massa populacional desestruturada, que não se enquadrava organizacionalmente nem nos vestígios das ordens feudais rurais nem nas classes capitalistas urbanas, nascentes e débeis. Quando Lênin declarou que em nenhuma outra parte do mundo teria sido tão fácil galgar o poder e tão difícil conservá-lo, sabia não só da fraqueza da classe operária russa, mas também das anárquicas condições sociais em geral, que propiciavam mudanças súbitas. Desprovido do instinto de um líder de massas — pois não era orador e tinha o vezo de confessar e analisar publicamente os próprios erros, o que atentava contra as regras da demagogia —, Lênin se apegou imediatamente a toda diferenciação possível, fosse social, nacional ou profissional, que pudesse dar alguma estrutura à população, e parecia estar convencido de que só essa estratificação podia salvar a revolução. Legalizou a anárquica expropriação dos donos de terra pelos camponeses, e assim estabeleceu na Rússia, pela primeira vez e provavelmente a última, aquela classe camponesa emancipada que, desde a Revolução Francesa, havia sido o mais firme esteio dos Estados-nações ocidentais. Tentou fortalecer a classe trabalhadora encorajando os sindicatos independentes. Tolerou a tímida aparição de uma nova classe média proveniente da NEP [Nova Política Econômica], após o fim da guerra civil. Introduziu outras formas de distinção, organizando e, às vezes, até inventando o maior número possível de nacionalidades, fomentando a consciência nacional e a percepção de diferenças históricas e culturais mesmo entre as tribos mais primitivas da União Soviética. Parece claro que, nessas questões políticas puramente práticas, Lênin seguiu seus instintos de estadista e não as suas convicções marxistas; de qualquer forma, a sua política demonstra que temia mais a ausência de uma estrutura social ou de outra natureza do que o possível desenvolvimento de tendências centrífugas nas nacionalidades recém-emancipadas, ou mesmo o crescimento de uma nova burguesia a partir das classes média e camponesa recém-estabelecidas. Sem dúvida, Lênin sofreu a sua maior derrota quando, com o espocar da guerra civil, o supremo poder que ele originalmente planejava concentrar nos Sovietes passou definitivamente às mãos da burocracia do Partido; mas mesmo isso, trágico como era para o curso da Revolução, não teria levado necessariamente ao totalitarismo. Uma ditadura unipartidária acrescentava apenas mais uma classe à estratificação do país já em curso, isto é, a burocracia que, segundo os críticos socialistas da revolução, “possuía o Estado como propriedade privada” (Marx) (27). No momento da morte de Lênin, os caminhos ainda estavam abertos. A formação de operários, camponeses e classes médias não precisaria levar à luta de classes que havia sido característica do capitalismo europeu. A agricultura ainda podia ser desenvolvida numa base coletiva, cooperativa ou privada, e a economia nacional ainda estava livre para seguir um padrão capitalista, estatal-capitalista ou de mercado. Nenhuma dessas alternativas teria destruído automaticamente a nova estrutura do país.

Todas essas novas classes e nacionalidades barravam o caminho de Stálin quando ele começou a preparar o país para o governo totalitário. A fim de produzir uma massa atomizada e amorfa, necessitava primeiro liquidar o resto de poder dos Sovietes que, como órgão principal de representação nacional, ainda tinham certa função e impediam o domínio absoluto da hierarquia do Partido. Assim, debilitou primeiro os Sovietes nacionais, introduzindo neles células bolchevistas das quais sairiam, com exclusividade, os funcionários superiores para os comitês centrais (28). Por volta de 1930, os últimos vestígios das antigas instituições comunais haviam desaparecido: em seu lugar existia uma burocracia partidária firmemente centralizada, cujas tendências para a russificação não eram muito diferentes daquelas do regime czarista, exceto que os novos burocratas já não tinham medo de quem soubesse ler e escrever.

O governo bolchevista empreendeu então a liquidação das classes e começou, por motivos ideológicos e de propaganda, com as classes proprietárias, a nova classe média das cidades e os camponeses do interior. Por serem numerosos e possuírem propriedades, os camponeses haviam sido até então, potencialmente, a classe mais poderosa da União; consequentemente, a sua liquidação foi mais meticulosa e cruel que a de qualquer outro grupo, e foi levada a cabo por meio de fome artificial e deportação, a pretexto de expropriação dos kulaks e de coletivização. A liquidação das classes média e camponesa terminou no início da década de 30: os que não se incluíam entre os muitos milhões de mortos ou milhões de deportados sabiam agora “quem mandava neste país” e haviam compreendido que as suas vidas e as vidas de suas famílias não dependiam dos seus concidadãos, mas somente dos caprichos do governo, aos quais tinham de enfrentar em completa solidão, sem qualquer tipo de auxílio do grupo a que pertencessem. Nem estatísticas nem documentos situam o momento exato em que a nova classe agrícola, produzida pela coletivização e ligada por interesses comuns, passou a representar um perigo latente para o governo totalitário, devido ao seu número e posição vital da economia do país. Mas, para aqueles que sabem decifrar as “informações oficiais” do totalitarismo, esse instante ocorrera dois anos antes da morte de Stálin, quando ele propôs dissolver as fazendas coletivas e transformá-las em unidades maiores. Não sobreviveu para realizar esse plano; dessa vez, os sacrifícios teriam sido ainda mais altos, e as caóticas consequências para a economia global ainda mais catastróficas do que por ocasião do extermínio da primeira classe camponesa, mas não há motivo para julgar que ele não o teria conseguido; não há classe que não possa ser extinta quando se mata um número suficientemente grande de seus membros.

A próxima classe a ser liquidada como grupo era a dos operários. Como classe, eram mais débeis e ofereciam muito menor resistência que os camponeses, porque a expropriação dos donos de fábricas, que eles haviam realizado espontaneamente durante a Revolução, ao contrário da expropriação dos donos de terra pelos camponeses, havia sido imediatamente frustrada pelo governo, que confiscara as fábricas como sendo propriedade do Estado, sob o pretexto de que o Estado, de qualquer modo, pertencia ao proletariado. O sistema stakhanovista, adotado no início da década de 30, eliminou a solidariedade e a consciência de classe dos trabalhadores pela concorrência feroz implantada pela solidificação de uma aristocracia operária, separada do trabalhador comum por uma distância social mais aguda que a distância entre os trabalhadores e a gerência. Esse processo foi completado em 1938, quando a criação do documento de trabalho transformou oficialmente toda a classe operária russa num gigantesco corpo de trabalhadores forçados.

Finalmente, veio a liquidação daquela burocracia que havia ajudado a executar as medidas anteriores de extermínio. Stálin levou dois anos, de 1936 a 1938, para se desfazer de toda a aristocracia administrativa e militar da sociedade soviética; quase todas as repartições públicas, fábricas, entidades econômicas e culturais e agências governamentais, partidárias e militares passaram a novas mãos, quando “quase a metade do pessoal administrativo, do partido ou não, havia sido eliminada”, e foram liquidados mais de 50% de todos os membros do partido e “pelo menos outros 8 milhões de pessoas” (29). A criação de um passaporte interno, no qual tinham de ser registradas e autorizadas todas as viagens de uma cidade para outra, completou a destruição da burocracia como classe. No que diz respeito ao seu status jurídico, a burocracia e os funcionários do partido estavam agora no mesmo nível dos operários; eram também parte da vasta multidão de trabalhadores forçados russos, e o seu status como classe privilegiada na sociedade soviética era mera lembrança do passado. E, como esse expurgo geral terminou com a liquidação das mais altas autoridades policiais — as mesmas que antes haviam organizado o expurgo geral —, nem mesmo os oficiais da GPU, que haviam instaurado o terror, podiam pensar que, como grupo, ainda representassem alguma coisa, muito menos poder.

Nenhum desses imensos sacrifícios de vida humana foi motivado por uma raison d’état no antigo sentido do termo. Nenhuma das camadas sociais liquidadas era hostil ao regime, nem era provável que se tornasse hostil num futuro previsível. A oposição ativa e organizada havia cessado de existir por volta de 1930 quando Stálin, em seu discurso no Décimo Sexto Congresso do Partido, declarou ilegais as divergências ideológicas dentro do partido, sendo que mesmo essa frouxa oposição mal pudera basear-se em alguma classe existente (30). O terror ditatorial — que difere do terror totalitário por ameaçar apenas adversários autênticos, mas não cidadãos inofensivos e carentes de opiniões políticas — havia sido suficientemente implacável para sufocar toda a atividade política, ostensiva ou clandestina, mesmo antes da morte de Lênin. A intervenção do exterior, que poderia apoiar um dos setores descontentes da população, já não constituía perigo em 1930, quando a União Soviética, já reconhecida pela maioria dos Estados e firmemente implantada, tornou-se parceira do sistema internacional vigente. Contudo, se Hitler fosse um conquistador comum e não um governante totalitário rival, poderia ter tido excelente oportunidade de conquistar pelo menos a Ucrânia com o consentimento de sua população.

Se politicamente o extermínio de classes não fazia sentido, foi simplesmente
desastroso para a economia soviética. As consequências da fome artificialmente criada em 1933 foram sentidas durante anos em todo o país; a introdução do sistema stakhanovista em 1935, com a arbitrária aceleração da produção individual, resultou num “desequilíbrio caótico” da jovem indústria (31); a liquidação da burocracia, isto é, da classe de gerentes e engenheiros das fábricas, terminou privando as empresas industriais da escassa experiência e do pouco know-how que a nova intelligentsia técnica russa havia conseguido adquirir.

Desde os tempos antigos, a imposição da igualdade de condições aos governados constituiu um dos principais alvos dos despotismos e das tiranias, mas essa equalização não basta para o governo totalitário, porque deixa ainda intactos certos laços não políticos entre os subjugados, tais como laços de família e de interesses culturais comuns. O totalitarismo que se preza deve chegar ao ponto em que tem de acabar com a existência autônoma de qualquer atividade que seja, mesmo que se trate de xadrez. Os amantes do “xadrez por amor ao xadrez”, adequadamente comparados por seu exterminador aos amantes da “arte por amor à arte” (32), demonstram que ainda não foram absolutamente atomizados todos os elementos da sociedade, cuja uniformidade inteiramente homogênea é a condição fundamental para o totalitarismo. Do ponto de vista dos governantes totalitários, uma sociedade dedicada ao xadrez por amor ao xadrez difere apenas um pouco da classe de agricultores que o são por amor à agricultura, embora seja menos perigosa. Himmler definiu muito bem o elemento da SS como o novo tipo de homem que em nenhuma circunstância fará jamais “alguma coisa apenas por amor a essa coisa” (33).

A atomização da massa na sociedade soviética foi conseguida pelo habilidoso uso de repetidos expurgos que invariavelmente precediam o verdadeiro extermínio de um grupo. A fim de destruir todas as conexões sociais e familiares, os expurgos eram conduzidos de modo a ameaçarem com o mesmo destino o acusado e todas as suas relações, desde meros conhecidos até os parentes e amigos íntimos.

Ou seja, matar a rede!

A “culpa por associação” é uma invenção engenhosa e simples; logo que um homem é acusado, os seus antigos amigos se transformam nos mais amargos inimigos: para salvar a própria pele, prestam informações e acorrem com denúncias que “corroboram” provas inexistentes, a única maneira que encontram de demonstrarem a sua própria fidelidade. Em seguida, tentam provar que a sua amizade com o acusado nada mais era que um meio de espioná-lo e delatá-lo como sabotador, trotskista, espião estrangeiro ou fascista. Uma vez que o mérito é “julgado pelo número de denúncias apresentadas contra os camaradas” (34), é óbvio que a mais elementar cautela exige que se evitem, se possível, todos os contatos íntimos — não para evitar que outros descubram os pensamentos secretos, mas para eliminar, em caso quase certo de problemas futuros, a presença daqueles que sejam obrigados, pelo perigo da própria vida, à necessidade de arruinar a de outrem. Em última análise, foi através do desenvolvimento desse artifício, até os seus máximos e mais fantásticos extremos, que os governantes bolchevistas conseguiram criar uma sociedade atomizada e individualizada como nunca se viu antes, e a qual nenhum evento ou catástrofe poderiam por si só ter suscitado.

Sim, matando a rede!

Os movimentos totalitários são organizações maciças de indivíduos atomizados e isolados. Distinguem-se dos outros partidos e movimentos pela exigência de lealdade total, irrestrita, incondicional e inalterável de cada membro individual. Essa exigência é feita pelos líderes dos movimentos totalitários mesmo antes de tomarem o poder e decorre da alegação, já contida em sua ideologia, de que a organização abrangerá, no devido tempo, toda a raça humana. Contudo, onde o governo totalitário não é preparado por um movimento totalitário (como foi o caso da Rússia em contraposição com a Alemanha nazista), o movimento tem de ser organizado depois, e as condições para o seu crescimento têm de ser artificialmente criadas de modo a possibilitar a lealdade total que é a base psicológica do domínio total. Não se pode esperar essa lealdade a não ser de seres humanos completamente isolados que, desprovidos de outros laços sociais — de família, amizade, camaradagem — só adquirem o sentido de terem lugar neste mundo quando participam de um movimento, pertencem ao partido.

A lealdade total só é possível quando a fidelidade é esvaziada de todo o seu conteúdo concreto, que poderia dar azo a mudanças de opinião. Os movimentos totalitários, cada um ao seu modo, fizeram o possível para se livrarem de programas que especificassem um conteúdo concreto, herdados de estágios anteriores e não totalitários da sua evolução. Por mais radical que seja, todo objetivo político que não inclua o domínio mundial, todo programa político definido que trate de assuntos específicos em vez de referir-se a “questões ideológicas que serão importantes durante séculos” é um entrave para o totalitarismo. A grande realização de Hitler ao organizar o movimento nazista — que ele gradualmente construiu a partir de um pequeno partido tipicamente nacionalista formado por gente obscura e meio louca — é que ele liberou o movimento do antigo programa do partido, não por mudá-lo ou aboli-lo oficialmente, mas simplesmente por recusar-se a mencioná-lo ou discutir os seus pontos (35). Nesse aspecto, como em outros, a tarefa de Stálin foi muito mais difícil: o programa socialista do partido bolchevista era uma carga muito mais incômoda (36) que os 25 pontos do programa do partido nazista redigidos por um economista amador e político maluco (37). Mas Stálin, após haver abolido as facções do partido, conseguiu finalmente o mesmo resultado, através dos constantes zigue-zagues da linha partidária comunista e da constante reinterpretação e aplicação do marxismo, o que esvaziava a doutrina de todo o seu conteúdo, já que não era possível prever o rumo ou ação que ela ditaria. O fato de que o mais perfeito conhecimento do marxismo e do leninismo já não servia de guia para a conduta política — e de que, pelo contrário, só era possível seguir a linha do partido se se repetisse a cada manhã o que Stálin havia dito na véspera — resultou naturalmente no mesmo estado de espírito, na mesma obediência concentrada, imune a qualquer tentativa de se compreender o que se estava fazendo, expressa pelo engenhoso lema de Himmler para os homens da SS: “Minha honra é a minha lealdade” (38).

A falta de um programa partidário, ou o fato de se ignorá-lo, não é, por si só, necessariamente um sinal de totalitarismo. O primeiro a considerar programas e plataformas como desnecessários pedaços de papel e embaraçosas promessas, não condizentes com o estilo e o ímpeto de um movimento, foi Mussolini com a sua filosofia fascista de ativismo e inspiração no próprio momento histórico (39). Todo líder da ralé é caracterizado pela mera sede de poder e pelo desprezo à “tagarelice” quando se lhe pergunta o que pretende fazer com ele. O verdadeiro objetivo do fascismo era apenas a tomada do poder e a instalação da “elite” fascista no governo. O totalitarismo jamais se contenta em governar por meios externos, ou seja, através do Estado e de uma máquina de violência; graças à sua ideologia peculiar e ao papel dessa ideologia no aparelho de coação, o totalitarismo descobriu um meio de subjugar e aterrorizar os seres humanos internamente. Nesse sentido, elimina a distância entre governantes e governados e estabelece uma situação na qual o poder e o desejo de poder, tal como os entendemos, não representam papel algum ou, na melhor das hipóteses, têm um papel secundário. Essencialmente, o líder totalitário é nada mais e nada menos que o funcionário das massas que dirige; não é um indivíduo sedento de poder impondo aos seus governados uma vontade tirânica e arbitrária. Como simples funcionário, pode ser substituído a qualquer momento e depende tanto do “desejo” das massas que ele incorpora, como as massas dependem dele. Sem ele, elas não teriam representação externa e não passariam de um bando amorfo; sem as massas, o líder seria uma nulidade. Hitler, que conhecia muito bem essa interdependência, exprimiu-a certa vez num discurso perante a SA: “Tudo o que vocês são, o são através de mim; tudo o que eu sou, sou somente através de vocês” (40). Infelizmente nossa tendência é dar pouca importância a declarações desse tipo ou interpretá-las erradamente. Na tradição política do Ocidente (41), a ação é definida em termos de dar e executar ordens. Mas essa ideia sempre pressupôs alguém que comanda, que pensa e deseja e, em seguida, impõe o seu pensamento e o seu desejo sobre um grupo destituído de pensamento e de vontade — seja por meio da persuasão, da autoridade ou da violência. Hitler, porém, era da opinião de que até mesmo “o pensamento […] [só existe] em virtude da formulação ou execução de uma ordem” (42), eliminando assim, mesmo teoricamente, de um lado a diferença entre pensar e agir e, do outro, a diferença entre governantes e governados.

Eis aqui a chave: pensar sob comando!

Nem o nacional-socialismo nem o bolchevismo jamais proclamaram uma nova forma
de governo ou afirmaram que o seu objetivo seria alcançado com a tomada do poder e o controle da máquina estatal. Sua ideia de domínio — a dominação permanente de todos os indivíduos em toda e qualquer esfera da vida (43) — é algo que nenhum Estado ou mecanismo de violência jamais pôde conseguir, mas que é realizável por um movimento totalitário constantemente acionado. A tomada do poder através dos instrumentos de violência nunca é um fim em si, mas apenas um meio para um fim, e a tomada do poder em qualquer país é apenas uma etapa transitória e nunca o fim do movimento. O fim prático do movimento é amoldar à sua estrutura o maior número possível de pessoas, acioná-las e mantê-las em ação; um objetivo político que constitua a finalidade do movimento totalitário simplesmente não existe.

Notas

1. O “feitiço” com que Hitler dominava os seus ouvintes foi reconhecido muitas vezes, e recentemente pelos editores de Hitlers Tischgespräche , Bonn, 1951 ( Hitler’s table talks, edição americana, Nova York, 1953; citações da edição original alemã). Esse fascínio — “o estranho magnetismo que Hitler irradiava com tanta força” — era devido “à crença fanática que ele tinha em si mesmo” (introdução de Gerhard Ritter, p. 14), em sua competência sobre qualquer assunto, e no fato de que qualquer parecer que emitisse — fosse a respeito dos efeitos nocivos do fumo ou sobre a política de Napoleão — sempre podia ser incluído numa ideologia que pretendia abranger todas as coisas do mundo. O fascínio é um fenômeno social, e o fascínio que Hitler exercia sobre o seu ambiente deve ser definido em termos daqueles que o rodeavam. A sociedade tende a aceitar uma pessoa pelo que ela pretende ser, de sorte que um louco que finja ser um gênio sempre tem certa possibilidade de merecer crédito, pelo menos no início. Na sociedade moderna, com a sua falta de discernimento, essa tendência é ainda maior, de modo que uma pessoa que não apenas tem certas opiniões, mas as apresenta num tom de inabalável convicção, não perde facilmente o prestígio, não importa quantas vezes tenha sido demonstrado o seu erro. Hitler descobriu que o inútil jogo entre as várias opiniões e “a convicção […] de que tudo é conversa fiada” (p. 281) podia ser evitado se se aderisse a uma das muitas opiniões correntes com “inflexível consistência”. A arbitrariedade de tal atitude exerce um forte fascínio sobre a sociedade porque lhe permite salvar-se da confusão de opiniões que ela mesma constantemente produz. Esse “dom” do fascínio, no entanto, tem importância apenas social. Em Tischgespräche Hitler estava envolvido num jogo social, falando não aos da sua espécie, mas aos generais da Wehrmacht, dos quais todos pertenciam à “sociedade”. Seria, porém, errôneo acreditar que os sucessos de Hitler se baseassem em seu “poder de fascínio”; se fosse só por isso, nunca teria passado de figura de proa dos círculos sociais.

2. Ver as esclarecedoras observações de Carlton J. H. Hayes sobre “The novelty of totalitarianism in the history of Western civilization”, em Symposium on the totalitarian state, 1939, Proceedings of the American Philosophical Society, Filadélfia, 1940, vol. LXXXII.

3. Tratava-se “da primeira grande revolução da história realizada com a aplicação da lei existente no momento da tomada do poder” (Hans Frank, Recht und Verwaltung, 1939, p. 8).

4. O melhor estudo de Hitler e da sua carreira é a biografia de Hitler por Alan Bullock, Hitler, a study in tyranny, Londres, 1952. Segundo a tradição inglesa da biografia política, o autor emprega meticulosamente todas as fontes disponíveis e dá uma visão completa do ambiente político contemporâneo. Com essa publicação, as excelentes obras de Konrad Heiden — principalmente Der Fuehrer: Hitler’s rise to power, Boston, 1944 — foram superadas, embora continuem sendo importantes para a interpretação geral dos acontecimentos. No tocante à carreira de Stálin, uma obra fundamental é ainda Stalin: a critical survey of Bolshevism, Nova York, 1939, de Boris Souvarine. Isaac Deutscher, Stalin: a political biography, Nova York e Londres, 1949, é indispensável pela rica documentação e grande conhecimento das lutas internas do partido bolchevista; peca pela comparação de Stálin a Cromwell, Napoleão e Robespierre.

5. Franz Borkenau, The totalitarian enemy, Londres, 1940, p. 231.

6. Citado da edição alemã dos “Protocolos dos sábios do Sião”: Die Zionistischen Protokolle mit einem Vorund Nachwort von Theodor Fritsch, 1924, p. 29.

7. Essa é, na verdade, uma especialidade do totalitarismo russo. É interessante observar que nos primeiros julgamentos de engenheiros estrangeiros da União Soviética a simpatia pelo comunismo era usada para induzir a pessoa à autoacusação: “Durante todo o tempo as autoridades insistiam em que devia confessar haver cometido atos de sabotagem dos quais não era culpado. Recusei-me. Disseram-me: ‘Se és a favor do governo soviético, como afirmas, prova-o pelos teus atos; o governo precisa da tua confissão’”. Relatado por Anton Ciliga, The Russian enigma, Londres, 1940, p. 153. Trótski nos deu uma justificativa teórica para esse tipo de conduta: “Só podemos ter razão com o Partido e através dele, pois a história não nos concede outra forma de certeza. Os ingleses têm um ditado, ‘Minha pátria, certa ou errada’. […] Temos um motivo histórico muito melhor para dizer que o partido, certo ou errado em certos casos individuais, é o meu partido” (Souvarine, op. cit., p. 362). Por outro lado, os oficiais do Exército Vermelho que não pertenciam ao movimento eram julgados a portas fechadas.

8. O autor nazista Andreas Pfenning rejeita explicitamente a ideia de que a SA estivesse lutando por um “ideal” ou fosse motivada por uma “experiência idealista”. “A experiência básica [dos homens da SA] ocorreu no decorrer da luta.” (Em “Gemeinschaft und Staatswissenschaft” [Comunidade e ciência do Estado], publicada na revista Zeitschrift für die gesamte Staatswissenschaft, vol. 96. Tradução citada de Ernst Fraenkel, The dual state, Nova York e Londres, 1941, p. 92.) Vê-se, aliás, do extenso material impresso pelo Hauptamt-Schulungsamt, principal centro de doutrinação da SS, que a palavra “idealismo” foi cuidadosamente evitada. Não se exigia idealismo dos membros da SS, mas “perfeita consistência lógica em todas as questões de ideologia e o prosseguimento impiedoso da luta política” (Werner Best, Die deutsche Polizei, 1941, p. 99).

9. A esse respeito, a Alemanha do pós-guerra oferece muitos exemplos esclarecedores. O fato de que as tropas negras americanas não foram, de modo algum, recebidas com hostilidade, a despeito da maciça doutrinação racial levada a cabo pelos nazistas, já é bastante interessante. De modo igualmente surpreendente, a Waffen-SS “não lutou até o último homem”, e os componentes dessa unidade especial, “cujos sacrifícios ultrapassaram de longe os da Wehrmacht, se comportavam nas últimas semanas de guerra como qualquer unidade militar composta de civis” (Karl O. Paetel: “Die SS”, em: Vierteljahreshefte für Zeitgeschichte, janeiro de 1954).

10. Excluam-se dessa afirmativa os governos da Europa oriental dominados por Moscou, pois eles governam em benefício de Moscou e atuam como agentes do Comintern, sendo exemplos do alastramento do movimento totalitário dirigido por Moscou, não de criações nativas. A única exceção parece ter sido Tito, da Iugoslávia, que pôde romper com Moscou não apenas por perceber que os métodos totalitários inspirados pela Rússia lhe custariam o apoio da população, mas por estar longe do alcance do Exército Vermelho.

11. Uma prova da natureza não totalitária da ditadura fascista é o número surpreendentemente pequeno de criminosos políticos, e as sentenças relativamente suaves que lhes eram aplicadas. Durante os anos de 1926 a 1932, em que foram particularmente ativos, os tribunais especiais para julgamento dos criminosos políticos pronunciaram sete sentenças de morte, 257 sentenças de dez ou mais anos de prisão, 1.360 de menos de dez anos, e muitos outros mais foram exilados; 12 mil pessoas foram presas e julgadas inocentes, o que seria inconcebível nas condições do terror nazista ou bolchevista. Ver E. Kohn-Bramstedt, Dictatorship and political police: the technique of control by fear, Londres, 1945, pp. 51 ss.

12. Os teóricos políticos do nazismo sempre afirmaram enfaticamente que “o ‘estado ético’ de Mussolini e o ‘Estado ideológico’ [Weltanschauungsstaat] de Hitler não podem ser mencionados no mesmo fôlego” (Gottfried Neesse, “Die verfassungsrechtliche Gestaltung der Ein-Partei”, em Zeitschrift für die gesamte Staatswissenschaft, 1938, vol. 98). Disse Goebbels acerca da diferença entre o fascismo e o nacional-socialismo: “[O fascismo] é […] completamente diferente do nacional-socialismo. Enquanto este último desce até as raízes, o fascismo é superficial” ( The Goebbels diaries 1942-1943, ed. por Louis Lochner, Nova York, 1948, p. 71). “[O Duce] não é um revolucionário como o Führer ou Stálin. Está tão preso ao povo italiano que lhe faltam as amplas qualidades de um revolucionário em escala mundial” (ibid., p. 468). Himmler expressou a mesma opinião num discurso pronunciado em 1943 numa Conferência de Oficiais Comandantes: “O fascismo e o nacional-socialismo são fundamentalmente diferentes, […] não há absolutamente nenhuma comparação entre eles como movimentos espirituais e ideológicos”. (Ver Kohn-Bramstedt, op. cit., apêndice A.) Por outro lado, ainda no começo da década de 20, Hitler reconheceu a afinidade entre os movimentos nazista e comunista: “Em nosso movimento, os dois extremos se tocam: os comunistas da esquerda e os oficiais e estudantes da direita. Esses sempre foram os dois elementos mais ativos. […] Os comunistas foram os idealistas do socialismo”. (Ver Heiden, op. cit., p. 147.) Röhm, o chefe da SA, apenas repetia uma opinião corrente quando escreveu, no fim da década de 20: “Muito nos separa dos comunistas, mas respeitamos a sinceridade de sua convicção e sua disposição de fazer sacrifícios em benefício da própria causa, e isto nos une a eles” (Ernst Röhm, Die Geschichte eines Hochverräters [A história de um traidor], 1933, Volksausgabe, p. 273). Durante a guerra, os nazistas reconheceriam os russos como seus pares com mais facilidade do que qualquer outra nação. Falando em maio de 1943, Hitler “começou mencionando o fato de que, nesta guerra, a burguesia e os Estados revolucionários se confrontam. Para nós tem sido fácil condenar os Estados burgueses, pois são bastante inferiores a nós em sua educação e atitude. Os países que têm uma ideologia ostentam uma vantagem sobre os Estados burgueses […] [No Leste] encontramos um oponente que também alimenta uma ideologia, embora errada” (Goebbels diaries, p. 355). Essa opinião baseava-se em considerações ideológicas, não militares. Gottfried Neesse, Partei und Staat [Partido e Estado], 1936, oferece-nos a versão oficial da luta do movimento pelo poder, quando escreve: “Para nós, a frente unida do sistema abrange desde o Partido Nacional do Povo Alemão [i. e., a extrema direita] até os social-democratas. O Partido Comunista é um inimigo fora do sistema. Por isso, quando, nos primeiros meses de 1933, a morte do sistema já estava decretada, ainda nos restava travar uma batalha decisiva contra o Partido Comunista” (p. 76).

13. Hitlers Tischgespräche , p. 113. Nessa obra encontramos ainda numerosos exemplos que demonstram que, ao contrário de certas lendas do pós-guerra, Hitler nunca pretendeu defender “o Ocidente” contra o bolchevismo, mas sempre esteve disposto a unir-se aos “vermelhos” para destruir o Ocidente, mesmo durante a luta contra a União Soviética. Ver especialmente pp. 95, 108, 113 ss., 158, 385.

14. Sabemos hoje que Stálin foi repetidamente advertido quanto ao iminente ataque de Hitler à União Soviética. Mesmo quando o adido militar soviético em Berlim o informou quanto ao dia do ataque nazista, Stálin recusou-se a crer que Hitler violaria o tratado. (Ver Speech on Stalin de Khrushchev, texto distribuído pelo Departamento de Estado norte-americano, New York Times, 5 de junho de 1956.)

15. A seguinte informação, relatada por Souvarine, op. cit., p. 669, constitui importante exemplo: “Segundo W. Krivitsky, cuja excelente fonte de informes confidenciais é a GPU: ‘Em lugar dos 171 milhões de habitantes estimados para 1937, só foram recenseados 145 milhões; assim, não se conseguem encontrar 30 milhões de pessoas na União Soviética”. Como se sabe, só a liquidação dos kulaks, no início da década de 30, havia custado perto de 8 milhões de vidas. Ver Communism in action, U. S. Government, Washington, 1946, p. 140.

16. Parte desses planos relativa ao extermínio de povos não germânicos, principalmente dos eslavos, pode ser encontrada no Bréviaire de la haine, de Léon Poliakov, Paris, 1951, cap. 8. Um projeto de lei de saúde do Reich, escrito pelo próprio Hitler, mostra que a máquina de destruição nazista não se teria detido nem mesmo diante do povo alemão. Nesse projeto, ele propõe “isolar” do resto da população todas as famílias que tenham casos de moléstias do coração ou do pulmão, sendo que o próximo passo nesse programa era, naturalmente, a liquidação física. Este e vários outros projetos preparados para depois da vitória estão contidos numa circular aos líderes distritais (Kreisleiter) de Hesse-Nassau, sob a forma de relatório de uma discussão, havida no quartel-general do Führer, sobre “medidas que deviam ser adotadas antes […] e depois da vitória”. Ver a coleção de documentos em Nazi conspiracy and aggression, Washington, 1946, et seq., vol. VII, p. 175. Nesse contexto, há ainda a planejada promulgação de uma “legislação global quanto a estranhos”, por meio da qual a “autoridade institucional” da polícia promoverá o embarque para os campos de concentração de pessoas inocentes de quaisquer crimes (Paul Werner, SS- Standartenführer, em Deutsches Jugendrecht, vol. 4, 1944). Com relação a essa “política de população negativa”, que, no seu objetivo de extermínio, positivamente se iguala aos expurgos no partido bolchevista da década de 30, é importante lembrar que “neste processo de seleção não deve haver nenhuma solução de continuidade” (Himmler, “Die Schutztaffel” [O Esquadrão de Proteção — ou seja, a unidade SS], em Grundlagen Aufbau und Wirtschaftsordnung des nationalsozialistischen Staates [Fundamentos, estrutura e ordem econômica do Estado nacional-socialista], no 7b). “A luta do Führer e do seu partido fora uma seleção que até agora não tinha sido atingida. […] Esta seleção e esta luta foram ostensivamente realizadas em 30 de janeiro de 1933. […] O Führer e sua velha guarda sabiam que o verdadeiro esforço apenas havia começado.” (Robert Ley, Der Weg zur Ordensburg [O caminho para a liderança], o. D. Verlag der Deutschen Arbeitsfront. Livro fora de comércio).

17. F. Borkenau descreve corretamente a situação: “Os comunistas obtiveram sucesso apenas modesto na tentativa de inAuenciar as massas da classe trabalhadora; portanto, sua base de massa, se a têm, é cada vez mais afastada do proletariado” (“Die neue Komintern” [O novo Comintern], em Der Monat [O Mês], Berlim, 1949, vol. 4).

18. William Ebenstein, The Nazi state, Nova York, 1943, p. 247.

19. Na descrição de Maksim Górki. Ver Souvarine, op. cit., p. 290.

20. Discurso de Heinrich Himmler sobre a “Organização e dever da SS e da polícia”, publicado em National- politischer Lehrgang der Wehrmacht vom 15–23. Januar 1937 [Instrução político-nacional das Forças Armadas, 15-23 de janeiro de 1937]. Tradução citada de Nazi conspiracy and aggression. Office of the United States Chief of Counsel for the Prosecution of Axis Criminality. U. S. Government, Washington, 1946, IV, pp. 616 ss.

21. Gustave Le Bon, La psychologie des foules, 1895, menciona o peculiar desprendimento das massas. Ver o cap. II, parágrafo 5.

22. Os fundadores do partido nazista referiam-se uma vez ou outra a esse nacionalismo, mesmo antes de Hitler havê-lo chefiado como “partido da Esquerda”. Interessante também é um incidente que ocorreu após as eleições parlamentares de 1932: “Gregor Strasser disse ao Führer, com certa amargura, que antes das eleições os nazistas poderiam ter constituído no Reichstag uma maioria com o Centro; agora já não havia essa possibilidade, os dois partidos tinham menos da metade das cadeiras do parlamento; […] Mas com os comunistas ainda tinham uma maioria, disse Hitler; e por isto ninguém pode governar contra nós” (Heiden, op. cit., pp. 94 e 495, respectivamente).

23. Compare-se Carlton J. H. Hayes, op. cit., que não diferencia entre a ralé e as massas, e supõe que os ditadores totalitários “vieram das massas e não das classes”.

24. Essa é a teoria central de K. Heiden, cujas análises do movimento nazista ainda são das mais importantes. “Dos escombros das classes mortas surge a nova classe de intelectuais, e à sua frente vão os mais inescrupulosos, aqueles que menos têm a perder e, portanto, os mais fortes: os boêmios armados, para quem a guerra é o lar, e a pátria é a guerra civil” (op. cit., p. 100).

25. A trama entre o general Schleicher, do Reichswehr, e Röhm, o chefe da SA, consistia em um plano para colocar todas as formações paramilitares sob o comando militar do Reichswehr, o que de imediato acrescentaria milhões às fileiras do Exército. Isso, naturalmente, teria certamente levado a uma ditadura militar. Em junho de 1934, Hitler liquidou Röhm e Schleicher. As negociações iniciais começaram com o pleno conhecimento de Hitler, que usou as conexões de Röhm com o Reichswehr para ludibriar os círculos militares alemães acerca de suas verdadeiras intenções. Em abril de 1932, Röhm declarou, como testemunha em um dos processos legais de Hitler, que a condição militar da SA era perfeitamente entendida pelo Reichswehr. (Para documentação comprovatória do plano Röhm- Schleicher, ver Nazi conspiracy, V, 466 ss. Ver também Heiden, op. cit., p. 450.) O próprio Röhm fala com orgulho das suas negociações com Schleicher que, segundo ele, foram iniciadas em 1931. Schleicher havia prometido colocar a SA sob o comando dos oficiais do Reichswehr em caso de emergência. (Ver Die Memoiren des Stabschefs Röhm [As memórias do comandante Röhm], Saarbrücken, 1934, p. 170.) O caráter militar da SA, moldado por Röhm e constantemente combatido por Hitler, continuou a ditar o seu vocabulário mesmo depois da liquidação da facção de Röhm. Ao contrário dos SS, os membros da SA sempre insistiram em que eram os “representantes da vontade militar da Alemanha”, e para eles o Terceiro Reich era uma “comunidade militar [apoiada em] duas colunas: o Partido e a Wehrmacht” (ver Handbuch der SA, Berlim, 1939, e Victor Lutze, “Die Sturmabteilungen” [As Seções de Assalto — ou seja, a SA], em Grundlagen, Aufbau und Wirtschaftsordnung des nationalsozialistischen Staates, no 7a).

26. A autobiografia de Röhm é, em especial, um verdadeiro clássico desse tipo de literatura.

27. Os anti-stalinistas basearam a sua crítica do desenvolvimento da União Soviética nessa formulação marxista, e até hoje continuam dominados por essa ideia. Rakovsky, escrevendo do seu exílio na Sibéria em 1930, é da seguinte opinião: “Sob as nossas vistas surgiu e está sendo formada uma ampla classe de diretores que tem suas subdivisões internas e que cresce através de cooptação calculada e nomeações diretas ou indiretas. […] O que une essa classe original é uma forma, também original, de propriedade privada, a saber, o poder do Estado” (citado por Souvarine, op. cit., p. 564). Trata-se de uma análise bastante precisa do desenvolvimento da era pré-stalinista. Para a evolução da relação entre o partido e os sovietes, que tem importância decisiva no curso da Revolução de Outubro, ver I. Deutscher, The prophet armed: Trotsky 1879-1921, 1954.

28. Em 1927, 90% dos membros dos sovietes rurais e 75% dos seus presidentes não eram membros do Partido; os comitês executivos das regiões eram formados por 50% de não partidários, enquanto no Comitê Central 75% dos delegados eram membros do partido. Ver o artigo “Bolshevism”, de Maurice Dobb, na Encyclopedia of social sciences.
A. Rosenberg, A history of bolshevism, Londres, 1934, cap. VI, descreve em detalhes como os membros do partido nos sovietes, votando “de acordo com as instruções que recebiam das autoridades permanentes do Partido”, destruíram internamente o sistema dos sovietes.
29. Citamos esses algarismos do livro de Victor Kravchenko, I chose freedom: the personal and political life of a Soviet official, Nova York, 1946, pp. 278 e 303. Trata-se, naturalmente, de uma fonte altamente duvidosa. Mas, como no caso da Rússia soviética, basicamente não se pode recorrer a não ser a fontes duvidosas, e temos de confiar inteiramente em reportagens, relatos e estimativas de um tipo ou de outro — tudo o que podemos fazer é usar qualquer informação que, pelo menos, pareça ter alto grau de probabilidade. Alguns historiadores acreditam que o método oposto — ou seja, usar exclusivamente o material fornecido pelo governo russo — é mais fidedigno, mas não é o caso, porque o material oficial não passa de propaganda.

30. O Relatório de Stálin ao Décimo Sexto Congresso denunciava o deviacionismo como “reflexo” da resistência dos camponeses e das classes pequeno-burguesas nos escalões do partido. (Ver Leninism, 1933, vol. II, cap. III.) O curioso é que a oposição ficava indefesa contra esses ataques, porque também os opositores, e especialmente Trótski, estavam “sempre ansiosos por descobrir uma luta de classes por trás da luta de cliques” (Souvarine, op. cit., p. 440).

31. Kravchenko, op. cit., p. 187.

32. Souvarine, op. cit., p. 575.

33. A senha da SS, formulada pelo próprio Himmler, começa com as palavras: “Não existe tarefa dedicada a si mesma”. Ver Gunter d’Alquen, “Die SS”, em Schriften der Hochschule für Politik [Escritos da Escola Superior de Política], 1939. Os panAetos publicados pela SS para o consumo interno repetidamente insistem na “absoluta necessidade de se compreender a futilidade de tudo o que venha a ser um fim por si mesmo” (ver Der Reichsführer SS und Chef der deutschen Polizei [O líder nacional da SS e chefe da polícia alemã], sem data, “exclusivamente para uso interno da polícia”).

34. A própria prática tem sido abundantemente documentada. W. Krivitsky, em seu livro In Stalin’s secret services (Nova York, 1939), remonta essa diretriz diretamente a Stálin.

35. Hitler escreveu em Mein Kampf (2 vols., 1a edição alemã, 1925 e 1927 respectivamente) que era melhor ter um programa antiquado do que permitir uma discussão de programa (livro II, cap. V). Pouco depois, declararia publicamente: “Quando tomarmos o governo, o programa virá por si mesmo. […] O primeiro passo deverá ser uma inconcebível onda de propaganda. Isto é, uma ação política que pouco teria a ver com os outros problemas do momento”. Ver Heiden, op. cit., p. 203.

36. Souvarine sugere (erradamente, em nossa opinião) que já Lênin havia abolido o papel de um programa partidário. “Nada podia mostrar mais claramente que o bolchevismo, como doutrina, não existia a não ser na cabeça de Lênin; todo bolchevista, se fosse deixado sozinho, desviava-se da ‘linha’ de sua facção […] pois o que unia esses homens era o seu temperamento e a autoridade de Lênin, e não as ideias” (op. cit., p. 85).

37. O programa de Gottfried Feder para o partido nazista, com os seus famosos 25 pontos, teve papel mais importante na literatura acerca do movimento do que no próprio movimento.

38. O impacto do lema, formulado pelo próprio Himmler, é difícil de traduzir. Em alemão, Meine Ehre heisst Treue indica uma devoção e uma obediência absolutas, que transcendem o significado da mera disciplina ou fidelidade pessoal. Nazi conspiracy, cujas traduções de documentos alemães e da literatura nazista são uma fonte indispensável de material, mas que, infelizmente, são muito irregulares, traduz a senha da SS como “Minha honra significa fidelidade” (V, 346).

39. Mussolini foi provavelmente o primeiro líder de partido a rejeitar conscientemente um programa formal e substituí-lo apenas pela liderança e pela ação inspiradas. Por trás dessa atitude, estava a noção de que a atualidade do próprio momento era o principal elemento de inspiração, ao qual um programa partidário somente poderia prejudicar. A filosofia do fascismo italiano foi expressa pelo “atualismo” de Gentile e não pelos “mitos” de Sorel. Compare-se também o artigo “Fascism” da Encyclopedia of social sciences. O programa de 1921 foi formulado quando o movimento existia havia apenas dois anos, e continha, na maior parte, a sua filosofia nacionalista.

40. Ernst Bayer, Die SA, Berlim, 1938. Traduzido do Nazi conspiracy, IV, p. 783.

41. Isso ocorre pela primeira vez na Política de Platão, 305, onde a ação é interpretada em termos de archein e prattein — de ordenar o início de um ato e de executar a ordem.

42. Hitlers Tischgespräche, p. 198.

43. Mein Kampf, livro I, cap. XI. Veja-se também, por exemplo, Dieter Schwartz, “Angriffe auf die nationalsozialistische Weltanschauung” [Ataques à ideologia nacional-socialista], em Aus dem Schwarzen Korps, no 2, 1936, que responde à crítica óbvia de que o nacional-socialismo, após haver galgado o poder, continuava a falar de “luta”: “Como ideologia [Weltanschauung], o nacional-socialismo não abandonará a sua luta até que […] o modo de vida de cada indivíduo alemão tenha sido moldado segundo os seus valores fundamentais, postos em prática a cada dia”.

44. Ver a descrição que Hitler faz de suas reações ao eclodir a Primeira Guerra Mundial ( Mein Kampf, livro 1, cap. V).

45. Ver a coleção de artigos sobre a “crônica interna da Primeira Guerra Mundial” por Hanna Hafkesbrink, Unknown Germany, New Haven, 1948, pp. 43, 45 e 81, respectivamente. Trata-se de trabalho de profundo valor, que nos revela os fatores imponderáveis da atmosfera histórica, e que torna deplorável a ausência de estudos semelhantes para a França, Inglaterra e Itália.

46. Ibid., pp. 20-1.

47. Tudo começava com uma sensação de completo alheamento em relação à vida normal. Escreveu Rodolf Binding, por exemplo: “Cada vez mais fazemos parte dos mortos, dos alienados — porque a grandeza do que ocorre nos aliena e separa — e não dos banidos, cuja volta é possível” (ibid., p. 160). Uma curiosa reminiscência da pretensão da elite da geração das trincheiras pode ainda ser encontrada no relato de Himmler sobre a “forma de seleção” para a reorganização da SS: “[…] o processo de seleção mais severo é proporcionado pela guerra, pela luta de vida e morte. Nesse processo, o valor do sangue se manifesta pela realização. […] Mas a guerra é uma circunstância excepcional, e era preciso encontrar uma forma de seleção contínua também em tempos de paz” (op. cit.).

48. Ver, por exemplo, Ernst Jünger, The storm of steel, Londres, 1929.

49. Hafkesbrink, op. cit., p. 156.

50. Heiden, op. cit., mostra a consistência com que Hitler preferia a catástrofe nos primeiros dias do movimento, como receava uma possível recuperação da Alemanha. “Uma meia dúzia de vezes [durante o Ruhrputsch], com palavras diferentes, declarou às suas tropas de choque que a Alemanha estava afundando. ‘Nossa tarefa é assegurar o sucesso do nosso movimento’” — (p. 167) — sucesso que, naquele instante, dependia do colapso da luta no Ruhr.

51. Hafkesbrink, op. cit., pp. 156-7.

52. Esse sentimento já era generalizado durante a guerra, quando Rudolf Binding escreveu: “Esta guerra não deve ser comparada a uma campanha. Pois, numa campanha, a vontade de um líder se confronta com a de outro. Mas nesta guerra ambos os adversários jazem por terra, e somente a Guerra impõe a sua vontade” (ibid., p. 67).

53. Bakúnin, numa carta escrita a 7 de fevereiro de 1870. Ver Max Nomad, Apostles of Revolution, Boston, 1939, p. 180.

54. O “Catecismo da Revolução” não foi escrito nem pelo próprio Bakúnin nem por seu discípulo Nechayev. Quanto à questão da autoria e tradução do texto completo, ver Nomad, op. cit., pp. 227 ss. De qualquer forma, o “sistema de completo descaso por quaisquer dogmas de simples decência e integridade na atitude [do revolucionário] em relação aos outros seres humanos […] ficou na história da revolução russa com o nome de ‘Nechayevshtchina” (ibid., p. 224).

55. Ernest Seillière, Mysticisme et domination: essais de critique impérialiste, 1913, é um dos principais teóricos políticos do imperialismo. Ver também Cargill Sprietsma, We imperialists : notes on Ernest Seillière’s philosophy of imperialism, Nova York, fi93fi; G. Monod em La Revue Historique, janeiro de 1912; e Louis Estève, Une nouvelle psychologie de l’impérialisme: Ernest Seillière, 1913.

56. Na França, desde 1930, o marquês de Sade tornou-se um dos autores favoritos da avant-garde literária. Jean Paulhan, em sua introdução a uma nova edição de Les infortunes de la vertu, de Sade, Paris, 1946, observa: “Quando vejo hoje tantos escritores tentando conscientemente negar o artifício e o jogo literário em benefício do inexprimível [un événement indicible] […], ansiosamente buscando o sublime no infame, o grande no subversivo […], pergunto-me […] se a nossa literatura moderna, naqueles setores que nos parecem mais vitais — ou, pelo menos, mais agressivos — não se voltou inteiramente para o passado, e se a causa disso não foi precisamente Sade”. Ver também Georges Bataille, “Le secret de Sade”, em La critique, tomo III, nos 15-6, 17, 1947.

57. Goebbels, op. cit., p. 139.

58. As teorias da arte de Bauhaus eram características nesse particular. Ver também as observações de Bertolt Brecht sobre o teatro em Gesammelte Werke, Londres, 1938.

59. O seguinte trecho, de autoria de Röhm, é típico do sentimento de quase toda a geração mais jovem, e não apenas de uma elite: “a hipocrisia e o domínio do fariseu são as mais notáveis características da sociedade de hoje. […] Nada podia ser mais falso do que a chamada moral da sociedade. Os moços estão perdidos no mundo filisteu da dupla moral burguesa, e já não sabem como distinguir entre a verdade e o erro” (Die Geschichte eines Hochverräters, pp. 267 e 269). A homossexualidade que reinava nesses círculos era também, pelo menos em parte, uma expressão do seu protesto contra a sociedade.

60. O papel da Weltanschauung na formação do movimento nazista foi acentuado muitas vezes pelo próprio Hitler. É interessante notar que em Mein Kampf ele alega ter compreendido a necessidade de basear um partido numa Weltanschauung em virtude da superioridade dos partidos marxistas (livro II, cap. I: “Weltanschauung e o Partido”).

61. Nicolai Berdyaev, The origin of Russian Communism, 1937, pp. 124-5.

62. Houve, por exemplo, a curiosa intervenção de Welhelm Kube, comissário-geral em Minsk e um dos mais antigos membros do partido, que, em 1941, ou seja, no começo do assassínio em massa, escreveu a seu chefe: “Não há dúvida de que desejo cooperar com a solução da questão judaica, mas aqueles que foram criados em nossa cultura são, afinal de contas, diferentes das hordas bestiais locais. Devemos designar para a tarefa de matá-los os lituanos e letões que são desprezados até mesmo pela população local? Não poderia fazê-lo. Solicito que me sejam dadas instruções claras para tratar do assunto do modo mais humano possível, em benefício do prestígio do nosso Reich e do nosso Partido”. Essa carta foi publicada em Hitler’s professors, de Max Weinreich, Nova York, 1946, pp. 153-4. A intervenção de Kube foi prontamente rejeitada, mas uma tentativa quase idêntica de salvar a vida de judeus dinamarqueses, feita por W. Best, plenipotenciário do Reich na Dinamarca e conhecido nazista, foi melhor sucedida. Ver Nazi conspiracy, V, 2. Da mesma forma, Alfred Rosenberg, que havia pregado a inferioridade dos povos eslavos, obviamente nunca imaginara que as suas teorias seriam um dia usadas para liquidá-los. Encarregado da administração da Ucrânia, escreveu relatórios indignados sobre as condições que lá prevaleciam no outono de 1942, depois de haver tentado obter a intervenção direta do próprio Hitler. Ver Nazi conspiracy, III, pp. 83 ss., e IV, pp. 62. Há, naturalmente, certas exceções a essa regra. O homem que salvou Paris da destruição foi o general Von Choltitz, que, no entanto, ainda “temia ser destituído do comando por não haver cumprido as ordens”, embora soubesse que “a guerra estava perdida havia anos”. Parece duvidoso que ele houvesse tido a coragem de resistir às ordens de “transformar Paris num monte de ruínas” sem o enérgico apoio de um velho nazista, Otto Abetz, embaixador alemão na França, segundo o seu próprio testemunho durante o julgamento de Abetz em Paris.

63. Um inglês, Stephen H. Roberts, The house that Hitler built, Londres, 1939, descreve Himmler como “um homem de fina cortesia e ainda interessado nas coisas simples da vida. Não tem aquela pose dos nazistas que agem como se fossem semideuses. […] Nenhum homem aparenta menos o cargo que exerce do que esse ditador da polícia alemã, e estou convencido de que ninguém que eu tenha encontrado na Alemanha é mais normal […]” (pp. 89-90). Isso nos faz lembrar, de modo curioso, a observação da mãe de Stálin que, segundo a propaganda bolchevista, disse dele: “Um filho exemplar. Quisera que todos fossem como ele” (Souvarine, op. cit., p. 656).

64. Quem fez essa observação foi Robert Ley. Ver Kohn-Bramstedt, op. cit., p. 178.

65. A política bolchevista, que, nesse particular, é surpreendentemente coerente, é bem conhecida e dispensa maiores comentários. Picasso, para citar o exemplo mais famoso, não é apreciado na Rússia, embora tenha se tornado comunista. É possível que a súbita mudança de atitude de André Gide, depois que viu a realidade bolchevique na Rússia soviética (Retour de l’URSS) em 1936, tenha definitivamente convencido Stálin da inutilidade dos artistas criativos, mesmo como simpatizantes. A política nazista diferia das medidas bolchevistas apenas no fato de que não matava os seus talentos. Valeria a pena estudar em detalhe a carreira dos eruditos alemães, comparativamente poucos, que foram além da mera cooperação e ofereceram os seus serviços por serem nazistas convictos. (Weinreich, op. cit., não distingue entre os professores que adotaram o credo nazista e os que deviam sua carreira exclusivamente ao regime, omite as carreiras anteriores dos eruditos que se preocupavam com a situação, e coloca assim, indiscriminadamente, conhecidos homens de grandes méritos na mesma categoria de fanáticos.) Interessantíssimo é o exemplo do jurista Carl Schmitt, cujas engenhosas teorias acerca do fim da democracia e do governo legal ainda constituem leitura impressionante; já em meados da década de 30, foi substituído pelo tipo nazista de teóricos políticos como Hans Frank, que mais tarde foi governador da Polônia ocupada, Gottfried Neesse, e Reinhard Hoehn. O último a cair em desgraça foi Walter Frank, que havia sido antissemita convicto e membro do partido nazista antes da tomada do poder e que, em 1933, foi diretor do recém-fundado Reichsinstitut für Geschichte des Neuen Deutschlands [Instituto do Reich para a História da Nova Alemanha] com o seu famoso Forschungsabteilung Judenfrage [Seção de Pesquisas para a Questão Judaica], e editor da volumosa (nove tomos!) obra Forschungen zur Judenfrage (1937-44). Em começos da década de 40, Frank teve de ceder a sua posição e inAuência a Alfred Rosenberg, cujo Der Mythos des 20. Jahrhunderts [O mito do século XX] certamente não constitui nenhum exemplo de “erudição”. O motivo pelo qual Frank não merecia a confiança dos nazistas era, obviamente, o fato de não ser charlatão.
O que nem a elite nem a ralé que “abraçava” o nacional-socialismo com tanto fervor podia compreender era que “não se pode abraçar esta Ordem […] por acaso. Além e acima do desejo de servir, está a implacável necessidade da seleção, que não reconhece nem circunstâncias atenuantes nem clemência” ( Der Weg der SS [O caminho da SS], emitido pela SS Hauptamt-Schulungsamt, sem data, p. 4). Em outras palavras, no tocante à seleção dos que desejavam unir-se a eles, os nazistas tomavam sua própria decisão, independentemente do “acidente” das opiniões. O mesmo parece aplicar-se à seleção de bolchevistas para a polícia secreta. F. Beck e W. Godin contam em Russian purge and the extraction of confessions, 1951, p. 160, que os membros da NKVD eram arregimentados dentre membros do partido que não tinham tido a menor oportunidade de se oferecerem para essa “carreira”.

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